As novas 12 casas
8 Tem início a Guerra Santa
Notas iniciais
O céu azul já voltava a cobrir o Santuário. Não havia nem sinal das tempestades que, até poucos minutos atrás, agitavam a atmosfera, ou do assustador planeta vermelho que encobrira todo o firmamento. A única diferença ainda presente na paisagem era a enorme coluna de poeira, que levantava-se entre as 12 casas. E de onde ela subia, haviam somente pedras e tijolos. Onde antes estava a casa de Touro, não restava uma só parede ou pilastra em pé. Até que, remexendo-se por debaixo dos escombros, Shoryu conseguiu escavar para sua liberdade. Livrou-se dos entulhos que o encobriam, e saiu a cambalear de um lado ao outro. Ainda desorientado, procurava pelas amazonas de bronze. Pensou ter ouvido o chamado de Itsuki, e começou a escavar, até que a encontrou abraçada a Natassia. Esta última, inconsciente. Continuando a escavar, conseguiu finalmente puxá-las para a superfície, caindo com as duas em seu colo.
— Se não fossem pelas nossas armaduras que são banhadas pelo sangue de Atena — lembrou Shoryu — nós provavelmente teríamos sido desintegrados junto com a casa de Touro.
— E quanto à Inna? — perguntou Itsuki.
Shoryu apenas desviou olhar, sem dizer nada. Itsuki sabia o que isso queria dizer, mas antes que pudessem lamentar, puderam ouvir o barulho de escombros sendo levantados. Era Inna de Touro, quem se libertava para a superfície.
— Inna! Mas você está viva... — exclamou Shoryu.
— É claro que estou — respondeu sem nunca perder seu sotaque eslavo — achou que eu tivesse morrido?
— Naquele momento... Eu achei que você fosse se sacrificar — explicou.
— É claro que não, tolinho — respondeu, com expressão de perplexidade, por terem pensado que estivesse morta. — Eu apenas estava me despedindo da minha casa de Touro. As sonecas aqui eram tão boas... — lamentou.
— Eu não acredito que me fez ficar de luto por causa disso... — rebateu, sentindo-se bobo.
— E a floquinho de neve, está bem? — questionou Inna, referindo-se à Natassia, que permanecia desacordada nos braços de Itsuki.
— Está bem — respondeu a garota nipônica — ela só ainda não se recuperou depois de ter sido dominada por Epimeteu.
— Itsuki... — disse Natassia, recobrando a consciência. — Dessa vez sou eu que estou acordando nos seus braços — completou sorrindo.
— Natassia! Você está bem! — comemorou.
— Me desculpe, Itsuki — disse, entristecendo o tom de voz. — Agora eu lembro o que aconteceu comigo no dia em que encontrei Epimeteu. Ele me usou para entrar no Santuário... — disse com lágrimas brotando.
— Você não tem culpa, Natassia. Ele poderia ter feito o mesmo com qualquer um de nós. Mas o importante é que agora você está livre dele.
“Cavaleiros de Atena.” Era a voz de Kiki de Áries que ecoava em suas mentes novamente. “Eu fico feliz em ver que estão todos bem, mas infelizmente não há tempo para comemorar.”
— O que quer dizer com isso, Kiki? — questionou Shoryu, levantando-se. — Natassia já não está livre da influência de Epimeteu?
“De fato, o ataque de Inna foi intenso o suficiente para arrebatar a influência de Epimeteu para longe de Natassia. E, além disso, a senhorita Atena reforçou a barreira sagrada que protege o Santuário. Isso deve garantir que o espírito de Epimeteu não retorne ao corpo de Natassia.”
— Tá, agora vamos logo para as más notícias — apressou Inna.
“Inna, você obteve sucesso em impedir que Epimeteu trouxesse Nibiru, o mundo maldito, para a nossa dimensão. Porém... Parece que antes de fechar o portal, alguns inimigos atravessaram a fronteira para o nosso mundo. Eles não são em grande número, mas parecem ser poderosos. Pois já estão se movimentando, e devem atacar o Santuário a qualquer momento.”
— Não pode ser — disse Shoryu — O que eles podem querer no Santuário? Será que estão atrás de Itsuki, para abrir o portal novamente?
— Não — replicou Inna, segura do que estava afirmando. — Kiki, talvez seja hora de falarmos a verdade para os cavaleiros de bronze... Sobre a Guerra Santa que acaba de começar.
