As músicas que me guiaram
10 Amizade colorida
Notas iniciais
Em uma segunda feira, Lydia acordou de madrugada com o toque do celular. Ela pensou em ignorar a ligação inconveniente, porém viu o nome “Stiles” brilhando na tela do aparelho.
Preocupada, sentou na cama e imediatamente atendeu a ligação. Ela jamais deixaria de atender a uma chamada do melhor amigo, ainda mais naquele horário.
— Stiles?
— M-minha mãe passou mal. — A voz de Stiles estava rouca, falha.
— O que aconteceu? — Ela murmurou trêmula, com medo do que poderia ter acontecido.
— Eu preciso de você! — Choramingou de forma dolorida.
Um soluço escapou de Stiles, denunciando seu choro. Era muito difícil Lydia ver o amigo frágil daquela forma, sem sua típica felicidade e confiança. Isso fez o coração da menina se contorcer de preocupação e tristeza.
— Você está no hospital?
— Eu quero você aqui. — A resposta dele foi um novo lamento.
— Chego em dez minutos.
Lydia levantou da cama em um pulo e assim que saiu do quarto se deparou com a mãe. Pela expressão da Natalie, Lydia entendeu imediatamente que a mãe já sabia o que tinha acontecido com Cláudia.
Em silêncio, mãe e filha se arrumaram em poucos minutos, colocando uma roupa qualquer. Não precisaram dizer nenhuma palavra, só entraram no carro e foram em direção ao único hospital da pequena cidade.
— Mãe. — Somente quando o carro foi estacionado perto do hospital, que Lydia se pronunciou. — Eu amo você.
A menina sabia o quanto a mãe e Cláudia eram próximas. Por isso, não perguntou se ela estava bem, nem tentou animá-la. Lydia somente pronunciou as palavras que quase não dizia desde que o pai as abandonou. Afinal, depois disso, Natalie começou a se refugiar no trabalho para esquecer a dor, mas acabou também, esquecendo da filha
— Eu também amo você, querida! — As lágrimas de medo e tristeza preenchiam os olhos de Natalie. — Eu vou tentar achar o John para saber o que aconteceu e você...
— Vou ficar com o Stiles. — Lydia interrompeu decidida.
Natalie concordou com a cabeça e assim, as duas saíram do carro e entraram no hospital com passos largos. A mãe começou a chorar assim que pisou no corredor branco, enquanto a filha lutava para manter a compostura. Ela queria ser forte para auxiliar Stiles.
Depois de poucos minutos, Lydia finalmente encontrou Stiles enquanto Natalie falava na recepção do hospital. Ele estava sozinho em um dos bancos de espera. Os joelhos grudados no peito, os pés em cima do metal onde estava sentado.
— Stiles! — A menina quase gritou ao ver o rosto de Stiles vermelho devido ao choro.
Ela correu em direção ao melhor amigo. Não se importava se aquilo era uma atitude apropriada para um hospital. Stiles levantou em um pulo, seus lábios continham um bico trêmulo, choroso. Ele estava devastado, todo seu rosto demonstrava isso.
Lydia se jogou nos braços de Stiles. O envolveu com força e empurrou a cabeça dele em direção ao seu ombro, o acolhendo. O melhor amigo se curvou para assemelhar as alturas e se reconfortar no pequenino corpo que o consolava.
— Ninguém me disse como ela está! — Foi o primeiro lamento que Stiles proferiu.
— Shh, calma. — Ela murmurou com carinho, poucas lágrimas surgiram em seus olhos. — Eu vou ficar o tempo todo com você, vão falar o que aconteceu.
Stiles se separou do abraço, chorando mais. Surpreendendo Lydia, ele segurou seu pequeno rosto e começou a acariciar. O corpo inteiramente inclinado em sua direção, os olhos castanhos expressivos.
— Obrigado por ter vindo.
— Eu jamais deixaria você sozinho.
— Você é a melhor amiga do mundo. — Com aquela frase doce, Stiles foi capaz de abrir um mínimo sorriso, ainda chorando.
— Eu sei. — Ela respondeu em uma tentativa frágil de aliviar o clima. Voltou a abraçá-lo. — Vou sempre estar com você, Stiles. Não importa o que aconteça.
Ficaram por um tempo interminável no hospital, sozinhos. Ninguém falava o que estava acontecendo com Cláudia. John e Natalie pareciam ter simplesmente ter sumido dentro dos corredores.
