As novas 12 casas
21 O ataque do Grande Mestre
Notas iniciais
Deserto das ruínas antigas de Jericó, em Israel. Com a manhã aproximando-se do fim, o sol já estava quase a pino. Do alto, no céu, levitava o Grande Mestre do Santuário, com seu elmo dourado reluzindo ao sol, e com suas alvas vestes tremulando na brisa do verão. Guiado pela localização do cosmo de Epimeteu, o Grande Mestre Shun parecia ter encontrado o seu paradeiro. O titã provavelmente se escondia debaixo de 11 mil anos de assentamentos, boa parte ainda não escavados, da mais antiga cidade da humanidade. Jericó fazia parte, junto ao restante da Mesopotâmia, do berço da civilização humana. Havia sentido em Epimeteu buscar abrigo nessas terras. Foram nelas que, na Era Mitológica, Prometeu deve ter entregado o fogo pela primeira vez aos homens. Hyoga e Shiryu haviam chegado a investigar as ruínas da antiga Mesopotâmia nos últimos nove anos, mas não estas que o Grande Mestre se deparava agora.
— Eu não queria destruir esse sítio arqueológico, porém... — lamentava Shun. — Preciso encontrar o esconderijo que esses deuses provavelmente criaram na Era Mitológica.
Levantando uma mão, Shun evocou sua técnica sobre as ruínas que repousavam abaixo.
— Tornado da Nebulosa!
Um gigantesco tornado cósmico formou-se sobre o sítio arqueológico, arrancando pedras, areia e tudo mais o que encontrou em seu caminho, até limpar completamente todas as camadas depositadas ao longo de 11 milênios. Por fim, quando o ataque cessou, Shun havia escavado uma gigantesca cratera, com cerca de 500 metros de profundidade e pelo menos 1 quilômetro de diâmetro. E, dentro dela, revelou um enorme palácio em formato de zigurate. O fato da construção ter resistido ao ataque de Shun confirmava que era aquilo que estava procurando.
A construção tinha a base quadrada, com mais de 500 metros de distância em cada lado, e quase 100 metros de altura. Porém, Shun podia perceber com o cosmo que o edifício ainda se estendia outras dezenas de metros para o subsolo, apesar de sua aparente entrada já estar revelada. Levitando para descer em uma queda controlada, Shun tocou seu pés em frente a um grande portão. Quase no mesmo instante, as enormes portas de 5 metros de altura se abriram um pouco, apenas o suficiente para sair um homem que veio receber Shun, com as portas se fechando novamente, logo em seguida.
— Não sabe bater? — disse o homem com certo mau-humor.
De estatura alta e porte físico forte, era um homem de cabelos ruivos e íris estranhamente vermelhas. Ele vestia uma elegante armadura de cor bege, que revestia quase completamente seu corpo.
— Eu já estava a alguns minutos observando lá de cima e não consegui encontrar a porta... — explicou Shun com espirituosidade. — Mas fico contente em ver que não danifiquei o seu palácio.
O homem ruivo não pareceu receber aquelas palavras com bom-humor. Fitava o Grande Mestre com certo ar de indiferença.
— Eu sei que você procura o senhor Epimeteu — começou a explicar o rapaz ruivo — Este é o palácio que ele e seu irmão construíram na Era Mitológica, logo após a criação da raça humana. Era um palácio secreto, cuja existência foi esquecida até mesmo por outros deuses.
— Por isso eu nunca li nada sobre ele nos registros do Santuário... — comentou Shun.
— De qualquer forma — continuou o rapaz. — O mestre Epimeteu não quer ser incomodado. Por isso eu devo retirar você daqui.
— E a quem eu devo a honra de me recepcionar tão agradavelmente?
— Eu sou Uriel¹ da Chama de Saturno, o Arcanjo da Proteção.
— Chama? — questionou Shun, tentando entender.
— É como são chamadas as vestimentas que nos protegem... Eu sou um dos Sete Arcanjos de Prometeu. E somos protegidos pelas Sete Chamas dos Astros, as chamas que Prometeu nos concedeu.
