Asas De Sangue
9 Capítulo oito: Intenções fortes
Porque a gente só descobre que as coisas são difíceis, depois que já estamos fazendo?Eu achei que seria a coisa mais fácil do mundo para mim, achar Vicktor. Entretanto, eu já havia entrado em mais de vinte quartos e nenhum sinal de Vicktor e nem de ninguém. Não havia visto nenhum serviçal por ali também.
Claro que ainda faltavam uns trezentos quartos para que eu pudesse visitar. Os quartos eram gigantescos, todos decorados diferentemente. Havia quartos de todas as cores. E dentre os quartos que eu visitei, havia o quarto de um bebê.
Aquela casa era um imenso labirinto. A cada hora aparecia uns cinco corredores no final de um, e eu ficava perdida em escolher qual deles. Já devia fazer quase uma hora que eu estava trançando perdida entre corredores e salas de todas os jeitos, quando finalmente encontrei alguém.
Era um garoto. Ele era magro e alto. Tinhas cabelos loiros lisos, que lhe caía sobre a testa. Era bonito. Incrivelmente atraente como todos os Ocinatas. Percebi isso quando ele levantou os olhos do violão negro no seu colo e os dirigiu até mim. Seus olhos eram castanhos, e não azuis. E então eu pensei que talvez ele não fosse um Ocinatas.
Corei, entrando na maior sala que eu vira até agora. Ela ficava no centro da casa. Uma espécie de sala principal, cheia de portas. Devia levar a todos os lugares da casa.
--- Olá. – cumprimentei me sentindo uma idiota.
A sala era quase do tamanho da minha casa. Era oval e discreta. Por ser a sala principal, me parecia mais simples do quê as outras salas que eu vira. Havia cada sala extravagante nessa casa. Mas aquela me pareceu um lugar descontraído, com o ambiente lívido e relaxado.
Os móveis eram todos de tabaco preto e branco. A única coisa que não era preta ou branca era o tapete felpudo cor-de-rosa, no centro da sala.
--- Procurando por alguém, senhorita? – ele voltou os olhos para o violão no colo. Fiquei grata. O olhar dele era intimidador.
Dei dois passos tímidos à frente. O garoto começou a tocar uma música leve no violão.
--- Estou procurando pelo Vicktor. – falei por cima do som.
O garoto continuou a música tranquilamente. Pensei que não tivesse ouvido o que eu disse. Separei os lábios para repetir, mas ele me olhou nos olhos de um jeito tão intenso que fiquei muda.
--- Jatobá? – Ele parou o som. Me olhando de um jeito estranho. – Ele não mora mais aqui.
Meu coração começou a derreter. Levei as mãos para trás, esfregando uma na outra. Ambas estavam suadas.
--- Onde ele mora? – minha voz saiu como um sussurro.
Tive a impressão de que uma parte do garoto estava se desfazendo. Como se ele tivesse se materializando e a sua imagem estivesse tremulando para sumir. Caminhei com o cenho franzido olhando para uma parte do rosto dele que bruxelou. Pensei que ele fosse desaparecer na minha frente. Mas, pelo contrário. Ele parou de tremeluzir, voltando ao normal.
Meu coração disparou de medo. Aquele garoto começou a me assustar de verdade.
--- Ele fugiu. Simplesmente juntou suas coisas e desapareceu. – Ele suspirou, sacudindo a cabeça.
Voltou os olhos para o violão, passando os dedos pelas cordas.
--- Como assim simplesmente juntou as coisas e foi embora? Ele não pode ter fugido assim. Ele não disse pra onde ia? O Stevão não tentou impedi-lo? – Percebi que minha voz estava autoritária demais, então me calei.
Eu estava desesperada, isso estava translúcido no meu rosto.Vicktor tinha fugido de casa, e ninguém estava se preocupando com isso. Eu queria ir atrás dele. Buscá-lo aonde quer que fosse. Queria fugir daquela casa, deixando tudo pra trás, e simplesmente ir procurá-lo em qualquer lugar. Debaixo da ponte, em um botequim na esquina, em um hotel no Japão. Não interessava o lugar. Vicktor era a única coisa que interessava.
