As primeiras últimas palavras
1 Eu também
Notas iniciais
O ano era 1962. Eu vivia em plena revolução, vendo os Beatles saírem do “I wanna hold your hand” e entrarem no “We’d all Love to change your head”. Eu vi países como o Brasil entrarem num regime ditatorial, vi os métodos de tortura e pessoas revoltadas com suas leis, com seu modo de viver.
E também, aqui em Londres, todos os dias eu via Mary Alice Smith. Ela era uma ruiva baixinha e insuportável. 1,53 metros de puro mau humor, teimosia, bipolaridade e beleza. Ela era daquele tipo de pessoa que te faz sorrir apenas de lembrar-se dela.
Mary não era simpática, nem inteligente, tampouco boa influência. Ela roubava os charutos do avô, o licor de laranja da avó e passava dias inteiros no telhado de sua casa, fumando e bebendo. Nós éramos da mesma turma de química; sentávamos juntos e fazíamos o inferno nas aulas: jogávamos bolinhas de cuspe nos alunos, colocávamos alfinetes na cadeira dos professores, andávamos pela escola sem passes de corredor e invadíamos a quadra durante os jogos de basquete.
Um dia nós estávamos dividindo um charuto no telhado de sua casa e, num momento de distração, eu me peguei encarando-a fixamente.
– Eu também, — ela me disse, com um sorriso carinhoso.
– Também o quê? – perguntei, inclinando a cabeça.
– Você sabe. – ela tragou o charuto, sem olhar para mim.
Aquela foi a primeira vez que ela disse que me amava. Claro, ela nunca disse aquilo diretamente, porque não gostava de demonstrar o que sentia, ela achava essa coisa de “expressar sentimentos uma perda de tempo”.
Em 16 de maio de 1972, eu a vi caminhar sobre um tapete vermelho, vestida de branco, vindo em minha direção com aquele sorriso brilhante.
Ela estava me encarando quando parou ao meu lado e eu, com um sorriso tão grande quando o dela, sussurrei em seu ouvido:
– Eu também.
E nossa vida toda, nós nunca precisamos dizer a frase inteira. Aquela duas palavrinhas já eram o suficiente. Bastava um olhar para o outro e sorrir, que as palavras eram ditas.
Isso é clichê, eu sei. Mas tudo é clichê, ninguém foge mais disso, e eu gosto.
Com oito anos de casados, nosso segundo filho nasceu. Patrick Green Smith veio ao mundo no dia do nosso aniversário de casamento. Nossa menina, Helen, dizia que ajudaria Mary a cuidar do bebê e que seria a melhor irmã mais velha de todas. Disso eu não tinha dúvidas.
Aos 39 anos de idade, Mary descobriu um tipo de câncer raro no pulmão. Ela fez diversos tratamentos, passou dias e dias internada, mas nada parecia derrotar aquele câncer. E então recebemos a notícia de que ela precisaria de um transplante, e logo, pois aquele pulmão não suportaria por muito mais tempo.
Eu disse que doaria meu pulmão, mas não era assim, fácil. Ela precisaria que alguém morresse para receber seu pulmão. E precisava que a pessoa morta tivesse um pulmão compatível com o dela. E, mesmo que eu morresse, não poderia doar-lhe meu pulmão.
Mary Alice já não era mais uma mulher forte como antes. Qualquer movimento brusco a deixava sem ar. Bastava subir três degraus que ela arfava. Mary Alice estava me deixando.
E então, eu nunca vou me esquecer deste dia, 18 de agosto de 1985, depois de um ano lutando contra aquele maldito câncer, surgiu um doador compatível. Mas era uma cirurgia complicada e cheia de riscos, ela podia não voltar daquela sala de operações com vida.
Eu a levei pelos corredores do hospital na cadeira de rodas, dizendo o tempo todo que tudo acabaria bem, e que no fim do dia eu a estaria esperando em seu quarto, com seu novo e saudável pulmão.
Antes de entrar na sala de operação, eu ajoelhei à sua frente e olhei para ela. Meus olhos marejaram ao ver os olhos dela transbordarem. Ela sorriu para mim, um daqueles sorrisos cativantes dela. Olhei em seus olhos, ela retribuiu meu olhar e secou uma lágrima.
– Eu também. – ela disse, com a voz baixa, e então o médico a levou para dentro da sala.
Deus, como eu sinto falta dela. Mary Alice foi a única mulher que eu amei de verdade, em toda a minha vida. Depois daquele dia, das últimas palavras que ela me disse, que também foram as primeiras, eu nunca mais quis amar ninguém, além dos meus filhos, dos filhos dela.
Mary, se estiver aí, saiba que eu também.
Eu também.
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