As memórias da casa na colina
1 Capítulo único
A casa ficava em cima de uma colina, relativamente perto da cidadezinha tão ao norte que era coberta de gelo pelo inverno. A quantidade de cômodos e seu tamanho eram bem menores do que Shoto estava acostumado, mas era mais do que suficiente para uma pessoa sozinha.
Assim que passou pelos portões de grade, notou os galhos secos de uma árvore morta, mal sustentando um pequeno balanço a ranger sob o vento suave. Agora, podia vê-la através dos vidros da janela de madeira empoeirada. Há muitos anos ninguém vivia naquele lugar. Algo sobre um acidente grave no passado assustava os possíveis compradores. Pelo menos os humanos.
Shoto levantou os braços e as velas do lustre castiçal se acenderam, tingindo o ambiente com uma luz amarelada. Prosseguiu então com a retirada dos panos brancos de cima dos móveis da sala, revelando um sofá e uma poltrona vermelhos, uma mesa de centro de madeira escura igual à moldura da lareira, e uma antiga cristaleira cheia de louças de porcelana que pareciam nunca ter sido usadas. Não chegou a olhar a cozinha ou a sala de jantar, uma vez que lhe eram inúteis, pois vampiros não preparam comidas, e seguiu logo para o corredor que levava aos quartos. Eram apenas dois deles.
O primeiro tinha uma cama de casal grande no centro, com belos armários escuros e mesas de cabeceira dos dois lados. Embaixo da janela, uma mesa com vista para o jardim. Era adequado.
O segundo quarto ficava no final do corredor perto do banheiro. Assim que a porta se abriu, um ar gelado se espalhou por toda a casa, apagando todas as velas até então acesas. Shoto não estremeceu, o frio não o incomodava sob nenhuma circunstância. Viu uma pequena cama de solteiro, uma velha estante de livros e um armário embutido ao lado de um espelho de corpo inteiro.
Uma pequena exclamação se formou em sua garganta.
Obviamente, ele não tinha reflexo, mas a pessoa parada na porta sim. Olhou para trás, instintivamente, procurando-o, mas apenas se via o umbral pintado de branco, como a maioria dos móveis ali. Olhando de volta para o espelho, porém, estava claramente lá, ainda que transparente e distorcido, a figura de um jovem de costas, como se estivesse checando o corredor. Como se não tivesse nem ao menos notado a presença do novo dono da casa naquele cômodo.
— Olá — Arriscou contatá-lo.
Bem devagar, como um animal assustado, ele foi se virando, até que um par de olhos bem verdes se fixaram no garoto no meio do quarto. Aquela foi a primeira vez que um espírito causou um arrepio nas costas de Shoto a ponto de não conseguir se mexer. Antes que pudesse organizar os pensamentos, porém, o outro escapuliu pelo corredor afora para não ser visto mais durante todo o dia.
A rotina daquele lugar era lenta e pacata. Shoto saia para caçar algumas vezes por mês apenas, contrariando os excessos aos quais sua família era acostumada. Em pouco tempo, rumores sobre um milionário habitando a casa assombrada da colina tinham se espalhado pela cidade, por isso ele precisava tomar cuidado para não ser associado à qualquer morte e o melhor jeito de fazê-lo era não matar. Já tinha idade para se controlar nesse aspecto, afinal.
Durante todo o dia, se podia ouvir murmúrios ou o som de passos por lugares aleatórios. Às vezes utensílios caíam sozinhos ou mudavam de lugar, velas se apagavam e até mesmo o lustre balançava sem vento. Era como se o garoto do espelho estivesse querendo espantá-lo para fora da casa. No entanto, a curiosidade de Shoto só aumentava quando ele lembrava da sensação de seu primeiro contato.
Por mais imprevisível que fossem os fenômenos, nenhum era realmente ameaçador. Desta forma, cedo ou tarde iriam se habituar um com o outro, como colegas a dividir a casa. Assim pensou.
