As Águas de Veneza
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Raiava uma manhãzinha ensolarada em Veneza. Era o inicio da primavera, a época em que os sentimentos explodiam para fora do peito das pessoas. Os italianos passeavam pelas ruas de mãos dadas, os vendedores ofereciam rosas ás damas bonitas na esperança de ganharem um telefone e os rapazes usavas as suas camisetas mais coloridas . Sim, era impossível não ser contagiado por tal clima.
Ou melhor dizendo, era quase impossível. Do outro lado da cidade, sentado em uma das mesinhas de fora do café do centro, um alemão estava concentrado olhando fixamente para seu notebook. As sobrancelhas franzidas e a boca em uma linha fina acabavam lhe dando uma aura assustadora e ofuscando a beleza dos seus cabelos loiros cuidadosamente penteados para trás e dos seus olhos azuis límpidos.
Ludwig sinceramente não se importava nem um pouco com o clima de romance no ar, vindo de uma família alemã tradicional e criado com disciplina militar pelo seu avô, o seu coração com o tempo se tornou algum tipo de iceberg de lógica. Até mesmo a mais carinhosa das mulheres teria dificuldade para derretê-lo.
No notebook, Ludwig estava acertando os últimos detalhes de um gráfico sobre a situação financeira da empresa de um cliente. E pelo visto ela estava indo mal.
A Alemanha estava investindo em um projeto para tentar expandir suas empresas para o resto do continente europeu. “A união faz a força” dizia o ditado.
Mas o verdadeiro objetivo do projeto podia ser tudo, menos união. As empreses alemãs eram especializadas principalmente em finanças e negociação, elas ganhavam a confiança dos clientes e mandavam uma cópia de seus dados e de seu capital para o governo alemão. Assim o governo conseguia monitorar o país a partir do estado de suas empresas.
Ninguém poderia dizer que era espionagem.
Esse era o motivo pelo qual Ludwig tinha se mudado para a Itália fazia pouco mais de dois meses, e esse era também o motivo pelo qual ele fazia um trabalho demasiado maçante em plana manhã de primavera.
Terminada a leitura minuciosa e apertado o botão de enviar, o alemão sentiu suas costas estralarem quando relaxou na cadeira. Ele só precisaria fazer mais um desses na semana que vem, o que lhe dava algum tempo livre para se acostumar com o novo país.
Tinha que admitir, os italianos tinham um jeito completamente diferente dos alemães de se relacionar com as pessoas. Ludwig sentia que demoraria a pegar o jeito.
Olhando todos aqueles casais passando, não pôde deixar de imaginar-se ali, junto com eles, passeando pelas ruas de braços dados com uma bela regazza. Levando–a á restaurantes e ficando até altas horas da noite comendo pasta e tomando vinho, enquanto conversavam sobre banalidades á luz de velas.
Sim, um pouco de romantismo é preciso. Ainda mais quando se leva um a vida tão sistemática.
Dando um suspiro, Ludwig conferiu o relógio e achou melhor ir para casa, ainda teria de passar na feira e fazer o almoço, mas antes, apenas para aproveitar a ocasião, resolveu pedir mais um café só para arredondar.
Chamou o garçom e pediu um expresso e a conta.
Enquanto saboreava a sua ultima xicara de café, Ludwig encarava o canal que corta a cidade, como sempre lotado de turistas. Com ou sem chuva, eles vinham apreciar a beleza daquele lugar, o que era justificável, visto que Veneza afundava 2mm por ano. Mesmo não sendo um morador á muito tempo, lhe doía o peito pensar que tudo aquilo deixaria de existir algum dia.
Colocou a xicara na mesa e afastou tais pensamentos, Veneza existe agora e é isso o que importa. Mesmo que em um futuro ela realmente afunde por completo, sempre terá alguém que se lembre dela. A história de uma cidade tão rica nunca seria esquecida por completo.
Vindo pelas costas e á passo de gatuno um garçom se aproximava do cliente loiro com a caderneta da conta, percebendo que olhava fixamente o canal, deduziu que estava á contemplar sua beleza. Assim, não pode ficar calado.
– É bonito não?
A voz vinda de trás do alemão o assustou, não pelo tom, mas pelo momento inesperado. Quando se virou encontrou um garçom parado á suas costas. Ele parecia ter uns 30 anos, cabelo ruivo encaracolado e olhos castanhos, com algumas sardas ao lado do nariz. Percebendo a reação do cliente tratou logo de se desculpar.
–Me desculpe senhor, não tive a intensão de assustá-lo. Vim apenas lhe trazer a conta.
E com um sorriso gentil á pousou na mesa. Percebendo a simplicidade do gesto, Ludwig logo pegou o papelzinho e pagou o que devia. Depois, se lembrando da primeira frase do garçom, respondeu devolvendo a caderneta junto com o dinheiro.
– Muito.
– O senhor não é daqui, certo?
– Não. Sou da Alemanha.
O garçom deu um sorriso simples
– Se me permite senhor – Começou o outro em um tom humilde – Existe uma ruelazinha virando nessa primeira aqui – E apontou com a mão, seguindo o rosto do cliente – que se o senhor seguir até o final, vai ter uma boa visão do canal. Como é afastado dos pontos principais, não existem muitos turistas por lá. Acho que alemães não gostam muito de tumulto, certo?
Ludwig deu um risinho da frase do garçom.
