As Águas de Veneza
32 Capitulo 32
Notas iniciais
Era sábado de manhã, e mal o sol havia raiado Feliciano já estava de pé. Aquele era um dia muito especial, o dia em que Ludwig viria e traria Gilbert e Roderich para jantar no seu “banquete de redenção”.
Ele ainda se sentia culpado pelo que acontecera na casa do alemão, pois afinal, ELE é quem havia surtado e começado a discussão toda, e assim se sentia no dever de compensar de alguma forma o ocorrido.
Assim, eram 7hrs em ponto, e o italiano estava se dirigindo ao mercado do Rialto para comprar ingredientes frescos para a refeição. Ah... Aquele mercado lhe trazia tantas lembranças...
Quanto mais ele andava, mais as coisas ficavam nostálgicas. Podia se lembrar como se fosse ontem, de seus pés batendo nos ladrilhos, das senhoras rindo, dos homens gritando para atrair clientes, e ele bem ali na barraca de peixe, seus olhos se cruzaram novamente depois de tanto tempo...
Toda a emoção daquelas orbes, a cor das águas do canal... Azul cristalino...
Feliciano suspirou.
E agora eles estavam juntos novamente, como uma brincadeira do destino....
Sua cabeça estava mais aberta, seu peito mais leve e parecia que nada, absolutamente nada, podia estragar esse dia.
O italiano balançava a sacola de pano confiante, e ia de barraca em barraca cumprimentando os feirantes e jogando graça pras moças, que respondiam com seus costumeiros risinhos.
Ele tinha certeza do que iria cozinhar.
XXX
Não eram nem 7 horas da manhã, quando Lovino saiu de Roma rumo á Veneza. Antonio estava consigo, pois por mais que o italiano insistisse que não seria necessário viajarem juntos visto que ele já estava em Veneza, o espanhol brotou na noite anterior na porta de sua casa com um buquet de rosas, e uma vontade louca de sexo.
Lovino não teve como recusar.
Essa era uma das coisas que aprendera com o convívio quase diário com o espanhol, ele tinha praticamente duas personalidades.
Uma fofa e bobona que ele exibia normalmente, e uma sedutora e provocativa, que ele usava quando estavam na cama.
Secretamente, Lovino ainda estava em dúvida de qual gostava mais.
E por falar em espanhol, este estava neste momento encostado em Lovino dentro da cabine de trem dormindo á sono solto. Ao que parecia ele não estava acostumado a acordar cedo de final de semana, por mais que fosse barqueiro e acordasse realmente muito cedo no resto dos outros dias.
O italiano achava que aquilo era só desculpa para poder dormir encostado a si, mas francamente, sendo desculpa ou não, o outro não se importava de ceder o ombro de vem em quando... não sempre!
Assim, o rabugento italiano apenas encostou no vidro do vagão de trem e dormiu também.
XXX
Já na casa de Ludwig, tudo o que se ouvia era silêncio.
Ou melhor, não era só silêncio, era uma mistura de silêncio com o ronco de Gilbert, e resmungos de Roderich que insistia em cutuca-lo e mandar que se calasse.
Bom, não funcionava muito bem.
E no final, tudo o que o austríaco fazia era virar para o outro lado e voltar a dormir.
XXX
Assim que Feliciano voltou para casa carregado de sacolas, jánão sabia o que usaria no jantar, pra falar a verdade, mudara tanto de opinião durante seu passeio pelo mercado, que acabou ficando nervoso quando pensava sobre o que deveria fazer para comerem. Precisava ser uma coisa simples, fácil e deliciosa.
Ele até considerara fazer massa, mas aquela vez na casa de Ludwig já haviam comido, ou melhor, tentado comer, e ele queria servir algo diferente, mas simplesmente não fazia a menor ideia.
Como não conseguia pensar em comida, o italiano resolveu pensar na casa. Tinha que arruma-la antes dos convivas chegarem, mas tão logo pegou a vassoura para começar a varrer, Feliciano ouviu o barulho da campainha, e antes mesmo de abrir a porta, já tinha certeza sobre quem estava do outro lado.
