As Águas de Veneza
21 Capitulo 21
Notas iniciais
Roderich ainda permanecia sentado estático no chão da cozinha.
–Não é possivel isso! Como sabe que é ele?
Gilbert continuava agachado bem próximo ao austríaco, os dois ainda se encaravam fixamente.
–Ele disse. O nome dele é Feliciano Vargas!
–Inacreditável! E...
Roderich ia abrir a boca para falar mais alguma coisa quando foi interrompido por uma voz imponente vinda da porta da cozinha.
–O que vocês estão... oh!
Ludwig estava parado no batente da porta, e ao que parecia estava bastante surpreso por encontrar o casal tão próximo um do outro no chão da cozinha, e mais ainda por encontrar Roderich sentado no chão. (Ele NUNCA! sentava no chão!)
Ao perceber a presença do alemão, Roderich mais do que depressa se levantou e colocou-se de cócoras á beira do forno, enquanto que Gilbert ficava de pé, e ao mesmo tempo em que tirava o pó (inexistente) da calça, o albino se virava para encarar o irmão.
–Ah... Nada! Estávamos checando os bolinhos...
–Petit gateau – Corrigiu o austríaco
–...petit gateau – e rolou os olhos – quando o jovem mestre escorregou e caiu no chão.
–Ah... –Exclamou Ludwig – Bom, eu vim para apressa-los, Feliciano realmente quer conhece-los. — E olhou para trás como se checasse alguma coisa.
–Sim – Disse o austríaco se levantando e arrumando os óculos — Diga que já estamos indo.
–Certo. – E Ludwig foi embora os deixando novamente sozinhos na cozinha.
XXX
“Eles estão estranhos...”
Constatou Ludwig enquanto voltava para a sala de jantar. Ao passar pelo pórtico, o alemão encontrou Feliciano realmente entretido com a panela de macarrão. O italiano havia aberto a tampa da panela e olhava fixamente seu conteúdo com que hipnotizado, por um momento Ludwig pensou que ele fosse ser engolido para dentro desta.
–Feliciano?
O italiano se assustou e em menos de dois segundos fechou a tampa da panela e encarou o alemão um pouco envergonhado
–O-oi?
–O que está fazendo?
–Ah... Nada!
“é impressionante como nunca estão fazendo nada” –Pensou Ludwig ao se lembrar da cena com seu irmão poucos minutos atrás.
–Se estiver com fome, pode se servir...
–Não – Feliciano balançava as mãos na frente do corpo ao mesmo tempo em que negava com a cabeça- Eu vou espera-los... É que o cheiro...
Ludwig sorriu um pouco e se sentou em uma das pontas da mesa de quatro cadeiras, Feliciano sentou-se ao seu lado.
–Pasta é minha comida favorita!
–Ah é? – Ludwig fez uma anotação mental sobre o fato.
De repente e sem ninguém esperar, uma voz rouca e bastante alta veio de trás deles.
–Não precisam chorar! O incrível eu voltou! Kesesesesesese.
Gilbert apareceu com um enorme sorriso no rosto e logo atrás dele Roderich vinha com seu olhar reprovativo. O albino imediatamente se sentou e começou a puxar a panela de macarrão para si, enquanto isso Roderich se aproximava de Feliciano e lhe estendia a mão.
–Roderich, é um prazer conhece-lo.
–Feliciano, e o prazer é todo meu. – Eles apertaram as mãos como se estivessem em uma entrevista de trabalho. Para o italiano aquilo era demasiado formal, mas para o austríaco era “o suficiente”.
“Não posso deixar transparecer”
O italiano sorriu suave e o austríaco apenas se sentou ao lado do namorado.
Reencontrar Feliciano depois de todo o tempo em que passaram juntos no orfanato deixou Roderich um pouco comovido.
“Ele cresceu tanto, está irreconhecível...”
Feliciano sorria enquanto disputava com Gilbert a posse do macarrão, e ao mesmo tempo em que mantinha uma expressão amena, puxava suavemente embora com firmeza, a panela para si. Roderich continuava observando a cena ao mesmo tempo em que esperava para se servir.
“Ah Feli... Se eu pudesse te contar a verdade...”
Deprimia o austríaco manter o segredo, mas não tanto como no dia em que lhe foi incumbida a missão de não contá-lo.
XXX
Naquela manhã Roderich caminhava pelos corredores do orfanato na direção da sala de música, estava bastante ameno o tempo e em breve sua aula diária de piano começaria. Quando de repente ao virar uma ala, trombou com Feliciano que corria e chorava ao mesmo tempo, com o baque o italiano caiu sentado no chão enquanto falava entre soluços.
