As palavras que não refletem seu coração

4 Capítulo 4 - Operação "Derrotar o Dragão e Salvar a Princesa"


Notas iniciais
Harumin, Matsuri e Nene tentam convencer Yuzu a escutar o que elas têm a dizer. Shiraho e Himeko se reúnem para ver o que podem fazer para ajudar Mei. Amemiya já está com tudo pronto para tentar acabar com os Aihara. Megumi chega ao Japão para matar as saudades de tudo e de todos. Yuzu é informada dos planos de Mei e decide agir.

Amemiya começou a demonstrar sinais de desequilíbrio logo depois de ter sido expulso e enxotado da Academia Aihara. Logo quando se tornou o noivo escolhido para desposar Mei, o ex-professor havia pensado em várias possibilidades: ganharia poder e dinheiro ao assumir algum papel importante no Grupo Aihara, depois daria um golpe poderoso que deixaria a família da futura esposa na miséria; depois de acabar com o velho Yasuo e sua neta, ele partiria rumo a um paraíso no Pacífico ou no Caribe, onde poderia gastar todo o dinheiro em companhia da namorada também golpista.

Ele se lembrou do dia em que seu nome foi dito em alto e bom som por Yuzu, que invadiu o palco e tomou o microfone de uma das integrantes do conselho estudantil. Ficou tão cego de raiva quando todos os olhares — dos professores, das alunas, dos funcionários e do presidente Aihara — se voltaram para ele que havia esquecido daquela estudante loira, com uniforme totalmente diferente do adotado pela escola. Algum tempo depois, Amemiya viria a descobrir que Yuzu era, na verdade, a irmã de Mei, porém não uma Aihara de origem.

Depois de acabar com o velho e a neta, vou atrás daquela idiota que me denunciou, a Aihara postiça! Ela também merece receber o troco por ter me denunciado! Qualquer Aihara que estiver na minha frente merece sofrer muito. Ninguém tem o direito de brincar com a vida de Takashi Amemiya, NINGUÉM! Eu vou descobrir onde aquela miserável mora, vou acabar com a vida dela até que não sobre nada! — delirou Amemiya.

Dentro do carro emprestado, um revólver adquirido por meio dos criminosos que ele conhecia, um punhal, um machado e um galão de combustível. Como iria usar essas armas, nem ele mesmo sabia. O importante era fazer logo o serviço e extravasar toda a raiva acumulada no último ano.

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No aeroporto internacional de Tóquio, desembarcam vários passageiros de um voo vindo do Canadá. No meio deles, Megumi não vê a hora de pegar toda a sua bagagem e ligar para o irmão mais velho, pedindo para buscá-la no setor de desembarque. Ela poderia muito bem pegar um táxi e sair do aeroporto o quanto antes, mas para que pagar caro quando seu irmão pode muito bem dirigir o carro da família? Aproveitando que Koichi trabalha em casa como programador, não teria problema tirá-lo por alguns minutos da frente do computador para ir até ela.

— Alô! Koichi! Cheguei, vem me buscar! Só não diga nada para mamãe e papai. Faz de conta que você precisou sair a pedido do serviço e vai ter que ir de carro até o aeroporto.

— Ah, sua preguiçosa! Podia ter me avisado com antecedência sobre o horário de desembarque! Não é porque trabalho em casa que tenho liberdade para me ausentar o horário que quiser! Eu tenho prazos, sabia? Nesses cinco anos no Canadá parece que você não aprendeu a planejar direito, hein...

— Por favor, meu irmão preferido! Vai ser muito estranho se um táxi parar em frente a nossa casa, papai e mamãe vão desconfiar.

— Não sei porque a frescura de querer fazer uma surpresa, era só falar que estava voltando pra casa e pronto!

— Mas é que eles pensavam que eu fosse ficar pra sempre no Canadá, e eu meio que mudei de ideia, pelo menos por enquanto.

— Ah, tá bom, entendi. Só preciso de mais quinze minutos e já estou saindo de casa. Me espera ali no setor de desembarque.

A garota aproveitou o tempo que ainda tinha para passar na livraria do aeroporto, ver o que havia de interessante em termos de jornais e revistas. Ela adorava folhear as revistas de moda e comportamento feminino, mas também espiava as publicações sobre negócios e desenvolvimento profissional, visando no futuro abrir sua própria empresa. Não que ela fosse do tipo empreendedora; o que ela na verdade queria era uma alternativa caso o trabalho dentro de uma redação não desse certo.