Era uma noite sem lua. Havia acabado de acordar e se sentou na cama, ainda sonolento. Estava com um pouco de sede e, portanto, pouca paciência. Abriu a porta do armário e escolheu uma calça jeans e um suéter preto para sair. Virou-se, por um momento, para pegar o sobretudo pendurado no cabideiro, quando a pequena caixa de música começou a tocar sozinha na escrivaninha. Mesmo que estivesse acostumado com a presença do outro morador desconhecido, não gostava quando ele mexia em seus pertences pessoais e não estava a fim de deixá-lo impune assim.
Com velocidade sobre humana, puxou o lençol da cama e jogou bem no espaço vazio na frente da mesa. Piscou por um instante, incrédulo. O pano branco tinha tomado a forma de uma pessoa, ainda que não houvessem pés pisando no chão na parte de baixo. Shoto sabia que se tentasse revelá-lo, o menino sumiria, portanto apenas tomou fôlego para discutir.
— Você está proibido de tocar nisso.
— S-saia.
Ficou um tempo sem reação, incapaz de decidir se havia mesmo ouvido aquela palavra murmurada em resposta. Contudo, o tecido se moveu, como se o espírito o estivesse ajeitando para funcionar como uma capa. Pontas de dedos escuras saíram de baixo do lençol e revelaram um rosto pálido, cheio de sardas. Os mesmos olhos verdes com olheiras profundas de antes agora o encaravam de perto. Novamente, um arrepio se espalhou pelas costas do rapaz, desde a lombar até o couro cabeludo, deixando-o incapaz de se mover. Não era medo. Esticou o braço para tocá-lo na bochecha, sentindo borboletas se embaralhando no próprio estômago, mas seus dedos só alcançaram o vazio gelado, atravessando a pele transparente. O tom de voz dele era tímido, mesmo que tentasse soar ríspido:
— V-você não é b-b-bem-vindo na minha casa...
— Eu comprei essa casa e agora ela é minha. Não pretendo fazer nada contra você a menos que mexa nas minhas coisas pessoais. Eu deixei o seu quarto intacto, não deixei?
— Esse aqui e-era o quarto da minha mãe...
Os dois rapazes se encararam. Quanto mais Shoto reparava, mais intrigante o outro lhe parecia. No entanto, não podia se dar por vencido ou aquele desentendimento entre eles nunca iria se resolver.
— Essa caixa de música era da minha mãe. Ela… enlouqueceu e foi embora por causa dos maus tratos do meu pai. Então eu vim aqui para morar sozinho, da mesma maneira que você vive. O que aconteceu contigo nessa casa?
— Sozinho… faz tanto tempo… E-eu não sei...
— Não lembra o que aconteceu?
— Não.
Shoto abaixou os olhos, pensativo. Pelos rumores, a casa estava vaga há pelo menos 150 anos e, portanto, nenhuma pessoa conhecida daquele menino ainda estaria viva. Uma alma penada com desejo de vingança ou apegada à algum objeto era relativamente fácil de lidar, mas alguém que não sabia sequer o motivo de sua morte ou de ainda estar ali, normalmente podiam vagar por séculos sem nenhum tipo de ajuda. Um forte desejo de salvá-lo se apossou do jovem vampiro, mesmo que isso lhe soasse absurdo.
— Você lembra do seu nome?
— Izuku… Midoriya, Izuku.
— Todoroki Shoto, prazer.
Os dois se curvaram, mas quando Shoto levantou a cabeça, encontrou apenas um lençol branco caído no carpete escuro. Esticou o braço e pegou-o, com a delicadeza de sua espécie, sem poder deixar de levá-lo ao rosto. Tinha cheiro de lavanda, provavelmente uma impressão deixada pelo fantasma. Sorriu. Aquela talvez fosse uma das raras ocasiões em que estivera se sentindo realmente feliz apesar da sede.
