Lembro-me da época em que eu não era eu. Eu era o ser que mais odeio nesse mundo e fui ele até que me senti só e clamei por mim. YAHWEH desceu de seu confortável trono e veio a terra para me satisfazer. Dividiu-me em macho e fêmea. Ao macho ele deu o nome de Adão e a fêmea de Lilith. Eu sou Lilith. Fui feliz por curtos dias ao lado de minha metade, mas sempre soube que não duraria. Ele insistia em ser dominante, eu não podia tolerar isso. Fomos a mesma criatura, éramos semelhantes.

Diferente de como sugeriram os boatos, não fui expulsa do Éden, eu parti de lá. Preferi morrer ressecada ao sol que viver miseravelmente a sombra de Adão. Abri os portões de ouro do paraíso e de lá andei até cansar, até que meus pés se abrissem em feridas e ainda assim não estava nem na metade do meu caminho.

O maldito sal que cobria o deserto tratava as feridas que ele mesmo abria. Pelo vasto campo branco e sem vida, andei por longos dias até que eles transformaram-se em semanas. Estava faminta e sentia meu estômago revirar-se. A comida não era necessária pra me manter viva, mas sua falta era muito desconfortável.

Por um momento, pude ver uma cesta cheia de frutas como as do paraíso à minha frente. Corri até elas, mas quando as alcancei desapareceram. Pude vê-las novamente logo a minha frente. Pensei que talvez fossem miragens como as que vinha experimentando dias antes, mas dessa vez era diferente. Eu podia sentir seu cheiro doce e inebriante tomando conta do ar e da minha mente.

Corri até elas e antes que pudessem desaparecer de novo, as agarrei. Minha boca estava grudada pela saliva seca. Comi as frutas, elas tinham um sabor nostálgico. Acabei de comer e quando dei por mim não estava mais no deserto e sim numa floresta boreal.

Por um momento pensei que havia sido levada de volta ao Éden. YAHWEH havia me entendido, pediria desculpas. Gritei em saudação ao criador e esperei uma resposta, mas ouvi apenas risos disformes vindos das árvores.

A floresta distorceu-se de volta em deserto e das antigas surgiram demônios. Eu estava nua parada a frente deles, mas não estava indefesa. Ainda era a mulher quem desafiou a ordem de YAHWEH. Tinha a chama da minha vontade.

Eram seis demônios, todos muito feios. Eu não me interessava pelos seus nomes, queria apenas alimento. Ordenei que me trouxessem comida e um deles, irritado, perguntou quem eu pensava que era. Inflei meus pulmões e respondi dizendo que era Lilith, filha do criador das terras fartas sobre as escassas e protegida da hoste. Os demônios correram como se corressem por suas vidas, e de fato corriam. YAHWEH era conhecido por amar mais algumas de suas crias que outras.

Bem. Eu achava que tinha acabado de perder minha única chance de sair dali, mas, ou aqueles demônios eram muito estúpidos ou estavam com muita pressa, pois se esqueceram de cobrir seus rastros. Os segui e cheguei ate um grande desfiladeiro de pedras vermelho escarlate. Bem dentro do labirinto de fendas havia uma caverna e nela muitos demônios se amontoavam como se discutissem algo. Tentei me esgueirar de forma que não fosse percebida entre as pedras, mas sem sucesso. Um demônio grande e bastante musculoso me encontrou.

Ele não parecia muito inteligente. A primeira coisa que disse quando me encontrou foi seu nome, Asb’el, como um brado antes de uma batalha, como se aquela fosse a única coisa que conhecesse. Pensei comigo mesma que não precisava morrer ali. Minhas mãos deslizaram pelo peito suado e firme da besta, olhei em seus olhos e senti que a chama de sua vontade me pertencia.

Não precisei de muitas palavras para convencê-lo a me levar em sigilo até um local onde eu pudesse comer algo ou me abrigar. Ele me levou por um túnel até uma gruta. Achei que haveria comida em abundancia por lá, mas tudo que havia eram alguns trapos de pano. Asb’el disse que demônios não precisavam comer então apenas sua entidade O Monarca possuía comida, mas ele tentaria conseguir alguma coisa. Era tão desconfortável não comer que por horas pensava em me matar, nunca em me desculpar com YAHWEH. Decidi que ficaria ali apenas o tempo que fosse necessário para me recompor e voltaria ao deserto.

Dias se passaram sem que eu visse o demônio o que era estranho, pois Asb’el me visitava sempre de forma periódica na gruta. Aquela gruta era como uma noite sem fim, de certa forma me lembrava de meu estado atual. Eu havia me acostumado com a fome, mas com eu mesma não. Não queria me perder no labirinto que habitava meu coração. Estava a tanto tempo sozinha naquela escuridão total que eu quase podia entender a conversa entre as rochas, eram como palavras que eu havia me esquecido o significado.

Pude ver o caminho à frente da gruta iluminado pela chama de tochas. Pensei que fosse Asb’el retornando, mas ao prestar mais atenção, quem vinha não possuía sua voz, nem sequer uma voz só. Eram seis demônios, não os mesmos do deserto, eram outros. Calaram-se ao me ver, numa mistura de medo e fascinação. Ficaram me observando quietos por um longo momento. Pensei em contar a mesma história do deserto, mas ela não me levaria a lugar algum. Sem que me tocassem, me levaram até os aposentos da entidade O Monarca e assim como Asb’el num primeiro momento, todos adotaram o silêncio perto de mim.

Paramos em frente a uma grande porta. Ela era toda de ouro maciço. Os demônios não entrariam, mas sinalizaram que era para que eu abrisse. Era pesada, mas eu consegui. Entrei no quarto e vi que era muito bonito, lençóis vermelhos contrastavam com o ouro que cobria tudo. Não havia ninguém no quarto além de mim. Me aproximei de uma grande mesa onde havia sido posto um enorme banquete. Eu estava faminta, então comi do pão e das frutas com bastante vinho. Foi delicioso.

Uma porta lateral se abriu e de lá veio um demônio muito atraente. Sua pele negra estava manchada por sangue, mas ele não agia como se o sangue fosse seu. Rapidamente larguei o que comia. Ele riu e mandou que eu ficasse a vontade, pegou uma flanela para se limpar e sentou-se na cama. Eu perguntei o que ele fazia naquele quarto e se ele era a entidade O Monarca. Ainda se limpando, ele mandou que eu o chamasse de Cimeries e, jogando o trapo de pano sujo no chão, me perguntou quem eu era, mas dessa vez sem mentiras e o que eu fazia nos aposentos de um demônio tolo como Asb’el. Fui ate ele e olhando em seus olhos disse:

– Lilith, — com uma mão o empurrei sobre a cama e com a outra acariciei seu corpo -. Nascida duas vezes e ambas para dar prazer.

Ainda olhando em seus olhos perguntei por que Asb’el era um demônio tão tolo. Ele riu, mostrando seus dentes brancos como nuvens e afiados como laminas, e disse que Asb’el era um tolo por ter desafiado pelo trono e ao final apenas tê-lo sujado com seu sangue.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.