As péssimas decisões de Lina Jensen
1 Prólogo
Notas iniciais
Maldito foi o dia em que fui dar ouvidos a August Santiago.
Agora aqui estou eu: perdida em uma confusão da qual não há uma saída, e só percebi isso quando acordei nesta manhã e me deparei com um homem sem camisa deitado no meu sofá, cinquenta e três ligações perdidas no meu celular -que descarregou no segundo em que cliquei para retornar a primeira-, e, bom, sem me lembrar de absolutamente nada da noite passada.
E tudo por culpa do imbecil que eu havia escolhido pra ser meu melhor amigo no primeiro ano do ensino médio, mas que tipo de adolescente perturbada da cabeça eu era pra ter escolhido justo August?
Tudo começou a exatamente cinco dias atrás, quando meu, até então, queridíssimo namorado me chutou, confessando ainda estar extremamente apaixonado pela sua ex. Mas por que raios eu só faço péssimas decisões de pessoas na minha vida?
—Não estou dizendo que foi sua culpa, é claro que não foi. Mas você conheceu o cara quando ele estava discutindo com a ex o fato dela está namorando com um homem mais velho. O que você esperava? -Gus disse assim que eu contei a ele toda a história de mais um fora que eu havia levado.
—Não foi desse jeito, quer dizer, ele tinha deixado claro que ela era passado, eu realmente achei… -comecei com as justificativas, mas logo em seguida levei as duas mãos ao rosto, me dando conta que eu realmente deveria ter percebido que o interesse dele na vida amorosa da ex não era exatamente um sinal de que ela era passado.
—Você deveria variar um pouco, Lina. Já reparou como sempre escolhe os mesmos caras que conheceu no bar e tem problemas com a ex? O bar é onde os homens vão para sofrer pelas namoradas, é um péssimo lugar para se conhecer alguém. -Gus disse como se fosse o tipo de homem que frequenta bares, eu até teria dado risada dele se não estivesse ocupada pensando na razão dos meus fracassos amorosos.
—Bom, você conheceu a Camy na fila de um supermercado, não é exatamente um exemplo de lugar para se encontrar o amor. -eu disse tomando dele o refrigerante que estávamos dividindo enquanto andávamos sem rumo pelas ruas. Camy e Gus estavam juntos há apenas três meses, mas eles tinham uma química do tipo que se chora quando chega em casa por não ter ninguém assim pra você.
—Só estou tentando dizer que você está sempre dentro dessa sua zona de conforto, nunca diria sim para um dos meus amigos, por exemplo. -ele contestou, e eu imediatamente fiz uma careta.
—Claro que não! De viciado em Star Wars cujo eu raramente entendo o que fala na minha vida, já basta você!
—“Claro que não”. -ele remedou minha voz, imitando até mesmo minha careta. -Já reparou como está sempre dizendo não?
—Isso não é verdade! -contestei imediatamente.
—Viu só?! Você é um belo exemplo de pessoa acomodada. -ele continuou, me fazendo revirar os olhos, indignada com a opinião de Gus.
—Não sou acomodada! -neguei novamente.
—Tem o mesmo corte de cabelo desde, sei lá, sempre?! Se recusa a ir em lugares que nunca foi antes, e eu duvido que um dia vá mudar de apartamento. -ele deliberou, eu já estava pronta para negar novamente, mas ele me calou, dizendo: -E não me diga que não é verdade!
—August, eu corto meu cabelo todo mês, você que não repara!
—Ah é? Duvido que você conseguiria responder sim para todas as perguntas por uma semana. -ele desafiou, me fazendo franzi as sobrancelhas, achando a ideia absurda já que nem ele poderia conseguir.
—Não vou fazer isso!
—Ai está o não de novo! Já deve ter dito pelo menos trinta só nessa conversa. -ele disse como se eu fosse a pessoa mais improvável de tentar algo novo. Mas aquilo não era verdade!
—Está mesmo me desafiando? -perguntei ao parar de caminhar, o olhando, farta das acusações sem sentido dele. Eu poderia muito bem responder apenas sim por uma semana!
—É exatamente o que estou fazendo! -ele afirmou, me lançando outro olhar desafiador. Mas Gus me conhecia bem o suficiente pra saber que eu odiava aquele olhar que duvidava de minha capacidade.
—Quer saber, sim! -topei, convencida a fazê-lo mudar de ideia.
—Sim? -ele perguntou, estranhando
—Vou aceitar o desafio! -afirmei novamente pensando que nada demais poderia acontecer.
—Aposto cem reais que você não consegue por uma semana! -ele riu da minha cara, debochando, e sabe que eu odeio quando ele faz isso.
—Aposto duzentos que eu consigo sim! -aumentei a aposta, confiante.
Gus continuou rindo, ele deu risada por, pelo menos, um minuto e depois jogou a latinha de refrigerante fora. Selamos o acordo com um aperto de mãos.
—Vai assistir Capitão América comigo hoje?
—Não, eu não gosto desse tipo de filme! -repeti pela centesima vez, até ver o olhar de Gus sobre mim, e só então me lembrar. -Quer dizer, é claro que eu vou! -acrescentei rapidamente.
—É o que eu pensei que você diria! -ele sorri, se aproveitando da minha boa vontade.
Eu deveria saber que era uma péssima aposta que só me meteria em problemas depois das duras horas seguidas assistindo ao filme enquanto Gus repetia as falas como o idiota que era. Quando acordei no dia seguinte, com o sofá ainda coberto de pipoca e Gus dormindo ao meu lado com a boca aberta, lembrei que agora eu não tinha mesmo um namorado, e que não mudava meu corte de cabelo a muitos anos. August tinha razão sobre todo aquele papo de acomodada, mas eu estava decidida a provar para ele que poderia mudar se quisesse. E ainda poderia ganhar duzentos reais por isso!
E essa foi outra péssima decisão.
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