Asas De Sangue
4 Capítulo três: Olhos viciantes
Desamarrotei a minha roupa, – que não estava amarrotada- pela nona vez. Ergui os olhos olhando fixamente para a superfície de cristal á minha frente. A minha imagem refletida fez meu estomago embrulhar. Havia prendido meu longo cabelo louro em um rabo-de-cavalo alto, praguejando mentalmente o fato da raiz do meu cabelo ser negra, e assim parecer que meu cabelo era tingido, embora não houvesse química alguma. Vesti uma camisa branca justa, que batia nos quadris, com o desenho de uma boneca de trapos sem um olho, e uma calça jeans quase nova. Maquiei-me suavemente, para tentar escurecer um pouco a minha pele quase transparente, e realçar os meus olhos negros que eu tanto amava. Passei os dedos pela minha cintura fina, me odiando por ser tão magra.
Quando ameacei tirar a blusa, Mabi interveio.
--- Oh não, baby. Se for se vestir novamente nós teremos que comprar um guarda-roupa novo pra você. Já que você já vestiu todas as blusas que tinham no seu. – Mabi ergueu o polegar, apontando para a pilha de roupas jogada no canto do quarto. – Você está tão bonita quanto é. Eu sei que nem todo mundo, tem a graça majestosa de uma deusa.
Revirei os olhos rindo, sabendo que Mabi se referia a ela mesma.
--- Tudo bem, vamos dar o fora. – Assenti pra mim mesma, me encorajando.
--- Essa é a minha garota. – Mabi riu. – Uma Martins, sempre se contenta com o que é, mesmo que pareça uma lagartixa, assim como você.
Mabi gargalhou novamente. Sua risada ecoou pelo quarto. Virei-me para ela, ameaçando jogar-lhe a escova de cabelo, mas na verdade eu sorria. Apanhei a bolsa de pano, em cima da minha cama bagunçada e dei um chute na canela de Mabi, para que ela se levantasse logo da cama.
Minha prima me olhou forçando um olhar furioso. Ri, erguendo a mão para a prima e ajudando ela a se levantar. Mabi se levantou graciosa da cama. Jogou o cabelo louro de lado, fazendo com que ele caísse em uma cascata lisa sobre suas costas, até os quadris. Ela soprou um beijo para o espelho e caminhou elegantemente em um vestido preto justo, que contornava a forma violão de seu corpo, e seu sapato meia-pata de veludo, púrpura.
Uma coisa eu não podia negar: Mabi era incrivelmente linda. Não só com seus inúmeros vestidos fashions e diferentes, ou seus sapatos de salto. Ela era linda, mesmo quando não usava maquiagem, ou quando usava um pijama cor de abobora medonho. Mabi chamava a atenção de todos os tipos de homens, mesmo os mais velhos que você nunca os imaginaria paquerando uma garota de dezessete anos.
Mas Mabi era o tipo de todos eles. A garota engraçada, sexy, inteligente, sarcástica, e claro, dona de uma beleza estonteante. E seus olhos, faziam com que nenhum homem conseguisse fitá-los. Eram de um verde tão intenso, que quando você os olhava você se sentia afundando em um lago verde e sem conseguir se desprender. Seus olhos eram quase viciantes.
Imaginei se a presença de Mabi seria uma ameaça para mim perto de Vicktor. Na primeira impressão, eu me senti mediocremente desprezível comparada à minha prima. Mas segundos depois, eu me lembrei que Mabi era a ex-cunhada dele. Então, não haveria perigo, haveria?Dei de ombros. Se houvesse o que eu tinha a ver com isso? Vicktor não era meu, e eu nem gostava dele.
Meu coração disparado me contradisse. Idiota.
Nós duas caminhamos solenemente até o lado de fora da casa. Recostei-me na pilastra da varanda, fugindo do sol que sempre me deixava vermelha. Desvantagens de ter a pele tão clara como a minha. Mabi me seguiu, provavelmente pensando o mesmo que eu.
--- Você sabe, eu queria ir com vocês. – desculpou-se meu pai, olhando fixamente para a minha mãe e minha avó. – Mais não posso deixar o bar sozinho. E hoje é dia de movimento. Preciso trabalhar.
--- Tudo bem querido, a gente entende. – A voz de Elena soou estrangulada.
Os dois se abraçaram. Caminhei até o meu pai e lhe dei um abraço rápido e um pouco distante. Senti-me um pouco robótica ao fazer isso, mas não estava nem sequer prestando atenção em meus movimentos.
--- Eu amo você, pequenina. – Maurício acariciou os meus cabelos longos e repousou os lábios suavemente em minha testa. Corei. Meu pai não fazia isso com freqüência, o que me deixou um pouco sem graça. Como se estivéssemos nos despedindo, para nunca mais nos vermos. – Não saia de perto da sua mãe. Tente não enlouquecê-la. – Ele sussurrou a última parte em meu ouvido.
Sorri, disfarçando o nervosismo. De repente me vi balanceada por uma maré de baixo astral. Algo estranho envolveu meu peito. Me senti um pouco estranha. Pela primeira vez fiquei com medo de entrar na porta do carro da minha mãe, e pela primeira vez, desejei não ir com elas.
--- Eu também amo você, pai. –Pisquei, em sinal de que faria o que o meu pai havia me pedido. Mas eu sabia que estava mentindo.
Deslizei pra longe do meu pai, deixando que ele conversasse mais com a minha mãe. Apertei firmemente a mão da minha amiga Mabi, que se despedia do seu pai. Walquíria estava ao seu lado. Com shorts jeans desfiados e botas de couro. As duas irmãs sorriram para ambas, e se dispersaram para lados opostos. Vi Walquíria arrastar uma mala azul de rodinhas e uma frasqueira. Decidi perguntar a Mabi aonde Walquíria iria, mas mudei de idéia assim que a minha melhor amiga começou a me falar sobre como a viagem seria tediosa.
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