As novas 12 casas
11 Tóquio sob rosas
Notas iniciais
Tóquio, Japão. A maior aglomeração urbana do mundo, com 38 milhões de habitantes. Cujas almas, quase todas, acabavam de ser perdidas. Em menos de uma hora, a paisagem caótica da metrópole havia dado lugar a um extenso jardim de rosas vermelhas, que cobria todas as ruas, casas e edifícios, e cuja cor se confundia com o sangue derramado por aqueles que, entrando no sono eterno, agora repousavam sobre esse infinito tapete carmesim.
Os poucos que ainda sobreviviam, o faziam escondidos nos cômodos mais reservados de suas residências. Porém, era impossível escapar do veneno desse jardim. Gradualmente, as ramas penetravam as frestas de cada porta e janela, e espalhavam-se por todos os cômodos, para proporcionar, aos que aspirassem a sua fragrância, a mais agonizante das mortes. Hemorragias severas, vazando por todos os orifícios do corpo, eram o destino final.
O trágico desígnio reservado às vítimas não era em nada parecido com a morte tranquila que Afrodite de Peixes, outrora cavaleiro do Santuário na Terra, concedia a seus inimigos. O algoz de agora, pelo contrário, não tinha compaixão alguma pelo próximo. Do alto da torre mais alta de Tóquio, o Midtown Tower, com seus 247,9m de altura, o bárbaro apreciava a sua obra de arte, que espalhava o véu vermelho até o horizonte em qualquer direção que olhasse em terra firme, sendo interrompido somente pela Baía de Tóquio.
Alguns cavaleiros haviam tentado impedir o seu trabalho, é claro. Mas, apesar de terem conseguido remover as rosas diabólicas da superfície da Midtown Tower, a fim de abrir caminho para atacar o cavaleiro de Peixes, agora eles não passavam de cadáveres secos, drenados até a última gota pelas Rosas Sangrentas.
Porém, ainda havia uma desafiante para tentar frear o genocida. Acabando de chegar no topo da torre, a amazona loira chamou a atenção do cavaleiro de Peixes.
— Ora, o que temos aqui... — disse o dourado de longas madeixas loiras e pele quase albina — Dessa vez, uma donzela, para ornamentar o meu jardim.
A amazona, de armadura cor turquesa, nada respondeu. Apenas brandiu o chicote que trazia consigo, e lançou um ataque contra o cavaleiro. A ponta do chicote viajou rapidamente pelo ar, porém apenas arranhou o rosto do dourado, que fintou a cabeça para a esquerda no último instante. A velocidade próxima a dos cavaleiros de ouro surpreendeu o pisciano. Porém ele não teve tempo de questionar esse nível de poder à amazona, pois ela logo lançou mais ataques com o chicote. Sacando uma rosa negra, o cavaleiro defletiu todas as investidas do chicote, ao mesmo tempo em que se movimentava ao redor do terraço para não ser uma presa fácil, já que sua adversária o perseguia ferozmente.
— Você é muito rápida para uma mera amazona de bronze — elogiou o dourado, entre um salto e outro pela arena improvisada.
— Cale-se! A única coisa que quero ouvir de você é o seu som engasgando em seu próprio sangue! — rebateu a amazona.
— Que voz mais doce... É uma pena, porém, que ela em nada combina com toda essa violência! — disse o dourado, que conseguiu fazer o chicote enrolar em torno de próprio punho.
Pega de surpresa, a amazona viu seu corpo ser puxado na direção do cavaleiro que, no entanto, apenas a abraçou pela cintura, como um dançarino que segura o seu par em um dueto.
— Por que não tira essa máscara para nos conhecermos melhor? — sussurrou o galante cavaleiro, aproximando seu rosto ao dela.
A resposta da amazona foi uma cabeçada, que arrancou sangue do nariz do dourado, ao mesmo tempo em que partiu a sua máscara, revelando seu belo rosto e olhos azuis. Conseguindo afastá-lo, a loira girou o chicote mais uma vez para acertá-lo. Porém o dourado rapidamente se cobriu com uma cortina de rosas, desaparecendo no meio das pétalas.
As rosas se espalharam por todo o ar do cenário, ocultando a presença do cavaleiro de Peixes. A amazona se colocou em posição defensiva, estando alerta para prever de onde viria o contra-ataque do pisciano.
