Notas iniciais
História independente de minha outra fanfic ("Vivendo sentimento, sentindo emoções").

Ouçam músicas românticas!
Feliz dia dos namorados.

A neve já impedia a porta de entrada de ser aberta. A temperatura já estava muito abaixo de zero, mas o termômetro da casa não funcionava mais. Ele já havia prometido que consertaria… ou compraria outro… bom, mas isso já fazia algum tempo.

Aos domingos Ciborgue e Abelha tiravam folga dos feitos heroicos e abriam espaço apenas para Victor e Karen. Um casal que tentava ao máximo ser comum… mesmo com uma parte do casal com asas e a outra com partes mecânicas.

Como esse amor poderia ser possível?

Nenhum dos dois fazia ideia. Afinal além das diferenças anatômicas, biológicas e fisiológicas, eles também eram bem diferentes na maneira de lidar com problemas do dia a dia.

Como ela era estressada! Sem uma gota de paciência. Mas Vic achava graça. Sempre. “Você é a estressada mais linda que eu já conheci” era a frase mais dita por ele durante uma briga sem sentido criada por ela. Bom, se ela não conseguia estressá-lo, a recíproca jamais seria verdadeira. Tudo que ele fazia para irritá-la (ou acalmá-la) no momento da raiva há deixava ainda mais estressada.

Ele achava extremamente sexy a forma como ela massageava a própria testa dizendo “sua tranquilidade me irrita”. Ela conseguia ser linda em todas as ocasiões. Mesmo batendo suas asas compulsivamente, afinal sua natureza de abelha sempre lhe dizia para se recolher e bater asas para se aquecer.

Todo inverno era assim. Há seis anos.

De fato o que ele mais gostava era o final do domingo. Ainda mais no inverno. Porque ela se encolhia no colo dele no sofá. Uma paz que durava poucos minutos. Durava só até terem que decidir o que fazer.

“Videogame de novo não”

“Porque quer ver esse filme de novo?”

“Você podia, por favor, tentar parar de me irritar?”

“Vic não acredito que você vai colocar esse episódio de novo”

“Você é a estressada mais linda que eu já conheci”.

Mas, sempre, depois de muita reclamação, ela vencia e eles viam o programa de talk show favorito dela. Mas ele não se importava, afinal não havia preço para vê-la satisfeita… e brigando com a TV.

Como esse amor poderia ser possível?

Ele tão praticante do “deboísmo” e ela sempre tão estressada. Talvez fosse por isso. Ele trazia tranquilidade pra vida dela. E ela lhe trazia sua humanidade de volta. Ao lado dela, ele não se sentia metade mecânico. Ao lado dela, ele se sentia um menino. Ao lado de uma mulher forte, incrível e impaciente.

Porque ela o fazia se sentir assim. Porque ela gastava tempo massageando as poucas partes humanas dele. Porque ela gastava tempo lustrando as partes robóticas dele. Porque ela sorria pra ele. Fazia-o rir. Como um menino.

Com ela, ele aprendeu que poderia ser amado do jeitinho que ele é. Ela não o rejeitava quando desconectava suas partes de robô. Ela o olhava com ternura, mesmo quando ele se mostrava apenas como um deficiente físico. Ele sentia-se desejado.

Mesmo com toda a zanga dela, ele sabia que ela o amava, afinal há seis anos ela batia as asas para aquecê-lo na hora de dormir, mesmo com o aquecedor ligado. Ah… a hora de dormir… era a melhor parte do dia. Claro… depois de ela reclamar um pouco…

“Você não foi comprar pasta de dentes?”

“Porque você está comendo na cama? Vai limpar os farelos…”

“Odeio arrumar meu cabelo para dormir, parece um ninho de rato…”

“Você é a estressada mais linda que eu já conheci”.

Mas no fim, ela ia pros braços dele. No inverno, especialmente, ele tirava as partes robóticas, porque elas eram geladas demais. Ela nunca reclamou, mas ele percebia que com as partes de robô, as asinhas dela batiam mais vezes, como se seu instinto dissesse que eles estavam passando frio. Então ele fazia isso por ela. Porque ela dormia mais tranquila. Ela nunca soube o porquê. Ele nunca contaria, pois sabia que ela se sentiria culpada.

Ela cuidava dele.

Ela não tinha vergonha dele.

E mesmo com pedaços faltando, ela tinha tesão por ele.

Tesão. Mesmo com um braço faltando. Mesmo sem pernas. Ela olhava pra ele com olhos de desejo… olhos provocativos… de quem não vai deixá-lo dormir. Ela dançava pra ele. Ela o beijava. Ela transava com ele.

“Vic, tira essa lataria e vem pro banho comigo”

No começo era mais difícil. Ele tinha vergonha. Mas ela, estressada, já logo retrucada “tira logo e para de graça…” Tão mandona. Tão irritada. Mas ela era linda. Com todas as suas partes. Independente do tamanho.

Ele sabia quando ela estava triste. Ela sempre ficava minúscula como as abelhas. Ele sempre considerou que ela ficava desse tamanho para se esconder. Isso acontecia algumas vezes, principalmente quando ela o via fitando-se no espelho. Ele sabia que ela se sentia mal por vê-lo assim.

Mas, sempre depois de alguns minutos ela reaparecia, em tamanho normal e irritada. Talvez ela soubesse que ele a achava realmente sexy brava. Talvez ela fizesse isso para disfarçar sua tristeza.

Como esse amor poderia ser possível?

Era sim um amor possível. Um amor que unira duas pessoas que seriam tristes sozinhas. Ela era durona, tinha dificuldade de mostrar que estava apaixonada e que jamais o deixaria, mas ele sabia que isso não aconteceria, afinal no dia em que ele lamentou por não ser “inteiro e completo” ela retrucou “pra mim você é completo, inteiro, por dentro e por fora, não é porque lhe faltam partes do corpo que eu deixaria de estar com você… porque você é mais do que pedaços de carne, você é tudo o que eu preciso”, e esta foi o mais perto de uma declaração que ela conseguiu fazer… mas não demorou muito…

“Mas também… você fica se doando pra qualquer uminha que aparece…”

“Essas garotas folgadas ficam tirando pedacinhos de você”

“O dia que eu me irritar de verdade você vai se arrepender de todos esses autógrafos e fotos…”

“Você é a estressada mais linda que eu já conheci”.

É

Como esse amor poderia ser possível?

Notas finais