Numa das revistas sobre negócios, um certo senhor apareceu numa pequena nota na seção de bastidores. O Grupo Educacional Aihara, conhecido pela tradição no setor de ensino, estava planejando mudanças para a sucessão dentro da empresa, e alguns conhecidos já contavam alguns rumores para jornalistas. Como não era algo que interessasse a Megumi, a jovem simplesmente fechou a revista e foi olhar a seção de publicações importadas, onde estavam exemplares de Vogue, Marie Claire, Interview, entre outras. Por ter morado um tempo fora, aqueles visuais das capas não a impressionavam muito. Ela estava era com saudade da moda do país natal, queria saber o que havia de novo nos estilos de rua, se havia novos grupos urbanos. Ela se lembrava da moda das gyaru, com suas roupas chocantes para o estilo recatado japonês, e das lolitas impecavelmente vestidas dos pés à cabeça.

Depois da livraria, Megumi foi até a seção de desembarque, aguardar o irmão. Ela já estava cansada de andar com aquelas malas cheias pelo aeroporto, não via a hora de comer qualquer coisa que a mãe preparasse. Até das broncas do pai ela sentia saudade, pois era sinal de que ele se importava com ela, a filha caçula.

— Ei, bobona! Vai ficar aí parada, ou vai entrar? Não tenho todo o tempo do mundo, viu?

— Koichi! Que bom que você não demorou muito! Que tal me ajudar com essas malas? Eu não vou dar conta de colocar tudo sozinha dentro do carro!

— Ok, já vi que ia ter que fazer isso mesmo...

Carro preparado, os dois irmãos parte em direção à casa da família Sakamoto, onde terão muito tempo para colocar as conversas em dia.

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A última aula do dia está para acabar, e Yuzu não aguenta mais esperar para ir direto para casa. Na carteira da frente, Harumin vira a cabeça para trás e repara na ansiedade da amiga, que nem imagina o que deve acontecer nas próximas horas. Nene e Matsuri precisam estar prontas para arrastar Yuzu, sob pena de não terem mais a companhia de Harumin para seus momentos de lazer.

— Bem, pessoal, por hoje é só. Por favor, não esqueçam de fazer os exercícios de matemática da unidade que abordamos hoje. Estão todas dispensadas. — O professor finaliza a aula, para alívio das meninas.

Como se suas mãos fossem as de um robô de fábrica, Yuzu guarda rapidamente os livros, o caderno e seu estojo na bolsa. Harumin, por sua vez, havia guardado suas coisas antes mesmo do professor ter finalizado tudo, sinal de que ela está mesmo empenhada em fazer a amiga falar tudo o que está acontecendo. Yuzu se levanta e apressa o passo até os armários da entrada, com a amiga agindo como sua sombra logo atrás, de modo que a loira nem se dá conta de que alguém está na sua cola.

Com os sapatos já trocados, Yuzu fecha a porta do seu armário e dá de cara com Harumin, se assustando a ponto de quase cair no chão.

— YUZUCCHI! — A caçula dos Taniguchi berra.

— HARUMIN! — A loira quase salta para trás. — O que deu em você? Quase que caio de susto aqui! Como conseguiu me alcançar sem fazer um barulho?

— Eu acho que você é que está muito concentrada e não percebe os outros ao redor. Estava praticamente uns dez centímetros atrás de você, quase caindo nas suas costas!

— Tá, mas para que você me seguiu? Fiz algo errado? Você quer sair pra comprar roupas? Se for isso, eu não tenho tempo, tá? Acho melhor você arrastar Nene e Matsuri...

Harumin estica um dos braços e bate a mão no armário, fazendo um barulho enorme que chama a atenção das demais alunas. Yuzu estranha a atitude da amiga.

— Não, não é isso! É que... e-eu tenho algo grave para te contar, e você é a ÚNICA pessoa que pode dar um jeito. Por favor, me escuta!

— O que você tem de grave para me contar? E por que eu sou a única que pode resolver esse problema, amiga? Não estou gostando dessa conversa...

— Precisamos ir a algum outro local, pode ser numa lanchonete aqui perto? Eu não sei nem como vou te falar o que está havendo, não queria ter que dizer isso e nem ver sua reação ao saber da última.

