As memórias secretas de Elliot Thompson
6 5 Capitulo: Despedidas
Notas iniciais

Estava no mais profundo dos sonos, quando meu celular começou a tocar no meio da madrugada me deixando confuso. Com o coração apertado, me sentei na cama e liguei o abajur que estava na mesinha ao lado, vendo que se tratava do número do orfanato onde cresci e atendi rapidamente.
Logo, a irmã Josephine me informou que madre Angélica, já idosa e afastada das suas funções sendo substituída pela mesma, havia passado mal e estava internada na filial do hospital Adrian Thompson em Nova York, responsável por todo atendimento hospitalar e clinico das crianças e funcionários do Orfanato Solaria.
Me informei rapidamente sobre o estado da madre, antes de prometer a irmã Josephine que estava indo o mais rápido possível para lá, para ver pessoalmente o estado da minha mãe de coração. Assim que desliguei o celular, me levantei da cama e andei em direção ao closet que havia em meu quarto, pegando uma mala pequena colocando-a aberta em cima de uma poltrona e colocando algumas peças de roupa sem prestar atenção nelas, pois a minha cabeça só conseguia pensar no quanto o estado da madre poderia ser grave.
—Elliot, querido, o que está fazendo? — Leah questionou confusa, assim que parou na porta do closet e me viu arrumando a mala.
—Eu preciso ir para Nova York, Leah. A madre Angélica precisa de mim...Ela precisa dos meus conhecimentos médicos e não posso negar ajuda a ninguém, principalmente a ela...-expliquei atordoado e minha esposa concordou, caminhando em seguida na minha direção me abraçando com carinho, deixando-me confuso com seu gesto.
—Eu sei meu amor, mas sei também que apesar de se fazer de forte, você está apavorado com a possibilidade de perder sua mãe de coração. — Leah disse suave e senti o meu coração se apertar diante dessa possibilidade.
—Não posso passar por isso de novo, Leah. Não posso perder mais ninguém que amo, porque não vou aguentar essa dor novamente. -solucei entre lágrimas e minha esposa acariciou as minhas costas com carinho, tentando me tranquilizar de alguma forma.
—Eu sei, meu amor, mas não importa o que aconteça, quero que se lembre que vou estar ao seu lado para tudo, querido. Porque somos uma família, e uma família está unida não só nos momentos bons mas nos ruins também, por isso vamos com você, não importa se será para Nova York ou para outro planeta, nós sempre estaremos ao lado do outro.- minha esposa assegurou e agradeci com carinho, antes de me afastar dela para olhar seus olhos escuros.
—Obrigado por seu apoio, meu amor, mas nossos filhos estão crescidos agora, possuem seus compromissos no Conglomerado, fora Ária que tem a sua própria família para cuidar.
—Sei disso, Elliot, mas sei também que nossos filhos jamais se negarão em viajar para apoiar o pai nesse momento ou ficar ao lado da madre Angélica, que é uma segunda avó para eles.
—Você tem razão, Leah. — disse suave e ela sorriu concordando.
—Eu sempre tenho, querido. Porque não liga para o aeroporto para organizar o nosso voo, enquanto arrumo as nossas malas, antes de ir até o quarto dos meninos para falar com eles e ligar para a Ária. — ela sugeriu e concordei, indo para o meu quarto pegando o celular e sentando na cama, ligando em seguida para o aeroporto, pedindo a liberação do nosso voo.
Assim que amanheceu, embarcamos no jatinho da família que nos levaria em direção a Nova York, para minha surpresa não só meus filhos mais novos foram comigo como a minha filha também, um fato que me deixou extremamente emocionado e orgulho por saber que eles estariam ao meu lado nesse momento tão difícil, me dando a certeza de que havia feito um bom trabalho como pai.
No momento em que desembarcamos no aeroporto, fiz questão de ir direto para o hospital porque precisava ver madre Angélica e saber se estava bem, mas todos fizeram questão de me acompanhar até o local e os agradeci, porque no fundo tinha certeza que não aguentaria passar por isso sozinho.
—Elliot. -madre Angélica sussurrou sem forças assim que entrei no quarto em que estava, sem dizer uma palavra caminhei apressado até a sua cama, me sentando ao seu lado e segurando a sua mão. — Que bom que veio...Achei que não viria se despedir de mim.
—Jamais faria isso, madre Angélica, a senhora foi como uma mãe pra mim, não importa o quanto esteja longe sempre darei um jeito de estar ao seu lado. — prometi suave segurando sua mão, enquanto olhava em seus olhos amáveis e gentis.
