As lúzes
1 Prólogo
Notas iniciais
O ar seco só atrapalhava mais a respiração do pequeno Steve. A neve caía pesada como pedra e cobria tudo como um manto enorme e muito frio. Seu pai o segurava nos braços musculosos e grandes enquanto sua mãe fechava o grande casaco de pele de raposa que o cobria quase por completo. A mãe, uma mulher de cabelos castanhos claros tinha o rosto tão serene, mas ao mesmo tempo nervoso que fazia a fria noite naquela floresta ficar ainda mais escura.
— Quando iremos chegar em Hiulandos? – A mãe perguntou ao pai.
— Eu não faço ideia... É uma aldeia muito bem escondida.
— Não podemos mais perder tempo aqui. Nós iremos morrer congelados – A neve começou a cair mais depressa e mais pesada – Para leste – Começaram a caminhar.
A floresta estava um breu. As árvores de inverno sem folhas, mais pareciam ossos negros irregulares emanando do solo. A lua cheia brilhava com a intensidade de um sol, mas mesmo assim não era possível conter a escuridão. A floresta estava deserta. Nenhum animal parecia viver nela. Nem sequer uma coruja ou ratos da floresta, nem lobos, nada. Caminharam mais um quilômetro até chegarem à uma árvore-oca enorme.
— Podemos nos esconder ali – Destacou o pai – é grande o bastante para nós três.
— Tome – A mãe sacou uma adaga com cabo de rubi e lâmina de cristal dando-a ao pai – Se algo ou alguém aparecer, mate. Eu vou vasculhar a área. Enquanto isso, aqueça o pequeno Steve.
A mãe foi se distanciando com passos cuidadosos. O pai entrou na grande árvore e sentou-se. Devia ser espaçosa o suficiente para pelo menos três adultos bem crescidos caberem lá confortavelmente.
Steve começou a chorar. Não devia ter mais de meio ano de vida. Tão pequeno e tão sensível.
— Shhh, shh, shh. Calma, Steve. Você está a salvo aqui. Vamos embora – O pai passava um ar de segurança para a criança. Tinha rosto bruto e olhos serenes. Cabelo tão curto que nem era notado sob a touca feita de pele de gambá. Um barulho ecoou da mata, algo como um galho quebrando – Lilly? É você? – O som de passos foi aumentando e aumentando. Darus, o pai, pegou a adaga brilhante. O som foi ficando mais alto e uma sombra cobriu a entrada da árvore. Era a mãe se aproximando.
— Quer que saibam que estamos aqui? Nunca mais grite desse modo.
— Me desculpe... Pensei que você...
— Eu sei o que pensou. Abra espaço – Lilly, a mãe entrou na árvore-oca – Eu vi as luzes. Estão próximos.
— Então devemos nos esconder – Darus ergueu a adaga e proferiu algumas palavras – Triflifum’ha yutas órus micryo – Uma luz começou a emanar da adaga e uma onda de energia cobriu-os como uma cúpula. Eles ficaram invisíveis.
Grandes luzes brilhavam no céu. E começavam a ficar mais e mais brilhantes, como estrelas cadentes caindo a vários quilômetros por hora. Quando se aproximaram, se mostraram criaturas brilhantes e flutuantes. Suas cabeças lembravam a de lobos, com focinhos largos em forma de bico e orelhas mais parecidas com nadadeiras, seus corpos, largos, com algum tipo de barbatana percorrendo suas costas. As pernas e os braços, tão pequenos que pareciam até defeituosos, porém continham garras bem afiadas. Suas caldas eram quase do tamanho do corpo, que tinha pelo menos dez metros de largura, na ponta da calda, tufos de pelos parecidos com os de leões. O que mais chamava a atenção nessas criaturas, eram seus olhos, eles refletiam tudo ao seu redor, até mesmo o que não pode ser visto.
Uma das criaturas se aproximou da árvore-oca e observou-a por algum tempo. Depois soltou um guinchado que chamou a atenção de mais criaturas. Todas olhando para a árvore-oca. Uma delas até ousou se aproximar mais e cheirar a árvore. Então, de repente, Darus quebrou a cúpula invisível e com a adaga brilhante começou a matar as criaturas. Um golpe bem na cabeça da que se aproximou foi suficiente para matá-la. As outras criaturas começaram a atacar, com luz. Quando abriam suas bocas, um raio de luz era lançado para frente. Tudo o que a luz tocava era transformado em pó. Darus era muito veloz. Pulando de um lado para o outro, matava as criaturas, uma a uma. Elas se lançavam contra ele como flechas e ele como um machado.
— Lilly! – Gritou ele – Vá, agora!
Lilly saiu da árvore correndo e levando Steve com ela. Uma das criaturas tentou segui-la, mas ela lançou uma pequena lâmina em forma de estrela que a atingiu no olho, atordoando-a. Ela correu mais e mais, até que ouviu um grito aterrorizante. Quando olhou para trás, viu seu marido se desintegrar por vários raios de luz vindos das criaturas. Mais criaturas tinham aparecido, e mais apareciam a cada momento. Lilly não podia perder tempo. Correu na direção de uma cachoeira congelada. O gelo brilhava com a luz da lua. Lilly olhou para baixo e viu um lago congelado. Não deve ser muito grosso, pensou. As criaturas chegavam e em pouco tempo encurralaram Lilly. A dor da perda e o medo de ter mais uma paralisou Lilly. O céu ganhou mais estrelas... Não, ganhou mais criaturas! Mais vinham do céu. Surgindo do nada e de tudo. Lilly pensou em como seu marido morrera, em como o desintegraram. Sabendo que eles queriam tomar seu filho, o pequeno Steve, o ódio dominou seu rosto.
— Vocês não me terão hoje. Hoje não! – Lilly sacou mais lâminas e atirou-as contra as criaturas. Era difícil lançar lâminas segurando Steve, mas ela era tão habilidosa que não errava uma. Corpos brilhantes jaziam no chão branco e deixavam de brilhar. Algumas criaturas ainda viviam, mas as lâminas de Lilly estavam acabando. Ela correu em direção da cachoeira e lançou lâminas no gelo do lago, rachando-o. Ela pulou com os pés direcionados para baixo. Quando estava próxima do gelo, uma criatura a agarrou pelos braços e a virou para seu rosto. Steve achou aquela criatura adorável. Tão brilhante e tão bonita... cada parte do corpo dela brilhava como uma estrela. Ele se via nos olhos da criatura. Olhava para a coisa brilhante a sua frente enquanto ela abria sua boca e a luz saia de dentro de sua garganta. Lilly gritava cada vez mais alto: Não, não, nããããão.
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