— O-ok, tudo bem, eu vou. Você está me assustando com esse suspense todo... Por acaso você está doente? Ou por algum acaso você está... GRÁVIDA? — Yuzu fala alto e algumas meninas próximas ao armário se espantam. Harumin tapa a boca da amiga antes que todo o colégio entenda errado. Algumas meninas cochicham.

— NÃO! — A caçula dos Taniguchi olha ao redor, o suor escorrendo da testa. — Não estou grávida, o problema é GRAVE, entendeu, GRAVE! E mesmo se eu estivesse grávida, no que você iria me ajudar, garota? Se eu estivesse barriguda, Mi-chan me mataria e nem na escola eu daria as caras.

Logo atrás, Matsuri e Nene chegam.

— Nene e Matsuri, vocês sabem o que está havendo com a Harumin? Eu sei que ando muito ausente nos últimos tempos, então estou bem por fora do que vocês aprontam. O que você estão planejando?

— Yuzu-chan, queremos te ajudar, sabemos que a Mei-san te deixou arrasada e te abandonou. Só que parece que você não percebeu a que ponto a sua “irmãzinha” chegou. Não reparou nada diferente na sua casa? Sua mãe não comentou nenhuma novidade? — Matsuri pergunta.

— Se querem saber, nem com minha mãe tenho tido tempo de conversar. Estou focada em entrar para o top 10 nas próximas provas, passo a noite inteira no meu quarto e vou dormir. E o que tem a Mei com esse problema, além dos que ela já me causou? — Ouvir o nome da kaichou causa uma dor intensa em Yuzu.

— Harumin-senpai, você estava certa mesmo. Yuzu-senpai infelizmente está alheia a tudo. Acho melhor todas sairmos daqui logo, pois a vice-presidente está vindo logo ali atrás, e eu já tomei uma bronca dela hoje! — Nene vai empurrando as outras três em direção à saída do colégio.

— Está certo! Yuzucchi, você vai com a gente nem que seja arrastada!

Sem ter como negar, a loira vai com as três amigas antes que Himeko chegue aos gritos para advertir o grupo.

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Cerca de dez minutos antes, na sala do conselho estudantil, Mei está concentrada em organizar e conferir os papeis que serão passados para Himeko, a nova presidente a partir de amanhã. Com um peso no peito, Himeko avisa a amiga que terá de ir mais cedo para casa para tratar de assuntos com a família de Shiraho-senpai.

— Mei-mei, infelizmente minha família tem negócios importantíssimos para tratar hoje com a família de Shiraho-senpai. Por isso, não poderei ficar aqui hoje para te ajudar. Sinto por deixá-la cuidando de tudo sozinha.

— Oh, claro, Himeko! Não tem problema nenhum, sua dedicação ao conselho beira a perfeição. Eu só vou organizar todos os relatórios para transferir a presidência sem maiores dificuldades amanhã.

— Eu... não sei se estou preparada para amanhã... como vou entrar no colégio, sabendo que você não estará aqui? — Os olhos da vice-presidente começam a marejar.

— Por favor, não comece... Himeko, eu — Mei ia falar, mas é impedida pela amiga.

— Desculpa, Mei-mei! Preciso ir!

A herdeira dos Momokino pega suas coisas e desce para o térreo, ansiosa por encontrar Shiraho-senpai na entrada da escola. Porém, o que ela não esperava era ver um certo grupo de garotas reunido na frente dos armários. No meio das meninas, ela percebe a presença de Yuzu, a pessoa com a qual Himeko não quer conversa por ora.

“Por que Aihara Yuzu tinha que estar logo agora por aqui? Eu não queria ter de encará-la! E ainda com o resto do bando de delinquentes! Parece que o dia hoje é para testar minha paciência!”, Himeko pensa e desacelera o passo. Para sorte dela, nem Yuzu e as outras três querem vê-la no momento, e o grupo logo deixa o prédio da escola. A vice-presidente não tem pressa e espera mais uns dez minutos para que o grupo tenha tempo de se afastar do colégio.

Poucos minutos depois, um carro preto de luxo para na porta da Academia Aihara. Dentro dele, Shiraho-senpai aguarda Himeko.

— Senhorita, quer que eu vá chamar a senhorita Himeko? — O motorista pergunta.

— Não será necessário, ela está vindo logo ali.