–Ele foi embora... snif... Rod diga que ele não se foi...
“oh, então já lhe contaram...”
Voltando um pouco no tempo, na madrugada anterior, Gilbert conseguiu telefonar para Roderich do hospital onde Ludwig estava internado, por telefone Gilbert informou que Ludwig passava bem, ou melhor, que estava FISICAMENTE bem, pois sua memória havia sido afetada e infelizmente toda a sua infância, inclusive o tempo em que passara no orfanato havia sido reduzido á pequenos flashes desconexos.
Roderich ficou preocupado, aquela era a primeira vez que passava por algo assim, nunca alguém tão próximo perdera a memória tão repentinamente.
“O que faremos?”.
Gilbert então lhe contou da morte dos pais, de Ludwig ter assistido, do trauma, do orfanato, da insegurança, de tudo... E depois lhe contou do plano.
“Eu e vovô vamos deixar assim, não vamos lhe dizer nada... O médico disse que se lhe contarmos, as memórias voltarão embaralhadas e seria pior para ele... Roderich por favor, também não lhe diga coisa alguma.”
O austríaco apesar de penalizado entendeu a importância de tudo aquilo e concordou apesar de estar dividido.
“Gilbert, mas e as outras crianças?”
“Ludwig e eu vamos nos mudar para a Alemanha, vamos sumir... ninguém vai se lembrar de nós... – E então pensou um pouco — O Ludwig tinha alguém próximo?
“Havia um garoto...”
“Há alguma chance dele nos procurar?”
“Talvez”
“Então lhe diga que fomos embora, que fomos para outro continente muito, muito distante! O Ludwig precisa se afastar de todos até recuperar a memória.”
A linha ficou em silêncio por alguns minutos, o único barulho existente era a da respiração dos dois.
“Roderich... – Gilbert voltou a falar — Eu te amo”
“E-e-eu também”
E muito vermelho Roderich desligou o telefone.
O austríaco passou o resto da madrugada se remoendo, e com muito custo escreveu um bilhete para Feliciano (porque ele nunca conseguiria falar) explicando que Ludwig fora embora, que ele não sabia pra onde, e que por enquanto seria melhor que não o procura-se.
Assim na manhã seguinte, o italiano leu o pequeno bilhete e quase que imediatamente foi abatido por um acesso de choro.
“Ele me abandonou”
Feliciano correu para Roderich, que por sua vez nada podia fazer se não consolar o pequeno.
“Feli, você precisa se acalmar... estamos em um orfanato, isso é normal”
“Mas... snif... Ele não me disse nada! ... snif”
“Talvez ele não goste de despedidas...” Disse Roderich se agachando e passando a mão pela cabeça do outro. “vamos, você precisa lavar esse rosto e se limpar, depois vamos comer alguma coisa”
O italiano pegou na mão do outro e juntos cruzaram novamente o corredor.
Essa foi a primeira vez que Roderich perdeu uma aula de música, e a ultima que Feliciano recebeu noticias de Ludwig.
XXX
Ludwig percebera que a força da mão de Feliciano diminuíra. (Porque, sim! Ele e Gilbert ainda estavam disputando a panela).
De repente o italiano ficou estranhamente pálido e estático, seus olhos se arregalaram e a boca se entreabriu, era como se tivesse descoberto uma coisa realmente importante.
Ludwig não sabia o que isso significava, mas certamente o preocupava.
Então o italiano moveu os olhos, de Roderich para Gilbert e então finalmente se fixando em Ludwig.
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
–Feliciano, você está...
–Ludwig!- O italiano interrompeu atraindo a atenção de todos na mesa para si – Você não se lembra de mim?
O alemão achou a pergunta muito estranha, mas mesmo assim a respondeu.
–Lembrar? É claro que me lembro de você! Por que não...
–Ludwig!- Feliciano olhava para seu prato(vazio) e tremia – Então por que... Porque não me disse nada? Por que sumiu?
–Sumi? Eu não... Espera, do que você está falando?
Feliciano começara a chorar e a dizer coisas desconexas, pelo menos para Ludwig que ainda permanecia confuso.
Roderich encarou Gilbert á procura de uma confirmação, eles sempre souberam que esse dia chegaria, era o dia de contar a verdade...
Pois se eles não o fizessem, Ludwig descobriria do pior jeito.
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