As novas 12 casas
35 Nukiashi
Notas iniciais
Nos últimos minutos, Natassia esteve cuidando dos ferimentos de Christopher na Casa de Libra. Com um lenço que carregava amarrado em seu pescoço, limpava o sangue e a sujeira do rosto do cavaleiro. E com seu cosmo de ar frio, aliviava com gelo as contusões mais doloridas. No início, Christopher protestou, insistindo que deveriam partir logo para a Casa de Escorpião, onde decidiriam entre se unir ao guardião da casa, para enfrentar o próximo inimigo, ou continuar a subir as Doze Casas, para alcançar o inimigo mais avançado. Mas Natassia foi inflexível. Em agradecimento por ter tido sua vida salva, e por ter sido incentivada a superar seus limites, a amazona fez questão de retribuir o cavaleiro.
Esta era a primeira vez em que os dois tinham um momento a sós como aliados. E era estranho. Natassia percebeu que, embora se esforçasse para esconder, Christopher estava um pouco desconfortável com a situação. A cada toque delicado da amazona, cujos dedos guiavam-se pelo rosto do cavaleiro, Christopher parecia cada vez mais nervoso. Além disso, ele evitava ainda mais contato visual quando Natassia tinha que chegar mais perto. Essa situação era naturalmente propícia para o flerte entre um casal, e a garota começou a se perguntar se era por isso que Christopher estava na defensiva. Justo ele, dentre todos os cavaleiros do Santuário, reagiria assim perto de Natassia? Tendo sido uma usuária assídua da máscara, até o presente dia, a amazona nunca se sentiu segura com sua feminilidade, mas percebeu que não se importaria se fosse o caso de Christopher estar olhando para ela dessa forma. Na verdade, começou a achar até que gostaria disso.
Sangue. Muito sangue. Em poucos segundos, já havia se formado aquela poça no chão. A garota tentava, sem sucesso, estancar a hemorragia de Christopher, que já quase perdia a consciência. Depois de se perder nos poucos momentos atrás em que tudo ainda estava bem, Natassia conseguiu voltar a se focar no presente; no que havia interrompido aqueles momentos tranquilos. O tridente dourado, penetrando na base do ombro direito do cavaleiro, havia sem dúvida perfurado uma grande artéria.
— Pronto, aí está... — dizia Trasímaco, ressurgido sem ferimento algum, do alto da cratera no teto da Casa de Libra, com seu braço ainda estendido à frente. — Eu já devia ter matado ele primeiro desde o início... — comemorava, com um sorriso malicioso.
— Não! Christopher! — suplicava Natassia, amparando o novo amigo em seu colo — Resista!
— Haha... Quem diria... — ria o prateado, apesar da dor. — Quem diria que você choraria pela minha morte... Não se preocupe com isso. Eu não estou triste em morrer...
— Do que está falando? — questionou, enxugando as lágrimas, e tentando imprimir tom de ordem, para que Christopher não desistisse. — Eu não vou deixar que você...
— Pare! Me escute... — rebateu, não conseguindo mais esconder a dor que sentia. Com o olhar vago, Christopher apertou a mão de Natassia, como forma de conseguir permanecer acordado. — Eu tenho algo pra te falar... — suplicou, tentando encontrar palavras. — A minha vida toda, eu sempre fui ensinado que os bonzinhos só se ferram, e que eu tinha que ser duro para sobreviver... Mas olhe para nós agora. Sou eu quem estou morrendo... — explicou, com um sorriso amargo. — E por mais loucura que isso seja, não estou ficando triste ou com raiva... Na verdade, acho que isso me deixa aliviado... — confessou, conseguindo encontrar os olhos de Natassia. — Você ficando viva em meu lugar é a prova de que as minhas crenças estavam erradas... E isso, Natassia... Isso me deixa muito feliz... — concluiu, com lágrimas brotando em seus olhos.
O prateado ainda teve tempo de estender sua mão para tocar uma única vez o rosto da amazona, quando seus olhos viraram e seu corpo amoleceu.