–Certo. Obrigado pela dica.
Tentou apertar a mão do garçom em um sinal de agradecimento, o moço estranhou um pouco o jeito tão formal do cliente, mas mesmo assim o fez. Depois se afastou, entrando no estabelecimento. Antes de o homem ir embora por completo, Ludwig levantou um pouco a voz para ser ouvido.
–O troco é todo seu.
O garçom se virou e deu um aceno de mão, como se já fossem velhos conhecidos.
Era tipicamente estranho para Ludwig como os italianos se comunicavam.
Naquele momento em que sacudia a poeira da calça e guardava o notebook na pasta, o seu celular tocou. Era o seu supervisor querendo que Ludwig comparecesse com urgência até a sua sala para discutir alguns pontos do seu relatório e gráfico.
Prevendo uma longa discussão, o loiro apressou o passo e fez o caminho de sempre até a sua casa para pegar um guarda-chuva e depois até o escritório, ele tinha certeza que só sairia de lá á noite. E apesar do sol, o clima italiano podia ser muito traiçoeiro para aqueles que não o conhecem.
Os sapatos das pessoas batiam nas pedras das calçadas enquanto Ludwig se esquecia do conselho do garçom.
XXXXX
Longe dali, em uma casinha amarela espremida, dormia sossegadamente um italiano.
O quarto deste se localizava no segundo andar daquela estranha construção. Além da cor amarela desbotada, (que em algum tempo longínquo já foi um amarelo vivo), o prédio possuía dois andares com sacadas de metal no segundo piso e janelinhas de madeira no primeiro. Havia uma escada pelo lado de fora grudada na parede, esta dava acesso direto ao quarto do italiano dorminhoco e no de seu irmão mais velho, Lovino. E outra pelo lado de dentro, que só era usada em caso de neve, chuva ou vento extremamente forte, visto que a escada de fora não possuía corrimão consideravelmente seguro. Tudo o que separava os moradores de uma queda feia era um apinhado de arame torto e enferrujado.
Havia também o portão de metal ricamente decorado e um belo jardim, cuidado com esmero e belamente colorido, que contrastava com o estado deplorável da casa. Duas bicicletas ficavam estacionadas ao lado da porta de entrada, cobertas pela sombra da escada, uma vermelha e a outra verde com sininho. Na parte dos fundos tinha um varal para pendurar roupas e um tanque para lava-las, juntamente com uma pequena lavanderia em um espaço coberto.
Mas voltando ao italiano, seu nome era Feliciano Vargas e hoje ele estava de folga. Ele trabalha no café do centro como garçom de segunda á sábado, mas como na semana passada acabara trabalhando no domingo também para cobrir um amigo, resolveu folgar hoje e cuidar do jardim.
Feliciano tinha muitos hobbies, dentre eles se destacavam, cozinhar, cuidar de gatos, cuidar do jardim, e acima de todos, pintar. Feliciano adorava pintar, por causa disso era um ótimo pintor, seu avô dizia que podia viver só com a pintura se quisesse, mas o neto gostava do trabalho no café. Ganhava pouco, mas podia ficar perto das pessoas, e conhecer os novos ares de Veneza.
Ele também adorava sua cidade, isso mesmo, SUA. Ele nascera e crescera uma boa parte da vida em Veneza, por isso, gostava de considera-la como parte de si. Fazia questão de sair mais cedo de casa todas as manhãs antes do trabalho para perambular sem rumo e fazer amizades novas. Gostava de ver o comércio abrindo, de encontrar os garotos indo para escola, de ajudar os turistas que já cedo já se armavam de suas câmeras á procura de uma boa recordação, gostava dos velhinhos e dos cachorros que encontrava pela rua. Depois de cumprimentar os conhecidos, se sentava na frente do canal para colocar os pés na água enquanto via o sol nascer.
Mas isso era de segunda á sábado, porque os seus domingos eram bem diferentes. De domingo ele acordava tarde, depois ia á feira e em seguida fazia pasta para o almoço com o seu irmão.
Lovino Vargas estudava em Roma, por isso, só aparecia em casa para almoçar aos domingos, se bem que não era exatamente um almoço já que sempre chegava depois das duas da tarde. Mesmo assim, adorava empurrar a porta da frente e sentir o cheiro de molho de tomate recém-preparado.
Hoje era segunda e Feliciano resolveu dormir com se fosse domingo, depois iria á feira comprar o almoço pronto, sabia que se resolvesse cozinhar, não poderia sair para distribuir rosas á tarde. Com seu charme, sempre que fazia isso acabava ganhando o telefone de uma pessoa diferente, ás vezes eram damas, ás vezes cavalheiros. Mas só depois do encontro, Feliciano percebia que ela não era quem ele procurava.
Todas aquelas pessoas das rosas se pareciam muito iguais, em todas Feliciano sentia que faltava algo. Um brilho, uma vitalidade, uma coisa especial, sabe? Era isso o que ele procurava, e até agora nada.
Mas mesmo assim não desistia. Hoje depois de cuidar do jardim iria distribuir mais rosas, iria sair com mais companhias, iria procurar em todas elas aquela coisa especial, e esperava poder achar em seus olhos algum brilho diferente.
Nos sonhos de Feliciano naquela manhã, as águas de Veneza se transformavam em pérolas azuis que aos poucos desapareciam da sua memória.
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