Asas De Sangue
8 Capítulo sete: Mabi ataca uma bandeja
Eu pensei que me sentiria estranha naquela casa toda aberta. Porém, para a minha surpresa eu estava me sentindo bem à vontade. A casa era incrivelmente linda. Tinha uma vista espetacular de todos os ângulos das paredes de vidro.
Fixei meus dedos, apreciando a vista incrível do sol se pondo atrás das montanhas. Meu olhar se encheu de admiração.
--- Pare de mexer, Mabi. – Murmurou Suzana, atrás de mim.
Virei-me para as duas que estavam sentadas em um sofá com chaise acinzentado. Mabi estava curvada sobre uma mesinha de madeira ao lado do sofá, revirando a gaveta.
Suspirei. Caminhei até ela, e fechei a gaveta com força. O abajur de porcelana tremeu em cima da mesinha.
--- Ai, sua idiota. – Ela protestou sacudindo os dedos. – Você fechou a gaveta no meu dedo.
Dei de ombros.
--- Pare de bancar a criança bagunceira, Mabi.
Ela me lançou um olhar furioso.
--- Só estou tentando matar o tempo.
Havia uns vinte minutos que nós três estávamos presas na saleta de espera do senhor Ocinatas. Ele não nos deixou entrar em seu escritório, porque disse que era conversa para adultos. Levando apenas Elena, Solange e Nívea. Suzana havia tentado protestar que ela tinha dezenove anos e não era mais uma criança. Mas, foi em vão.
Sentei-me em uma poltrona ao lado de Suzana, analisando cada minúsculo detalhe da saleta de espera nada pequena do senhor Ocinatas – ele havia nos pedido para que o chamássemos apenas de Stevão, mas eu ainda não tinha me adaptado. Ela era toda de vidro, assim como a maior parte da casa. Havia detalhe de madeira nos cantos quatro cantos das paredes e nos rodapés. O assoalho também era de madeira envernizada.
Tinha uma estante de madeira recostada na parede do lado oposto á onde eu estava. Ao lado da parede, tinha uma porta de madeira que levava ao escritório silencioso onde minha mãe, minha tia e minha avó, estavam. Dois sofás com chaise acinzentados e macios se encontravam nas extremidades das salas, acompanhados por uma poltrona também acinzentada que eu ocupava. Havia uma mesa de vidro fumê no centro da sala, sobre um tapete felpudo cor de areia.
A casa era espetacular. E eu me sentia estranhamente á vontade naquela mansão gigantesca.
--- Eu gostaria de saber o que está acontecendo lá dentro. – Comentou Suzana, se apoiando nos joelhos para se aproximar de nós. – Uma droga eles não nos deixarem entrar. Eu quero saber como vovó está.
Ela se jogou contra o sofá macio.
--- Eu já falei o que eu acho. – Disse Mabi, olhando para as unhas pintadas de vermelho.
No mesmo instante em que ela se calara, uma mulher adentrou a saleta. Ela era magra e alta. Usava os cabelos pretos, presos em um coque na nuca. Demorei um segundo para perceber que ela era uma serviçal da casa.
Ela colocou uma bandeja de madeira sobre a mesa no centro da sala e se retirou. A bandeja continha: três sanduíches enormes, três traças coloridas de Milk Shake, e uma travessa de porcelana com batatas fritas. Nem preciso dizer que Mabi avançou na bandeja, não é?
--- Fala sério, Mabi. Escutar por trás da porta, não é nada sugestivo. – Suzana revirou os olhos.
Mabi deu de ombros, limpando o molho do sanduíche dos seus lábios.
--- Tem alguma idéia melhor, gênio?
Suzana encolheu os ombros, pegando seu sanduíche. Bebi um pouco do Milk Shake, e depois o devolvi para a bandeja. Eu não estava nem um pouco com fome, nem sede. E não conseguia nem me imaginar comendo um sanduíche tão grande como aquele. Mesmo que Mabi já tivesse acabado com o dela, e estivesse seriamente pensando se atacaria o meu primeiro, ou as batatas fritas.
