Asas De Sangue

5 Capítulo quatro: De volta ao casamento de Gustavo


Mabi se remexeu no banco, inquieta. A garota dormia com os cabelos jogados na face e a cabeça recostada no ombro de Suzana. As olhei com um pouco de inveja. Sentia-me terrivelmente cansada, mas por mais que tentasse não conseguia dormir.

Estava ansiosa. Tremendamente nervosa na verdade. Demorara bastante, mas a ficha tinha finalmente caído pra mim. Eu tinha ficado tão entusiasmada para ver Vicktor, que nem sequer prestara atenção em mais nada além dele. Agora, dentro de um carro a caminho da casa dele, eu desejava poder segurar firmemente o volante e voltar pra casa.

Só agora eu estava em pânico pelo que poderia acontecer. Estávamos mergulhando no desconhecido, nos segurando na beira de um abismo. Nenhuma de nós sabia o que poderia acontecer, que ameaça aquilo seria pra nós. E se o garoto tivesse realmente revivido? Isso tornaria o Senhor Ocinatas algum santo? E se fosse tudo um truque? Se os Ocinatas não se passassem de mentirosos ou até mesmo psicopatas? Nós estaríamos em uma armadilha?

Não. Se eles fossem psicopatas, Vicktor teria me alertado para me manter longe deles, não teria? Mas fazia dois meses que eu não tinha notícias de Vicktor, e ele nunca havia mencionado nenhuma vírgula sobre a família dele. Mas e se tudo isso fosse um plano? Se Vicktor estivesse envolvido nesse truque, e tivesse arquitetado me beijar porque sabia que eu iria atrás dele, e assim a família dele nos atacaria?

Sacudi a cabeça. Isso não fazia sentido. Estava indo longe demais com meus pensamentos estúpidos. É claro que não era nada disso. Walquíria conhecia a família dele, afinal de contas eles já namoraram há algum tempo atrás. Se houvesse algo de errado, ela mesma teria nos alertado.

Mas não podia negar que a história era realmente estranha. Tinha a ligeira impressão que algo não se encaixava. Porém não quis dizer nada, para não assustar a minha mãe mais do que ela já estava assustada, por causa da minha avó.

Revistei o carro, procurando pela minha prima morena e de cabelos pretos. Walquíria não estava no carro. Ela seguia logo atrás, com a minha tia, que a estava dando carona até a sua casa. O carro de Elena já estava cheio, e claro, mesmo que houvesse vaga Walquíria não ousaria dividir um banco comigo.

Não que ela me odiasse, obviamente. Mas Walquíria guardava certo rancor de mim, em relação ao beijo com Vicktor. Já havia jurado que não tinha encostado em Vicktor na noite do baile preto e branco, – o que era mentira, claro – que só estava conversando com ele no jardim. E fora justamente isso que Walquíria tinha visto, quando voltara do banheiro para avisar ao namorado que trocaria o vestido. Um copo de ponche havia derramado em seu vestido branco acidentalmente, e depois de ficar quarenta minutos no banheiro tentado remover a mancha, ela tinha desistido de tentar limpá-lo e decidiu trocar o vestido. Mas quando voltou ao salão, e não encontrou seu namorado, ela o viu minutos depois no jardim do salão, conversando comigo um pouco perto demais.

Isso bastou pra Walquíria. Ela saiu calada, sem que nenhum de nós dois tivesse percebido a sua aproximação ou a sua presença atrás de nós nos fitando, engolindo o ciúme e o ódio de mim. Quando Vicktor foi atrás dela, foi logo barrado pela namorada que decretou o fim do namoro.

Vicktor e eu negávamos fielmente qualquer envolvimento naquela noite. Mesmo assim a irmã adotiva de Mabi, não quisera voltar atrás e terminara o namoro por completo. Hoje ela mora com o noivo em um apartamento – contra o gosto dos pais adotivos, é claro. – mas, mesmo assim ela ainda não é minha fã.

Nós não conversamos. Só o necessário e quando necessário. Claro que todo mundo se pergunta porque, já que nós éramos muito próximas. Mas ninguém nunca disse nada, e nem sequer imagina que seja por causa de Vicktor. As únicas que sabem o verdadeiro motivo são Suzana e Mabi, minhas primas.

--- Você devia dormir. – Minha mãe disse, me assustando. Tinha me esquecido completamente que além de mim, ela também estava acordada. Obviamente, porque estava dirigindo.

Vi que ela me observava pelo retrovisor interno do carro. Dei de ombros. Deixei que minhas pálpebras caíssem, fingindo um sono que não existia.

Recostei-me no banco do carro. Minha mente vagou quase automaticamente pra longe dali. Durante o meu tele-transporte mental, os meus medos, meu pânico, tudo que assombrava minha cabeça segundos antes, se evaporou completamente.