Deixando os cavaleiros de bronze aflitos, a voz de Kiki demorou algum tempo para retornar, como se estivesse calculando os segredos que revelaria.
“É...” concordou com Inna, finalmente de volta. “Shoryu, eles estarem atrás de Itsuki é uma possibilidade... Mas, para a usarem como chave novamente, ela teria que deliberadamente ascender ao sétimo sentido perante Epimeteu. Itsuki, acreditamos que você foi uma ferramenta fortuita para Epimeteu; que foi por acaso que ele percebeu que o seu cosmo poderia ressoar com o de Ikki. O verdadeiro objetivo dele sempre foi recuperar a Lança de Jápeto¹”.
— Jápeto, “O Perfurador de Dimensões²”? — questionou Shoryu. — Esse Titã, que hoje está trancafiado no Tártaro, é o pai de Prometeu e Epimeteu. E a arma dele era capaz de abrir qualquer dimensão, talvez até mesmo...
— Sim — disse Inna — até mesmo a dimensão proibida de Nibiru, que foi selada pelos deuses antigos.
“Foi com essa arma” continuou Kiki, “que Epimeteu abriu o portal para o mundo maldito, nove anos atrás. No entanto, os planos de Epimeteu e Prometeu foram interrompidos por Ikki de Fênix. Ikki conseguiu ferir Epimeteu, fazendo-o perder a Lança de Jápeto, mas, ao mesmo tempo, acabou se lançando na dimensão proibida junto de Prometeu. Desde então, o Santuário vem guardando a Lança de Jápeto no Templo de Atena.”
— Mas hoje, Epimeteu conseguiu reforços de peso para invadir o Santuário, não é? — concluiu Shoryu.
— Se eles pretendem subir as 12 casas — continuou Natassia, levantando-se — é nosso dever impedi-los. Foi para isso que vocês cavaleiros de ouro nos treinaram.
— Isso mesmo — concordou Itsuki, também se levantando para descer à entrada do Santuário.
“Itsuki, espere... Eu falei com o Grande Mestre há pouco, e ele ordenou que você suba ao salão dele.”
— O quê? — questionou sem acreditar.
“Nós acreditamos que você estará mais segura lá, caso Epimeteu também pretenda usá-la novamente.”
— Hm... Me parece uma boa ideia, Itsuki — observou Shoryu.
— É mesmo — concordou Natassia — e além disso, você finalmente poderá subir as 12 casas, como sempre quis.
Itsuki olhava incrédula para seus amigos, até que, aos poucos, começou a deixar escapar uma risada, que foi crescendo, até a amazona quase começar a chorar de rir.
— Itsuki?... — questionou Natassia, confusa, sem saber se devia rir também ou se devia se preocupar.
— Pessoal... — disse limpando as lágrimas — Eu não tenho mais motivos para subir as 12 casas. Depois do que se passou, eu já pude sentir com toda a certeza em meu coração que Ikki de Fênix é o meu pai... E, além disso, se esconder da batalha não é algo que a filha de Ikki faria — disse dirigindo-se à escada que levava à primeira casa. — Me desculpa Kiki, mas eu nunca fui muito boa em seguir ordens.
“Shoryu, Natassia... Vocês não vão impedi-la de descer?!”
— Me perdoe, Kiki, mas esta é uma escolha da Itsuki — rebateu Shoryu, juntando-se à Fênix em direção à primeira casa.
— Mesmo que eu quisesse, Kiki, eu não conseguiria convencê-la — deu de ombros Natassia, antes de seguir os amigos.
“Inna?!”, insistiu Kiki, para a taurina fazer alguma coisa.
— Ei, Itsuki! — gritou a amazona de ouro finalmente, quando os cavaleiros de bronze já estavam descendo os primeiros degraus. Os três pararam e se viraram, esperando o que a taurina tinha a dizer. — Você realmente iria me derrotar naquele seu terceiro ataque. — reconheceu. — Então... Você tem a minha bênção para tomar a decisão que quiser através da minha casa de Touro... Bom, ou o que sobrou dela... — desabafou, lembrando-se que a segunda casa estava reduzida a pó.
— Obrigada, Inna. Não se preocupe — disse mostrando os punhos. — No que depender de mim, nenhum inimigo vai chegar aqui!
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