Eram muitas novas informações para o Grande Mestre processar. Um inimigo completamente novo, que Atena nunca havia enfrentado antes na história das Guerras Santas, estava diante de seus olhos. E Shun não tinha ideia de seu nível de força. Se era um exército que Prometeu havia formado nos últimos nove anos, pensando em enfrentar os cavaleiros lendários, então aquele homem talvez fosse capaz de rivalizar com eles. Shun havia pensado em deixar sua armadura no Santuário, para controla-la a distância caso fosse necessário defender a casa de Virgem. Mas, agora, via que seria necessário invoca-la. Retirando o elmo de Grande Mestre, soltou-o no chão. A seguir, jogou também a sua longa túnica branca, revelando seu forte tórax desnudo. Apesar dos anos servindo como Grande Mestre, seu físico continuava vigoroso.
— Hm... Vejo que você não vai se retirar por bem — grunhiu Uriel.
— Eu gostaria de resolver nossas diferenças pacificamente, mas enquanto o seu mestre não der um cessar-fogo ao ataque no Santuário e ao restante da Terra, eu não posso fazer isso — explicou Shun, quando um ofuscante raio de luz caiu do céu e encobriu seu corpo. — Por isso — continuou, após caminhar para fora da cortina de luz, revelando a armadura divina de Virgem cobrindo seu corpo — eu estou aqui para forçar as suas forças a recuarem e defenderem o seu palácio — concluiu, enquanto elevava o cosmo e materializava correntes douradas em seus braços.
Queimando sua cosmo-energia, Shun atacou com a Corrente de Andrômeda, forçando Uriel a dar um passo para o lado enquanto usava o braço para defletir o golpe da corrente triangular para o outro. Raspando pelo antebraço de sua Chama, a corrente desviou e atingiu o portão às suas costas, derrubando-o instantaneamente.
— Maldito — amaldiçoou o arcanjo, vendo que não conseguira defender a entrada.
A seguir, Shun agitou seu braço direito para trás, fazendo a corrente triangular dar meia-volta em direção a Uriel. Ao perceber o ataque pelas costas, o arcanjo saltou para o alto, deixando uma grande nuvem de poeira onde a corrente atingiu o chão. Porém, Shun não deu descanso a seu adversário, e logo em seguida agitou os dois braços, revelando inúmeras correntes douradas que subiram ao mesmo tempo em direção ao inimigo. Surpreendido, Uriel abriu os braços e pernas, cercando-se de uma intensa esfera de fogo. A intensidade das chamas foi tão forte que repeliu todas as correntes de uma vez só. Porém, Shun mais uma vez agitou seus braços para desmaterializar todas as correntes exceto uma, que assumiu a forma de uma espiral girando ao redor de Uriel. À sua ordem, a Corrente Espiral se fechou e começou a cortar a esfera de fogo em que Uriel se protegia. O arcanjo não viu saída a não ser queimar o seu cosmo ainda mais intensamente, numa tentativa de resistir ao ataque. Apesar disso, sua defesa começava a ceder, até que um vultou vermelho passou voando abaixo de Uriel, cortando a Corrente Espiral e libertando o Arcanjo de Saturno.
— O que foi isso? — surpreendeu-se o virginiano.
Antes que seus olhos encontrassem quem havia cortado sua corrente, o instinto de defesa da corrente circular, herdado em seu braço esquerdo, avisou-lhe que seria atacado. Shun, então, rapidamente invocou a Defesa Circular, encobrindo-se no momento em que aquele mesmo vulto vermelho passou por si, golpeando-o com o que pareceu ser uma lâmina. Desta vez, a corrente repeliu o ataque, não sendo cortada, e Shun não o perdeu mais de vista. Era outro arcanjo que havia surgido, dessa vez com suas asas de éter reveladas, que o impulsionavam em um voo ao redor da arena de batalha. Com uma Chama vermelha, o novo inimigo voou de volta à entrada do Palácio, onde pousou suavemente.
— Obrigado, Gabriel² — disse Uriel, pousando, também com suas asas reveladas, ao seu lado.
— Cuidado, irmão. Lembre-se que apesar de humano, esse homem já superou deuses.
Este outro arcanjo tinha os cabelos curtos e negros, além dos olhos azuis. E sua armadura vermelha era igualmente impressionante.
— Cavaleiro de Atena — continuou — por sua maneira de se portar em batalha, suponho que você seja o lendário Shun de Andrômeda, hoje Shun de Virgem. Eu sou Gabriel da Chama de Marte. Sou o Arcanjo da Força.
— Outro dos Sete Arcanjos... — observou Shun. — Tudo bem. Eu posso dar conta dos dois.