XXX
–Lovino, espere, ele já vai atender.... – Dizia um espanhol levando duas malas
O italiano e o espanhol haviam acabado de chegar á cidade, e assim que desceram da barca, o humor de Lovino foi deixando de ser “sonolento” pra voltar a ser “explosivo”, e quanto mais adentrava na cidade, mais ele se curvava e resmungava.
Antonio por sua vez adorava a brisa marítima, e quando mais perto de Veneza ele chegava, mais gostava do clima.
Ambos agiam desse jeito porque estavam igualmente nervosos, mas cada um tinha o seu jeito de demonstrar, enquanto Lovino ficava mais irritadiço, Antonio ia ficando mais falante...
E assim eles caminhavam pelas ruas até a casa de Feli, onde se encontravam no momento.
–Eu não vou esperar coisa nenhuma! – Gritava o outro — Essa casa tambem é min-
Bem na hora em que ia dizer isso, Feliciano abriu a porta com um enorme sorriso no rosto e um grande suspiro, como uma mãe que abre os braços para um filho que não vê há muito tempo.
Lovino conhecia aquela expressão e deu dois passos para trás.
–Fratello!! – O mais novo estava verdadeiramente feliz de ter seu irmão por perto, e ainda mais feliz por não ter que limpar a casa sozinho. – Eu estava te esperando com tanta ansiedade... Você não tem ideia... ve~~~
Lovino cortou logo o clima
–Tá, o que você quer?
–Me ajude a limpar tudo isso, por favor, por favor, por favor~~~- Feliciano dizia tudo com um biquinho enquanto dava pequenos saltinhos na frente do irmão.
Lovino rolou os olhos e bufou, mas antes que respondesse alguma coisa, uma pessoa entrou na sua frente
–OLÁ! Me chamo Antonio Fernandez Carriedo! Prazer em conhece-lo.
Lovino franziu o senho que a interrupção imprevista, Feliciano se assustou um pouco, mas logo recuperou a compostura.
–AHHH! Você é o famoso Antonio! Eu sou Feliciano Vargas, irmão do Lovino.
Foi então que Antonio percebeu uma coisa importante, e soltando a mão do Vargas mais novo, deu alguns passos para traz, colocou as malas no chão e enquadrou ambos os italianos com as mãos, como se fosse diretor de cinema.
–Mas vocês são... vocês são... IDÊNTICOS! – Dizia ele radiante – Vocês são gêmeos???
Ambos rolaram os olhos.
–Não bobão – Respondeu Lovino emburrado novamente
–Lovino é um ano mais velho que eu, ve~~ – Disse Feliciano sorrindo meio constrangido.
– QUE LINDO! QUE LINDO!
O espanhol estava realmente exaltado com a sua nova descoberta, mas de alguma forma, os italianos conseguiram empurra-lo para dentro de casa, e faze-lo ajudar com a limpeza.
XXX
Cerca de meia hora depois todos os três já haviam acabado com a faxina da casa, eles estavam reunidos na cozinha tentando discutir sobre que tipo de prato serviriam.
Lovino estava apoiado na pia bebendo um copo d’agua, enquanto que Feliciano e Antonio conversavam animadamente sobre o tipo de comida... Não preciso dizer que o italiano não estava gostando dessa proximidade.
–E se fizéssemos alguma pasta? – Sugeria Antonio
–Podemos até fazer, mas eu queria alguma coisa diferente... Algo que eles nunca comeram – Dizia o italiano, era muito raro que ele recusasse pasta.
–Entendo...
Lovino deu uma tossida no fundo e se apoiou na mesa
–Vocês já comeram Pasta com molho de nozes?
–Mas... – Começou Feli
–Mas nada! Vamos comer pasta com nozes, é muito bom! Comi em Roma uma vez em um restaurante e aprendi a fazer. — Respondeu Lovino enchendo o peito
Antonio levantou as sobrancelhas e sorriu.
–Bom, se você quer fazer... Eu posso ajudar!
–Você já ia mesmo bastardo! Eu não sou empregada de ninguem aqui! Podem me ajudar a cozinhar.
Os outros dois levantaram as sobrancelhas e concordaram.
Lovino estava mais contente agora, havia conseguido impressionar tanto seu irmão quanto Antonio. O prato era bem simples na verdade, mas era bastante gostoso, e ele sempre comia quando tinha dinheiro.,(o que não era sempre). Assim, ele arregaçou as mangas da camiseta e se pôs a cozinhar.