O garoto se levantou. Jogou o violão no sofá, e caminhou até onde eu estava. Prendi a respiração. Ele era forte e alto. E incrivelmente lindo. Porém isso não estava importando pra mim agora.
Ele tinha uma expressão rude no rosto.
--- É claro que meu pai tentou impedi-lo. Tentou persuadi-lo de várias formas, mas ele não quis saber. Você sabe como o Vicktor é. Ele é impulsivo, teimoso. Só pensa nele mesmo. Estava contestando as ordens do meu pai, e simplesmente se mandou. Não deu notícias, e eu nem quero saber de noticias dele. Tomara que tenha virado cinzas, na primeira esquina que ele foi. – O garoto sorriu, se divertindo com a idéia. – Estranho ele não ter dado noticias dele á você, Lara.
Não sei por que motivo eu não chorei. O choro estava engasgado na minha garganta, pronto pra ser despejado. Eu senti que se começasse a chorar, não pararia mais. Fiquei feliz por não ser impulsiva como Vicktor, senão eu teria quebrado tudo que me aparecesse pela frente e teria desaparecido.
A minha revolta podia esperar. Porque naquele momento eu estava preocupada com outra coisa: Como esse garoto sabia meu nome?
Quando me preparei para perguntar, ele avançou um passo para meu espanto. Sua expressão mudou. Não estava mais rude, era uma expressão diferente.
--- Você é uma garota bonita, Lara. – Ele se aproximou mais perto de mim. Estávamos a cerca de três centímetros. Podia sentir a respiração dele, baforar no meu rosto. – Meu irmão é um imbecil. Não merece que uma garota como você se preocupe com ele. Porque não se junta á nós? Ficaria muito feliz de ter uma garota com intenções tão fortes como você tem, ao meu lado na linha de frente.
Ele levou os dedos na minha bochecha. Colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Numa fração de segundos, ele encostou os lábios nos meus. Para o meu espanto. Assustei-me com o ato inesperado. E pensei na primeira coisa que me veio a cabeça, enquanto meu estomago embrulhava ao ver aquele garoto idiota tentar abrir passagem com a língua por entre meus lábios.
Dei um chute bem forte, no meio das coisas dele. O garoto loiro se curvou gemendo. Dei um chute na canela dele, mas cabei machucando meu pé, dentro da sapatilha plástica. Saí apressada da sala, entrando no primeiro corredor que me apareceu. Deixei o garoto curvado de dor no chão da sala.
Em outra ocasião, eu teria continuado o beijo. O garoto era bonito, e tinha lábios macios e avermelhados. Só que não hoje. Hoje ele havia ofendido Vicktor. E estava falando coisas que eu não entendia. Como ficar ao lado dele na linha de frente, ou ter intenções fortes. Do que ele estava falando?
Me lancei contra uma porta de madeira, nem me preocupando se houvesse alguma pessoa no cômodo. Pra minha sorte não havia ninguém.
Não quis admirar o quarto, como havia feito com todos os outros. Eu só vi uma cama Box no centro do quarto, porque fui logo me sentando nele. Meu pé doía dentro da sapatilha. Ignorei-o
Joguei-me na cama abraçando meus joelhos. Vicktor não estava nesse quarto. E em nenhum outro. Ele estava lá fora. Perdido pelo mundo. Não sabia onde ele estava, nem como ele estava, e muito menos com quem. Meu coração se desfaleceu, ao imaginar que ele pudesse estar precisando de alguém. Eu não queria nem pensar no pior. Não queria pensar na possibilidade dele ter virado cinzas, como o irmão idiota dele dissera.
Eu o desejava. Tive um breve lampejo de entendimento, do que poderia ser intenções fortes.
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