As péssimas decisões de Lina Jensen
4 03. Mãe e Chris
Notas iniciais
But in you close your eyes, does it almost feel like nothing changed at all?
Quando acordei na sexta feira de manhã achei que estava em alguma espécie de universo alternativo, porque uma voz cantava Bastille, da banda Pompeii em som baixo, enquanto dedilhava os dedos levemente em um violão. Era a música preferida do meu pai quando ele estava vivo, e ouvi-la me fez sentir no meu décimo aniversário de novo por alguns minutos.
Mas daí me lembrei que morava sozinha, então eram mínimas as chances de alguém estar mesmo cantando para me acordar. A não ser que esse alguém fosse Ben, é claro, o desamparado que eu havia abrigado ainda não tinha ido embora?!
—O que você está fazendo? -franzi as sobrancelhas assim que abri a porta do meu quarto e me deparei com Ben sentado no chão, com as mãos no violão.
—Te pedindo uma segunda chance. -ele respondeu brevemente enquanto se levantava do chão, deixando seu violão escorado na parede. -Você ainda não faz ideia de como sou uma boa companhia, posso te provar isso!
—Como me acordar com sua maravilhosa voz ajudaria nisso? -perguntei torcendo para que ele entendesse a ironia. Na verdade, acordar ouvindo aquela música provavelmente fora a coisa mais legal daquela semana, mas ele não precisa saber disso.
—Bem, imaginei que você teria um emprego para onde ir hoje. -ele disse, arranjando uma desculpa.
—Só tenho que estar no escritório ás onze.
—São meio dia! -ele afirmou, conferindo o relógio no seu pulso.
—O quê? Claro que não, eu tenho um alarme! -insisti.
—Ele deve estar estragado, porque agora são meio dia e três! -ele insistiu, dando outra olhada no relógio. Peguei o braço dele, para conferir se era verdade. E droga, estava mesmo atrasada!
—Viu como sou uma boa companhia?! -ele diz assim que a expressão de completo terror surgi em meu rosto. Hoje era meu dia de apresentar a droga do comercial de refrigerante no trabalho! Imediatamente corri para o quarto, a procura de uma roupa agradável.
—Por que não me acordou antes? Achou mesmo que era normal eu dormir até meio dia? -berrei enlouquecida.
—Acha que posso ficar até amanhã? Vou procurar um lugar hoje ainda, mas preciso de um tempinho… -ele começou a falar, mas fechei a porta do quarto na sua cara, enquanto tirava o pijama de Ursinhos Carinhosos que só então me lembrei de estar usando.
—Ben, eu nem te conheço! Só te deixei ficar porque você me ajudou daquela vez, lembra? Mas você ainda pode ser um idiota que, sei lá, não gosta de cachorrinhos!
—Eu amo cachorrinhos! -ele gritou de volta e eu finalmente coloquei minha blusa de reunião-importante e sai do quarto, ele estava sentado no chão novamente.
—Até amanhã! Nem mais um dia! -olhei bem em seus olhos, esperando que ele percebesse meu tom de autoridade. Eu estava acostumada a morar sozinha, poder andar pelada pela casa e comer tudo da geladeira sem me importar com o fato daquilo poder ser de outra pessoa, e era assim que eu gostaria de ficar!
—Eu também gosto de gatos, gosto até de ratinhos se isso for me dar mais um tempo! -ele tornou a falar enquanto eu já andava até o banheiro, fiz o “um” com o dedo indicador antes de entrar, nunca lavei o rosto e escovei os dentes tão rápido na vida!
(...)
—Como foi o encontro com o homem perfeito de ontem a noite? -Gus perguntou assim que atendi ao seu telefonema, no meu horário de almoço.
—Sabe quando a gente experimentou pizza com açaí? -perguntei.
—Tem gosto da mistura perfeita de amor e liberdade! -ele respondeu, se lembrando da maravilhosa junção que tentamos em uma noite tediosa.
—O encontro foi melhor!