A vice-presidente chega até o carro e olha em todas as direções para verificar se está sendo observada, e só depois uma das portas de trás se abre para ela. Após cumprimentar Shiraho e entrar, as duas decidem ir lanchar em algum local ali perto.

— Shiraho-senpai, Aihara Yuzu já saiu com o grupinho de delinquentes de sempre. Elas me viram indo em direção aos armários da entrada e deram no pé. Você queria esperar por ela, não é mesmo? Mas eu não me sentiria à vontade com ela ao redor. Nesses últimos meses, tenho feito o possível para não topar com aquela encrenqueira.

— Não se preocupe, tenho certeza de que irei encontrá-la logo, logo. Ah! Lembrei de uma lanchonete nas redondezas, Himeko-san. Algo me diz que será melhor irmos direto para lá. Se não se importar, gostaria de lanchar naquele local porque ainda não almocei.

— Por mim sem problemas, senpai. Hoje vou quebrar a regra da escola e usar o uniforme para passarmos na lanchonete. Mas como é por um bom motivo, não creio haver problemas. Só espero não encontrar alunas da Academia por lá.

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Na casa dos Sakamoto, o carro estaciona na garagem, e dois jovens pulam para fora do veículo. As malas são retiradas e arrastadas para dentro da casa, sem que as duas pessoas na cozinha percebam.

— Ufa! Enfim, em casa! Nem lembrava mais o cheiro daqui! Obrigada, Koichi!

— Ótimo, agora vá até a cozinha e assuste os velhos! Vou voltar ao trabalho!

Com os passos cuidadosos, Megumi vai até onde os pais estão. O pai está com a geladeira aberta, decidindo se pega uma lata de cerveja ou um refrigerante. A mãe está lavando a louça sem se atentar ao que ocorre ao redor.

— OLÁ, FAMÍÍÍLIAAAA! — Megumi grita e aparece de repente na porta da cozinha.

No mesmo instante, o pai derruba a latinha de cerveja que acabou de abrir, e a mãe deixa cair o prato no chão, que espatifa e se quebra em vários pedaços.

— MEGUMI! — Os pais dizem em uníssono.

Yeah! I’m home, guys! Estou de volta! Estava sentindo muita saudades de todos, principalmente meus dois velhos!

— Por que não nos avisou que estava voltando? Que negócio é esse de chegar assim, sem mais nem menos? Eu não comprei nada para fazer algo especial para você comer! — A mãe avisa, brava e ao mesmo tempo contente pela filha ter retornado.

— Megumi, olha o que você fez? Minha cerveja! Que desperdício... Bom, agora já foi mesmo, não tem o que fazer pela cerveja derramada. Mas que bom que você voltou! Sua mãe e eu estávamos preocupados, achávamos que você não voltaria mais para o Japão, afinal já estava muito acostumada com o Canadá! Já estávamos planejando no futuro ir para lá, aproveitando que você já conhece aquele país.

— Pois sinto decepcioná-los, já que eu não sei realmente o que fazer agora que estou formada. Eu recebi propostas de emprego por lá, mas ao mesmo tempo algo me dizia para voltar para cá, ao menos por algum tempo. Eu estava com saudades de todo mundo, da comida, dos ares daqui. Cheguei a trabalhar como freelancer por um tempo, até para conseguir juntar alguns trocados antes de voltar. Talvez eu tire um tempo para visitar meus amigos do tempo de colegial, sabe?

— Falando nisso, lembrei de você esses dias, quando fui limpar a garagem e vi sua bicicleta vermelha, de quando você ia para a escola. — O pai comenta.

— Poxa, agora você mexeu com minha nostalgia. Amanhã eu quero ver se a minha velha bicicleta ainda está funcionando, preciso andar pela região e saber como tudo está, dar um oi para minhas amigas. Como estou cansada depois de passar um bom tempo dentro do avião, acho que vou aproveitar amanhã à noite e dar uma pedalada por aí. Ah! Antes que me esqueça, trouxe várias malas comigo, em algumas delas estão os presentes que comprei para cada um de vocês. Só preciso subir as malas até o meu quarto e arrumar tudo.

— Mas quem disse que você ainda tem quarto nesta casa? Passou tanto tempo fora e ainda acha que temos obrigação de conservar um quarto para você? — A mãe diz com uma cara séria.

A jovem fica assustada com a súbita mudança da mãe e vai correndo até ela, dando um abraço de urso logo em seguida.

