Asas de Tarawa
1 Capítulo 1
Naquela manhã do dia 20 de novembro de 1943, abordo do USS Intrepid, a brisa tranquila escondia o inferno atrás de si. Os F6F Hellcat aguardavam seus pilotos com as asas ainda dobradas e com os motores radiais desligados. O enorme porta-aviões se aproximava das ilhas Tarawas, que serviam de base de lançamento dos incríveis A6M Zero, Caças nipônicos que mantinham a supremacia japonesa no ar. Mas isso iria terminar. Confiante, Caminhei até o caça e abri a cabine do piloto. Tateei pelo bolso da minha jaqueta de couro e peguei a foto de minha noiva, Margaret. Havia prometido a ela que voltaria para ela e não tinha nem sequer um pensamento que faria o contrário. Depois de dois anos de testes, os Hellcats estavam prontos para derrubar qualquer caça e voltar trazendo seu piloto vivo. Prendi a foto no para brisa do caça. Distraído, não percebi a aproximação de meu superior. O Almirante Holland era conhecido pela casca grossa e por comandar seus subordinados com punho de ferro.
- Smith! Desça já daí e venha aqui agora!
- Sim senhor! – Eu esperava alguma mesquinharia sobre eu estar mexendo no caça antes da hora prevista para a decolagem, ou algo do gênero. Caminhei rapidamente e o saudei com a continência.
-Escute-me, garoto. Quero que você lidere parte dos caças , dando a volta na ilha e pegando esses Cães de olhos puxados do inferno pelas costas e destruindo os aviões deles antes de decolarem, entendeu?
-Mas senhor, eu nunca comandei esquadrão nenhum, eu não poderia...
- Jason Smith. Você foi convocado ao meu navio por ter o perfil que preciso. Então não ouse me negar ordens.
O Almirante me deu as costas e foi embora, berrando ordens enquanto eu tentava raciocinar o que havia acontecido ali. Eu ainda tinha meia hora para desdobrar as asas do caça e taxiar pela curta pista de decolagem. Três pilotos viriam comigo para dar a volta na ilha. Às 10 horas, estávamos todos prontos, abastecidos, carregados e com os motores quentes, prontos para decolar. Fechei a cabine e antes de vestir a luva, toquei a foto de Margaret com a ponta dos dedos, lembrando-me da promessa que havia feito. Dei a partida no motor e comecei a taxiar para o começo da pista, ganhando velocidade até o ponto onde as rodas do trem de pouso saíram do chão e meu Hellcat finalmente ganhou os ares.
Voando a 6 mil pés, o caça novo em folha cortava o ar como uma faca, enquanto uma massa disforme de cor esverdeada brotava no horizonte, as ilhas Tarawas. Iniciando a manobra para a esquerda, fui seguido pelo resto do esquadrão. Não tinha de toda certeza, mas sabia que deveria estar entre Quatro ou Cinco milhas da costa, tornando assim muito difícil a visualização de minha esquadra. Só então notei a massa negra voando ao lado do meu caça. De inicio, pensei ser um zero que havia nos localizado durante uma patrulha. Quem me dera que fosse. Seja lá o que era, estava sorrindo pra mim. E Voava sem precisar de um avião. A criatura possuía um par de asas escuras e sem penas, com uma pele fina, tal como a dos morcegos. A carne era escura e sem pele. O rosto não tinha cabelo ou sobrancelhas e muito menos lábios, tendo um sorriso amarelo e afiado saltando para fora do maxilar. A boca se abriu, revelando uma língua comprida e negra. Percebi que possuía olhos estreitos, com uma retina amarelada e a parte escura na vertical, tal como um gato. Então, a criatura mergulhou e afundou no mar, desaparecendo. Minha mente entorpecida só despertou com um som alto, que fez o Hellcat tremer como uma folha de papel ao vento. Os japoneses nos notaram e disparavam baterias antiaéreas. Embiquei meu caça em direção ao solo, metralhando a torre de canhão e seis caças estacionados ao longo da pista de decolagem. O resto da esquadra fez o mesmo, explodindo vários aviões parados e matando os japoneses que corriam em direção das aeronaves. Logo depois, os bombardeiros B-17 chegaram, derrubando toneladas de bombas sobre a ilha, devastando a base. Pelo rádio, ouvi o Almirante ordenar o cessar fogo, já que os japoneses se esconderam na mata, onde não poderíamos alcançá-los. Ouvi também um dos soldados em terra falando sobre um inimigo que simplesmente caminhou até eles e se rendeu, sem tentar fugir. Aquele dia realmente não tinha sido normal. Talvez a criatura tivesse sido coisa da minha cabeça, por estar sobre pressão de liderar um grupamento inteiro. Retornei em direção ao Intrepid, onde efetuei a aterrissagem sem maiores problemas. O prisioneiro já estava subindo abordo, com os pulsos amarrados. Desci do caça e olhei para minha asa esquerda. O que vi quase me fez vomitar. A fuselagem foi rasgada, e eu podia ver a marca das garras bem onde a criatura estivera. O japonês, que passava perto de mim, disse em inglês, mas com forte sotaque:
- Você viu a criatura, não foi? Ela vai ser o seu fim e de toda essa maldita tripulação.
Um dos marinheiros forçou o cano do revolver nas costas do prisioneiro, fazendo-o andar. Meus olhos ainda estavam sobre as marcas deixadas na asa e meu coração batia acelerado. Nunca acreditei em monstros ou demônios, mas talvez tivesse que rever minhas crenças.
Ergui meus olhos para o prisioneiro, que me observava sobre o ombro. Holland o agarrou pelo colarinho, pronto para ofendê-lo. Contudo, antes mesmo de poder dizer algo, o japonês cospiu no olho do almirante, sendo imediatamente solto por ele. O silencio é total no convés, enquanto Holland limpava o olho com o punho do uniforme. Um dos marinheiros segura o prisioneiro pelos braços atrás do corpo, Impossibilitando qualquer chance de defesa ao homem. Holland olha para ele nos olhos e esboça um sorriso cínico misturado a um olhar sádico. O punho do almirante atingiu a face do prisioneiro como ferro, derrubando sem cerimônias sobre o aço do convés. A ponta de metal do coturno foi a próxima arma usada, atingindo o homem caído diretamente do estômago, fazendo-o se afogar no próprio vomito.
- Levem esse filho da puta pra minha sala agora! Vamos ver se ele vai aprender bons modos.
Dando as costas para os aviões recém-chegados, Holland desaparece do convés por uma porta que dá para a parte inferior do convés, sendo seguido pelo homem quase desmaiado e por dois marinheiros. Com o suor frio escorrendo pela palma de minha mão, toquei o metal frio que constituía a asa do avião. Não podia ver meu reflexo em lugar algum, mas eu sentia que minha expressão era de pavor. Graças ao tremor de minha mão, acabei cortando o dedo em uma das bordas do metal lacerado. A dor me trouxe de volta para a realidade. Baixei meus olhos até as marcas de garras e percebi um ponto negro brotando em meio ao metal retorcido. Puxando com cuidado, ficou claro tratar-se de uma unha, mas que em nada lembrava algo humano. Tinha cerca de quinze centímetros, e era serrilhado para trás, como um ferrão de arraia. Quando pegava a vitima, as pontas voltadas para trás impediam que a presa se soltasse. Pensei angustiado comigo mesmo, se essa não seria a forma que eu fosse morrer. Perto de mim, o resto do esquadrão que havia me acompanhado dava boas risadas de como foi tranquilo metralhar os japoneses em solo. Então, eles não tinham visto nada. Fiquei em silêncio, convencido a não falar nada do que vi.
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