As sombras da floresta sem fim

1 As crianças da floresta


Notas iniciais
Postarei ao fim do capítulo a imagem de um dos personagens desse capítulo (imagem desenhada por uma amiga sob "encomenda).~O contador de histórias se sentou em sua cadeira acendendo um cachimbo. Após soprar uma nuvem de fumaça, olhou para seu publico, abriu um sorriso e começou a recitar uma antiga história, trazida do fundo de sua mente~

O peso na saca de caça era uma sensação agradável a Arne. Uma lebre grande, abatida por sua atiradeira, já esfolada e pronta para ser cozinhada dava ao embrulho de couro um peso de cerca de 6 kg. Fazia um tempo que o arqueiro não apanhava uma dessas, Luna provavelmente iria gostar disso, a garota gostava de quando ele a visitava com alguma caça em mãos. Os pensamentos do caçador então se voltavam para a jovem druida, duas semanas sem vê-la já lhe era tempo suficiente para causar um aperto em seu peito.

Arne, assim como seu pai e o pai dele antes, era um ranger da Floresta Sem Fim, criado entre as árvores daquele grande mar verde, livre de qualquer reino em um ambiente selvagem e independente. Seu pai falecera dois anos antes, mas não sem ensiná-lo até a última ponta de conhecimento acumulado pelas gerações sobre seu lar, jamais conhecera sua mãe. Caçava para se alimentar e, por vezes, para colocar na carroça puxada por uma mula e vender em uma cidade do reino, um empreendimento que pagava bem, pois era o único que não tinha receio de entrar na floresta para caçar, fato que tornava a cidade um local de cultura agropecuária, presa às mesmas carnes de criação, tornando a carne de caça uma iguaria, fornecida apenas pelo jovem Arne. De fato, voltara de viagem na noite anterior, e agora decidira caçar alguma janta e visitar a amiga. Pelas árvores, já suas velhas conhecidas, sabia que não estava longe da clareira onde ela morava.

O simples ato de entrar na clareira o presenteava com uma visão reconfortante. Luna estava sentada na grama alimentando alguns animais pequenos. A garota trajava o mesmo vestido branco de sempre, seus cabelos castanho-claros que lhe chegavam até pouco acima da cintura estavam emoldurados por uma coroa de flores silvestres e seu cajado estava no chão, a seu lado. Orion, o lobo negro que era seu guarda-costas dormia a cerca de cinco metros dela, embora Arne soubesse que o lobo acordaria no segundo que algum estranho adentrasse a clareira — seu faro não falhava nem enquanto dormia.

Com um sorriso maroto, Arne puxava o capuz sobre a cabeça e se esgueirava pela clareira, largando as armas e a saca de caça. Sabia como se movimentar em silêncio — isso era parte de seu aprendizado desde que aprendera a andar — e tinha confiança de que Luna não o ouviria se aproximando, se divertiria com o susto da garota. Quinze metros, ele podia ouvi-la começando a assoviar alguma melodia. Dez metros, ele sentia o batimento cardíaco acelerar com a expectativa, Cinco metros, o vento agitava as árvores no momento em que um galho se quebrava sob seu pé, seu som sendo escondido em meio ao farfalhar das folhas do grande salgueiro que coroava a clareira, oposto ao lago que a delimitava na outra extremidade, o que rendeu um agradecimento silencioso ao deus do vento da parte do Ranger. Um metro, ele podia sentir o perfume doce de flores e mel dela, a garota já à distância de seu toque, no momento que uma sensação estranha percorria seu corpo. Ao olhar para o lado, via Orion de olhos abertos o encarando. O lobo singelamente movia a cabeça na direção dela, como um incentivo silencioso para que ele prosseguisse. O agradecimento foi silencioso.

Em um rápido movimento, Arne a segurava pelos ombros e a puxava para trás. Com um grito de susto, a garota caía de costas no chão enquanto o arqueiro a segurava pelos pulsos, pondo-os contra o chão sobre a cabeça da druida, olhando com um sorriso para a garota de cabeça para baixo em sua visão.

– O dia é do caçador, garota! — a cara confusa dela o fazia rir.

–Arne! — após o susto inicial, a garota corava, rindo por ter sido pega de surpresa e tentava se soltar. — Me solta, seu maldito! — ele a largava e ela rolava, se ajoelhando e o empurrando, fazendo-o cair sentado no chão — Achei que ia demorar mais tempo em sua viagem.

O arqueiro ria, cruzando as pernas enquanto olhava para ela — decidi voltar mais cedo, já tinha vendido a caça e comprado o que podia, não tinha mais negócios na cidade, e não queria que minha druida favorita ficasse com saudades. – o jovem arqueiro se curvava um pouco na direção da garota com um sorriso, ela se limitava a empurrar ele, com uma evidentemente falsa cara de raiva, o que apenas divertia mais ainda Arne.

– Quero que saiba que não sinto saudades, estive em boa companhia, viajante. – Luna cruzava os braços o encarando.

– Tem certeza que Orion é boa companhia?

O lobo levantava a cabeça para encará-los por alguns segundos.

– Orion comentou que se não gosta da companhia dele, que se retire da floresta. – Luna comentava com um sorriso, Arne se limitava a sorrir para o lobo.

– Então cace por conta própria, velho, pois nada mais da minha caça vai para seu estômago. – o comentário pareceu ter o efeito desejado, pois o imenso lobo se limitava a voltar a seu cochilo. Luna olhava para Arne, rindo.

– O estomago sempre fala mais alto, não é? Onde você deixou a saca de caça?

– Que saca de caça?

– Ah, ótimo – ela sorria, juntando as mãos – não vou ter que cozinhar nada para você hoje!