—Eu sei, meu querido, mas agora você tem a sua própria família e uma empresa para cuidar, se tornou um homem importante com o tempo limitado...- ela começou a explicar cansada e a interrompi negando, olhando em seus olhos para que soubesse que estava falando a verdade.
—Eu jamais esquecerei minhas raízes, madre Angélica. Se não fosse pela senhora ou pelas irmãs, jamais seria o homem que sou ou alcançado tudo que tenho hoje, mas se alguém me dissesse que poderia recuperar a sua saúde em troca de todo o meu dinheiro ou prestigio, daria tudo apenas para que ficasse saudável.- jurei entre lágrimas e ela sorriu amorosa para mim, antes de acariciar meu rosto com carinho.
—Você sabe o quanto te amo, não é meu querido? O quanto me deixa orgulha pelo homem que se tornou, Elliot. Um médico maravilhoso...Um pai incrível...Um marido exemplar e companheiro...Um amigo confiável...E um filho, sem igual. Tenha certeza que partirei em paz, por saber que você ficará bem, que terá todo apoio do mundo da família maravilhosa que construiu ao longo dos anos, meu filho. — ela sussurrou fraca e balancei a cabeça negando, começando a chorar diante da possibilidade de perdê-la.
—Por favor, não me deixe...Não irei suportar perdê-la também. — solucei desesperado, pois já havia perdido tantas pessoas amadas na minha vida que não suportaria mais essa.
—Eu também não, meu filho, mas chegou a minha hora e posso partir tranquila, Elliot, porque sei que você ficará bem sem mim. -ela assegurou carinhosa e balancei a cabeça negando. — Vai sim, meu querido. Você é mais forte do que pensa, filho. Agora me diga, Leah e as crianças vieram com você?
—Sim, madre. — disse suave, enxugando as minhas lágrimas com a mão livre.
—Ótimo, pode chama-los, por favor, gostaria muito de me despedir deles.
—Por favor, madre, não fale uma coisa dessas, a senhora irá se recuperar e viver por um bom tempo.
—É o que todos esperam, meu filho. Agora, me deixe falar com a sua esposa e seus filhos. — ela pediu e concordei beijando a sua mão com carinho, saindo do quarto e chamando Leah explicando que a madre gostaria desse despedir de todos.
Enquanto madre Angélica falava com Leah, aproveitei para conversar com o médico que estava cuidado dela me informando sobre o progresso da sua insuficiência cardíaca, da qual comecei a acompanhar de longe assim que os médicos lhe deram o diagnóstico. Mesmo morando na Inglaterra, fiz questão de procurar o melhor especialista na área para que pudesse tratar a minha mãe de coração, só que no caso dela a idade avançada e o estado clinico delicado, não era aconselhado realizarmos qualquer tipo de transplante, nos deixando como única alternativa fornecer cuidados paliativos, amenizando os sintomas e suas dores, adiando por um tempo o inevitável que havia fatalmente chegado.
—Pai, está tudo bem? — Benjamin questionou preocupado se aproximando de mim, assim que terminei de falar com o médico e o mesmo me garantiu que não poderíamos fazer mais nada, a não ser deixa-la o mais confortável possível não indicando uma transferência para o hospital em Londres.
—Não, Benjamin. Nada está bem...A madre Angélica está morrendo e não posso fazer nada...Do que adianta ter estudo, me dedicado e abdicado de tudo na minha vida quando mais novo, para me tornar o melhor médico que podia, se quando preciso ajudar alguém que amo, simplesmente não posso fazer nada?!- questionei furioso para o meu filho que respirou fundo, antes de colocar sua mão direita em cima do meu ombro, olhando no fundo dos meus olhos.
—Pai, o senhor fez tudo que estava ao seu alcance e a madre sabe disso, mas existem coisas que só Deus pode fazer, nem os médicos conseguem se não estiver na vontade dele.- meu filho disse suave e o olhei surpreso por ver que apesar de jovem, no alto dos seus vinte e sete anos, Benjamin era muito mais sábio do que eu.
—Você tem razão, meu filho. Tem toda a razão, desculpe seu pai por ter perdido a cabeça dessa forma. — disse envergonhado e meu filho sorriu compreensivo.
—Está tudo bem, pai, eu entendo. — ele disse suave e lhe dei um abraço apertado, tentando tranquilizar meu coração de alguma forma, mas logo nos separamos quando Leah saiu do quarto e pediu para nossos filhos entrarem, pois madre Angélica estava a espera deles.
Em silêncio, caminhei em direção a uma das cadeiras de plástico que estavam na recepção me sentando em uma delas, olhando para o nada enquanto minha esposa se sentava ao meu lado.
—É muito grave, não é? — Leah questionou suave sentada ao meu lado e suspirei concordando.