— Finalmente — desabafou Trasímaco, descendo ao chão em um salto. — Eu já estava cansando de esperar... — disse sacando outro tridente de sua armadura, e girando-o entre seus dedos.
Após limpar o rosto com o braço, Natassia repousou Christopher gentilmente no chão, e levantou-se para enfrentar o inimigo que a esperava. A garota ainda permaneceu de costas, olhando para Christopher, por um bom tempo, até que seu cosmo começou a queimar com sua determinação. Natassia virou-se e caminhou ao encontro de seu oponente, deixando no ar o fino rastro de um pó de gelo, que caía de seus olhos, e carregando consigo uma película cristalina, que cobria o piso conforme a amazona avançava.
— Não precisa fazer essa cara feia pra mim — disse Trasímaco. — Logo eu vou te mandar para junto de seu namorado — prometeu, já levantando seu tridente acima do ombro, para o arremesso.
Porém, antes que o dourado atirasse sua arma, sentiu ela queimar sua mão, forçando-o a largá-la. Estava congelada. Uma das armas de libra estava completamente congelada.
— Im-possível... — assombrou-se, fitando a arma. — Para congelar o meu tridente, e a essa distância... — disse agora olhando fixamente para Natassia. — Você não só atingiu o Zero Absoluto, como também o está dominando com maestria...
— As suas armas de Libra são uma extensão distante do seu corpo — começou a explicar Natassia, em um tom severo que não era seu habitual. — Sem a cobertura adequada do seu cosmo, eu posso congelá-las mesmo a essa distância... Não deixarei mais que você use suas armas. Se quiser me derrotar, o terá que fazer em uma batalha justa.
O cavaleiro caiu a gargalhar.
— E você achou que eu preciso de minhas armas para te derrotar? Não seja ridícula. O resultado ainda será o mesmo... Você está saindo das fraldas do sétimo sentido somente agora, enquanto eu sou um dos mais poderosos cavaleiros de meu mundo há mais de duas décadas. À propósito, se você fosse inteligente mesmo, teria desenterrado aquele tridente do peito do seu namorado para usar contra mim. Mas eu vi o que você fez. Manteve o tridente no lugar para ajudar a estancar o sangramento... Foi bastante inteligente, admito, mas não sei se isso irá salvá-lo; ele já tinha perdido bastante sangue...
Cansada do cavaleiro não calar a boca, Natassia o surpreendeu com um soco à frente que disparou uma rajada de Pó de Diamante. O dourado foi fustigado pelo vento gélido, sendo arremessado para trás, mas deu uma cambalhota inversa no ar e pousou em uma base segura, mostrando então que o escudo em seu braço esquerdo havia sido congelado.
— Isso não foi muito educado da sua parte... — disse soltando a arma congelada no chão, e pegando o outro escudo do ombro para substituí-la.
— Desculpe. Eu nem percebi que você ainda estava falando.
A irreverência de Natassia tirou Trasímaco do sério.
— Tsc. Já que você quer ir direto ao ponto, vou te dar o que você quer... — ameaçou, entrando em postura de ataque. — CÓLERA DO...
Dor. No instante seguinte, o punho direito de Natassia já estava cravado no peito de Trasímaco, esmagando sua armadura. Completamente atordoado, o dourado deu dois passos para trás, sem acreditar.
— Eu não vou permitir que você continue me subestimando... — rebateu Natassia.
Em seguida, com a outra mão, a amazona deu um gancho para o alto, lançando Trasímaco mais uma vez em seu Turbilhão de Gelo. Dessa vez, o dourado veio ao chão completamente coberto de gelo. E mal ele se levantava, Natassia já estava traçando os pontos estelares de sua constelação, para desferir o golpe final.
— Des-graçada... — amaldiçoou, finalmente conseguindo se colocar em pé. — Você não me dá outra escolha, a não ser revelar o meu segredo — disse com um sorriso arrogante, e levantando um dedo do qual uma intensa luz dourada começou a brilhar. — Ação Anulatória! — exclamou, com o brilho ficando ainda mais intenso.
