– Em uma única vez que estive no Reino da Terra... – Começou Sun Hee caminhando ao lado de Aiji por um dos jardins Reais enquanto fazia alguma chama e a apagava repetidas vezes, como quem jogava um io io – Achei um saco...

– Você só pode estar brincando! – Exclamou Aiji indignado – Ba sing Se é... É incrível! Tem toda aquela coisa de trens e tecnologia... O complexo de palácios deles é maravilhoso... E...

– Aff – Interrompeu Sun Hee revirando os olhos – Você é um cidadão na Nação do Fogo, como pode conhecer tanto sobre eles e tão pouco sobre nós?

Continuaram caminhando.

– Aiji... – Disse Sun Hee parando em frente ao menino e tocando-lhe os ombros – Não há nada no Reino da Terra que a Nação do Fogo já não tenha pensado antes... Fomos os pioneiros na criação de tecnologias e isso inclusive foi o que nos permitiu iniciar a guerra e sustentá-la por cem anos... Não que eu me orgulhe disso, claro que não! Mas, não há nada de novo em Ba Sing Se...

– É... Talvez você tenha razão...

– Claro que tenho. E sobre o complexo de Palácios... Você vive em um! Olhe a arquitetura desse lugar, Aiji! Cada centímetro da Caldeira Real tem um requinte e a sofisticação jamais vista em qualquer outro lugar do mundo! Nosso palácio está no topo de um vulcão e passar pelas nossas defesas ao longo da base é praticamente impossível...

Prosseguiram.

– Eu sabia de todas essas coisas, mas nunca enxerguei por esse lado... – Disse Aiji coçando a cabeça, desconcertado.

– Então não sabia. – Rebateu Sua Alteza – Tem que se apropriar da sua história, Aiji, e orgulhar-se dela. Precisa acreditar que até nas coisas ruins, pode haver algum orgulho... Se não fizer isso, te dominarão e farão esquecer-se de quem você é e então ficará a mercê de qualquer coisa... Isso o que acontece com quem não se apropria da sua história... Sabe Aiji, um dia serei Sua Majestade e se eu não olhar com orgulho o meu passado e contemplar o meu presente, jamais poderei manter o legado da minha Nação...

– Falou como uma Rainha... – sorriu Aiji um pouco sem jeito.

– Falei como uma Senhora do Fogo – Retrucou a menina – Se quer saber o que eu penso de Ba Sing Se, direi a ti o que penso de Ba Sing Se...

**

Há algum tempo, sua família, a família Real do Fogo, estivera em Ba Sing Se para um grande evento em nome de Sua Majestade, a rainha do Reino da Terra. Fora uma das poucas vezes que Sun Hee havia deixado a Caldeira para um evento tão grandioso e mesmo com todas as diferenças históricas entre as duas nações, a corte do Fogo fora, de certo modo, bem recebida nos domínios reais daquele país. Sun Hee não pudera deixar de admirar a grandiosidade dos muros de Ba Sing Se e finalmente entendera porque a Nação do Fogo jamais conseguiu subjugá-la: era magnífica Ba Sing Se.

Ao pousar, o Senhor do Fogo e sua pequena corte foram recebidos por alguns dos mais altos oficiais do Dai Li e por Sua Alteza Real, o príncipe herdeiro Kuei. Este dispôs a Sua Majestade todo o conforto dos mais modernos Satomóveis já fabricados. Apesar de o príncipe ter cumprido honrosamente a sua missão como anfitrião e oferecer-lhes toda cordialidade em nome de Sua Majestade, a rainha da Terra, era impossível não notar a o constrangimento daquele momento. Primeiro, porque se esperava que tal cortesia fosse oferecida pessoalmente pela Rainha ao Senhor do Fogo.

Inegavelmente, sua mãe, a Senhora do Fogo, por mais cortês que tenha sido Sua Alteza ao recebê-los, achara aquilo deselegante, para não dizer coisas piores. Seu pai, o Senhor do Fogo Iroh, entretanto, não se surpreendeu de não ter sido a rainha a recebê-los. Já esperava de Sua Majestade tal atitude e sabia que ela o faria exatamente daquela maneira. Em outra ocasião fizera o mesmo com o Chefe Desna, da Tribo da Água do Norte e por vezes ouvia um ou outro rei de seu próprio reino queixar-se de sua arrogância. Não iniciariam uma guerra por isso. Devolveram-lhe a cordialidade, mesmo cientes de que ali pouca cordialidade havia.