—Muito, o médico disse que devemos estar preparados para o pior. — expliquei e senti Leah entrelaçando sua mão a minha, tentando me reconfortar diante da dor que estava sentindo.
—Eu sinto, muito, Elliot. Se pudesse, faria qualquer coisa para que não passasse por essa dor novamente. — Leah sussurrou entre lágrimas e virei para vê-la, antes de encostar a minha testa na sua.
—Eu sei disso, querida. Se você pudesse, faria qualquer coisa para não me ver sofrer assim como eu.- sussurrei suave e Leah concordou, antes de acariciar a ponta do seu nariz com o meu tentando me confortar, mas foi impossível não lembrar do ano em que perdi meus avôs, tendo apenas um mês de diferença.
Flashback on:
—Elliot, porque ainda não retirou o afastamento do seu primo? — meu avô questionou sério, assim que ficamos a sós na sala de reuniões do Conglomerado.
—Depois de tudo que o cretino do Silvestre fez, vovô?! Não mesmo. Se o senhor esqueceu o inferno que passei ao lado da minha esposa, pedindo a Deus para que ela e Ethan sobrevivessem depois da discussão que teve com o seu neto postiço, eu não esqueci. — disse sério recolhendo as minhas pastas e meu avô suspirou.
—Elliot, você precisa perdoar o seu primo, isso aconteceu meses atrás. Graças a Deus, Ethan nasceu com saúde e é um bebê de três meses perfeitamente normal, apesar de todas as complicações que surgiram na gravidez da sua esposa.
—Agradeço a Deus todos os dias, vovô, e a São Lucas também por ter ouvido as minhas preces, mas o bem-estar do meu filho caçula não foi por obra do meu primo, foi graças a nossa fé e a força da minha mulher e do Ethan que queriam viver. Agora, se me dá licença, preciso voltar para o hospital, tenho outra reunião em vinte minutos. — disse sério pegando minhas pastas e me levantando da cadeira em que estava sentado, mas antes que pudesse sair da sala meu avô me chamou severo.
—Ainda não terminei de falar Elliot Thompson, sente-se agora nessa cadeira. — meu avô disse severo apontando para a cadeira que estava sentando, me olhando com seus olhos azuis autoritários e revirei os olhos, antes de voltar a me sentar a contra gosto no lugar que estava.
—Sei que já é um homem feito e que não tive nenhuma participação na sua criação, mas nos poucos anos em que convivemos juntos desde que voltou sei o quanto o seu coração é generoso e por isso, apelo para ele...Perdoe o seu primo, vocês dois podem não possuir laços de sangue, mas são parentes de consideração porque amo os dois como meus netos, sem distinção.- meu avô implorou suave me olhando nos olhos e suspirei contrariado, porque sabia que ele estava tentando apelar para o meu lado sentimental, para que pudesse perdoar meu primo.
—Preciso falar com a Leah primeiro, afinal, ela foi a mais prejudicada nessa história toda. — dei uma desculpa qualquer tentando encerrar o assunto, do qual já havia decidido que não perdoaria meu primo. Por mim ele poderia passar o resto da vida longe da empresa.
—Conversei com a Leah, antes de falar com você e por ela está tudo bem. Sua esposa pode não gostar do seu primo, mas não quer vê-lo brigado com a família inteira.
—O senhor pensou em tudo, não foi? — questionei sem alternativa e ele concordou sorrindo.
—Claro que sim, meu neto. Afinal, fui um homem de negócios por muito tempo, antes de você assumir a administração da nossa empresa familiar, transformando-a em um grande Conglomerado de negócios, reconhecida e respeitada mundialmente.
—Vovô, não precisa apelar para o meu ego pessoal, para tentar me convencer em perdoar o Silvestre e admiti-lo novamente no conselho. Afinal, não me resta mais nada a fazer, já que até a minha mulher o perdoou. — disse resignando e meu avô sorriu feliz, enquanto pegava o telefone que estava em cima da mesa e ligava para a minha secretária, solicitando que entrasse em contato com meu primo e pedisse que viesse até a empresa, antes de cancelar a reunião que teria a seguir.
Esperamos por meia hora na sala de reuniões, até que Paula anunciasse a entrada de Silvestre nos deixando a sós na sala, para que pudéssemos conversar de forma civilizada, pelo menos era o que esperava.
—Ótimo, não satisfeito em me banir da empresa, agora você quer me humilhar na frente do nosso avô? — Silvestre questionou sério assim que entrou na sala e nos viu sentados à sua espera.