— Irmão — disse Uriel. — Onde estão Zadiel e Samael? Já deveriam ter retornado.
— Zadiel já está a caminho. Quanto a Samael, eu não sei. Ninguém sabe para onde ele foi depois da batalha com Hyoga de Aquário. Porém, eu estou mesmo é preocupado com a ausência de Miguel. Faz pouco tempo que ele acabou de sair. Eu tentei impedi-lo, mas não consegui.
— O quê? Miguel³ deixou o palácio?! — surpreendeu-se Uriel. — O que nosso irmão mais velho está fazendo numa hora dessas?
— Nem mesmo eu consigo entendê-lo, Uriel. Parece que ele não conseguiu se conter e foi atrás desse Seiya de Pégaso...
— O Seiya? — interrompeu Shun — O que esse Miguel quer com Seiya?
— Isso não é da sua conta, Virgem — respondeu Gabriel, de forma ríspida.
— É que eu me preocupo, sabe. O seu irmão pode acabar se machucando... — comentou com um sorriso confiante.
— Uriel, atacaremos juntos — ordenou ao irmão ao seu lado, depois de ignorar a provocação de Shun.
Ambos os arcanjos queimaram o cosmo e preparam-se para lançar suas técnicas. Uriel cobriu-se novamente com sua esfera de fogo. Mas, desta vez, ao invés de usá-la para defesa, projetou-a para longe de si, arremessando-a na direção de Shun. Gabriel, por sua vez, usou o braço em forma de espada para atacar, lançando um ataque cortante, similar à Excalibur, que avançou enquanto abria o chão em seu caminho.
— Fogo do Sacrifício! — urrou Uriel.
— Espada da Submissão! — anunciou Gabriel.
Shun reagiu agitando ambos os braços, fazendo com que inúmeras correntes cruzassem em sua frente, de forma a repelir os ataques e já iniciar um contragolpe. Porém, o poder combinado dos arcanjos foi maior do que Shun esperava, e seus ataques conseguiram atravessar as correntes de Shun. Atingido pelas duas técnicas, o virginiano foi arremessado contra a parede da cratera.
Demorando a se levantar, Shun percebeu que os danos sofridos iam além dos físicos. As chamas douradas de Uriel continuavam esparsas pelo corpo de Shun, mas não era sua pele que queimava, e sim o seu cosmo é que estava sendo consumido. Além disso, a Espada da Submissão de Gabriel parecia ter reduzido a força de seu espírito, fazendo com que fosse mais difícil para que Shun elevasse seu cosmo mais intensamente. A combinação dos efeitos sobrepostos dessas técnicas fazia com que o cosmo de Shun, antes em níveis divinos, caísse aos poucos.
— Não pode ser... Que terríveis técnicas são essas? — questionou.
— Nós desenvolvemos estas técnicas especialmente para vocês, cavaleiros lendários — explicou Gabriel. — Sabendo que um dia os enfrentaríamos, nós sabíamos que só os derrotaríamos se fôssemos capazes de quebrar a força de seus espíritos... Basicamente, é isso o que faz a minha Espada da Submissão. Ela te força a se submeter à vontade de Deus.
— E o meu Fogo do Sacrifício consome, aos poucos, a sua vontade de lutar — completou Uriel.
De fato, parecia que essa dupla de arcanjos tinha o que era necessário para superar Shun. Porém, o virginiano lembrou-se dos ensinamentos de seu antecessor, Shaka. Em todas as Eras, o cavaleiro de Virgem sempre foi o ser mais iluminado na Terra. Para honrar esse legado, portanto, não poderia haver espaço para dúvidas ou inseguranças no coração de Shun.
— Shaka... Shijima... Me dêem a sua sabedoria... — sussurrou para si mesmo, enquanto fechava os olhos e cruzava as pernas para sentar-se no chão.
Assumindo o Mandala Mudra, o Grande Mestre conectou-se com todo o conhecimento do universo para livrar-se de suas incertezas. Aos poucos, as chamas douradas do Fogo do Sacrifício se apagaram de seu corpo, e a força de seu espírito retornou.
— O que ele está fazendo? — questionou Uriel.
— O cosmo dele está crescendo novamente... Anulou nossas técnicas?! Não importa, vamos atacá-lo enquanto está com a defesa aberta! — ordenou Gabriel.