—Não acredito que vou ter que admitir que minha namorada estava certa. -Gus suspirou do outro lado da linha.
—Pode dizer a Cami que agora ela está oficialmente responsável por todos os meus encontros! -enunciei enquanto ele ria.
—E a reunião? Conseguiu dizer a Karen que ela não pode colocar um macaco falante pra anunciar um produto? -ele perguntou, curioso.
—Karen é irritantemente teimosa, e eu cheguei uma hora atrasada, ela levou essa! -eu sussurrei, Karen estava a apenas duas mesas da minha, comemorando com outras pessoas do trabalho.
—O encontro com esse tal de James foi tão bom assim?
—Não, não foi isso! Meu despertador teve uma noite ruim e resolveu descontar em mim, se não fosse pelo Ben provavelmente eu estaria na cama até agora. -contei a ele.
—Ben?
—Ben, o estranho que você deixou me levar pra casa naquela minha triste noite de bebedeira? -respondi, me lembrando que não tinha dado tempo de contar a Gus sobre o mendigo que frequentava minha casa.
—Ah, o Ben! O que ele fazia na sua casa?
—Ben tem alguns dilemas para resolver, e pediu um dia de cama grátis na minha casa, eu cedi porque senti que devia isso a ele depois do dia que ele me ajudou.
—Ele tem dinheiro? -Gus questionou rapidamente.
—Que tipo de pergunta é essa, Gus?
—Pra dividir as contas da casa! -ele explicou, como se fosse óbvio.
—Ele não vai morar comigo! Lembra do que houve da última vez que eu tive uma colega de quarto? -contestei de imediato, me lembrando da minha ex-amiga talarica.
—Ele é gay? Porque caso o contrário não precisa se preocupar com isso.
—Ele tem um filho, então isso deve significar…
—Você não anda devendo um dinheiro ao banco? Pegou um empréstimo pra comprar aquela geladeira nova, lembra? -ele me interrompeu. Eu odiava quando Gus bancava um pai, ele achava mesmo que sabia o que era melhor pra mim sendo que geralmente a vida dele é que andava um caos total.
—Eu tenho um emprego fixo, posso ser promovida a qualquer momento. Você não precisa se preocupar com as minhas contas, Gus. -reagi, após tomar um gole do refrigerante ainda não utilizado na minha frente.
—Os projetos da Karen não foram escolhidos nas últimas três vezes?
—Se você vai citar todas as desgraças da minha vida esqueceu de dizer daquela vez que vomitei na roda gigante! -retruquei, começando a me irritar com aquela conversa.
—Só estou dizendo que não seria de todo ruim se você dividisse seu apê com alguém agora. Não é por isso que você têm um quarto de hóspedes? Nunca teve dinheiro para bancar um lugar como o seu sozinha.
—Certo, você não está errado, mas eu gosto de andar pelada no meu apê, Gus! -assumi, eu estava acostumada e feliz em morar sozinha, não precisava de nada que pudesse atrapalhar agora.
—É, eu sei, da última vez que entrei de surpresa você estava bem a vontade! -ele enfatizou o "bem", citando a primeira e última vez que me pegou pelada.
—Se você usasse a campainha… -redargui, Gus tinha uma péssima mania de sair entrando no meu apê.
—Por que me deu uma chave se era para eu usar a campainha? -ele questionou, aumentando o tom de voz.
—Para emergências, é claro!
—É claro! -ele me remedou, fingindo ser um idiota por não ter percebido antes.
—Preciso voltar ao trabalho. Karen ainda vai querer me mostrar o macaco bebendo refrigerante umas quatro vezes. -falei assim que percebi um olhar inquietante de Karen na minha direção, ela amaria esfregar seu projeto na minha cara novamente.
—Pelo menos ela parou de insistir na vaca fazendo churrasco. -Gus disse citando a vez que Karen teve a brilhante ideia controversa para um comercial de carne.
—Eu achei mesmo que depois disto ela ia parar com o lance dos animais.