Stiles estava exausto, morto de sono e preocupação. Ele chorava discretamente em vários momentos, pois apesar de odiar chorar na frente dos outros, se sentia à vontade com Lydia. Deixava que ela o consolasse com beijos nas bochechas e pequenos apertos nas mãos.
— Estou com fome. — Ele confessou quando já estava mais calmo.
Lydia olhou para a tela do celular e suspirou quando viu que já era seis horas da manhã. Eles tinham passado a noite toda em claro. Ela estava cansada, mas só pensava em reconfortar Stiles. Por isso, o garoto estava deitado nos bancos, completamente esticado e a cabeça apoiada no colo de Lydia. Ela acariciava seu cabelo escuro.
— Quer que eu pegue algo da máquina? — Ela perguntou se referindo a máquina com poucas opções de chocolate e biscoitos.
— Lá não tem nada de bom.
Stiles estava manhoso e reclamando com frequência de pequenas coisas. Os olhos ainda estavam inchados pelo choro recente e uma dor de cabeça ameaçava chegar. No entanto, Lydia estava o tratando com extrema doçura, afinal, sabia o quanto ele estava preocupado com a mãe.
— Mas não é bom você ficar tanto tempo sem comer nada. — Lydia murmurou com uma preocupação quase maternal. Os olhos verdes analisavam o rosto abatido de Stiles com muito cuidado.
— É sexy você querendo cuidar de mim, sabia?
Lydia sorriu por causa do tom na voz de Stiles. Era a primeira vez no dia que ele tentava fazer algum tipo de humor e provocação. Isso mostrava que ele estava calmo o suficiente para agir como ele mesmo.
— Sexy? — Ela repetiu a palavra com alguma estranheza. Mas ainda sorria.
— Sim, porque me lembra que você é mais velha. — Enquanto respondia com a voz rouca e olhos ainda tristes, Stiles observou a confusão atingir o rosto de Lydia. Suspirou fundo por ter que explicar a ela. — É sexy eu estar pegando uma garota mais velha.
— Sempre achei que você ficava incomodado por ser mais novo.
— Só tenho medo de um dia você decidir que quer um homem mais velho. Normalmente as garotas querem isso. — Stiles não se constrangeu ao confessar uma insegurança que Lydia jamais imaginou. — Mas eu não me incomodo com sua idade, só não quero que você nunca se importe com isso.
Lydia percebeu que a conversa distraia Stiles. Ele parecia ficar mais confortável enquanto falava sobre outro assunto. Por isso, ela decidiu que estenderia o diálogo.
— Você acha que eu trocaria você por um amigo mais velho?
Stiles revirou os olhos teatralmente. Lydia corou com aquela atitude, pois finalmente entendeu o real significado das palavras dele. A partir desse entendimento, não soube mais o que falar.
— Eu não me preocupo com quem você vai ser amiga, Lydia. — Ele conseguiu falar com um deboche frágil. — Mas você ia me destruir se fizesse outra amizade colorida ou se arrumasse um namorado. — O coração da menina acelerou consideravelmente enquanto o ouvia. — Quero que sejamos exclusivos um do outro.
As palavras “amizade colorida” rodopiaram na mente de Lydia. Ela pensou em todas as vezes que selou os lábios nos de Stiles e nas declarações que eles trocaram após a festa que ela passou morta de ciúmes do amigo. Pensou também nas vezes que o melhor amigo a masturbou e no único dia em que ela viu ele se aliviando.
Lydia sempre foi muito certinha, por isso parecia estranho que ela tivesse uma amizade colorida com Stiles. Mas depois de pensar em tudo que já tinham feito, ela finalmente entendeu que aquela era a única maneira de descrever a relação deles.
Tinha se passado poucas semanas desde o dia que Stiles se masturbou pela primeira vez e que Lydia tomou coragem para pedir que o aliviasse. Depois daquele dia, a Martin já tinha pedido novamente para receber alívio, quatro vezes.
Todas as vezes que pediu, foi com extrema timidez. Ainda assim, ela mesmo reconhecia que para aquilo, estava tendo uma coragem sobrenatural e muita ousadia. Até por ser apenas amiga de Stiles. Mas o garoto tinha o dom de deixá-la confortável e cada vez mais, lhe dava a segurança de que não ficaria com outra garota, de que só desejava ter ela para si.
