Asas Do Exílio.
1 Capítulo único.
As asas não mais se mexiam; estavam paralisadas pelo frio que fazia naquela madrugada. A princesa exilada abraçava o próprio corpo e deixava suas pegadas fundas na neve fofa. Os pés descalços se moviam com dificuldade, e os lábios (antes rosados) estavam brancos e secos, sendo umedecidos vez ou outra por lágrimas discretas que teimavam em cair. A morte não ousaria se aproximar daquele ser divino, mas a tortura estava sendo imensa, e talvez a boneca de porcelana preferisse dormir eternamente, mas infelizmente não podia... aquele estava sendo seu merecido castigo.
Por mais que andasse, parecia que não saía do lugar; era como se o chão a puxasse para trás para que não se movesse ou chegasse ao seu destino ainda desconhecido. Ao longe, avistou uma árvore... uma única árvore solitária que ainda aguentava o frio extremo, e com a pouca força que tinha, arrastou-se para baixo da planta, apoiando-se, para finalmente descansar e aspirar o ar gelado que fez com que sua cavidade nasal congelasse. Estava apenas esperando o julgamento final que a natureza lhe ofereceria.
Todas as lágrimas do mundo não amenizariam a dor que o ser místico estava sentindo, e ao fim do pranto, levou uma das mãos ao lado direito da asa, limpando-a parcialmente, lembrando-se de quando estava prestes a assumir o trono de rainha de seu reino... de quando era a mais linda fada existente.
Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir um sussurro que chamava seu nome, e por mais paralisada que estivesse ainda conseguia girar a cabeça, não encontrando ninguém nas redondezas.
— Q-quem é? – Respondeu, não obtendo resposta, pensando estar louca logo em seguida, fechando as pálpebras lentamente.
— Hatsune Miku... olhe para cima. – Tornou a chamar-lhe a voz misteriosa.
A fada em decadência olhou para cima, não encontrando nada além de folhas secas e cheias de neve.
— Quem está aí? – Indagou Hatsune, numa altura mais audível e visivelmente temerosa, e como esperado, a voz fez-se presente novamente.
— Olhe bem! Estou por todos os lados. Sou sua consciência, sou aquela que você teme, aquela que você um dia julgou...
Miku estreitou os olhos, reconhecendo a voz e assustando-se. Reuniu uma força que antes não tinha e seu corpo pareceu ferver, conseguindo deixá-la em pé. Queria correr, porém, seu ânimo não era suficiente. Tentou chorar, mas as lágrimas haviam lhe deixado, então, apenas abaixou-se novamente e abraçou seu corpo gélido pela milésima vez, gritando em uma tentativa inútil de defesa, com a pouca voz que lhe restava.
— Vá embora, Luka. VÁ! Você não pertence mais a esse mundo... mandei que te matassem à um mês. ISSO É IMPOSSÍVEL, EU NÃO POSSO TER FICADO LOUCA.
E dessa vez, a elegante dama de cabelos rosados apareceu em sua frente, aproximando-se e tocando seu rosto, recebendo um tapa cruel nas mãos. Megurine Luka era seu nome; costumava ser o braço direito da princesa e assim como muitas outras pessoas, foi jogada na rua quando Hatsune não via mais serventia em seus atos.
— Frio, dor, angústia e medo... está gostando de sentir tudo isso? Está gostando de passar pelo mesmo que me fez passar? – Indagou a enigmática moça, carregando todas as suas palavras de desprezo.
E nesse momento, Miku estremeceu. Antes mesmo de conseguir se virar para encarar a nova companhia, sentiu seus ombros serem tocados dos dois lados, dando mais atenção para seu próprio corpo, vendo imagens que novamente não desejava ver; os dois gêmeos que havia mandado matar por suposta desobediência, Rin e Len.
A fada cruel pendeu o corpo para frente, caindo com o rosto na neve, afim de fugir dos dois outros ‘’fantasmas.’’ Suas unhas cravavam o solo macio e seus olhos estavam cheios de um desespero imenso. Precisava fugir dali, porém, não conseguia, e agora estava diante de três pessoas que deveriam estar mortas.
— Você está pagando por seus pecados... pagando por seus pecados... pagando por seus pecados. – Cantarolavam os gêmeos, com um sadismo sobrenatural.
Pouco a pouco foram surgindo mais pessoas. Agora Rin, Len, Luka, Kaito e Meiko faziam uma roda em torno da princesa banida, que se encolhia cada vez mais, achando as lágrimas que havia perdido. A escuridão se aproximava de seu corpo que podia se comparar a uma pedra de gelo, e a ultima coisa que viu antes de cerrar os olhos e esperar pelo pior, foi a imagem das pessoas que havia matado.. estavam todos rindo e afastando-se, deixando-a morrer friamente.
Não se via mais luz... não se via mais nada, o silêncio era predominante, e quando a consciência estava finalmente sendo perdida, a princesa acordou em sua cama real, tremendo com os olhos marejados. Levantou-se subitamente, sentando-se na beira da luxuosa cama, percebendo que tudo não havia passado de um sonho. Colocou a mão esquerda sobre a testa e verificou suas asas, que continuavam brilhantes e intactas. Não teria como alguém descobrir sobre os assassinatos! A princesa se considerava um gênio nato no quesito crueldade, e quando percebeu o quão ridículo foi seu pesadelo, riu debochadamente de si mesma.
Levantou-se lentamente e caminhou até o banheiro com os olhos semi-abertos pelo sono. Chegando ao cômodo, deu dois passos em falso para trás, derrubando alguns perfumes que estavam em cima da pia... colocou a mão sobre a boca, apavorada, e tratou de ler o que estava escrito no espelho inúmeras vezes, não acreditando na mensagem que dizia: ‘’Os sonhos podem se tornar realidade, princesa.’’
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