— Não pode seeer! Mamãe, eu ainda sou sua filha favorita, não sou? Papai, me ajuda! Eu sei que foi bobo não ter avisado vocês, por favorzinho!

O pai se vira e leva a mão até a boca para segurar o riso. A mãe então confessa a brincadeira e dá uma gargalhada.

— Sua boba, é claro que seu quarto ainda te pertence, inclusive não mudamos nada por lá, eu só limpo e troco os lençóis periodamente. Anda logo, antes que eu transforme aquele lugar num depósito!

Megumi sobe com suas malas e se joga na cama, exausta e aliviada.

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Cinco quadras distantes da escola, o grupo de Harumin e Yuzu entrou numa lanchonete para a reunião de última hora. Diferente das outras ocasiões, elas não entraram para jogar conversa fora e rir à toa das regras do colégio. Hoje é o dia de encostar Yuzu na parede e contar tudo o que elas sabem. Com todas já sentadas e com seus lanches, exceto por Yuzu, que não está com fome, Harumin inicia a conversa.

— Yuzucchi, o que temos para te falar hoje não é bom, e pelo que deu para perceber, você não está sabendo de nada dos bastidores. O conselho estudantil está passando por uma mudança, que só soubemos nos últimos dias porque topamos com a vice-presidente. Por favor, fique calma, saiba que estamos aqui para te apoiar. A Mei, ela... — Yuzu não espera Harumin terminar e tenta cortar o assunto, impaciente.

— Não me levem a mal, mas se vocês me tiraram do caminho de casa para falar coisas ruins da Mei, não vou continuar aqui. Na verdade, eu não queria que vocês tocassem no nome dela; toda vez que alguém se refere a ela, eu sinto como se minha vida não tivesse mais sentido. Já são seis meses desde a última vez que nos vimos. Ela levou todas as coisas dela sem eu saber, como se estivesse fugindo de um crime. Tudo o que deixou para mim foi apenas uma carta, esclarecendo que a partir daquele momento toda e qualquer interação entre nós seria apenas uma lembrança, e qualquer tentativa de aproximação seria evitada. Eu... não vou dizer que não me senti traída pelos sentimentos dela, mas tento entender que ela decidiu priorizar os desejos do avô.

— Sério, Yuzu-chan? A Mei só te disse os motivos de retornar para a mansão do avô através de uma carta? Que covarde! Eu tentei de todas as formas ajudar vocês duas a darem um passo adiante no relacionamento, mas tudo o que ela fez foi estragar o meu plano. Naquele dia em que ela me viu na chuva, esperando na frente do prédio onde você mora, eu já havia planejado algo, queria provocar ciúmes em ambas. Mas vocês foram muito tontas, querendo esconder o que já estava óbvio desde o começo, pelo menos para mim. Eu sabia que foi um erro trabalhar para o gerente só para comprar aquele maldito par de... — A fala de Matsuri é cortada por Harumin, que belisca a orelha da menina de cabelo rosa.

— Ei, Matsuri, calma aí! Olha essa boca! Não é assim que vamos ajudar!

— Matsuri, eu sei dos seus esforços e das suas boas intenções, você é como uma irmã para mim. Mas não podemos forçar as pessoas a querer o mesmo que nós, isso seria muito injusto. Doeu? Sim, ainda dói muito, você sabe muito bem disso. Eu já havia dito que o amor não é um jogo! Naquele dia em que você quis sujar a imagem da Mei, forjando um encontro dela com um homem qualquer, só para que eu me tornasse sua namorada, achei que já havia sido clara após te dar uma cabeçada! — Harumin e Nene arregalam os olhos e começam a estranhar o assunto. Harumin então tasca uma pergunta.

— Espera aí, que estou querendo entender... Que história é essa da Matsuri querer você como namorada e sujar a imagem da Mei? Você não me contou nada disso, Yuzucchi, só do beijo que essa pirralha rosa roubou!

— O quê? Quer dizer que antes de eu entrar para o colégio, já havia rolado esse aguaceiro todo debaixo da ponte? Matsuri, sua bandida, não me contou nada! Harumin-senpai, que beijo roubado é esse que a Matsuri tascou? — Nene começa a tremer só de imaginar.

— Eu achei que fosse apenas um beijo, mas pelo visto Matsuri queria roubar a Yuzucchi inteirinha para ela. E ainda quis colocar a kaichou em maus lençóis! — Harumin faz cara feia para Matsuri.

