As memórias de McGonagall
1 Capítulo único
Notas iniciais
Depois de muito tempo procurando fanfics desse casal, eu acabei decidindo escrever um pequeno trecho sobre eles.
Eu não costumo shippar ou escrever sobre casais heterossexuais (risos), mas não consegui resistir ao impulso.
A madrugada já ia alta quando Minerva finalmente enrolou os pergaminhos que estavam espalhados sobre a mesa e os acrescentou ao amontoado de folhas já revisadas. Tantos anos ensinando e os alunos ainda tentavam enganá-la, com a crença de que colocar algumas palavras floreadas nas frases seria o suficiente para que ela não percebesse a cópia descarada que haviam feito das páginas do livro.
Já há alguns anos que Minerva McGonagall era a diretora de Hogwarts e, em teoria, seu cargo de professora deveria ter sido passado adiante. No entanto, nenhum substituto a altura foi encontrado, de modo que ela continuou com as aulas, para o desespero de alguns de seus alunos.
Apenas um aceno com sua varinha e todas as velas que iluminavam a sala se apagaram. Ela suspirou, conforme as pessoas nos quadros resmungavam algo que ficava entre “finalmente” e “vou pedir para me mudarem de lugar”. Apenas o último quadro perto da porta permaneceu em silêncio, seu ocupante continuou sentado, com as mãos cruzadas sobre as pernas e um olhar terno no rosto. Ele, mais do que ninguém, compreendia.
—Albus.... – Minerva o encarou, seus óculos embaçaram levemente quando as lágrimas teimosas insistiram em se acumular em seus olhos.
—Boa noite, Minerva – Ele sorriu então.
—Boa noite – Era sua deixa e ela sabia. O momento de deixar a sala para trás e ir para o quarto onde nenhum quadro a veria quando o cansaço prevalecesse sobre a força.
Minerva passou pela porta entreaberta que dividia a sala do quarto e a fechou, recostando-se na madeira por alguns minutos. Aqueles cômodos eram sua casa há mais de cinquenta anos e, naquela altura, ela saberia reconhecer todas as pedras das paredes apenas pelo tato. Cada professor que escolhia viver na escola, tinha um aposento parecido, que variava apenas de tamanho e localização, já que os diretores das casas deviam ficar próximos aos alunos.
Cada professor podia decorar e redecorar seus aposentos pessoais, como bem entendesse. De forma que o ambiente se tornava um reflexo de seu ocupante. McGonagall revirou os olhos ao lembrar do escritório de Horácio Slughorn, com tantas cortinas, almofadas e uma pompa que nem mesmo Dumbledore apreciava, em suas melhores épocas. Ele bem que havia tentado convencê-la a conhecer seu quarto e essa lembrança fazia seu estômago se embrulhar mesmo tantos anos depois.
Os aposentos de Minerva mostravam sua personalidade. O escritório contava com uma escrivaninha, uma mesa para duas pessoas e duas paredes cobertas por estantes de livros. O que deixava espaço o bastante para alguns quadros que ela ainda mantinha, apenas como lembranças de seus entes queridos. O quarto seguia a simplicidade do restante, com a cama ocupando o centro do aposento, uma penteadeira e dois baús, entre os quais se dividiam pertences pessoais e itens de uso mágico. Tudo muito rígido e austero, como a própria professora.
É claro que, em sua posição atual, Minerva bem poderia ter ocupado os aposentos do diretor da escola e, de fato, passava boa parte do dia no escritório que outrora fora de Dumbledore. No entanto, quando a noite caía, o silêncio tornava as lembranças barulhentas demais para que continuasse sentada naquela mesa, olhando para aquelas paredes que tanto tinham para lhe dizer. Era inimaginável, para ela, passar a noite no quarto acoplado a sala do diretor, que ainda era carregado pelo perfume de Albus.
Minerva sentou-se diante do espelho e desprendeu o coque que, como sempre, estava firmemente preso na altura da nuca. Os cabelos grisalhos caíram em ondas até alcançar sua cintura e ela os puxou para a frente, passeando a escova entre os fios, metodicamente. Houve um tempo, há vários anos, em que se sentara naquele mesmo lugar e escovara seus cabelos negros, macios como a mais pura seda. O futuro parecia razoavelmente bom, naqueles dias.
Uma lágrima solitária desceu pela pele de sua bochecha e a professora piscou rapidamente, como que para afastar as outras que viriam depois dessa.