— Stiles e.… ruiva sexy que vive com ele. — Uma fala repentina e curiosa fez com a breve conversa entre os melhores amigos, acabasse.
Stiles apenas virou a cabeça, olhando na direção da voz ainda com o rosto apoiado nas pernas grossas da amiga. Lydia franziu o rosto e fez uma certa ao olhar para a mesma direção.
— Scott. — Foi Stiles que deu o breve cumprimento, pois sabia da irritação sem sentido que Lydia nutria pelo McCall.
— Qual é seu nome, ruivinha? Eu nunca soube. — Scott manteve sua atenção para Lydia, os olhos escuros a analisaram rapidamente.
Isso incomodou Stiles o suficiente para ele se ajeitar nos bancos. Com dificuldade, dobrou as pernas e ficou sentado, abandonando o corpo de Lydia por alguns instantes. Assim que se ajeitou, passou um braço em volta dos ombros da amiga de maneira protetora.
— O que você está fazendo aqui, Scott? — Lydia perguntou rabugenta, os olhos verdes o enfrentavam.
Lydia podia ser tímida e insegura, porém não tinha nenhum medo de confrontar ou responder mal pessoas que ela não gostava. Stiles sempre disse que ficava excitado quando ela mostrava seu lado temperamental. E era verdade. Ele enlouquecia toda vez que via Lydia irritada e corajosa.
— Não é injusto você saber meu nome e eu não? — Scott tentou mais uma vez, erguendo as sobrancelhas. Em resposta, Lydia revirou os olhos em completo desprezo. — Já entendi porque você vive grudado com essa garota. — Complementou logo em seguida, olhando para Stiles. — Ela é.… quente.
Scott soltou uma risadinha maldosa e sem parecer perceber o estranho clima que se formava, sentou no banco ao de Lydia. A ruiva o encarou com incredulidade e a única reação de Stiles foi puxar a amiga para mais perto.
— Eu sei e ela é minha. — Stiles falou direto, os olhos castanhos mesmo entristecidos, davam um aviso mudo para Scott.
— Não vou roubar sua garota! — Ele anunciou erguendo as mãos para cima como se estivesse rendido. — Só estou tentando puxar assunto, nunca tem ninguém aqui para conversar comigo de manhã.
Lydia cruzou os braços na frente do peito com desconforto. Encostou a cabeça no ombro de Stiles e inconscientemente, beijou com cuidado a clavícula dele, o fazendo se arrepiar. Scott abriu um meio sorriso divertido enquanto observava a cena.
— Você costuma estar sempre no hospital as seis da manhã? — Stiles murmurou após olhar brevemente para o celular.
Stiles gostava de Scott. O McCall demonstrava ter uma personalidade expansiva e sem vergonha bem a semelhante à dele, no entanto, o Stilinski não estava com seu melhor humor. A cabeça ainda latejava de preocupação com a mãe e a fome só aumentava.
— Minha mãe trabalha aqui, é enfermeira. — Logo após responder, o rosto de Scott revelou preocupação. Finalmente se perguntou qual era o motivo dos adolescentes estarem naquelas cadeiras de espera. — Por que vocês estão aqui?
— Minha mãe tem câncer. — Foi a explicação breve de Stiles, que ao falar, estremeceu.
Scott falou um palavrão e imediatamente ficou de pé. Tanto Stiles como Lydia se surpreenderam com a compaixão que transbordou dos olhos do maior pegador do colégio.
— Qual nome dela?
— Cláudia Stilinski. — Stiles murmurou confuso. Lydia permanecia em silêncio, observando os garotos.
— Desde que horas vocês estão aqui?
— Passamos a noite em claro. — Novamente o menino respondeu sem dar muita importância, balançando os ombros.
— Vou ajudar vocês! — Sem mais nenhuma explicação, Scott largou no chão a mochila escolar e sumiu entrando em um dos corredores do hospital.
Em poucos minutos, Scott descobriu informações sobre Cláudia e trouxe a Stiles a feliz notícia de que mãe já estava estável e que John e Natalie não a deixavam sozinha por nenhum segundo.
Além disso, o McCall arranjou a comida do hospital e sem ter perguntado se Stiles e Lydia queriam comer, trouxe pratos cheios com o melhor que ele encontrou. Depois, apoiou na cadeira ao lado deles, duas xicaras de café já adocicadas.