— Não sei até hoje o que você fez para Mei aceitar aquele encontro forjado, mas foi um golpe muito baixo. Você não iria me conquistar dessa maneira! E também não vai conseguir fazer a Mei voltar para casa com seus truques, Matsuri! — Yuzu adverte a garota.

— Ah, então pelo visto a rainha do gelo não te contou tudo, hein? Pois eu vou mostrar o que a sua amada irmãzinha fez comigo, no dia daquele encontro no shop... — Matsuri está com a imagem do beijo dela com Mei aberta no celular, mas esconde o aparelho ao notar duas garotas vindo em direção à mesa em que o grupo está.

Bem no meio da conversa do grupinho, Himeko e Shiraho entram na lanchonete e se espantam por encontrarem as quatro delinquentes da Academia Aihara logo adiante. Harumin e Matsuri arregalam os olhos ao se depararem com a vice-presidente, enquanto Yuzu e Nene, que estão de costas para a porta, percebem a tensão e se viram.

— Droga! Se o gerente Udagawa não tivesse fechado a cafeteria do nada, teria arrastado todas vocês para lá! Agora demos de cara com o demônio dos cabelos de furadeira! — Matsuri reclama para as outras.

A vice-presidente faz cara de quem não comeu e gostou, enquanto Shiraho, ao contrário, acha bom ter encontrado Yuzu no momento certo. As duas vão em direção ao grupo.

— Himeko-san, Yuzupon está aqui! Que sorte a nossa termos encontrado ela agora! Minha intuição estava certa, afinal. Acho que com as meninas aqui, podemos ver um jeito melhor de ajudar Mei-san a desistir desse casamento.

— Eu só queria saber o que as quatro rainhas da cocada preta estão fazendo aqui, e ainda usando o uniforme da Academia Aihara. Já é a segunda vez só nesta semana que eu dou de cara com essa quebra de conduta! O que as pessoas vão pensar das alunas da nossa instituição prestigiada? Suas irresponsáveis!

— Shiraho-senpai e Sobrancelhas, olá! E que coincidência vê-las por aqui! Parece que o universo conspirou para que todas nos encontrássemos aqui. Oh! E Sobrancelhas, não venha nos dar bronca, porque você está quebrando a regra também, e pela segunda vez.

— É Momokino-san para você, seu demônio de cabelo rosa! E e-eu... t-tive meus motivos para vir aqui com Shiraho-senpai, Mei-mei sabe porque eu a avisei! — Himeko, de certa forma, está mentindo.

— Olá, meninas! Yuzupon, que alívio te encontrar aqui! Himeko-san e eu viemos aqui para tratar de um assunto importante envolvendo Mei-san e o casamento arranjado! Já que estamos todas juntas, acho que vai ficar mais fácil conversar sobre!

Só de ouvir Mei e casamento arranjado na mesma frase Yuzu sente uma faca sendo enfiada nas suas entranhas.

— Que coisa! Até você, Shirapon-senpai? Parece que hoje todo mundo quer colocar a Mei no centro de todas as conversas! Estou começando a me sentir desconfortável com tudo isso. Quanto mais tento não pensar nela, mais ela fica evidente. Vocês não estão me ajudando, garotas!

— Nem pense em fugir de nós, Aihara Yuzu! Vamos, vice-pres e Shiraho-senpai, peguem duas cadeiras e se juntem a nós! Estávamos conversando justamente sobre isso, mas a Matsuri veio com as conversinhas dela e nos revelou até o que a gente não precisava saber! Essa pirralha confessou que estava cobiçando a Yuzu e que tentou manchar a imagem da kaichou. Aliás, o que é que você ia mostrar agora pouco, Matsuri? — Harumin tenta resgatar a conversa de antes. A vice-presidente e Shiraho ficam surpresas com a informação.

— Vocês colocam a Mei-san num pedestal em que ela não merece estar. A toda certinha da kaichou aprontou isso comigo. — Matsuri exibe a bendita foto.

Ao verem Mei agarrando o colarinho da garota do cabelo e tascando um beijo na menina, todas se chocam. Harumin fica decepcionada com Matsuri e com os olhos arregalados, e olha para a expressão de todas ao redor. Himeko está paralisada e com os olhos sem piscar, sem palavras para emitir uma opinião no momento; Nene engasga ao tomar refrigerante e precisa levar um tapão de Harumin nas costas; Shiraho-senpai, ao contrário de todas, está achando interessante ver um outro lado de Mei.