Desde a morte de Dumbledore, Minerva se pegava cada vez mais absorta em seus pensamentos, buscando por entre suas lembranças qualquer momento no qual pudesse ter tomado outro caminho. Tanto ela como o ex diretor, eram focados em seus deveres e responsabilidades. Cada qual por seus motivos, obviamente. Ainda assim, sempre parecia não haver tempo para aqueles sentimentos tão intensos que permaneciam, mesmo após tanto tempo.
Durante os anos de estudo em Hogwarts, Albus fora o professor de Transfiguração de McGonagall. Ela se lembrava com muita clareza da admiração que sentia pelo professor e sua magia, o que cresceu ainda mais quando, ao revelar seu desejo de se tornar um animago, Dumbledore foi o primeiro a apoiá-la e não mediu esforços para ajuda-la durante todo o longo e cansativo processo.
Já naquela época, os sentimentos de Minerva eram voltados para a excelência em uso de magia, algo que dominava muito bem. Ela pouco se afetava pelos rapazes da escola e se dedicava quase que com exclusividade aos estudos e aos treinos de Quadribol.
Sua primeira paixão foi tão intensa quanto curta. Preferiu deixar o homem trouxa para trás a ter que esconder sua varinha embaixo da cama pelo resto da vida, como a mãe fazia. Ainda que tivesse sentido falta do rapaz, em algumas ocasiões, jamais se arrependeu daquela decisão.
A segunda paixão foi tão longa quanto sua própria vida e disso ela bem sabia. Aconteceu de repente, ou nem tanto, quando Dumbledore se tornou diretor de Hogwarts e a contratou para dar aulas de Transfiguração em seu lugar. Subitamente, Minerva percebeu sua admiração pelo antigo professor crescer em dimensões alarmantes, até que os olhos claros do homem pareciam surgir mais em seus pensamentos do que as palavras do Encantamento que eles estavam discutindo, horas mais cedo.
Seu casamento fora sem paixão. Um arranjo do destino que McGonagall usou para tentar extrair de sua mente o colega de trabalho. Não foram anos ruins, obviamente, Urquart era um homem amável e havia sido um marido dedicado, que a fez tão feliz quanto pôde, no tempo em que estiveram juntos. Com exceção dos anos em que ainda vivia com os pais, na infância, aquela fora a única vez em que realmente esteve envolvida com a própria família, sempre que os sobrinhos a visitavam em Hogsmeade e Urquart providenciava uma festa natalina digna de aplausos.
Minerva nunca chegou a amá-lo, mas se afeiçoou a Urquart de tal forma, que quando ele faleceu, sentiu-se completamente só, pela primeira vez. Antes de seu casamento, a bruxa jamais experimentara a solidão, estando sempre mais do que contente com a companhia de seus livros e da própria magia. A proximidade de outras pessoas nunca fora uma de suas necessidades primárias e, de repente, se viu chorando copiosamente pela solitude.
Foi quando Dumbledore se aproximou outra vez. Ele era um bom amigo, era gentil e eles poderiam passar horas conversando e dividindo uma boa cerveja amanteigada, o assunto simplesmente não acabava. O único problema é que o coração de Minerva se enchia com a presença do bruxo, que parecia estar sempre por perto.
O primeiro beijo foi quase um acidente. A madrugada acabou como a única testemunha dos lábios que se encontraram após a terceira caneca de cerveja e depois um pedido de desculpas de ambas as partes, o assunto foi, supostamente, esquecido.
Ela tinha dúvidas de que o gesto significara para Albus, o mesmo que para si. Nas noites silenciosas, enquanto esperava pelo sono, a lembrança dos lábios do diretor contra os seus se destacava dos planos para aulas do dia seguinte, das detenções que tinha que aplicar e das velhas desavenças com Severus.
Foram necessários vários meses até que o tema viesse à tona. Albus permanecera calado durante boa parte da noite, quando após os alunos terem se recolhido, alguns professores se reuniram para celebrar a noite das bruxas. O suco de abóbora fora devidamente substituído pela cerveja amanteigada e há muito que a lua estava alta no céu, quando alguns deles começaram a se retirar.