– Na borda da clareira – ele suspirava, derrotado, enquanto ela mostrava a língua para ele com um sorriso travesso. Arne voltava ao local onde tinha deixado a saca e a carregava até perto da garota – uma lebre grande, um pouco acima do peso.

– Os deuses são bons, você quase nunca pega nenhuma lebre.

– Isso é porque me esforço com o objetivo! Não posso me prender a um só animal.

– Bom... Quanto falta para completar o objetivo?

– Ah... Alguns... – era uma mentira. Era dito que se um ranger caçasse um de cada animal maior que um inseto na floresta ele completaria um tipo de ritual, absorveria as características dos animais, se tornaria, de fato, o maior predador da floresta. Ele só precisava matar mais um animal para acabar com essa missão, e esse ultimo animal era justamente...

Orion bocejava e se levantava

– Ele vai caminhar um pouco. – Luna sorria se levantando enquanto Orion saía da clareira. – vamos pra dentro, quero que ele volte a tempo do jantar. – ela sorria, pegando o cajado enquanto Arne se levantava com a saca na mão.

Logo, ambos conversavam enquanto a carne cozinhava com legumes no fogão de ferro da casa de Luna, um dos pequenos luxos dos reinos que um ranger de outrora trouxera para a Druida da época.

Arne sabia que Luna era uma boa cozinheira, mas tinha a impressão de que estava para comer uma das melhores refeições de sua vida. A carne da lebre ao ser cozida liberava um cheiro suficientemente bom para deixar o jovem arqueiro com água na boca e, acima de tudo, fazer ele perder a paciência. Agindo como uma criança, de pouco em pouco ele perguntava se a comida estava pronta, a não ser que Luna começasse qualquer outro assunto.

– Então, que novidade traz do reino? – Luna perguntava, sorrindo enquanto mexia o ensopado com uma colher, ao notar que Arne abria a boca para fazer a mesma pergunta de dois minutos atrás.

– Bom... – Arne se ajeitava na cadeira, pensativo – parece que há um desentendimento entre os reinos vizinhos, o povo teme que estejam entrando em guerra,

– Reinos e suas políticas, apenas o de sempre. Se uma guerra acontecesse, você podia se alistar no corpo de arquearia – a garota mostrava a língua com seu clássico sorriso travesso.

– Eu te arrastaria junto e te alistaria no corpo de apoio. Devem estar precisando de curandeiros.

– Eles que se virem com o que tem. Minha magia de cura não foi criada para servir a exército nenhum.

– O mesmo vale para meu arco. O que acontece nos reinos não é problema da floresta... pelo menos não desde o pacto do salgueiro. – Isso era verdade. Em tempos antigos, o território da floresta fora declarado neutro, uma concessão dos sete reinos adjacentes da época. O pacto fora selado entre os sete reis e o Druida vigente da época sob os galhos do velho salgueiro, o mesmo que ficava na margem sul daquela mesma clareira onde agora se encontravam. Na época, os Druidas eram a única força vivente na floresta conhecida, e agiam como embaixadores dos habitantes da floresta profunda. Os Rangers, por outro lado, eram mais recentes, uma família de caçadores que foi acolhida pelos Druidas, desde então eram duas forças diferentes que protegiam o núcleo da floresta – Luna... você foi ao núcleo enquanto estive fora?

– Sim, eu fui.

– Como estão as coisas por lá?

– O de sempre, a vida continua a mesma, aquele povo é imutável, constante. Porque a pergunta?

– Eu queria ter visitado junto. Ir sem companhia não é a mesma coisa.

– Não se preocupe, vamos mais vezes – Ela sorria. Ele retribuía o sorriso.

– Ei, Luna... – ele falava mais baixo, em um tom mais grave.

– O que foi, Arne? – ela olhava para o amigo, um pouco preocupada com o tom de voz dele, uma preocupação que se tornava evidente em seu semblante.

– Tenho que te perguntar uma coisa...

– Pelo amor dos deuses da floresta, diga logo!

O rapaz levantava os olhos e a encarava, hesitando e então sorria – a comida já está pronta?

Arne quase não conseguiu desviar da colher de pau que passou por onde sua cabeça estivera um segundo atrás, raspando em seus cabelos, enquanto ria. Por alguns minutos, ele a observava tirando a panela do fogo e servindo em uma tigela de madeira.

– Se engasgue de uma vez com isso – ela falava num tom ofendido, o que o fazia rir. Ela sorria e pegava uma cesta de pães que tinha assado pela manhã, colocando sobre a mesa. A garota também servia um suco de frutas, também recém preparado.

A porta se abria lentamente, revelando Orion que entrava caminhando devagar.

– E o velho gordo chega para a hora da refeição, não é? – Arne observava sorrindo enquanto Orion se aproximava. O lobo o encara por alguns segundos e lambe o ensopado na tigela de Arne, que protestava – Porcaria Orion! Minha comida. – Luna ria enquanto servia mais uma tigela grande de ensopado e colocava no chão para o lobo, e Arne ficava sem saber se ela estava realmente rindo ou transmitindo o riso de Orion. Ignorando o fato da presença de baba de lobo, Arne voltava a comer de sua tigela.

Ele estava certo. Aquela fora, de fato, uma das melhores refeições de sua vida.

Notas finais
A imagem foi feita por uma amiga sob encomenda para essa história, segue aqui seu DeviantArt: http://iris2501.deviantart.com/Tenho muito a agradecer a algumas pessoas pelo incentivo, se essas pessoas lerem, saberão quem são e o quanto devo a elas.O próximo capítulo conterá um segundo desenho pela artista, e este será o último.Espero que tenham gostado, o prazer de um contador de histórias é ver seu público satisfeito e ouvir suas críticas.