Yuzu, por sua vez, está boquiaberta, decepcionada. Como Mei pôde fazer isso, e justo com Matsuri? O que deu na mente da sua amada para tascar um beijo em outra pessoa? A loira logo lembrou que, no começo, Mei usava essa tática para calá-la. Será que o mesmo ocorreu com Matsuri? Tantas perguntas começaram a surgir. Mas a garota do cabelo rosa veio logo a esclarecer o contexto.

— Antes de voltarmos ao motivo que nos trouxe aqui, vou explicar o que a danadinha da kaichou fez. No dia em que reencontrei Yuzu-chan, vi Mei-san atravessando a avenida. Para testar uma coisa, simplesmente puxei Yuzu-chan para que a irmãzinha dela nos visse logo na esquina. E no momento certo, agarrei minha querida onee-chan e tasquei um lindo beijo nela. Mei-san viu tudo com sangue nos olhos, mas fingiu ter ignorado a cena.

— Tá, criatura. Mas e o beijo em você? Chega de rodeios, fala logo! — Harumin sente o sangue ferver. Yuzu teme pela resposta. Nene, Himeko e Shiraho apenas observam caladas pelo desfecho.

— No dia seguinte, marquei um encontro com Yuzu-chan, mas ela trouxe a irmãzinha dela. Isso me deixou possessa, já que queria a atenção da onee-chan só para mim. Toda hora Mei isso, Mei aquilo... meh! Consegui dar um jeito de Yuzu-chan sair de perto da irmã dela, e ao mesmo tempo chamei Mei-san para uma conversinha. Pedi para aquela riquinha parar de cobiçar minha onee-chan. Num impulso, Mei-san agarrou meu colarinho e me beijou por um longo tempo. Fiquei até sem ar! — Matsuri conta com um sorriso diabólico no rosto, como se estivesse se gabando de um feito.

— Matsuri, poupe-me dos detalhes, por favor. Eu acho que já ouvi demais por hoje! — Yuzu já está quase chorando com a revelação. Harumin não gosta do que ouve e quer dar um belo tapa em Matsuri pela falta de tato em relação aos sentimentos da loira. Mas a demônio do cabelo rosa continua mesmo assim.

— Yuzu-chan, você é muito sortuda mesmo. Duas pessoas disputando seu amor, mas você nem se deu conta naquele momento. Acontece que Mei-san... ela fez isso apenas para tomar de volta o beijo que roubei de você! A kaichou, na verdade, odiou ver você sendo beijada por outra pessoa que não fosse ela!

Um silêncio devastador toma conta da mesa. A revelação de Matsuri já adianta o que virá em seguida. Um rubor intenso pode ser notado no rosto da loira, que não sabe mais onde enfiar a cara; o suor frio e os olhos demonstrando algumas lágrimas começam a aparecer. Agora as amigas de Yuzu estão ansiosas pelo que ela deve falar e olham atentamente para a gyaru.

— Yuzu-chan, você... — Matsuri é interrompida pela loira.

— Matsuri, eu já entendi. Já está na hora de todas saberem! A verdade é que... ahem... e-eu... AMO A MEI! Não como irmã... mas como uma namorada!

Todas ficam admiradas com o fato de Yuzu admitir seu amor pela kaichou. Himeko, que já desconfiava do relacionamento, solta um suspiro, parte por sentir um alívio com a confissão da loira, parte pela tristeza em ter que dar a notícia do casamento de Mei. Shiraho fica feliz com a revelação e se sente orgulhosa pela amiga. A única que não desconfiava de nada era Nene, que ainda não digeriu direito o que acabou de ouvir.

Harumin sentia que algo especial rolava entre Yuzu e Mei, mas queria ouvir a própria amiga falar sobre o assunto. A caçula dos Taniguchi queria dar uma bronca em Matsuri por ter trazido a foto do beijo com Mei para a mesa, porém ao mesmo tempo achou bom que a revelação tenha sido logo agora; assim, Yuzu terá uma motivação a mais para resolver a situação com a kaichou. O que Harumin teme é o futuro do relacionamento das Aihara, considerando que as duas são legalmente irmãs e que a sociedade ainda rejeita o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Aproveitando o ensejo, a melhor amiga da gyaru decide fazer uma outra revelação.