O escritório do diretor foi ficando vazio, à medida que cada professor retornava para seu próprio aposento e logo, apenas Snape continuava entre os dois. O homem, perspicaz como sempre, não precisou que qualquer palavra lhe fosse dita antes de se levantar, resmungando qualquer coisa sobre assuntos não resolvidos de casais estarem tornando o ambiente ainda pior e partir, levando consigo um cálice de vinho, que tomara do estoque particular de Dumbledore.
—Creio que eu também devo me retirar – Minerva comentou, se levantando. Albus, porém, pousou suavemente sua mão sobre a dela e lhe sorriu.
—Por favor, Minerva. Fique.
E ela ficou.
Ficou e viu, pela primeira vez, o diretor se perder em suas palavras, buscando dizer que não conseguia afastar a memória do beijo trocado. Ficou e eles se beijaram outra vez, e outra, e outra. Ficou até o dia seguinte, quando despertou em meio aos lençóis cor de azul céu, amparada pelos braços de Dumbledore.
Mas eles eram focados demais, responsáveis demais e não houve outra noite como aquela. Eles sabiam que os sentimentos estavam lá, deveras intensos para serem ignorados e, ainda assim, foi exatamente o que fizeram.
As aulas continuaram, Hogwarts continuou.
Então o menino Potter chegou e, com ele, mais problemas do que haviam visto desde a ascensão de Voldemort. Todos os dias ofereciam um desafio, um perigo diferente e o diretor ficava mais e mais preocupado, à medida que os anos passavam e os sinais do retorno do Lorde das Trevas se tornavam mais claros.
E é claro que ele voltou.
Voltou e levou aquele a quem Minerva McGonagall mais amava.
Dumbledore também sabia que isso ia acontecer e, por essa razão, bateu na porta de seu escritório em uma noite tempestuosa. Ele nunca antes havia parecido tão velho. De repente, era como se todos os anos acumulados tivessem recaído sobre o homem de uma só vez. Seus olhos, no entanto, continuavam tão brilhantes quanto antes e Minerva agarrou-se a essa luz para escutar tudo o que lhe foi dito.
É claro que ele não disse tudo. Nunca dizia.
Deitaram-se na cama dela, vestidos e permaneceram abraçados. Iluminados apenas pela luz dos relâmpagos, sussurraram aquele segredo que não lhes era secreto há muitos anos.
—Eu te amo, Albus – Minerva falou para seu reflexo no espelho. A escova, apertada entre os dedos finos, fora há muito esquecida de sua tarefa para com os cabelos e as lágrimas vinham com uma frequência quase absurda agora.
Ela acabara adormecendo, naquela noite e ao acordar, Dumbledore já havia partido.
Minerva não o viu outra vez.
Se ao menos, em algum momento, eles não tivessem sido tão ligados as suas obrigações e ambições próprias. Poderiam ter estado juntos, formado sua própria família, mesmo que já não tivessem idade para pensar em filhos.
McGonagall riu para si mesma, sem muito humor, ao contemplar a ideia de que poderiam ter adotado Harry Potter. O menino certamente teria estado protegido. Ambos eram poderosos, teriam cuidado dele muito melhor do que os parentes trouxas, que fizeram apenas o maltratar durante tantos anos.
Seus dedos trêmulos fizeram automaticamente a trança que usava para dormir. Deitou-se, mas continuou encarando o teto escuro por muito tempo, permitindo que sua memória a levasse para dias e épocas específicos, onde Albus ainda sorria para ela.
Uma de suas lembranças prediletas, era o baile. Ainda que aquela noite tenha antecedido acontecimentos trágicos no Torneio Tribruxo, era uma das que mais gostava de lembrar.
Albus a chamara para dançar e eles estiveram tão próximos. Os olhos dele faiscavam de encontro aos dela, isso fez seu coração acelerar o bastante para pensar que poderiam estar juntos, após o baile. Se Minerva olhasse com mais atenção para o passado, percebia que o diretor havia pensado o mesmo e talvez, se não fossem tantas as preocupações e deveres, teriam tido mais do que um beijo terno, trocado pouco antes de cada um se recolher para seu próprio quarto.
Agora tudo o que restava eram os quadros, as figurinhas dos sapos de chocolate e suas próprias memórias, tão doloridas. Aquele homem fora seu mentor, seu amigo, o amor de sua vida e já não existia mais. Aquelas mãos já não voltariam a segurar as dela, aqueles olhos não brilhariam em sua direção.
Mas as aulas continuavam, Hogwarts continuava.
Minerva McGonagall continuava, mesmo que nem sempre soubesse como.
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