Já dentro de seu automóvel, Sun Hee observa por detrás de sua janela. Sempre achara desnecessárias aquelas formalidades e uma grande perda de tempo: aquilo era no mínimo entediante. Poderia explorar toda a cidade naquele tempo e quem sabe descobrir todos os encantos que ouvira falar sobre Ba Sing Se. Suspirou, jogando-se no banco traseiro e ignorando todos os modos convencionados a uma princesa. Sun Hee nunca fora reconhecida pela sua boa educação, apesar de ser tutelada pelos melhores mestres de todo o mundo. Embora houvesse deixado a Caldeira pouquíssimas vezes, era conhecida nas quatro nações por suas diabruras e maus modos.

Imediatamente, sua mãe cutucara-lhe a cintura, dirigindo a ela um olhar recriminatório. A herdeira do Fogo sempre sabia o que aquele olhar significava. Revirando os olhos, corrigiu a postura e sentou-se de modo adequado para uma jovem da realeza. Surpreendeu-se, quando um relance de olhos, a fez enxergar um garoto aparentando ter mais ou menos a sua idade. Este parecia estar tão entediado quanto ela. Aproximou, então, o rosto na pequena janela e colando o seu nariz no vidro gelado, apertou os olhos esforçando-se para descobrir quem poderia ser. Nesse momento o garoto acenou timidamente para ela e então, com as bochechas coradas, Sun Hee recostou-se novamente na cadeira, esquecendo-se de devolver o aceno. Ficara envergonhada de ter sido flagrada por ele, estando a observá-lo.

Esperou um tempo até que pudesse olhar de novo. Estava curiosa sobre aquele garoto de tão longa trança e roupa gozada. Acabou por lembrar-se dos pingüins Wu Shu da Tribo da Água do Sul e isso a fizera estampar um leve sorriso. Vagarosamente, foi reaproximando o rosto da janela e quando finalmente achara que havia ganhado coragem para encará-lo e devolver-lhe o aceno, o garoto não estava mais lá. Inclinou-se um pouco mais para frente, levantando o rosto para procurá-lo.

– BOO!

Sun Hee deu um pulo para trás. Levara um susto do garoto que, surgiu de repente em sua janela só para pregar-lhe uma peça. Era conhecida nas quatro nações por suas artimanhas, mas aquela fora a primeira vez que alguém havia pregado-lhe uma. E isso a fez ficar furiosa! Olhou novamente pela janela e percebeu que o menino estava rindo descontroladamente, quase sem ar.

Vai ter volta... Pensou.

Virou-se de costas, tentando ignorar o som daquelas risadas. O menino, percebendo o desinteresse de Sun Hee em sua graça, imediatamente controlou a gargalhadas e insistiu por atenção,batendo com as pontas de seus dedos na janela do carro. Era um garotinho persistente. Sun Hee fechou os ouvidos com as mãos, na frustrada tentativa de ignorar aquela criança irritante. Em vão. Era tão terrível que, cansada daquele barulho em sua janela, virou-se abrindo a porta do carro.

– O que você quer? – Indagou Sun Hee chateada.

– Conhecer-te! – Disse o garoto animado – Quando meu pai disse que a Família Real da Nação do Fogo estaria aqui para os festins em nome de Sua Majestade, minha bisavó, quis saber se Vossa Alteza os acompanharia. Fiquei excitado ao saber que virias tu com vossa família...

Sun Hee achava engraçado o modo com que o garoto se esforçava para falar rebuscado.

– Então você é um membro da Família Real? – Dirigiu-se ao menino com nenhum requinte.

O menino sorriu.

– Como havia dito, bisneto de Sua Majestade, a rainha do Reino da Terra. Meu nome é Hui Ying. Sou o primogênito, do primogênito da Rainha o que faz de mim, um aparente herdeiro desse trono. O terceiro na linha de sucessão...

– Ah... – Disse Sun Hee demonstrando pouco interesse naquela conversa – O que tem de legal aqui em Ba Sing Se? Comida? Jogos de barraca?

– Ah... – O menino revirou os olhos – Receio que para nós, membros da realeza, todo lugar é igualmente entediante. Por isso estava ansioso por te conhecer... Soube que é muito boa em pregar peças e que não há festa maçante quando estais presente...