XXX
O tempo passou, e o macarrão ficou pronto.
Claro que não era simplesmente um macarrão normal, era um macarrão Vargas, como aquele que os irmãos comiam quando moravam com o avô em Roma.
Ele era feito inteiramente em casa, desde a massa, até o molho e os acompanhamentos. Claro que para fazer tudo isso dava trabalho, e como começara a cozinhar meio dia, eram cerca de 4 da tarde a massa já estava no ponto para o cozimento.
Era preciso todo esse tempo para que a massa pudesse descansar e pegar forma, e além disso, os três passavam mais tempo guerreando com farinha do que fazendo qualquer outra coisa.
No fim, foi preciso passar três panos na cozinha para tirar todos os resquícios da brincadeira.
Eram quase seis da tarde quando Lovino começou a fazer o molho, e as sete, estava tudo pronto para o jantar.
XXX
Mal bateu sete e meia no relógio e a campainha foi novamente pressionada. Feliciano estava no banho, os outros dois haviam acabado de sair, e neste momento estavam arrumando a grande mesa de madeira escura para receber os convidados.
Com Antonio quase acabando de colocar os copos no seu devido lugar, Lovino se prontificou até a porta fazendo o possível para parecer amigável e gentil, coisa que nunca fora bem o seu forte. Então depois de uma serie e sorrisos amigáveis frustrados, o italiano simplesmente abriu a porta com o seu “bom humor” normal.
Qual foi a sua surpresa quando viu quem estava do outro lado.
XXX
Ludwig tentava sair de casa pela quinta vez, mas sempre que dava dois passos em direção da porta, sua atenção era chamada por Gilbert ou Roderich porque haviam esquecido alguma coisa dentro de casa.
Ou a chave, ou a carteira, ou porque o Gilbert queria levar o Gilbird, ou porque Roderich havia esquecido de levar a sobremesa (coisa que ele mesmo insistiu em fazer), ou por mais milhares de motivos...
O alemão bufava na porta.
–Podemos ir agora?
–Agora podemos! – Dizia Gilbert após ver Roderich voltar com uma bandejinha na mão. – Pegou tudo, jovem mestre?
–Peguei! Vamos.
Cerca de dez minutos depois estavam os três na frente da casa de Feliciano, Ludwig ainda se lembrava bem do caminho apesar de ter passado por ele apenas uma única vez.
O alemão tocou a campainha e aguardou um tanto nervoso. Estava incerto sobre o que poderia acontecer nesse jatar, já que da ultima vez que juntara a família Vargas com a Beilshmidt, acabara descobrindo que metade da sua infância fora uma mentira, e que o amor da sua vida era na verdade o seu novo melhor amigo...
O que poderia vir dessa vez?
Mas por outro lado, agora ele se via um outro homem. Se sentia mais maduro, mas sólido, mas completo e mais preparado para enfrentar o que quer que acontecesse.
Menos aquilo.
Ludwig sabia que Feliciano tinha um irmão, em uma de suas muitas conversas com o italiano, ele havia mencionado a existência deste uma ou duas vezes. Mas... precisava ser AQUELE homem?
Logo que a porta foi aberta, o alemão franziu o cenho e fechou a cara. O italiano do outro lado deu um semi passo para trás e lançou-o um olhar que misturava confusão, raiva e descrença.
A seguir, os dois gritaram ao mesmo tempo.
–VOCÊÊÊ?!?
XXX
Lovino não acreditava no que seus olhos estavam vendo.
“O que este batatão está fazendo aqui?”
De todos os homens do mundo, aquele não poderia ser o convidado de seu irmão, sem chance!
Mesmo que só tivessem se encontrado uma vez, assim como os “amores á primeira vista”, existem também as “antipatia á primeira vista” e no caso dos dois, aquele foi claramente um caso de antipatia. Não existia uma motivo exato, algo que pudesse ser justificado, a coisa era muito mais intuitiva, Lovino não gostava de Ludwig, e Ludwig não gostava de Lovino. Simples assim.
O que eles não imaginavam é que o destino cruzaria o caminho dos dois mais uma vez.