—Eu tive ótimas razões para isso, Silvestre. Você pôs em risco a vida da minha mulher e do meu filho, duas pessoas inocentes que não mereciam a sua raiva gratuita. E se não me falhe a memória, você se vingou de mim por seu afastamento, afinal, ainda estou respondendo um processo por invasão e agressão. — disse sério olhando para o meu primo que deu de ombros, me deixando com mais raiva dele.
—Elliot, Silvestre, parem com isso agora. Por Deus, vocês são adultos e não dois moleques birrentos, mas se continuarem se comportando como tal, vou agir como um avô severo e coloca-los de castigo, proibindo-os de participar da gestão da empresa.- vovô disse severo e nos olhamos confuso, pois esse tipo de atitude não era uma característica dele que sempre foi doce e gentil.
—Isso é golpe baixo, vovô. — reclamamos e meu avô deu de ombros, indicando que nos aproximássemos para fazer as pazes.
Resignados e sem outra alternativa, me levantei da cadeira em que estava sentado e caminhei em direção ao meu primo que estava de braças cruzados, me olhando de maneira interrogativa como se estivesse à espera do meu próximo passo.
—Me desculpe por ter invadido a sua casa e ter lhe dado um soco, foi errado da minha parte, mas quando se trata da minha mulher e dos meus filhos, não consigo raciocinar direito. — me desculpei sincero olhando para Silvestre que olhou para o nosso avô, como se estivesse esperando ser dispensado dessa possível humilhação.
—Silvestre Abbott. — vovô disse sério para o meu primo que respirou fundo, antes de voltar a sua atenção para mim.
—Tudo bem. Eu te desculpo, Elliot. Me desculpe, por ter ofendido a sua esposa, por colocar a vida dela e do seu filho em risco e também por tê-lo processado. — ele disse parecendo ser sincero o que me deixou surpreso, afinal Silvestre nunca aparentou sinceridade em nada desde que o conheci. Na verdade, ele só era verdadeiro no fato de não gostar de mim.
—Ótimo. Agora quero que os dois se abracem para selar esse momento de união. — vovô pediu e o olhamos descrentes, porque uma coisa era perdoar o meu primo e outra era depois de tudo virar o melhor amigo dele.
—Vovô, o senhor não acha que está pedindo muito? — questionei e ele me olhou sério.
—Não Elliot, agora façam o que estou mandando garotos. — ele mandou sério e concordamos, antes de nos abraçamos de forma rápida e desajeitada, nos separando em seguida.
—Pronto, vovô, satisfeito? — Silvestre questionou virando para ver o nosso avô que estava com a mão no coração, antes de cair por cima da mesa.
Desesperados corremos em direção a ele, tentando socorrê-lo enquanto pedia a Silvestre que ligasse para o hospital, pedindo uma equipe médica com urgência na sala de reuniões da sede administrativa. Durante a esperava, tive que fazer uma manobra de ressuscitação no meu avô assim que ele parou de respirar, mas apesar de todos os meus esforços para mantê-lo vivo acabei fracassando e quando a equipe chegou não havia mais nada para se fazer.
—Elliot, não se culpe pela morte do vovô, você fez tudo que pode e sou a prova viva disso, mas o coração dele se tornou frágil depois de tudo que passou. Os médicos sempre nos alertaram sobre a possibilidade de um infarto fulminante, mas tenho certeza que ele só aguentou mais alguns anos para que pudesse conviver com o neto perdido dele. Apenas tente não se culpar pela morte dele, pois sei que o vovô não gostaria disso.- Silvestre disse gentil em pé ao meu lado no cemitério, diante do tumulo do nosso avô que ficava no jazido da família, antes de sair do local sem olhar para trás.
E no fundo sabia que meu primo tinha razão, porque onde quer que estivesse meu avô ficaria triste em saber que estava me culpado por sua morte, quando não era verdade, pois havia feito de tudo para salvá-lo.
Só que um mês depois minha avó partiu dormindo, totalmente serena em seu quarto. No fundo, sempre soube que ela não aguentaria viver longe do homem que sempre amou e estive ao seu lado durante anos, mas tive que me conformar e viver um dia de cada vez, pois a minha família dependia de mim e meus avôs desejavam que fosse feliz, apesar de sentir imensamente a falta deles todos os dias.
Flashback off:
Depois que todos se despediram de madre Angélica, fiz questão de passar a noite ao seu lado segurando sua mão todo o tempo sem dormir, pois não queria perder nenhum momento ao seu lado. E com os primeiros raios de sol, a mulher mais gentil e doce, a qual considerava uma mãe me deixou serena e em paz, me fazendo prometer que seria feliz e cuidaria do orfanato assim como das crianças de lá.
E em seu leito de morte, jurei que cuidaria do orfanato que me acolheu assim como de todas as crianças que viviam ali, só não sabia ainda como fazê-lo.
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