Antes que Natassia concluísse a preparação de seu golpe, a luz cobriu toda a Casa de Libra, cegando-a momentaneamente. E quando sua visão voltou, viu que o dourado estava completamente curado de seus ferimentos. Sua armadura não estava mais rachada ou congelada. Seu outro escudo, completamente íntegro, estava de volta ao ombro, e seu tridente, também de volta ao normal, estava novamente em seu punho direito.
— O quê?! Como isso é possível... — chocou-se a amazona, sem acreditar. — Todo o dano que eu causei... Simplesmente sumiu — observou, quando lembrou-se de checar o outro tridente. — Christopher?!
Olhando por cima do ombro, viu que aquela arma continuava onde havia deixado.
— Não se preocupe... — explicou o dourado. — Eu não faço questão de ter o meu outro tridente de volta tão rápido. No momento certo, vou esmagar as esperanças de salvar seu namoradinho... — brincou, com um olhar maquiavélico.
— Mas eu ainda não entendo... Como você pode ter se livrado de todos aqueles ferimentos? E até mesmo a sua armadura...
— Hahahahaha. Seu desespero é um deleite para os meus olhos... Escute, garota. Não importa quanto dano você me cause. Eu sempre posso revertê-lo com a Ação Anulatória... Eu sei o que você está pensando; que isso não é justo. Mas esse é o meu poder absoluto: eu sempre vou mudar a balança da justiça em meu favor! Percebe agora a diferença de nossos poderes?! Você nunca teve chance de me derrotar.
Natassia não queria acreditar que existisse uma técnica como essa, mas seus olhos não mentiam. Não só o cavaleiro, como também sua armadura, estavam completamente curados. E se isso era algo que Trasímaco podia repetir quantas vezes quisesse, então ele teria vigor infinito para continuar lutando, enquanto Natassia só ficaria cada vez mais cansada e ferida, até ser derrotada. Mesmo assim...
— Isso não quer dizer nada — rebateu a garota, mostrando sua determinação. — Se você pode reverter qualquer ferimento, então tudo o que eu preciso fazer é lançar um ataque tão poderoso... Que vai te matar em um único golpe — declarou, elevando o cosmo.
Trasímaco ficou paralisado durante alguns segundos, sem saber se o que amazona sugeria era sério, até que começou a gargalhar novamente.
— Hahahahaha! O desespero deve estar afetando o seu julgamento... Me matar em um único golpe? Se fosse simples assim, eu não estaria vivo até hoje... Mas tudo bem. Eu vou te dar a chance de ter os seus últimos resquícios de esperança esmagados! Leve o tempo que precisar para preparar seu golpe — declarou, cruzando os braços.
Por mais que estivesse determinada a elevar seu cosmo além de seus limites, Natassia sabia que Trasímaco tinha motivos para estar confiante. A amazona já havia o atingido duas vezes, de forma contundente, com o Turbilhão de Gelo, e em ambas as oportunidades ele foi capaz de se recuperar. Simplesmente atingir o Zero Absoluto não parecia ser o suficiente para derrotá-lo. A amazona precisava de algo que explorasse esse poder ao máximo. Precisava da...
— Execução Aurora? — levantou uma sobrancelha Trasímaco, vendo a postura de ânfora que a amazona assumia. — Você sabe mesmo usar a técnica suprema do ar frio? Ou só está arriscando tudo em uma aposta ridícula? Esse já é o nosso terceiro confronto, e apesar de atingir o Zero Absoluto, você nunca demonstrou capacidade de usar a Execução Aurora.
Natassia não disse nada; estava totalmente focada na execução de sua técnica. Mesmo que fizesse mais de um ano, a pupila de Hyoga ainda lembrava-se claramente do último ensinamento de seu mestre, na Sibéria. “No dia em que você dominar completamente o Zero Absoluto, somente nesse dia, use essa técnica que vou te mostrar...” Desde então, Natassia esteve repassando os movimentos dessa postura quase que diariamente, para quando esse momento chegasse.
— Vejo que você não está blefando... — comentou Trasímaco, preocupado ao observar o semblante sério da amazona, que continuava a elevar o cosmo na postura de ânfora. — Talvez seja prudente eu me preparar... — sussurrou consigo, fazendo menção de pegar seu outro escudo no ombro.