—Lina, acho que deveria pensar no caso do Ben, o objetivo daquela semana respondendo sim á tudo foi justamente para você poder se abrir a novas situações, mesmo que elas pareçam um pouco desconfortáveis no começo. -Gus começou outra vez o discurso anti-acomodamento.
—Gus, eu vou desligar agora! -avisei, tentando evitar a conversa, talvez porque um lado meu soubesse que ele tinha razão.
—Até mais tarde, Lina! -ele se despediu, e logo após eu desliguei a chamada. Eu já tinha participado da brincadeira de dizer sim, e havia sido péssimo, nenhuma vantagem, por que Gus insistia naquilo?
—Lina, já acabou de falar com o namorado? Junta-se a nós! -Karen gritou de uma mesa que pra mim mais parecia o inferno. Todos os olhares se voltaram para ela.
—Vou apenas fazer outra ligação! -respondi com um sorriso forçado, ela assentiu. Fiz um sinal disfarçado para o garçom trazer a conta no instante seguinte, e nesse mesmo minuto uma mensagem apitou em meu celular.
Estou indo até sua casa. Christina está com saudade.
Beijos, mamãe!
Não esperei a conta. Fui até o caixa pagar pelo almoço, e depois como o Flash até a empresa, enquanto tentava ligar para Ben, mas ele não atendia de modo nenhum.
(...)
Só consegui sair do trabalho ás seis, o que significava que só estava em casa ás seis e meia. O que quer dizer que minha mãe e Ben estavam em uma divertida conversa quando finalmente cheguei em casa.
—Lina! -Chris gritou tão alto quando me viu entrar que minha mãe tapou os ouvidos. Ela veio correndo em minha direção.
—Que saudade de você, pequena Chris! -gritei de volta enquanto a abraçava com toda a força que conseguia.
Christina é minha irmã mais nova, mas claramente não é de sangue. Diferente de mim, ela é negra e possui cabelos com cachos lindos e bem definidos, e ela é minha pessoa preferida em todo o mundo. Meus pais ficaram longos anos na busca de adotar uma criança, eles eram loucos para ter outros filhos, porém não podiam mais. Eles só concederam Chris a minha mãe algumas semanas depois do meu pai falecer.
—Quem é a melhor irmã do mundo? -perguntei enquanto ela pulava em minhas costas, fingindo que eu era seu cavalo.
—Eu! -ela respondeu rindo, enquanto eu a chacolhava.
—Nada disso, sou eu! -falei a pegando novamente em meus braços. Era incrível como ela me lembrava meu pai sendo que os dois não tinham nenhum nível de parentesco, mas eu costumava pensar que ela tinha sido enviada do meu pai especialmente pra mim.
—Filha, por que não me disse que estava dividindo sua casa de novo? Eu não teria aparecido desse jeito! -minha mãe se aproximou de mim, me dando um beijo no rosto. Ben estava sorrindo feito um idiota enquanto observava toda a cena.
—Porque não estou dividindo minha casa! -respondi franzindo as sobrancelhas para Ben, e assistindo o sorriso dele rapidamente sumir.
—Não foi isso que o Ben nos contou. -Chris interveio.
—Acho que Ben não é muito bom em ouvir. -respondi.
—Você também não é. Mãe, lembra da vez em que Lina insistiu que iria largar a faculdade? -Chris lembrou e disparou a rir, como se fosse mesmo engraçado, mas a risada dela é que me faz rir junto.
—Eu perguntei o que ela iria fazer se largasse, e ela respondeu que iria vender chinelos. -minha mãe também se lembrou.
—Como o papai. -Chris completou. Foi minha mãe quem a ensinou a falar como se meu pai também fosse o dela, mesmo que ela não tivesse sequer o conhecido.
—Isso. Como o pai de vocês! -minha mãe concordou, e um pequeno silêncio constrangedor surgiu na sala.
—Lina está me fazendo um grande favor me deixando ficar por uma semana. Obrigado mesmo, Lina. -Ben disse, se sentando junto á minha mãe no sofá, quebrando o silêncio que surgiu.