— Não esperava isso de você. — Stiles disse grato após comer. O rosto denunciava que seu humor já tinha melhorado consideravelmente por saber que a mãe estava bem.
— Achava que eu só ficava aqui no hospital transando com as colegas de trabalho da minha mãe? — Scott debochou com um sorriso safado.
— Talvez. Ou fizesse festas surpresas nos quartos dos doentes terminais. — A resposta de Stiles fez Scott rir.
— Bem, eu já transei com ela. — Confessou apontando na direção de uma enfermeira nova de cabelo loiro. — Ela é um monstro na cama!
Como que para comprovar o que Scott dizia, a mulher com roupa hospitalar virou na direção dos adolescentes. O McCall piscou um olho e mandou um beijo na direção da enfermeira que em resposta, riu e balançou a cabeça negativamente.
— Esse é o Scott que eu ouço falar! — Stiles pareceu animado, soltando uma pequena risada repleta de maldade e analisando de longe a enfermeira.
Lydia olhou de relance para Stiles e pisou propositalmente em seus pés. O melhor amigo resmungou de dor, porém quando viu o ciúme ameaçando a chegar nos olhos verdes, sussurrou “desculpa”.
— Eu me divertido com as garotas, mas continuo sendo um bom garoto! — O deboche não deixava a voz de Scott que passou a olhar fixamente para Lydia. — Pelo que vi na minha festa, vocês se trancaram no banheiro logo depois da dança sexy da ruivinha. Então aposto que vocês também se divertem bastante juntos.
— Você nem imagina. — O modo pervertido como Stiles falou, fez Lydia lhe dar uma cotovelada na barriga.
Lydia estava corada e com os olhos arregalados. O constrangimento fazia ela não ser capaz de dizer nenhuma palavra na frente de Scott. Já Stiles, depois de saber que sua mãe estava, pelo menos, temporariamente estável, estava mais relaxado, conseguindo falar em tom de brincadeira e provocação.
— Vocês são namorados...? — Scott perguntou com curiosidade, observando atentamente a dinâmica entre Stiles e Lydia. Eles tinham tanta intimidade que se comunicavam com olhares.
— Não! Somos só amigos. — Stiles respondeu rápido. Rápido o suficiente para incomodar Lydia. — Melhores amigos. — Tentou corrigir com certo desconforto.
Por algum motivo, Stiles e Lydia sempre ficavam desconfortáveis com a palavra namoro e conversas sobre compromisso. Mesmo antes de Stiles dar primeiro selinho deles quando ela fez quinze anos, eles já agiam como se fossem algo além de amigos.
Stiles amava dar beijos no pescoço de Lydia e mordiscar sua pele. Eles podiam permanecer por horas abraçados e sempre arrumavam algum motivo para compartilharem a cama. Então, não era a primeira vez que alguém perguntava se eles eram namorados e até eles mesmos já tinham conversado sobre isso. E sempre que aquele assunto surgia, os dois ficavam inexplicavelmente sem jeito.
— Amizade com sexo. — Scott concluiu abrindo um sorriso gigantesco. — Eu também tenho algumas amigas assim.
— Tecnicamente a gente nunca chegou a trans... — A palavra ficou entalada na garganta de Stiles quando viu o rosto de Lydia ficar muito, muito vermelho. — Desculpa. — Acrescentou para a amiga antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
— Se eu puder ter a honra de saber o nome da ruiva, tenho certeza de que nós três podemos ser amigos. — Scott disse repentinamente, com uma pequena risada.
— Eu não gosto de você! — Lydia anunciou sem filtrar suas palavras.
Scott se surpreendeu com a coragem da garota corada. Já Stiles, apenas abriu um sorriso lateral e a olhou com orgulho. Amava aquele lado de Lydia.
— O nome dela é Lydia. — Stiles interveio sem desviar os olhos da melhor amiga.
— É um prazer conhecê-la, Lydia. — Scott provocou com um olhar afiado. — A partir de hoje, vai ser minha missão fazer você gostar de mim.
— Boa sorte com isso! — Mais uma vez, foi Stiles que se pronunciou.
Eles ainda não sabiam, mas a partir daquele dia uma nova e sólida amizade começou. Scott e Stiles nunca mais se desgrudaram.
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