— Agora podemos conversar um pouco... — ecoou a voz do dourado, que vinha de todas as direções ao redor da amazona — Para nos conhecermos melhor.
— Eu sou June de Camaleão — disse a loira — e isso é tudo o que você precisa lembrar quando estiver no inferno — disse antes de desferir mais um ataque com o chicote.
Viajando entre as nuvens de rosas, o chicote atingiu o dourado em cheio, jogando-o para a beirada da cobertura. Porém o dourado havia se defendido com sua rosa negra e, com isso, conseguiu aterrissar de forma elegante no parapeito, evitando cair para fora da torre.
— E eu sou Alucard de Peixes... Prazer em conhecê-la — disse com uma reverência.
— Não há prazer algum da minha parte — bradou June, batendo o chicote no chão e elevando o cosmo para atacar novamente.
—Quem sabe quando você estiver sentindo a sua vida esvair pelos seus dedos... — disse mostrando uma rosa branca — Aí você começa a me dar mais valor — concluiu, com uma sorriso maquiavélico.
— Vai se foder! — exclamou June, atacando mais uma vez com o chicote.
No mesmo instante, Alucard lançou a rosa branca, que viajou em um caminho em espiral em direção a June. No meio do caminho, porém, rosa e chicote se encontraram. Entretanto, o chicote rebateu-se ao atingir a rosa, como se tivesse atingido a mais sólida das paredes, enquanto a rosa sangrenta continuou seu trajeto, inalterado, até o peito de June.
No momento em que a tocaria, porém, a rosa se desintegrou em milhares de partículas de gelo, contornando o corpo da amazona no formato de um rastro de poeira cintilante.
June suspirou aliviada, porém sem entender o que a havia salvo.
Alucard também não entendeu o que havia acontecido, e colocou-se em posição defensiva quando percebeu que havia começado a nevar. Devia existir um cosmo por detrás disso tudo. Porém, ao olhar em volta, em busca do responsável por aquilo, ficou em choque ao perceber que toda a paisagem ao redor de Tóquio havia mudado do vermelho para o branco. Em apenas um piscar de olhos em que o dourado se distraíra, todo o seu jardim de mais de 2 mil km² havia sido congelado, e parara de se expandir.
— O quê... — disse embasbacado — O cosmo responsável por isso... Para realizar algo dessa magnitude... Só pode ser um daqueles homens que eu estive tentando atrair...
— Dezenas de milhões de vidas ceifadas — disse uma voz serena que havia acabado de chegar ao local — apenas para me ver? Espero que para você isso valha a pena... Pois vou te mandar para o inferno logo em seguida — disse, severo.
Era o lendário Hyoga de Cisne quem vinha caminhando atrás de June. O cavaleiro estava sem sua armadura; vestia calças e jaqueta jeans escuras. Porém, isso não fazia com que sua presença fosse menos intimidadora. Somente a pressão no ar provocada por seu cosmo já era sufocante o bastante para Alucard não conseguir se mover. E não por que os membros de Alucard estivesses contidos pelo cosmo de Hyoga, mas por que o instinto de medo do pisciano havia subitamente paralisado seus músculos. Cada célula de seu corpo dizia que aquele homem era perigosos. Alucard nunca sentira um cosmo tão terrível como aquele antes. Não entre os mortais, pelo menos.
— June... — cumprimentou-a Hyoga — Você evoluiu bastante. No entanto, não confunda coragem com tolice. Shun ficaria bastante arrasado se você morresse.
— E ele já tem muito com o que se preocupar para distrair seu tempo com isso, não é? — rebateu June, de forma cínica. — Se foi ele quem te mandou dizer isso, diga a ele que eu ainda não o perdoei — afirmou decidida, enquanto dava as costas para Hyoga e Alucard. — Parece que o Santuário está com problemas também. Portanto vou indo na frente... E deixo o resto com você — finalizou, se afastando.
Após June deixar os dois cavaleiros a sós, saltando para fora da torre, Hyoga voltou as suas atenções para o cavaleiro de Peixes, que agora já parecia um pouco menos tenso. Afinal, Hyoga ainda não passava de um mortal, raciocinava o pisciano.
