As ultimas palavras de uma garota
1 Capítulo único
Eu nem sei por onde começar, na verdade provavelmente você nem chegará a ler esse texto, mas caso isso chegue a acontecer eu quero que saiba que tudo já estava de cabeça pra baixo e fora de lugar. Estava presa em uma mente superlotada de pensamentos negativos e egoístas, que nem mesmo eu, a dona desses pensamentos, conseguia mais controlar. Vivia por desligar minha própria mente e me trancar em um mundo de fantasias e super-heróis, onde os problemas poderiam ser resolvidos na base da inteligência e pancadaria, e em que todos os transtornos emocionais faziam parte do passado do seu personagem.
Dai você chega e por alguma razão, que há pouco tempo atrás, não era capaz de compreender, eu fui deixando esse mundo particular de lado.
O primeiro dia que nos falamos passou longe de ser um dos melhores, não vou mentir só para parecer bonitinho, mas posso dizer que vai ser um dia que minha mente, ainda perturbada, não vai me permitir esquecer.
Naquela época, era tudo muito extremo. Eu não lembrava como tratar bem as pessoas, não lembrava como sorrir e fazer aquele sorriso parecer real. Ninguém se aproximava e afastavam-se os que tinham juízo. Eu era como uma fortaleza, por fora.
Com o tempo, toda aquela confusão de tristeza e desesperança foi desaparecendo, assim como meu apego pelo que significado da palavra “vida”. Mas como eu disse, era tudo muito extremo. Se hoje eu pudesse voltar atrás, não teria pensado no que pensei.
Acho que o principal motivo de ter sentido a necessidade de me aproximar, foi ter visto em você o que eu via em mim e não queria. Queria te livrar de um demônio que eu própria já conhecia.
Pensava que você era frágil, mas logo depois que nos aproximamos tanto vi que quem era frágil realmente, era eu.
É realmente estranho pensar que nos tornamos tão bons amigos e eu não sei te dizer se foi exatamente isso que eu queria. Chega a ser doloroso escrever algo desse tipo.
Lembro-me da ultima vez que vimos um filme. Um bem antigo. Uma simples necessidade momentânea de sair de onde quer que eu estivesse e voltar ao meu mundinho particular, que naquele momento não era mais particular, se tornou em um dos dias mais memoráveis da minha vida. Por quê? Eu não sei te dizer, mas a coisa que me deixou mais alegre naquele dia foi ver você ter dito algo do tipo “Olha, o cordãozinho!”, assim que viu um pequeno avião de brinquedo na cena. Tenho que dizer, não seguro o riso até hoje quando me lembro da cara de criança boba que você fez, também nunca entendi aquela paixão pelo jeito de como as coisas eram feitas antigamente que você tinha.
Você tinha um costume de sempre me perguntar se tinha algum problema, e eu tinha um costume de nunca responder essa pergunta, porque não queria ter que mentir. Você tentava cuidar de mim, mesmo eu não permitindo, e só saber que você se esforçava me deixava feliz. Ver que sonhar com todos aqueles heróis que apareciam quando era preciso não era algo idiota ou impossível, você conseguia ser um do seu próprio jeito.
Eu soube o que era felicidade porque fui obrigada a abrir os olhos quando você que precisou da minha ajuda. Me pergunto se eu que abri os seus também.
Foram tantas boas memórias, que se naquele tempo, eu encontrasse aquela menina depressiva e desesperada por se livrar de uma vida solitária, que eu um dia fui, diria a ela pra não mudar, porque teria certeza que todo aquele sofrimento iria valer a pena.
Se eu vou sentir sua falta? Eu realmente não sei e espero que não.
Não lembro quando as coisas ficaram tão feias, nem como isso aconteceu. Paramos de nos falar como costumávamos, até um momento (e que infeliz momento) que não nos falávamos mais.
No principio era só raiva, por ter feito me sentir tão vulnerável. Depois passou a ser ciúmes e não tenho vergonha de admitir.
Frieza nos olhos. Tentava se afastar de mim sempre que possível. Não fazia mais questão de passar um tempo falando comigo. Eu não conseguia enxergar o que tinha feito de errado e não me era permitido isso.
Tentei com todas as minhas forças engolir ver você conseguir fazer novos amigos e até uma namorada. Literalmente seguiu com a vida, sem nem ao menos se preocupar com a que deixou pra trás. Não entenda errado, eu realmente estava feliz por você.
Sempre fui o tipo de garota que não deixava ninguém se aproximar. Que nunca ligou nas respostas que daria aquelas tias distantes. Que nunca se importou em conhecer sua importância no mundo. E por que se importaria se era rainha de outro?
O ponto é. Não é sua culpa. Como já disse tudo era uma bagunça, você só tirou a esperança que você mesmo tinha me dado. Fez de ilusão a única felicidade “real” que senti. Eu evito pensar em tudo isso, mas quero que saiba que, ainda deixando isso de lado faço isso com a esperança que você iria sorrir da mesma forma, com a mesma cara de criança boba e dizer novamente, “Olha, o cordãozinho!”, mas dessa vez, em vez de um pequeno avião pendurado, olhando pra algo que você passou a odiar, a mim.
As últimas palavras de uma garota que só
conseguia enxergar a felicidade no irreal.
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