Asas De Sangue

7 Capítulo seis: Pulso Ardente


Apertei os meus pés nas sapatilhas plásticas. O jardim da casa dos Ocinatas era tão verde e aparado, que fazia com que meus pés suassem de desejo de senti-lo.

O segurança de pele cor de creme seguia a nossa frente sem pronunciar nenhuma palavra. Ainda estava constrangida, — devido ao escândalo de Mabi – mas estava feliz. Tinha valido a pena. Estávamos dentro do interminável jardim verde dos Ocinatas.

Claro que tudo que Mabi dissera não se passava de calúnias. Porém, felizmente não foram em vão. E pelo fato do Senhor Ocinatas ser um deputado, obviamente ele não iria permitir que alguém ficasse berrando calúnias ao seu respeito no portão da sua casa. Sorri.

De repente eu soube que não queria mais estar na casa dos Ocinatas. Eu precisava estar na casa deles. Porque eu sabia que tudo não se passava de mentiras, em relação à Cadú de Ocinatas. Iríamos bancar as idiotas naquele lugar. Mas, algo me dizia que iria valer à pena. Eu iria ver Vicktor. Isso era suficientemente bom, para que toda a vergonha que passamos e iríamos passar, valesse á pena.

E olhando sobre meu ombro, eu vi que minha avó sorria divertida com a história de Mabi. Até Suzana, parecia mais lívida. E minha mãe tinha recuperado a cor do seu rosto, enquanto conversava com meu pai no telefone. Mabi e tia Nívea riam de mãos dadas, um pouco atrás de mim. Talvez, quando voltássemos para casa iríamos rir de tudo isso.

--- O senhor Ocinatas, está esperando por vocês. – Avisou-nos o segurança. – Aguardem aqui, por favor. Ele irá recebê-las.

O homem voltou pelo caminho que fizemos, sem mais demoras. Pulei no degrau de granito, sentando-me em seguida. Deslizei as sapatilhas plásticas pelos meus pés, segurando-as nos dedos, enquanto sentia a grama verde e macia massagear meus dedos. Enchi minhas narinas do cheiro doce de alfazema que nos cercava. Aquele cheiro me lembrou de Vicktor. O seu perfume era quase igual a esse. Mas era ainda diferente, com um toque mais forte de canela. Um perfume saboroso.

Lembrei-me que apenas uma parede de vidro nos separava. Meu coração disparou.

--- Boa tarde, senhoritas. – Uma voz suave, soou atrás de mim. Levantei-me num salto, me posicionando ao lado de Tia Nívea e Mabi. – Ao quê devo a honra de tão ilustres visitas?

Minha boca se abriu em um O de espanto. O homem parado no vão da porta de madeira era incrivelmente lindo.

Tinha cabelos negros com alguns fios grisalhos, dando um ar mais velho e sedutor á ele. Seus olhos eram de um azul-marinho, idênticos ao de Vicktor. Era alto e forte. Com ombros largos e postura ereta. O seu sorriso de canto de boca, mostrando os dentes brancos e cintilantes, era quase indecente.

Ofeguei em silêncio.

--- E-eu sou Elena Martins. – Minha mãe gaguejou, dando um passo à frente e se apresentando. Notei que assim como eu, ela estava em choque. – Sou a tia de Walquíria Martins, a ex-namorada do seu filho Jato...Hã, Vicktor.

O homem sorriu. Seu sorriso era gentil e encantador. Senti-me um pouco hipnotizada, como se não conseguisse desgrudar os olhos dele.

--- Oh, Walquíria. Uma garota encantadoramente linda e educada. – Ele olhou fixamente para Mabi, analisando-a com os olhos. Depois os voltou para minha mãe. – Creio, que não está tendo nenhum conflito entre meu filho e sua sobrinha. Meu filho é um pouco impulsivo. – Os olhos azuis se direcionaram na minha direção. Corei. Será que Vicktor havia dito ao pai, algo relacionado a mim? E ainda por cima me descrito?Mabi apertou a minha mão, e fiquei grata por entrelaçarmos os dedos naquele momento. – Mas, espero que ele não tenha cometido nenhuma indelicadeza ou grosseria contra a sua família ou a sua sobrinha.

Minha mãe sacudiu a cabeça.

--- Não, não. Ele não fez nada conosco e nem com Walquíria. – O senhor Ocinatas sorriu, assentindo. – Não estamos aqui para fazer reclamações sobre o Vicktor. Viemos tratar de outro assunto, com o senhor.

--- Claro, claro. Fico muito feliz pela visita das senhoritas. Entrem, por favor.

Minha mãe seguiu a frente, ajudando vovó a subir as escadas. Suzana veio até nós, com a expressão mais relaxada. Seguimos Tia Nívea pelos dois degraus de granito, até pararmos no vão da porta.

--- Se eu soubesse que esse cara era tão bonito assim, teria me arrumado melhor. – Mabi sussurrou em meu ouvido. Sorri.

Stevão de Ocinatas segurou minha mão entre as dele assim que entrei na casa. Por um breve segundo pensei ter visto seus lábios se mexendo, como se ele tivesse dizendo algo para si mesmo. Ele curvou-se e beijou as costas da minha mão, com o olhar fixo nos meus olhos.

--- Posso saber qual o seu nome, querida? – A voz dele era suave. Daquelas que fazia cócegas nos nossos ouvidos.

Corei. Me sentindo uma idiota.

--- Lara. Lara Martins. – Sorri para o homem gentil.

Ele me olhou pensativo por um segundo, depois sorriu soltando minha mão. Senti um fisgo estranho no estomago. Comprimi-o, um pouco tonta. Meu pulso ardeu como se estivesse pegando fogo. Foi uma dor forte e cortante. Trinquei a mandíbula prendendo a respiração. A dor cessou de uma vez, estranhamente como começou. Massageei o meu pulso, com os meus dedos.

--- Hmm. Se deu bem. – Mabi sussurrou em meu ouvido.

Revirei os olhos, afagando-lhe a palma da mão. Ela sabia muito bem que o pai não me interessava. Mesmo que ele fosse lindo, gentil e sedutor. Assim que cruzei a porta da casa, meus pensamentos voaram instantaneamente de volta para Vicktor.