Mais uma vez, os arcanjos repetiram seus ataques combinados. Ambos o Fogo do Sacrifício e a Espada da Submissão romperam o ar em direção a Shun. Porém, no último instante, o virginiano abriu os olhos, momento em que mudou sua postura para o Fudô Myô-ô Mudra, e uma reluzente esfera de energia surgiu ao seu redor.
— Imobilidade Divina³! — exclamou Shun.
Ambas as técnicas se explodiram ao colidirem com o escudo levantado pelo virginiano, levantando grande quantidade de poeira. Quando baixou, Shun revelou-se intacto com sua barreira.
— Impossível... — não acreditou Uriel. — Qual o limite de seu cosmo?
Sem dar tempo para mais questionamentos, Shun desfez seu escudo ao mudar sua postura para o Dharmachakra Mudra.
— Correntes da Perambulação Eterna! — anunciou o virginiano.
Rapidamente, Shun materializou em seus braços, ainda na postura de seu último Mudra, uma grande quantidade de correntes douradas, que espalharam-se em todas as direções do cenário. Conforme as correntes avançavam, elas carregavam consigo uma nova dimensão que englobava a todos os presentes. Ao final, Shun e os dois arcanjos flutuavam dentro de uma enorme dimensão esférica, contida pelas correntes douradas em toda a sua superfície interna, e com galáxias e nebulosas como pano de fundo.
— Não pode ser... — duvidou Gabriel, olhando à sua volta. — Ele nos prendeu consigo em outra dimensão?
— Agora vocês estão presos à roda eterna de renascimento dos seis mundos — explicou Shun. — A única maneira de alguém escapar do Samsara é atingindo a verdadeira iluminação. Algo que vocês, infelizmente, ainda não são capazes.
— Verdadeira iluminação? Nós podemos simplesmente acabar com você — lembrou Uriel.
— Sim... — respondeu com um sorriso — Se me derrotarem, poderão sair desta dimensão. Mas isto não vai acontecer... Pois, aqui dentro, a vantagem é toda minha... Tempestade do Nirvana!
Mudando sua postura para o Nirvana Mudra, seu cosmo expandiu-se e, as dezenas de correntes que corriam ao redor da dimensão, na forma de um globo, repentinamente mudaram suas direções e atacaram os arcanjos no centro.
Vendo que não havia escapatória, Uriel adiantou-se para proteger Gabriel.
— Fique atrás de mim, irmão!
Abrindo os braços e as pernas, o Arcanjo da Proteção mais uma vez envolveu a si com sua ardente esfera de fogo. Mas, desta vez, Gabriel também ficou protegido dentro dela. As dezenas de correntes foram todas detidas de uma só vez quando colidiram contra as fortes labaredas do Fogo do Sacrifício. Ainda assim, os elos dourados continuavam a tentar romper o escudo de chamas do arcanjo, que por sua vez girava intensamente para repeli-las.
— Irmão, pare com isso — pediu Gabriel. — Se continuar assim, sua vida será consumida.
Uriel consumia a própria vitalidade para aumentar o poder de seu fogo sagrado, deixando Gabriel preocupado.
— Não se preocupe, irmão — retorquiu Uriel. — Mesmo que eu dê minha vida nesse escudo, ficarei contente se isso abrir caminho para a sua vitória... Preste atenção, irmão. Ao meu sinal, ataque o inimigo com todas as suas forças!
— Você não vai conseguir — alertou Shun. — A única forma de sobreviver dentro desta dimensão é atingindo o Nirvana para quebrar as correntes do Samsara. Enquanto não conseguir isso, essas correntes só ficarão ainda mais fortes.
— Não vou conseguir?! — rebateu Uriel, que já estava próximo de seu limite. — Eu vou lhe mostrar... Vou lhe mostrar como vou quebra-las apenas com a minha força!
Enquanto a esfera de fogo continuava repelindo as correntes, suas labaredas se projetavam para fora de sua superfície e, aos poucos, se enrolavam nas correntes. Então, Uriel, que ainda estava de braços abertos, como se segurasse as paredes da esfera de fogo contra as corrente, fechou-os sobre si mesmo, puxando para si todas as labaredas. A esfera de fogo foi abosrvida pelo corpo de Uriel, ao mesmo tempo em que todas as correntes foram puxadas para si. Dezenas delas retalharam seu corpo, após atravessarem sua Chama de Saturno. Porém, nenhuma atingiu seu irmão.