Sun Hee lembrou de uma vez que... Foram interrompidos e convidados a voltarem aos seus automóveis para que pudessem seguir em direção ao não muito distante Palácio da Rainha da Terra. Quando chegaram ao Palácio Real e finalmente se viram livres de mais compromissos e cordialidades, os dois príncipes saíram em um breve passeio pelos belos jardins daquele lugar. Acompanhados de alguns criados, os dois iam lado a lado, sorrindo ao lembrar-se de todas as peripécias de Sun Hee, peripécias estas que em nada deixavam o Senhor do Fogo orgulhoso.


– Quero fazer desta noite, uma noite especial... – Disse o príncipe Hui Ying.

– Acho melhor não... Eu acho que desta vez devo manter-me longe de problemas...

– Nossa! Não podes ficar tão temerosa! – Disse o menino saltando em sua frente – Se me ajudares, lhe darei o que quiser! Melhor! Lhe darei o meu melhor escravo de presente.

– Escravos? – Perguntou Sun Hee desconfiada.

– Sim! Ganhei do meu pai... – Disse o garoto que saiu correndo na frente fazendo piruetas. Sun Hee suspendeu um pouco sua túnica para que assim pudesse correr e acompanhar os seus passos.

– Escravos? Pensei que isso não existisse mais em Ba Sing Se... Nem em lugar algum!

– E não existe! – Disse o menino dando uma piscadela – Mas posso lhe dar um se quiser...

– Não há escravos na Nação do Fogo! – Repreendeu Sun Hee – Não tenho interesse nesse tipo de coisa. As pessoas, devem ser respeitadas e livres. Servir a nós deve ser uma honra e não uma imposição...

– Como se houvesse alguma diferença... – Respondeu ironicamente, enquanto caminhava na frente – Escravos... Servos... Súditos... Chame como quiser! Quantas pessoas em seu Palácio, Vossa Alteza acha que cheiram a sua merda por que a ama?

– Como assim? – Indagou a menina.

– Não sejas tão ingenua... Todos os súditos, mesmo os nobres, são nossos escravos de alguma forma. Servir-nos é a natureza deles. Isso é destino... Como espera governar um dia sendo tão tolinha?

O semblante da herdeira do Fogo caiu.

– É por isso que não há mais glória em sua nação... — ironizou o príncipe da Terra — De temidos e odiados a motivo de chacota no restante do mundo. Vocês são uma vergonha... Sabe porquê?

Sun Hee ficara perplexa com as palavras do Hui Ying. Será que aquilo era mesmo verdade? Será que ela era mesmo ingênua demais para perceber as sutilezas que movimentavam o seu sistema?

– Porque o seu pai é um frouxo! Um Senhor do Fogo que não tem culhões para controlar a própria filha e um verdadeiro capacho da mulher. E isso é só o começo do que dizem de vossa família! Dizem também que sua avó era uma vadia e que não houve na Nação do Fogo quem não tenha deitado em sua cama. Que seu bisavô foi um usurpador barato que roubou não só o trono da Nação do Fogo mas também roubou nossas terras... Sem contar o Ozai... Desse a gente nem precisa falar, não é? O que esperar de uma Nação com o um Senhor do Fogo tão mole e uma herdeira como você? – Disse o garoto, interrompendo o devaneio da princesa, com um sorriso maquiavélico na face.

– Eu... Eu... – Sun Hee gaguejava, esforçando-se para não deixar o choro escapar. Nunca se sentira tão humilhada.

– Foi o que pensei! – Disse o Hui Ying retirando-se com seus criados e deixando Sun Hee para trás – Alias – Voltou a dirigir-lhe a palavra – Eu tenho mais coragem que teu pai. Por isso governarei o mundo. E você? Continuará presa em seu vulcãozinho e sendo rainha de sua ilha... Quem sabe eu possa me compadecer de você e...

Nesse momento Sun Hee fora tomada por uma raiva tão intensa, que sentiu a ponta dos seus dedos queimarem. Os olhos, antes âmbar, tornaram-se rubros com a cor do circulo de fogo que levantara em volta de ambos.

Sun Hee rangia os dentes e o suor escorria em seu rosto tomado de fúria. Simplesmente, não conseguia ouvir mais nada ao seu redor. Nada além do som do fogo que estava a dominar. Cada movimento que fazia, demonstrava a magnitude de sua dominação. Os sábios não haviam se enganado ao afirmarem que estava destinada a ser uma grande dobradora.