— Yuzucchi, agora é minha vez! — Harumin respira fundo e se levanta. — EU TE AMO, YUZUCCHI!

Yuzu fica vermelha feito pimentão e sem palavras por conta da surpresa, quase caindo para trás com os olhos esbugalhados. Shiraho e Himeko olham uma para outra, querendo entender melhor a situação. Matsuri fica desapontada e olha para baixo, enquanto Nene começa a sangrar pelo nariz. As outras veem e pegam guardanapos de papel para conter o fluxo de sangue da garota. Harumin completa, só para deixar claro o que acabou de dizer.

— Te amo muito, Yuzucchi, mas como melhor amiga! — Um sorriso e uma piscadela bastam para Yuzu ficar aliviada. Matsuri solta um “ufa!” sem as outras notarem. Agora sim, as demais entendem a declaração repentina de Harumin.

Depois dessa rodada de verdades, Yuzu quer logo saber o que as amigas têm de importante para revelar a ela.

— Meninas, vocês me trouxeram aqui para falar algo importante, esqueceram disso? Podem falar agora que já sabem dos meus sentimentos em relação a Mei. Eu não sei se mantenho a esperança de vê-la novamente.

Harumin está preparada para soltar a má notícia, mas é parada por Himeko, que chama a responsabilidade para si e fala para o grupo, mirando principalmente a loira delinquente.

— Aihara Yuzu, por mais que isso me irrite, admito que você é praticamente a única pessoa responsável por fazer Mei-mei recuperar o brilho no olhar. Muitos pensam que ela é fria e insensível o tempo todo, mas sendo amiga de infância eu consegui notar uma grande diferença no comportamento dela desde que você apareceu em nossas vidas. Eu te agradeço por ter trazido minha amiga de volta, e admiro tudo o que você teve que enfrentar para conquistar o amor dela. Mas agora, Aihara Yuzu, você tem uma outra missão, talvez a mais dura até agora: impedir que Mei-mei deixe a escola e adiante o casamento arranjado pelo avô. Amanhã será o último dia dela como estudante da Academia Aihara. Por algum motivo, ela marcou uma reunião com o noivo logo em seguida, para decidirem a data e os preparativos do casório. Eu te peço, encarecidamente, que salve a Mei-mei do pior erro da vida dela!

— Momokino... — Yuzu se comove com o reconhecimento vindo de Himeko. Mas o choque em saber que o casório está próximo deixa a loira sem palavras. A sensação é como se um tiro tivesse atingido seu peito e levado sua alma junto. Por que razão o casamento está sendo apressado? A possibilidade de ver sua amada para sempre nos braços de uma pessoa qualquer, apenas para satisfazer os negócios da família, é algo que a horroriza. Só de imaginar que Mei pode construir uma família com alguém que não seja ela, Yuzu, causa um embrulho no estômago da gyaru.

Algo que não se sabe até agora é a identidade do noivo. Na cabeça de Yuzu, deve ser algum playboy arrogante, que se acha melhor que todos, ou alguém que só pensa em negócios e negócios, como o avô de Mei. Sua amada seria apenas uma esposa troféu, daquelas que os homens adoram mostrar em eventos sociais para causar inveja nos outros. Ela precisa saber urgentemente quem é esse sortudo, ou melhor, esse maldito que está quase levando sua amada embora.

— Como vou poder ir atrás da Mei, se nem sei quem é esse noivo que o avô dela arranjou? Momokino e Shirapon-senpai, vocês sabem como obter essa informação? Por favor, eu não posso desperdiçar um só minuto!

— Nós vamos dar um jeito nisso, não é, Shiraho-senpai?

— Sim, Himeko-san está certa. Você terá todo o nosso apoio para conseguir alcançar Mei-san amanhã, Yuzupon! Vai dar tudo certo, você vai poder resgatar sua princesa das garras do dragão!

As outras meninas riem com a fala de Shiraho. Yuzu fica vermelha com a comparação, mas está determinada a salvar Mei amanhã.

Notas finais
E este é o quarto capítulo desta fanfic, que promete emoções nas próximas semanas. Será que vai ter tragédia? Yuzu e Mei vão seguir caminhos separados? Será que vai ter volta? Os próximos capítulos estão bem encaminhados, já consegui ter alguns insights para adicionar mais drama. Agradeço a tod@s que estão lendo a fanfic!