Ela deu de ombros atacando o meu.
--- Eu queria ver o Vicktor. – sussurrei com a guarda baixa.
Mabi e Suzana pararam no meio de uma mordida. As duas me olharam incrédulas.
--- O que aconteceu com você? A viagem de carro danificou seu cérebro? – Mabi me perguntou com os olhos arregalados. – Onde está a princesa do gelo? Aquela que não contaria á ninguém que é apaixonada pelo ex-namorado da prima, mesmo que fosse condenada a forca.
Lancei um olhar frenético pra ela. Suzana gargalhou.
--- Eu. Não. Sou. Apaixonada. Por. Ele. – cuspi as palavras rispidamente.
Mabi deu de ombros, sorridente.
--- Claro. E o Stevão é san...
Os olhos verdes de Mabi se arregalaram. Sua cor foi desvanecendo do corpo como se ela estivesse morta. Levantei-me imediatamente pra perto dela. Mas, ela sacudiu a cabeça e tudo voltou ao normal.
--- O que aconteceu? – perguntei em choque.
--- Nada. Eu só... – ela deu de ombros. – Esqueça. Foi estranho.
É. Eu percebi.
--- Olha, é sério. – Fitei as duas dentro dos olhos. Meu olhar revezando os rostos. – Eu realmente preciso ver Vicktor.
Mordi o lábio inferior com força. Desde o momento em que eu pisara naquela casa, eu queria vê-lo. O magnetismo daquele lugar era ligado á ele. E isso me lembrava incansavelmente o quanto eu queria e precisava vê-lo.
Eu estava no território dele. Obviamente qualquer coisa ali, me lembraria ele. Sem contar o cheiro. O cheiro dele estava em todos os lugares. Já tinha virado uma tatuagem nas minhas narinas.
--- Porque não vá atrás dele? Não deve ser muito difícil encontrá-lo. Afinal, estamos na casa dele. – Suzana lembrou-me. – Vá, reviste toda a casa. É claro que ele já chegou do serviço. Ele deve estar aí em algum lugar.
Suzana sorriu. Meus olhos encheram-se de lágrimas involuntariamente. Fazia dois meses que eu ansiava por isso. Ansiava poder vê-lo, senti-lo. E agora que eu estava aqui, eu quase não acreditava. Não queria piscar os olhos, e nem queria que ninguém me beliscasse. Tive medo de que ao fazer isso, tudo se evaporasse. E eu me vê-se novamente sozinha, com o coração apertado entre os dedos, desejando ele.
--- Vocês me dão cobertura? – Eu sorri feito uma idiota. Mas não me importei de estar parecendo uma idiota. – Quero dizer, vocês me avisam quando eles acabarem? Ou me avisam se Vicktor aparecer aqui?
Mabi assentiu com a cabeça. Avançando no prato de batatas fritas. Aquilo me assustou. Suzana ainda estava na metade do sanduíche.
--- Claro! você está com o celular não está? – Mabi me perguntou.
Assenti apontando para a bolsa de pano encostada nos meus quadris.
--- Então o que está esperando? Suma das nossas vistas. – Suzana brincou, me encorajando. Coragem era a última coisa que eu precisava. Eu tinha para nós três.
Ri. Lancei-me contra a porta de vidro, – uma das poucas que tinha na casa, geralmente todas eram de madeira – mas antes que eu colocasse o pé pra fora da saleta, Mabi interveio chamando meu nome.
--- Lara?
Voltei na mesma hora, com o coração na mão. Pensei que pudesse ter acontecido algo, e eu não pudesse sair.
--- O quê?
--- Eu amo você.
Sorri. Segurei o rosto da minha prima entre as mãos e lhe dei um beijo na testa.
--- Eu também amo você.
Então eu saí da saleta, me sentindo fantástica
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