Quando se viu em meio ao fogo, Hui Ying arregalou os olhos. Quanto mais percebia o fogo se aproximar de seu corpo e o calor tomar-lhe a alma, mas assustado ficava. Pensou em reagir, mas era covarde demais para enfrentá-la. Dominava Terra, porém, sua destreza com o elemento nem de longe se comparava a dança que a princesa do fogo estava a fazer. Era como se cem dragões houvessem reencarnado em Sun Hee.

Movimentava os punhos enquanto o circulo se fechava trazendo-o cada vez mais perto. Finalmente quando o circulo de fogo tornou-se suficientemente pequeno para que coubessem somente os dois, os rubros olhos de Sun Hee encaram com ódio os olhos assustados do príncipe da Terra.

– Quem você pensa que é, seu merda, para falar desse jeito da minha família? Se ousar a desrespeitar a honra de meu pai, dos meus antepassados e da minha Nação novamente, eu não perdoarei. E juro por todos os Deuses que, quando sentar naquele trono, voltarei a Ba Sing Se e terminarei o que meu tataravô, Ozai, não terminou. Não preciso nem falar dele, não é? Voltarei aqui e farei você engolir junto com a sua vergonha, cada uma das suas palavras. E nem todo exército da Terra, nem o Avatar vai me impedir de entrar aqui e arrancar os seus culhões. Vou arrancá-los, assá-los e dá-los de comer ao meu dragão... E ai você vai ser arrepender de ter aberto sua maldita boca... Se arrepender de ter nascido!

E então, fez cessar o fogo. O príncipe ficou tão pálido que não conseguia dizer uma só palavra.

Quando Sun Hee caiu em si, uma multidão de pessoas estava em volta observando-a proferir aquelas palavras, inclusive o seu pai. Quando olhou para ele, sentiu a vergonha do Senhor do Fogo diante de todas aquelas pessoas. Mais do que simplesmente ofender toda Família Real do Reino da Terra, Sun Hee trouxe de volta uma lembrança que todos, inclusive seu povo, gostaria de esquecer: a Guerra dos Cem Anos. Foi uma coisa lamentável a se dizer. A Nação do Fogo ainda vive sobre o estigma desse passado, e lançar uma ameaça baseando-se nele, era um insulto maior ainda a seu país. Se a relação com o Reino da Terra já era complicada, depois daquela atitude Sun Hee não sabia qual o destino desta.

No final das contas o Senhor do Fogo e a Rainha da Terra decidiram ignorar o ocorrido e resolveram encarar aquele insulto apenas como uma “briga entre crianças”. Hui Ying era um excelente provocador, porém péssimo mentiroso. Quando pressionado, acabara revelando a seu pai o motivo que causara a briga.

Receberam ambos, castigos severos, por desonrarem Sua Majestade em seu Palácio Real e por desrespeitarem a honra do Senhor do Fogo. Sun Hee aceitara com resignação o seu castigo, mas Hui Ying estava convicto de que não havia motivo para tanto alarde. Foi então que a menina refletiu sobre sua postura diante de seus convidados e de como era desagradável suas ações. Não só pelos convidados, mas porque percebera que suas ações representam imagem de toda Nação. Naquele dia, decidiu esforçar-se para não mais envergonhar seu pai e seu povo. Precisava recuperar sua credibilidade. Precisava recuperar a sua honra...
–---
– Eu acho que Ba Sing Se me tornou uma pessoa melhor... – Suspirou Sun Hee.

Aiji continuou caminhando ao lado dela.

– Sabe, Aiji, a família real do Reino da Terra deve ter seus bons, assim como era o meu bisavô e o Tio Iroh entre os demais Sozin daquela época. Mas eu ainda não pude conhecê-los... Acho que Ba Sing Se tem uma áurea fétida que te coloca frente a frente com seu lado mais imundo. E você só terá duas saídas: ou mergulhar-se na própria imundice ou reconhecer sua podridão e lutar contra ela...

– Então... Você nunca saiu da parte alta?

– Creio que não... – Disse Sun Hee andando um pouco mais a frente.

– Então como pode falar da tecnologia do Reino da Terra?

– Ah! Sei lá...– respondeu encolhendo os ombros — Apenas acho que nada lá será melhor do que aqui...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!