—Uma semana? -perguntei em tom alto para Ben, muito esperto da parte dele, mas eu não iria cair naquela!
—É uma bela ação, minha filha. -minha mãe disse, com outro sorriso orgulhoso no rosto.
—Uma semana, claro! -bufei irritada, Ben continuava sorrindo.
—Mãe, conta pra Lina do noivado! -Chris disse, enquanto puxava a manga da blusa de nossa mãe.
—Lina, eu e Chris não passamos só porque estávamos com saudade. -ela começou, pressenti que viria novidades ruins daí por diante. -Como você já sabe, estou com casamento marcado com o Daniel, e adoraria que você fosse ao noivado.
Comecei a rir, uma risada incoviniente e forçada, minha primeira reação quando costumava ficar muito nervosa.
—Está brincando, certo? -perguntei, mesmo sabendo a resposta. Não era nenhuma brincadeira, minha mãe iria mesmo se casar novamente.
—Daniel me pediu em casamento á seis meses, Lina. Já faz tempo que estamos adiando. -ela explicou, e eu não consegui acreditar que já tinha seis meses, na minha cabeça fora ontem que minha mãe respondeu sim ao pedido ridículo que ocorreu no meio de uma ida que todos nós demos ao parque.
—Eu achei mesmo que fosse uma piada.
—Seu pai morreu a oito anos! -ela enfatiza o oito como se eu não lembrasse, como se eu não pensasse nisso a cada maldito dia.
—O que acham de eu levar Chris para tomar um sorvete? -Ben se intrometeu rapidamente, pressentindo que aquilo era um grande problema em família.
—Não será necessário, Ben. Já estamos de saída! Chris insistiu que viéssemos apenas para deixar o convite.
—Acha mesmo que o papai aprovaria seu casamento? -perguntei enquanto ela se levantava para ir embora. Eu tinha certeza que meu pai jamais aprovaria minha mãe se casando com Daniel.
—Ele não está aqui para aprovar nada, Lina. Mas se estivesse, ele iria querer que eu fosse feliz. -ela disse me olhando nos olhos, insistindo em colocar a idade absurda na minha cabeça. Antes que eu pudesse responder, ela virou-se para Chris: -Se despeça de sua irmã, Chris!
Chris andou devagar até mim, com os olhos grudados no chão como se tivesse achado algo fascinante nos pisos da casa.
—Eu amo você! -afirmei enquanto a abraçava forte novamente.
—Eu também te amo. -ela respondeu um pouco desconfortável.
—Foi um prazer conhecer você, Ben. -minha mãe diz a Ben antes de andar até a porta.
—Igualmente. Tchau Rebecca! Tchau Chris! -ele se despediu.
—Tchau Ben, você está me devendo um sorvete! -Chris diz antes de seguir minha mãe até a saída.
—Vou me lembrar disso.
Ben fechou a porta. Ele levou os olhos até mim devagar, como se esperasse uma explicação.
—De onde tirou que eu te daria uma semana aqui? -foi só o que perguntei, irritada com a presença dele ali.
—Você me confundiu com tantos um's. Uma semana, um dia, qual a diferença afinal?
Revirei os olhos e me joguei no sofá, estava cansada demais para discutir com ele naquele momento.
—Então, deixa eu adivinhar. Seu pai morreu, sua mãe vai se casar, você está com dificuldade pra aceitar a questão? -ele se sentou ao meu lado.
—Não é tão simples. Meu pai odiava o homem com quem ela quer se casar, e ele é bem mais novo que ela.
—Sei que não sou da sua família, não sou nem seu amigo ainda, mas não acha que está sendo um pouco...
—Ben, eu vou me deitar. Tive um dia muito cheio. Só ache um apartamento logo, certo?! -me levantei do sofá, sentindo falta de ar, parecia que minha mãe tinha levado um pouco pra ela.
—Certo. -ele respondeu. Caminhei até meu quarto e liguei o som alto o bastante para afastar meus pensamentos.
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