— Agora, irmão! — exclamou para Gabriel, que havia ficado em choque com a estratégia de Uriel.
— Ele atraiu todas as correntes para si?! — surpreendeu-se Shun.
Não querendo desperdiçar a oportunidade aberta por Uriel, Gabriel disparou e voou na direção de Shun, que não tinha tempo hábil para, no intuito de realizar um defesa, redirecionar toda a cosmo-energia aplicada em seus ataques.
— Herde toda a força da vontade de meu irmão... — dizia Gabriel, aproximando-se do virginiano — Espada da Ascenção!
Brandindo seu braço como uma espada, o Arcanjo da Chama de Marte disparou uma gigantesca lâmina dourada de energia, cortando, ao mesmo tempo, o cavaleiro de Virgem e as correntes e dimensão que englobavam a todos. Com as correntes douradas rompidas, e a dimensão partida, todas as galáxias e nebulosas que os cercavam desapareceram, os elos dourados se desmaterializaram, e Shun foi arremessado novamente contra a parede da cratera em Jericó, onde caiu ferido.
Pressionando a hemorragia do ombro esquerdo com uma mão, Shun esforçou-se para se levantar. Subitamente, voltara a sentir os efeitos negativos da Espada da Submissão, e o nível de seu cosmo caiu, fazendo com que sua armadura de Virgem perdesse a forma divina.
— Parece que a força dele está finalmente acabando... — observou Gabriel. — Irmão, continue mandando sua vontade para mim. Vou acabar com isso no próximo golpe.
Atrás de Gabriel, o Arcanjo da Chama de Saturno estava de joelhos e sangrava bastante. Mas seguia consciente e determinado.
Vendo que Gabriel levantava o braço para aplicar novamente a Espada da Ascenção, Shun começou a preparar o cosmo para ativar sua Corrente Nebulosa. Mesmo sem conseguir recuperar a forma divina de sua armadura, era a única chance que o cavaleiro ainda tinha de vencer. Porém, antes que dessem seguimento ao embate, uma grande esfera de ar frio, preenchida de cristais de gelo, veio em direção a Gabriel, por seu flanco esquerdo. Surpreendido, o arcanjo foi forçado a ficar de frente para o ataque e saltar para trás, explodindo a esfera, em seguida, com um corte de seu braço direito.
— Hyoga?! — surpreendeu-se Shun.
Pousando entre Gabriel e Shun, o cavaleiro de Aquário divino chegou ao campo de batalha.
— Cólera do Dragão! — exclamou outra voz.
Um dragão esmeralda de cosmo-energia surgiu agora sobre o flanco direito de Gabriel, que desta vez não percebeu o ataque. Repelido pelo Cólera do Dragão, o arcanjo acabou sendo levado ao chão, ao cair perto de seu irmão, Uriel.
— Shiryu... — observou Shun, ao ver o libriano pousar com sua armadura divina ao lado de Hyoga.
— Após todos esses anos, estão quase todos reunidos — cumprimentou-o Shiryu, com um sorriso confiante.
— Droga... — desabafou Gabriel, que se posicionava como um escudo para seu irmão, que continuava de joelhos — Parece que estamos em menor número agora...
Porém, antes que Shiryu e Hyoga decidissem quem assumiria o combate com Gabriel, um terceiro arcanjo surgiu em cena. Trajando uma Chama verde, caiu como um raio entre os combatentes e, ao atingir o solo, uma grande explosão de luz branca cegou e encobriu a todos, forçando-os a cobrir o rosto com os braços. Quando a ofuscante luz começou a se apagar, Shiryu pode ver que trava-se de Zadiel, o homem que ele havia conhecido em sua casa nos Cinco Picos Antigos de Rozan. Agora, porém, o arcanjo trajava a sua indumentária esmeralda.
— Trégua da Benevolência! — anunciou Zadiel, quando a explosão de luz apagou-se completamente.
Nesse instante, uma pressão esmagadora surgiu sobre Shiryu e Hyoga. Ela era tão forte que, além de terem que se esforçar para não caírem de joelhos, os cavaleiro também não conseguiam levantar seus braços. Até mesmo Gabriel, que estava atrás de Zadiel, parecia estar sendo afetado. Somente Shun e Uriel, além do próprio Zadiel, pareciam estar imunes.