Então, no mesmo instante em que Natassia abaixou os punhos para disparar seu canhão de ar frio, Trasímaco se agachou e protegeu seu corpo atrás de seus dois escudos. Fincando bem os pés no chão, e cobrindo todos seus pontos vitais, o libriano manteve sua posição firme, enquanto sentia o rastro da Execução Aurora dividir-se ao redor de seus escudos e envolver seu corpo. No fim, Natassia esgotou suas energias, arfando exausta, enquanto o dourado levantava-se com cuidado por detrás de seus escudos. A amazona mal conseguia se manter em pé, e já não conseguia mais manter seus olhos abertos.
— Hehehe... Por um momento eu realmente temi pela minha vida — confessou o dourado.
Seus dois escudos estavam completamente rachados, em duas ou três partes, e só não se despedaçavam por estarem totalmente cobertos de gelo.
— Muito bem... Está na hora de eu usar a Ação Anulatória e acabar com isso... Hã?! O que é isso?!
Quando Trasímaco tentou arrumar a sua postura, percebeu que seu pé esquerdo estava preso ao chão, coberto de gelo. E esse gelo estava se expandindo, subindo por sua perna e começando a cobrir o seu outro pé também.
— Durante e Execução Aurora, eu plantei uma Semente de Gelo em seu pé — explicou Natassia, ainda apontando seus punhos unidos para Trasímaco, e elevando seu cosmo de ar frio. — Essa semente... Vai continuar a germinar, até que todo o seu corpo seja enclausurado em uma Esquife de Gelo.
— O quê?! O que você fez?! O que pensa que está fazendo?! — começou a questionar, irado, vendo que seu cosmo não era forte o bastante para interromper a progressão do gelo. E por mais que convocasse a Ação Anulatória, somente seus escudos e outros danos sofridos eram reparados. Mas o gelo, em suas pernas, continuava a subir.
— Como eu pensei — disse Natássia, ainda de olhos fechados, mas abrindo um sorriso cansado — a sua técnica pode curar qualquer dano causado ao seu corpo ou à sua armadura, mas não pode desfazer uma técnica externa ao seu corpo, e que está somente cobrindo a sua superfície sem te machucar.
— Isso... É ridículo! Pensa em me prender em um Gelo Eterno?! Eu vou partir esse gelo antes disso! — exclamou, vendo que os cristais já haviam chegado na altura de suas axilas.
Porém, quando tentou puxar uma de suas barras triplas das costas, percebeu que elas já estavam presas pelo gelo.
— É tarde demais... — sentenciou Natassia, ainda concentrando seu cosmo. — O seu túmulo será aqui...
— Não... Não... Não!!! — berrou em desespero.
Abafando seu último grito, o gelo terminou de cobrir Trasímaco completamente. Enclausurado em um enorme cristal brilhante, o cavaleiro parecia ainda estar gritando lá de dentro. Ficaria para a eternidade naquela forma.
— Finalmente... Está acabado — desabafou Natassia, caindo de joelhos.
Relaxando seu corpo e seu cosmo, a garota olhou e sorriu sobre o ombro na direção de Christophe. Mas sua expressão que era um misto de alívio e preocupação. Apesar de ter resolvido o problema com o inimigo, o Cavaleiro de Lagarto ainda corria sério risco de vida.
— Ora, ora... Quem diria? — anunciou uma voz masculina, que entrava na Casa de Libra a passos metálicos. — Jamais imaginei que eu viveria para ver o Trasímaco derrotado; e ainda mais por uma amazona de bronze. Bom, se bem que eu não posso falar muito... Já que eu, Richard de Leão, também fui vencido por uma.
Colocando-se em pé novamente, Natassia entrou em desespero. Mal havia se recuperado da última batalha, e já teria que lutar também contra outro cavaleiro de ouro. Richard, que fora superado por Helena de Andrômeda, escapara com vida. Sua armadura estava sem o elmo e sem a ombreira direita, e com todo o resto completamente rachado. Mas seu corpo e sua disposição pareciam ainda estar plenos.