Os dias foram se passando e a convivência se tornou agradável. Os fenômenos poltergeist não deixaram de acontecer, uma vez que era da natureza do rapaz, mas os objetos pessoais do outro permaneciam intactos, assim como haviam combinado.
As vezes, quando a lua já estava deitando no céu e os primeiros raios da manhã eram bloqueados pelas cortinas da sala, os dois meninos conversavam por horas além do que deveria já ser o sono de Shoto. Sentia-se tão leve e acolhido ao poder falar das coisas com o outro que já tinha perdido as contas de quantas vezes acordara no sofá na noite seguinte, coberto pelo lençol branco e cheiroso que Izuku precisava utilizar para ficar visível. Era como se pudesse abraçá-lo ao enrolar-se com o tecido… Já fazia quanto tempo que queria poder abraçá-lo?
A primavera fez a neve derreter e os arbustos florirem no jardim. Shoto gostava de passear por ali no fim de tarde, quando o tempo estava nublado ou chuvoso. Apenas a grande árvore de galhos retorcidos não exibia nenhuma única folha, como se estivesse morta até a raiz, ainda que se recusasse a cair, de uma forma que beirava o sobrenatural.
O clima foi ficando cada vez mais quente até que finalmente o verão tornou as noites mais curtas e a caça mais perigosa de fazer. Nesta ocasião específica, o rapaz voltava cansado, com as roupas sujas, cheirando a sangue. Estava considerando tomar um banho e procurar pela companhia habitual, enquanto passava pelos portões de grade. Parou. Um tecido branco balançava para lá e para cá no brinquedo pendurado na árvore. Era a primeira vez que via Izuku do lado de fora, por isso foi direto para lá, encontrá-lo.
— Achei que não pudesse sair de casa…
— Eu não posso ir muito longe. Comigo, a percepção das coisas é diferente. Os lugares, a passagem do tempo, tudo parece confuso. Se sair, eu posso andar em linha reta até onde conseguir e ainda sim chegar de volta a esse lugar. Mas definitivamente o jardim está dentro dos meus limites. É só que...
— Lembranças ruins?
— Eu estou enterrado aqui. Embaixo dessa árvore.
Shoto sentiu o rosto gelar. Tudo o que conhecera até antes de vir para essa casa era a morte e a infelicidade dos humanos, muitas vezes provocadas por ele ou alguém conhecido. No entanto, era a primeira vez que isso o abalava daquele jeito. Mordeu o lábio e observou o menino encarando os galhos secos, inexpressivo. Ele deveria ser tão lindo quando estava vivo… mas agora sua pele era tão transparente que tinha medo de perdê-lo de vista ao piscar, unhas pretas agarradas à corda com força, como se estivesse se segurando a este mundo. Por quê?
— Por que está me contando isso?
— Você mata as pessoas para se alimentar, não é?
— Eu evito. Se houver como não ser visto, é possível deixá-las vivas. Não é preciso tanto sangue assim para satisfazer alguém, como as histórias fazem parecer. Mas sim, eu não sou inocente sobre isso… Vampiros podem ser bastante cruéis quando estão com muita sede...
— Entendo. Eu… eu não tenho memória de muita coisa da minha vida. Tudo que consigo lembrar é de uma infelicidade tão grande que parecia insuportável… Naquele dia eu tinha apanhado no colégio e voltava para casa machucado à noite, quando eu topei com alguém… c-como você. Sabe, eu poderia ter lutado ou corrido, mas parte de mim queria que tudo acabasse logo. Talvez… talvez estar aqui ainda seja minha punição por desistir.
— Não foi culpa sua!
Shoto deu conta de si apenas quando estava segurando as duas cordas do balanço, com o rosto bem próximo ao do rapaz que o olhava de baixo, com certa surpresa. Ainda que suas mãos estivessem exatamente no mesmo lugar, não podia tocá-lo. Ao invés, atravessavam o ectoplasma frio e instável que era o remanescente da presença desse menino no mundo.
