Notas iniciais
Mais uma vez desejo uma boa leitura. ♥

Meu pai me contou quando eu era um menino que Encantriz era a deusa mais perigosa daqueles tempos. Ela foi banida muito antes do surgimento de qualquer ser humano do reino celestial por trair os deuses, através de um golpe que permitiu com que ela absorvesse uma parte dos poderes de cada um, principalmente do Grande Deus. Como punição, ela foi mandada para o mundo dos mortos, o que fez com que despertasse na bela feiticeira um desejo ardente de vingança.

Por ter pactos com demônios, que lhe forneciam grande parte dos seus poderes, Encantriz acabou se transformando em um de certa parte, apesar de possuir uma aparência perfeita. Sabendo que os deuses tinham muito apreço pela adoração dos seres humanos, ela encontrou a oportunidade para provocá-los, causando confusão em suas mentes, levando-os à descrença em divindades (o que era péssimo aos deuses, uma vez que se alimentavam da adoração humana) e plantando sentimentos ruins em seus corações como o adultério, o assassinato, doenças, mentiras e preconceito dos mais variados tipos, algo que eu conhecia muito bem. Mas o que tornava-a mais assustadora, é o seu desejo por carne humana jovem.

Me aproximei da entrada dos portões da cidade, a passos lentos. Levei automaticamente a mão à espada, mas quando estava prestes a desembainha-la, a voz fria de Encantriz me fez extremecer de pavor, fazendo-me sentir um medo que nunca sentira antes.

— Olá, criaturas de carne e osso. Aqui estou eu, mais uma vez. Devo adimitir que foram os piores dois anos de espera da minha existência. Aaaaah .... A cada dia que passa eu me sentia com cada vez mais fome. — Ela se espreguiçou exageradamente e apoiou um dos cotovelos no telhado de uma casa, enquanto enrolava as pontas dos gigantes cabelos negros com o dedo da outra mão, se sentindo visivelmente à vontade e satisfeita ao ver o medo nos olhos de todos. O que dava mais medo em Encantriz era a forma despreocupada, sensual e fria com a qual ela falava.

—Bem, não fiquem ai parados, meus pequenos idiotas. Onde está o tributo? Estou faminta. Os humanos do reino do Sul não foram o suficiente para mim. Então se não quiserem ser destruídos como os humanos do reino anterior ... Se apressem.-Ela sibilou, como se estivesse se deliciando com um manjar apetitoso.

A cada dois anos, Encantriz aparecia para pegar o que ela chamava de tributo. Em uma jaula feita de madeira, colocada no centro da Praça principal, as pessoas tinham que colocar uma criança entre 1 a 10 anos, num valor mínimo de 100 crianças. Se colocassem menos do que isso, seriam destruídos. Se colocassem mais, era ainda melhor. Essa era a condição para que Encantriz não matasse a todos da pacata Red Apple. Era uma maneira de opromir os seres humanos a adorarem-na de certa maneira, enfranquecendo ainda mais os deuses, que dependiam da adoração para existir. Essa era a razão pela qual não intervinham nas maldades da feiticeira. E ela repetia este ritual havia anos. Muitas mães tentaram esconder seus filhos ou ate mesmo tentar troca-los por crianças com doenças terminais, no intuito de engana-la. Mas a megera conseguia farejar uma criança escondida, e descartava as crianças doentes, punindo com a morte os que ousavam tira-la de boba. Ela só aceitava crianças saudáveis. E nessas horas eu agradecia por ser anão.

—Que diabos essa mulher pretende fazer? Sussurrei, sentindo um maldito frio na espinha. Vi várias mães sussurrarem "eu te amo" para seus filhos, e muitas também afundavam os rostos nos ombros de seus maridos para chorar. Os comerciantes, vendedores ambulantes e todo o resto que compunha a população mal conseguia encara-las.

— A-Aqui está o seu tributo, oh grande Encantriz. Pelo seu ato de misericórdia por nossas vidas. — O padeiro escolhido como porta-voz da vez gaguejou, olhando para o chão, sem conseguir parar de soluçar, apenas o suficiente para anunciar o texto decorado exigido pela deusa.

—Excelente. Ela sorriu, e um brilho doentio invadiu seus olhos. Ela ergueu a jaula com uma das mãos, ignorando os gritos desesperados de "mamãe,mamãe!" e abriu a porta da jaula com a outra mão. Na mesma hora eu fechei os olhos e mantive-os fechados até eu ouvir gritos infantis sendo abafados aos poucos e gritos histéricos de mulheres sofridas. Quando eu abri os olhos, a jaula já estava vazia.

Um ódio invadiu meu coração e eu removi a espada da bainha, mas quando eu pretendia avançar naquela desgraçada, um homem de rosto oculto por um capuz, usando roupas que lembravam de um frade tocou em meu ombro por trás e disse,baixo: -Ainda não é a hora, Zubart.

Encantriz passou a língua pelos lábios, satisfeita. — Excelente. Por terem sido fiéis ao tributo, terão mais dois anos de misericórdia. Estarei de volta no prazo estabelecido, enquanto isso irei pregar o caos sobre a Terra. Continuem sendo fiéis e serão poupados. — E dando uma enorme gargalhada que fez tudo estremecer, conjurou novamente o redemoinho e desapareceu na escuridão.