— Vejo que você foi muito inteligente em prender o Trasímaco com esse Gelo Eterno... Aquela habilidade de cura dele é muito chata, não é? — questionou, com um sorriso de satisfação para Natassia. — Realmente, os garotos desse mundo são incríveis... — comentou, passando a admirar a resiliência daquele Esquife de Gelo. — Hã? Aquele cara caído ali atrás... É uma arma de libra no peito dele?
Com expressão séria, Natassia deu um passo ao lado, bloqueando a linha de visão entre Richard e Christopher.
— Eu acho que vou precisar dela para tirar o Trasímaco desse gelo... — refletiu, começando a caminhar na direção de Natassia.
— Eu não vou deixar! — exclamou a amazona, abrindo os braços para mostrar que bloquearia a passagem do cavaleiro.
— Hã? Mas qual o problema? — questionou com expressão ingênua, só parando de andar quando ficou frente a frente com Natássia. A garota estava nervosa com a proximidade, mas não conseguia reagir para atacá-lo. Estranhamente, o cavaleiro não demonstrava qualquer intenção hostil. — Eu percebi que a sua expressão ficou diferente quando eu vi o rapaz ali, mas ele já está morto, não é? — Natassia não dizia nada; apenas continuava a encarar Richard, para intimidá-lo. — Ah... Eu já entendi — disse o cavaleiro, olhando com eletricidade em seus olhos para Christopher. — Vejo que o coração dele ainda está batendo, apesar do pulso fraco. O tridente é o que está estancando a hemorragia dele, não é? Bom trabalho.
Richard afagou a cabeça de Natassia, surpreendendo a amazona, que não soube o que fazer além da expressão de pânico.
— Tudo bem, eu dou o meu jeito... — aceitou o cavaleiro, dando as costas para Natassia, e dirigindo-se até o Esquife de Gelo.
— Espere! — interrompeu-o, incerta de como lidar com ele. — O que você vai fazer?
— Vou quebrar esse gelo, não está vendo?
— Mas... É impossível. Sem as armas de libra, nenhum cavaleiro de ouro conseguiria abrir esse Esquife de Gelo — ponderou Natassia.
— É... Mas há controvérsias... Sabe, eu não sou um Cavaleiro de Ouro qualquer — gabou-se, abrindo um sorriso por cima do ombro para Natassia.
Voltando a encarar a Esquife de Gelo, Richard começou a elevar o cosmo, que continuou a se expandir muito além do sétimo sentido. E não era só isso. Natassia tentou correr até o cavaleiro, mas não conseguia se mover. Havia alguma coisa paralisando seu corpo. Alguma coisa que a atingia em uma frequência rítmica, atordoando seus músculos. Poderosas ondas que se propagavam pelo ar e por toda a Casa de Libra, e que vinham do corpo de Richard. Isso era...
— O batimento cardíaco dele?! — assombrou-se Natassia, quando compreendeu.
Richard abriu um sorriso arrogante, e a seguir desferiu uma Cápsula do Poder, de cima para baixo, como se socasse o chão, mas mirando a base do Esquife de Gelo. Com um enorme relâmpago abrindo uma cratera abaixo do Gelo Eterno, e subindo aos céus em um pilar de luz, o esquife partiu-se ao meio, libertando Trasímaco, que caiu no colo de Richard.
— Hora de acordar, vagabundo — disse o leonino, largando o companheiro no chão.
Após estatelar-se no chão, Trasímaco acordou tossindo e assustado, como se estivesse sem ar.
— Hã?! Onde eu estou... Eu perdi a consciência por um minuto — sentou-se, apertando os olhos com uma mão.
— Você foi derrotado por aquela amazona ali... E eu te libertei — explicou Richard, dando uma mão para Trasímaco levantar-se.
— Argh... Agora estou lembrado — recordou-se, fitando Natassia com ódio.
— Espera aí — segurou-o Richard, vendo que Trasímaco já pretendia atacar a amazona. — Deixa que eu cuido disso...
— Mas eu...
— É uma ordem — asseverou, com olhar autoritário.