Eu estava prensada contra o muro de pedras. A grama verde do jardim roçava os meus pés, mas eu não me importava com isso. Nada mais parecia importar pra mim naquele momento. Pensei que estivesse voando. E devia estar mesmo.

Vicktor passou os lábios quentes pela minha clavícula. Suas mãos apertavam minha cintura com força, fazendo com que eu me levantasse na ponta dos pés e segurasse com mais força seus cabelos negros sedosos.

Gemi no seu ouvido quando seus lábios tocaram meu pescoço. Ele se remexeu inquietamente, pressionando seu corpo forte contra o meu corpo minúsculo e zonzo. Vicktor mordeu o meu lábio inferior levemente, e depois o lambeu. Eu quase desfaleci contra o muro. Ele roçou os lábios pelo meu queixo e depois o mordeu. Dessa vez eu gemi alto. Joguei minha cabeça pra trás, enquanto ele lambia todo o meu pescoço, traçando círculos com a língua por toda a região. Desci as mãos pela sua coluna unhando com força o seu smoking preto. Quis fervorosamente rasgá-lo ao meio, enquanto ele cravava seus dedos na minha coxa, levantando-a e encaixando-a contra sua cintura. Pensei que se alguém aparecesse facilmente não me veria. Eu deveria ter desaparecido contra o muro e contra aquele garoto musculoso e alto que pressionava o corpo contra o meu. Ignorei-me quase momentaneamente. Eu não queria pensar em nada. Não agora.

Nossos lábios se encontraram de novo. A sensação era tão boa, tão doce. Os lábios dele eram quentes, viciantes. Nossas línguas se roçaram levemente, depois foram se intensificando.

E de repente tudo mudou. Nós não estávamos mais nos beijando. Eu estava na casa do meu primo Gustavo, o irmão da Mabi e da Walquíria, e também o cara que apresentou a irmã adotiva – Walquíria – para o seu amigo Vicktor.

Eu estava novamente no casamento de Gustavo, no dia em que eu reencontrei Vicktor após o nosso beijo. A primeira vez que eu o vi solteiro.

Antes, eu tinha a certeza de que ele iria ao casamento do amigo e futuro cunhado, Gustavo. Mas, depois do rompimento do namoro com Walquíria, — graças a mim – eu deixei de ter essa certeza. Por isso eu estava tão amarga durante a cerimônia na igreja. Nem Mabi, estava me suportando, — e confesso que nem eu mesma estava me agüentando.

Não que eu gostasse do Vicktor, — é claro – mas é que eu queria vê-lo de novo. Saber qual seria a reação dele ao ver a garota que acabou com o seu namoro.

Estava tudo tão real. Cheio de cores, sons e imagens. Como se eu realmente estivesse lá de novo.

Como que para confirmar minha teoria, eu tropecei do lado de fora da igreja, exatamente como havia tropeçado no dia do casamento do meu primo. Então Vicktor apareceu. Ele estava divino, nem com a minha melhor imaginação, eu poderia criá-lo tão perfeitamente na minha cabeça. Talvez exatamente por isso, ele estava paralisado na minha frente com um terno preto de risca de giz com uma gravata borboleta ao redor do pescoço. Vicktor me segurou antes que eu desabasse no chão. Ajudou-me a ficar de pé.

Nos encaramos por alguns segundos. Meu lábio inferior tremeu de susto, e eu rapidamente o mordi. Aqueles olhos azuis escuros pareciam ter o poder de me dividir ao meio. Ele afagou minha bochecha e me deu uma piscadela.

Então, alguém me sacolejou os ombros e eu abri os olhos, aturdida.

---Hey Lara, — protestou Mabi, cruzando os braços sobre o peito – Agradeceria muito se você parasse de suspirar.

Suspirar? Eu? Mais eu não estava fazendo nada. Estava apenas de olhos fechados pensando. Talvez eu tivesse cochilado um pouco...

--- Eu não estava suspirando. – Corei, fazendo uma careta pra ela.

Notei então que Suzana e vovó estavam acordadas. O que significava que eu realmente devia ter acordado todo mundo.

Consegui ficar mais corada do que já estava.

--- Ah não! Você é tão silenciosa quando está dormindo... – Disse Mabi, irônica.

--- Eu não estava dormindo. – Rebati.

Mabi separou os lábios para responder, mas foi interrompida pela minha mãe.

--- Meninas, parem. – Ela gesticulou com o queixo trincado para o pára-brisa. – Chegamos.

O meu coração disparou. Não sabia se queria ou não estar ali. Estava estranhamente com medo. Mabi deslizou a palma da mão suada para dentro da minha. Ela estava hesitante também.

Pelo vidro da janela, olhei para as casas estreitas e unidas da rua de pedra. Todas as casas eram brancas com janelas de madeira em cores aleatórias, como vermelha, azul e verde. Parecia a mesma estrutura, só que multiplicada. Aquilo dava um ar histórico para aquele lugar.

Ainda era dia, e eu fiquei grata por isso.