Asas De Sangue
3 Capítulo dois: O ex-namorado de Walquíria
--- Mãe? – A minha voz soou hesitante. Eu mordi o lábio inferior e ergui o pulso, batendo levemente na porta de madeira. – Eu posso falar com você?
Elena soltou um pesado suspiro de dentro do quarto. Não esperei pela permissão da minha mãe, e girei a maçaneta parando no vão da porta com os dentes cravados com força no meu próprio lábio. Minha mãe virou-se para mim não escondendo o nervosismo e a preocupação explicita em seus olhos negros, tão idênticos ao meu.
Atrás de Elena, Suzana enxugou as lágrimas fragilmente, enquanto terminava de dobrar uma blusa de lã e enfiá-la na mochila, com os dedos trêmulos.
--- Sim, querida? – Elena abriu um sorriso fraco nos lábios e se sentou apalpando um lugar ao lado na cama, para que eu me sentasse também.
Dei três passos tímidos á frente e decidi não me sentar. Meus joelhos tremiam, quase ritmados ao som do meu coração batendo irregularmente. Eu pensei que minha mãe e minha prima, pudessem ouvi-lo bater do lado de fora do quarto.
--- Eu quero ir. Com vocês duas. – A minha voz estridente, soou suplicante.
Minha mãe soltou outro pesado suspiro. Lágrimas brilharam em seus olhos ameaçando escorrer pelas suas bochechas.
--- Querida, eu não quero que você vá. – A voz de Elena era um sussurro fraco. Precisei dar mais dois passos a frente para poder ouvir melhor as palavras dela. – A sua avó está muito abalada e só Deus sabe o que pode lhe acontecer assim que ela ver o garoto vivo. Ela está criando esperanças de que o seu filho possa voltar também. – Elena fungou, contendo as lágrimas. – Só que eu não sei a reação dela, quando souber que isso é impossível. Do mesmo modo como eu não acredito que esse garoto possa ter voltado. Como você disse talvez ele nem tenha morrido. Não quero saber o que vai acontecer a ela, quando cair em si e se desiludir. – Ela levou a mão aos cabelos louros segurando-os firmemente no ar, antes de soltá-los e deixar que eles caíssem sobre seu rosto magro. – Eu não quero que você veja isso. E também, iremos voltar tarde. Você tem aula amanhã cedo.
Engoli em seco. Meu coração havia se desfalecido ao pensar na provável desilusão que minha avó teria. Não sabia se a senhora de 72 anos, pudesse agüentar isso. Mas meu coração voltou a bater fortemente no peito, ao me imaginar perto de Vicktor novamente. Era por ele que eu estava ali, não era? Era por ele que eu queria ir, não era?Não que eu fosse apaixonada por ele, – é claro que não. Isso era óbvio – mas fazia muito tempo que eu não o via, e nem tinha notícias dele. Ele era um...amigo meu.
Claro que eu amava a minha avó e nunca, em circunstância alguma, gostaria de vê-la triste ou sofrendo por saber novamente que jamais veria seu filho que se fora pra sempre em um acidente de carro. E mesmo que Suzana sua neta, pudesse tentar persuadi-la a mudar de idéia, e dizer a ela que seu pai nunca mais iria voltar, ela conhecia a avó bem o suficiente para saber que não mudaria de idéia. Afinal de contas, ela queria o filho de volta e queria que Suzana acreditasse que seu pai iria voltar.
Mas eu não conseguiria dormir, pensando que não fora ver Vicktor. Ou pior, que nem ao menos insistira nisso com a minha mãe.
--- Está tudo bem, mãe. Eu não quero que você e Suzana tenham que cuidar de vovó, sozinhas. Quero te ajudar com o que for preciso e bem, quanto à aula amanhã, não se preocupe. Me esforçarei ao máximo possível para ir, e se não conseguir acordar não irei. – Dei um esboço de sorriso, tentando assegurá-la
Suzana me lançou um olhar carrancudo. Ela sabia que eu estava mentindo e que queria ir para ver Vicktor, e não para ajudá-la com a minha avó. Desviei o olhar rapidamente, fitando a mulher loura de olhos negros e pele cor de creme, que estava sentada a cama. Xinguei-me mentalmente por ser tão transparente, e deixar que Suzana percebesse isso.
Quando Elena respirou fundo e franziu os lábios, eu soube que havia ganhado. Esforcei-me ao máximo que pôde para não gritar á plenos pulmões, o mais alto que minha voz atingiria. Ao contrário, eu me mantive ereta, com os dedos para trás, tocando a ponta dos meus cabelos loiros.
--- Mas, e se você ficar sozinha lá? –Minha mãe ainda tentava insistir, mas eu sabia que ela estava frágil demais e acabaria cedendo. Elena não queria admitir mais ansiava por uma ajuda. Sabia que não conseguiria cuidar da minha avó sozinha, embora Suzana estivesse com ela. – Você sabe, às vezes você é meio frágil pra essas coisas, querida. Quando ver a sua avó cair em lágrimas, vai se afastar de nós por algum tempo.
Mordi o lábio inferior com mais força, sabendo que era a mais pura verdade.
--- Não vou. –Respondi rápido demais. Rolei meus olhos para os meus pés descalços no piso branco. – É a casa do Vicktor. Sabe? Ele é meu, hum, amigo.
Senti o olhar furioso de Suzana no meu rosto. Pensei que a minha mãe não cederia agora que eu citara o nome de Vicktor. Claro que ela não sabia que eu, havia me envolvido com ele. Para Elena, Vicktor era apenas o ex-namorado de sua sobrinha Walquíria, que ela vira poucas vezes, no qual ela deixava claro que o detestava.
--- Tudo bem. – Elena suspirou, sacudindo a cabeça. Como se não acreditasse no que estava preste a dizer. Não consegui conter um sorriso. Felizmente minha mãe não vira – Você pode ir. Mais se arrume rápido, por favor. Sairemos daqui a cinco minutos.
Assenti e se joguei-me num abraço apertado, pra cima dela. Minha mãe me deu tapinhas nas costas, e me empurrou gentilmente para que fosse me arrumar. Quando eu ergui os olhos, Suzana estava sacudindo a cabeça, balançando os cabelos castanhos presos em um rabo-de-cavalo alto, em sinal de desaprovação. Franzi os lábios e me virei. No momento em que estava prestes a sair, me lembrei de algo e voltei pra dentro do quarto.
--- Mãe...
--- Ainda está aqui? Qual parte do se “arrume rápido”, você não entendeu? – Elena segurou um sorriso espontâneo.
Enrosquei a ponta dos cabelos, com o dedo.
--- Tudo bem, se Mabi for conosco? – Eu quase implorei, mordendo novamente os lábios. Mabi era a única na qual eu poderia confiar, que me ajudaria a achar Vicktor.
Elena se virou para Suzana, para saber o que ela achava disso. Suzana deu de ombros, como se não se importasse.Minha mãe suspirou.
--- Se Wallace deixar... – Ela deu de ombros também. – E claro, se vocês duas se arrumarem rápido.
Dessa vez eu não consegui esconder o entusiasmo. Saltitei animada como uma criança de sete anos, e saí do quarto o mais rápido que pude para contar a notícia a minha prima favorita.
Mabi iria comigo. Vicktor estaria lá. Ia ser perfeito. Mas quando eu me lembrei da minha avó chorando horas mais cedo, eu corrigi meu pensamento: “Quase perfeito.”
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