— O que é isso?! — chocou-se Shiryu. — Eu não consigo fechar minhas mãos ou assumir qualquer postura de combate... Até mesmo a Excalibur está inacessível para mim.
— É verdade — concordou Hyoga. — Eu também não consigo levantar meus braços ou sequer um dedo para utilizar qualquer técnica... Que tipo de poder é esse? E que cosmo poderoso para nos dominar dessa forma...
— Até mesmo eu estou sendo afetado, irmão... — avisou Gabriel. — Por que somente Uriel e o cavaleiro de Virgem estão bem?!
— Já esqueceu, irmão? — respondeu Zadiel, de forma serena. — Quando eu expando o meu cosmo dessa forma, ninguém que tenha em seu coração a intenção de lutar é capaz de levantar um único dedo... Nem mesmo eu escapo a essa regra. Mas, como eu não pretendo lutar, eu estou livre desse efeito. Já Uriel parece não ter mais disposição para lutar devido a seus ferimentos. Talvez o mesmo se aplique ao cavaleiro de Virgem...
— O quê?! — surpreendeu-se Shiryu — Então é por isso... Nós somos obrigados a abandonar a nossa vontade de lutar...
Após aceitarem que não havia como continuarem o combate, Shiryu, Hyoga e Gabriel deixaram, aos poucos, de sentir a pressão em seus corpos, até estarem completamente livres. As armaduras de Aquário e de Libra até mesmo perderam suas formas divinas, após Shiryu e Hyoga reduzirem o nível de seus cosmos. No fim, uma trégua forçada foi estabelecida.
— Então você é um desses Sete Arcanjos, Zadiel? — questionou Shiryu, após inteirar-se das últimas informações com Shun e Hyoga.
— Sim. Eu sou Zadiel da Chama de Júpiter, o Arcanjo da Luz — apresentou-se oficialmente. — Agora, quanto ao nosso atual impasse... Se não for pedir demais, Shiryu, eu gostaria que você me retribuísse o favor de mais cedo, e me permitisse levar meus irmãos para dentro. Uriel, principalmente, precisa de cuidados urgentes.
— Favor de mais cedo? — perguntou Hyoga.
— Depois eu explico... — respondeu-lhe Shiryu. — Tudo bem, Zadiel... Cuide de seu irmão. Aceitamos seu pedido de trégua.
— Obrigado. Nesse caso... — disse, reprimindo o cosmo. — Isto não será mais necessário.
— Irmão! — protestou Gabriel, ao perceber que a Trégua da Benevolência havia sido retirada. — Você confia na palavra desse homem?
Sem dizer mais nada, Zadiel deu as costas para os cavaleiros de Atena, e puxou seus irmãos em direção ao Palácio. Hyoga fez menção de impedi-los, mas Shiryu o deteve com uma mão.
— O que significa isso, Shiryu? — questionou Hyoga. — Quanto tempo de trégua você pretende dar a eles?
— O tempo que for necessário para o irmão de Zadiel não estar mais em risco de vida. Só desta vez... Eu tinha uma dívida para pagar com aquele homem, Hyoga — explicou, pensando em sua família em Rozan.
— Não se preocupe, Hyoga — acalmou-o Shun, juntando-se aos cavaleiros. — O mais importante é que nossa presença aqui impede que eles continuem dividindo forças para atacar o resto da Terra.
— Ainda assim... O Santuário está sob ataque — advertiu o aquariano. — E esqueceu que sua filha também está lá?
— Como Grande Mestre, eu me preocupo com todos no Santuário. Mas, agora, essa batalha deve ser lutada pela atual geração. Nosso papel é impedir que esses arcanjos ou Epimeteu e Prometeu desequilibrem a Guerra Santa em seu favor.
— O Shun tem razão — concordou Shiryu. — Precisamos confiar na geração que treinamos para isso.
— Tudo bem, vocês me convenceram... Mas se algum arcanjo causar problemas fora daqui, eu não vou esperar mais e vou entrar.
Hyoga lembrou-se do arcanjo a quem decidira poupar a vida. Como havia ficado prestando atenção no cosmo de Samael após deixar Tóquio, Hyoga percebeu que, mesmo gravemente ferido, o arcanjo não retornara para o Palácio de Prometeu. O que significava que ele ainda estava em algum lugar pela Terra, movendo-se nas sombras.
Fale com o autor