Mesmo contrariado, Trasímaco assentiu, e deu um passo atrás. Richard adiantou-se, e agora Natassia percebeu que sua postura era hostil. Dessa vez, a amazona não poderia hesitar em enfrentá-lo. Assumiu postura defensiva e começou a elevar o cosmo. Mas era estranho. Apesar de Richard estar claramente com a intenção de atacá-la, não avançava mais rápido do que a calmos passos. A amazona não compreendia o que o dourado planejava, mas não tirava os olhos dele nem para piscar, até que... Richard já estava a um passo de distância.
— O quê? — exclamou Natassia, sendo golpeada na nuca, e a seguir perdendo a consciência.
Richard aparou-a nos braços. Tomando-a no colo, começou a carregá-la em direção aos aposentos internos da Casa de Libra. Trasímaco permaneceu atrás, assombrado com o que havia visto.
— Como você fez isso? — questionou, agora irritado.
— Passo Oculto¹ — explicou Richard, parando para conversar. — Você achou que já sabia tudo sobre esse velho aqui, não é? — questionou, olhando para o libriano com um sorriso confiante. — Foi o Minamoto que me ensinou esse truque. É uma combinação de passos, respiração e manifestação do cosmo a um certo ritmo, para enganar o cérebro do inimigo.
— “Enganar o cérebro”?
— A nossa consciência não reconhece tudo o que vemos, ouvimos ou sentimos. Existe um filtro para selecionar somente aquilo que é importante. O Passo Oculto consiste em se esconder no subconsciente do adversário, evitando ser reconhecido pela parte consciente. Seus olhos estavam me vendo o tempo todo, mas eu me movi a um certo ritmo em que parte da informação foi considerada e irrelevante, e não chegou ao seu consciente. Como resultado, vocês só me viram quando eu já estava prestes a atingi-la... Isso explicado, Trasímaco, estou um pouco decepcionado com você. Minamoto me alertou que essa técnica só funcionaria contra adversários inexperientes.
— Vai se foder — depois de ter sido derrotado por uma amazona de bronze, o libriano não estava aturando provocações — Mais importante que isso, por que é que você não a matou? E como é que você foi derrotado na Casa de Virgem? Eu estava prestando atenção na sua luta; você não usou o seu Coração de Leão.
— Eu fui derrotado da mesma maneira que você — deu de ombros — subestimei minha adversária.
— Não, não foi só isso... Tem algo de diferente em você... Será que... — insistia o libriano, tomando cuidado com as próximas palavras. — Será que alguma dessas garotas... Te lembrou...
— Não ouse mencioná-la— advertiu Richard, com os olhos queimando um cosmo que era uma mistura de fúria e ressentimento — Já esqueceu por que compramos essa guerra, Trasímaco?
— É claro que não. Nós juramos que não permitiríamos que se repetisse aqui o que aconteceu ao nosso mundo.
— Exatamente. E esses garotos, que estamos enfrentando agora, são tão vítimas quanto o nosso povo. A princípio, eu não respeitava os cavaleiros desse Santuário. Mas, com o passar das batalhas, comecei a perceber o quão talentosos eles são... — confessou, admirando o rosto de Natassia que dormia. — O mundo que queremos que Prometeu construa para nós pode ser o mundo deles também.
— E você acha mesmo que isso vai dar certo? Que esses jovens vão aceitar um mundo sem Atena?! Esqueceu como nosso povo também era cego por ela? Sem falar que Prometeu...
— Isso não é problema para agora — asseverou Richard, colocando um ponto final na questão. — No momento, a nossa missão é tirar a humanidade das mãos dessa deusa incompetente. Eu nunca vou perdoá-la, pela destruição do nosso mundo... Atena é uma deusa falha e destinada a ser derrotada. E quando isso acontecer, com esse mundo também, será tarde demais para esses jovens se arrependerem...
Vendo que Trasímaco já havia desistido de protestar, Richard voltou a carregar Natassia até os cômodos internos.
— Com a ajuda de Prometeu, nós vamos mudar esse destino, Trasímaco. Vamos mudar o futuro desse mundo...
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