— Pelo seu poder congelante, suponho que você seja Hyoga de Cisne — começou Alucard.
— Sim. Mas apenas Hyoga será mais do que o suficiente para lidar com alguém como você — rebateu, referindo-se ao fato de estar sem armadura.
— Zomba de mim? — questionou, apertando os olhos. — Não sei como você anulou uma das minhas rosas sangrentas tão facilmente, mas nem você poderá se defender se eu atacar com todo o meu poder — disse, sacando uma rosa negra.
Alucard queimou o seu cosmo até o limite, fazendo toda a torre tremer e, então, lançou uma tempestade de rosas negras sobre Hyoga, que o contornaram e se fecharam sobre ele como se fossem um tornado.
— Cardume de Piranhas! — anunciou Alucard.
O giro violento do redemoinho de espinhos com certeza estaria retalhando o cavaleiro até os ossos, pensou Alucard, pois nem mesmo se ele estivesse com uma armadura de ouro haveria como resistir a um ataque desse nível.
— É o seu fim... Você não era isso tudo como haviam me dito — finalizou o pisciano.
Porém, um turbilhão de gelo se expandiu do interior do tornado de rosas negras, liquidando todo o ataque de Alucard. E, após o tornado de gelo dispersar-se, Hyoga revelou-se intacto, sem nem mesmo um arranhão. O pisciano ficou perplexo.
— Um ataque desse nível sequer consegue atravessar o meu cosmo... Quanto mais, tocar a minha pele — explicou Hyoga.
— Que tipo de monstro é você... — indignou-se Alucard, ainda atônito.
— Círculo de Gelo... — disse Hyoga, apontando um dedo para Alucard.
No mesmo instante, vários anéis de ar frio, extremamente densos e gelados, apertaram o corpo de Alucard, impedindo-o de se mover.
— Hã? O que é isso? Está me apertando...
— Sinto muito, cavaleiro de peixes, mas depois da crueldade que presenciei aqui, eu não poderia dar a você o que você não deu às suas vítimas. Uma morte misericordiosa está fora de questão.
Hyoga elevou o cosmo, e os anéis de gelo começaram a constringir Alucard com mais força, chegando até mesmo a trincar sua armadura de ouro. O pisciano podia sentir cada um de seus ossos quebrando, um de cada vez, enquanto urrava em agonia e implorava por piedade.
— Você poderia ter implorado o perdão de suas vítimas... Mas preferiu gastar seus momentos finais para pedir clemência por sua própria alma... Chega. Não quero mais escutar os lamentos de um espírito tão vil — concluiu Hyoga.
Com um pico no cosmo de Hyoga, os anéis implodiram, fazendo voar sangue e tripas para todos os lados. Do que sobrou no chão do terraço, as únicas coisas reconhecidamente humanas, no meio daquela poça amorfa de sangue e carne, foi um olho e alguns dedos perdidos.
— Todo esse massacre... — refletiu Hyoga, virando-se para a cidade fantasma que havia se tornado Tóquio. — Apenas para atrasar o meu retorno ao Santuário. Então eles realmente acham que vão atravessar as 12 casas a tempo?
— Se eles não derem conta... Nós daremos — disse uma doce voz vinda do alto.
Surpreso por não ter notado a outra presença, Hyoga virou-se e admirou a figura que havia se revelado. Um homem de traços finos, esguio e loiro. Tão loiro que os longos cabelos eram quase prateados. Tinha olhos violetas, e trajava uma robusta armadura dourada que não era nada parecida com qualquer coisa que Hyoga já vira antes. O homem descia lentamente do céu, como se fosse uma pluma plainando gentilmente no ar. Porém, não era a armadura exótica ou os olhos incomuns que chamavam a atenção de Hyoga, mas sim, os três pares de asas, que claramente não eram parte da armadura, e que brotavam de suas costas, abrindo-se elegantemente com dois metros de extensão para cada lado. E quando o homem tocou o chão, elas se fecharam completamente, recolhendo-se para dentro de sua armadura, como se fossem feitas de éter ou de outra luminosa substância exógena.
— Portanto, Hyoga de Cisne... Ou devo dizer, Hyoga de Aquário? Por que não confia na nova geração que você ajudou a treinar, e fica aqui por mais um tempo? — disse o homem misterioso.
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