Nesse momento, desejou tê-lo conhecido naquela época, tê-lo defendido da morte, estado ao seu lado e podido dizer o quanto o amava. Mas isso realmente teria acontecido? De repente, era como se ele fosse aquele que sugou a vida de Izuku para fora e o enterrou debaixo de uma planta que nunca mais daria frutos. Assim como tinha feito com outras pessoas, ele e o assassino sob o qual acabara de ouvir eram exatamente o mesmo.
As lágrimas que lhe escorriam pelo rosto caiam direto no balanço de madeira.
— Se… se você me matar, isso contaria como vingança e sua alma poderia descansar em paz?
— Provavelmente não…
— E se eu desenterrar você daqui?
— Isso seria perturbador… e talvez funcionasse… mas eu também não quero descansar em paz, esse não é o ponto.
— Ponto?
— Sim, você já me contou sobre sua família, sobre as coisas que fez e que te fizeram, seus gostos e jeito de ser... Então é natural que eu te conte também sobre mim, não? Já faz muito tempo, afinal. Esses sentimentos, a minha vida, eu tinha esquecido de tudo. Sabe, eu não recordava nem por que estava naquele quarto até você abrir a porta e me deixar sair. Acho que depois dessa noite, se eu quisesse descansar em paz eu até já poderia… mas acontece que eu me apaixonei por você.
Uma brisa soprou um pouco mais forte e derrubou o capuz improvisado do garoto fantasma. Aquela era a primeira vez que Shoto via os cachos esverdeados e rebeldes que emolduravam o rosto do rapaz. Desejou poder desembaraçá-los lentamente com os dedos, mas sabia que não conseguiria alcançá-lo. Ainda não. A presença de Izuku estava ficando cada vez mais forte, conforme sua vontade de existir crescia. E, se dependesse do outro, essa vontade só faria aumentar dali para frente.
— Eu também me apaixonei por você.
Um sorriso se espalhou pelo rosto do outro e foi como se a noite tivesse sido iluminada por um segundo sol que não o machucava. Um anjo que se perdeu no caminho até o céu. Pegou-se sorrindo de volta, ainda que seu coração estivesse em dúvida quanto a mantê-lo naquele estado. Foi então que a voz arrastada de Izuku o tirou de seus lamentos com uma pergunta que o fez esquecê-los por hora.
— Mas dois monstros de qualidade diferente podem namorar?
— Nada impede. Posso encarar essa escolha de palavras como um pedido de namoro?
Shoto ficou parado enquanto Izuku aproximou o rosto ao dele até que seus narizes "se tocaram". Era bastante frio, mas extremamente terno ao mesmo tempo. Não precisavam dizer mais nada a esse ponto. Fechou os olhos e apenas suspirou quando a mesma sensação lhe tomou conta dos lábios. Beijar um fantasma era algo bastante sutil. Por um segundo, teve medo de abrir os olhos e ele ter desaparecido, então só o fez quando escutou seu nome ser chamado baixinho.
— Você precisa entrar, já está amanhecendo.
Izuku pulou do balanço e o atravessou completamente de uma vez só, deixando o lençol para trás. Shoto se virou nos calcanhares, mas tudo o que viu foi a porta de casa abrindo sozinha, como um convite, que soaria macabro em qualquer outra ocasião. Sorriu ao considerar que o rapaz se divertia com esses pequenos truques. Pegou o tecido do chão e enxugou o rosto sentindo o cheiro de lavanda misturado ao de terra molhada, devido ao sereno.
Havia tanta coisa que ainda gostaria de dizer e ouvir, mas tudo teria seu tempo e ambos tinham a eternidade para isso.
Notas finais
Te convido a imaginar o Deku como fantasma e comentar algo legal que tu acha que ele faria junto com o mozão ;)
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