Dos olhares dos dois saim faíscas e pegavam fogo, Lovino levantara os calcanhares levemente para poder igualar as alturas, e enquanto Gilbert e Roderich discutiam quem deveria fechar o carro e quem deveria pegar as coisas, o alemão e o italiano passaram um longo minuto de silêncio apenas se medindo.
Ele só foi quebrado quando uma voz doce veio do andar de cima da casa
– Fratello?? Quem é? É o Lud? – Gritava Feliciano do banheiro – Diga que vou descer em um minuto!
A cabeça de Lovino deu dois cliques
“LUD? Essa criatura tem nome?”
E mais dois cliques
“...Não pode ser...”
– Escuta aqui batatão – Disse apontando o dedo diretamente para ao nariz do outro – Eu não sei que tipo de coisa batatal veio fazer aqui, mas está no lugar errado, pega suas coisas e se manda.
Ludwig por sua vez fechou ainda mais o rosto (se é que era possível) e lançou-o um olhar gélido.
–Essa é a casa de Feliciano Vargas, certo? – Não esperou por resposta – Eu fui convidado para um jantar por ELE... — E usando um tom de escárnio- E quem seria o SENHOR?
– O IRMÃO dele. — Respondeu no mesmo tom o outro.
Lovino queria sair dali, toda vez que o alemão usava aquele olhar conseguia fazer o sangue dos seus inimigos gelarem, mas como Lovino tinha o sangue quente por natureza, isso não foi o suficiente para que gelasse completamente, só para que suas pernas tremessem um pouco. Mas mesmo assim, ele sustentou o olhar com a cara mais “bad boy” que conseguiu fazer e recusou-se a sair do lugar.
E então alguém interferiu novamente.
–Lovi? Está tudo bem?
Antonio apareceu de repente do lado do italiano e apoiou-se em seus ombros, fazendo assim com que abaixa-se os calcanhares. Percebendo que eram os convidados, Antonio como um bom anfitrião sorriu e estendeu a mão
–Olá! Eu sou Antonio Fernandez Carriedo, pode ir entrando, quer ajuda com alguma coisa?
Lovino estralou a língua e entrou pra dentro de casa, e logo atrás dele Ludwig também entrou.
–Acho que meu irmão trouxe algumas coisas, ele está no carro....
–Eu vou lá! — Disse sem esperar que o outro terminasse a frase.
Mas, assim que o alemão saiu do caminho e desbloqueou a visão de Antonio, ele pôde acreditar no que estava vendo.
Lá, a poucos passos de si, mexendo no porta malas, estava uma pessoa que ele não via desde a época de colégio.
–GIL???
O albino do outro lado levantou a cabeça e seus olhos brilharam.
– TONIO???
A cena a seguir foi quase como aquelas de filmes, eles correram para os braços um do outro em câmera lenta, do chão brotaram flores multicoloridas, e com uma musica lenta começou a ser tocada no fundo.
–Tonio...
–Gil....
E se aproximavam mais, lágrimas brilhantes brotavam de seus olhos.
–Tonio...
–Gil...
Eles abriam os braços quase que ao mesmo tempo, os anjos cantavam ao fundo
–Tonio...
–Gil...
E então eles finalmente se abraçaram, enterraram as cabeças um no pescoço do outro.
–Já faz tanto tempo Tonio... – Disse Gilbert secando uma lágrima solitária
–Quantos anos... – Disse Antonio ainda descrente.
Neste momento as flores sumiram, a musica parou, o tempo voltou a velocidade normal, e tudo o que se conseguia ver era a cara de descrença de Roderich que continuava no mesmo lugar, parado segurando a porta do porta malas do carro, e piscando freneticamente sem entender o que tinha acabado de acontecer.
E então, vindo da porta seguido por um emburrado Lovino, e um sério Ludwig apareceu Feliciano todo sorridente, que pasmou ao ver Antonio e Gilbert tão próximos e abraçados.
Ele olhou como que se pedisse ajuda á Roderich que balançou a cabeça em uma negativa. Algo como “É sempre assim”.
O italiano então coçou um pouco a cabeça
–Ve~~ Acho que eu perdi alguma coisa...
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