As crônicas das Pedra. - As nove Pedras.
8 Safira: Acusações.
Notas iniciais
Safira.
Ter mais uma família pobre em Azaara eram algo de extremo normal. Até quem morava na zona Leste – A zona rica – Passava algum dia por algum tipo de necessidade.
Imagina para Azaara, que morava no Sul. Era tipo, a maior favela dos nove reinados.
Ou melhor. Era a favela.
A pouca porcentagem rica, moradora do Leste, nunca botavam o pé a não ser a um quilômetro de distância do Sul de Azaara. Mas querendo ou não, eram todos uma grande e unida família.
Logico que: Safira tinha uma família em si, e ficar do lado de fora de casa depois que as duas luas ficavam retas sobre a noite estrelada, era pedir para levar uma facada pelas costas, e roubarem até seus cabelos.
Mas Safira nunca os culpou. Roubavam por necessidade, não porque queriam. E o que mais orgulhava Safira de não morar na zona Leste – Mesmo que ela sempre sonhara em morar, era que, mesmo roubando, quem é que fosse à casa de um dos saqueadores pedindo comida, eles dariam o pouco que tinha.
Mas isso durava muito pouco. Pessoas caiam duras no chão, morrendo de fome diariamente, ou morrendo por causas assim.
O dia amanheceu com um ar de esperança. Safira levantou, e sentou em sua cama. Seus cabelos negros e cacheados estavam bagunçados, e sua cara amaçada. Em frente à sua cama, o grande espelho. Era um espelho lindo, talhado a ouro na borda. Um presente de herança. Encarando o espelho, viu um certo brilho em seus olhos verdes. Do espelho, via a marca de nascença em seu braço. Era a coisa mais estranha que safira já vira – Um pequeno ‘’K’’ bem detalhado, como uma tatuagem. As pessoas a sua volta a chamavam de Khaasy. Significava Bruxa na língua antiga, originada de Kaath.
Particularmente, Safira sempre gostou do reinado de Kaath. Sempre ouvira falar de suas florestas magicas, a colina dos Nove deuses, e suas criaturas escondidas. Sua mãe falava que era bobagem.
– Mãe? – Perguntou a menina.
Sua mãe dormia a seu lado.
Sem sinal de acordar, Safira decidiu calçar suas sandálias, e ir até o quintal, colher umas maças para o café da manhã.
Seu quarto estava meio escuro. Os dois sóis estavam quase colados um ao outro, o que não permitiam uma grande valorização da luz.
Suas sandálias de couro estavam até que confortáveis. Abriu a porta meio arrombada de sua pequena casa que mais parecia uma toca, e saiu para seu pequeno quintal-horta. As árvores cresciam fortes e altas, compostas por macieiras e bananeiras principalmente, mas plantados ao chão se viam milho, alfaces e coisas do tipo. Se sua mãe não tivesse tido a ideia de plantar uma horta, e a sorte de achar o que plantar, Safira poderia não estar viva pra contar história.
Deveria ser nove horas da manhã. Safira colheu duas maçãs do chão, e voltou para sua casa. Deixou a outra maça ao lado de sua mãe, em uma pequena escrivaninha.
*** ***
O sinal tocou ao meio dia.
Um sino agudo e desesperador. Pela expressão de sua mãe nem ela sabia o que estava acontecendo. Ou sabia e estava realmente aterrorizada.
– Filha – Disse ela apressada. – Rápido, vista alguma coisa.
– O que? Mãe, o que aconteceu?
– Safira, sem perguntas. Ande.
E a filha obedeceu. Sem saber o que estava acontecendo, voltou para seu quarto imediatamente e vestiu o melhor vestido que tinha – Um vestido verde, curto. Destacava seus olhos.
Ela olhou para o quarto. A maçã que Safira deixara para sua mãe estava mordida, mas no mesmo lugar.
Pegou as sandálias, e quando voltou para a cozinha, sua mãe já a esperava apressada.
– Esse é o sinal da Igreja. Da ultima vez que tocaram... – Sua mãe se embolou no meio das palavras e não conseguiu terminar. Era nova, lembrava muito safira, mas fios de cabelos brancos estavam em seus cabelos.
Ela andava muito estressada ultimamente.
– Eu sei mãe. – Safira quis continuar. – Olha, não precisa se preocupar com isso mãe, o que passou, passou. Já tem um tempo.
– Eu sei filha, é só que...
– Eu também tenho pesadelos com ele, mãe. Mas...
– Não temos tempo. Ande safira, precisamos chegar lá antes que o sino pare de tocar.
* * *
Estava lotado.
A praça de Azaara era até bonita. Fresca, úmida, e com girassóis em alguns gramados. Mas quando lotado, causava um tumulto devastador.
Multidões gritavam se perguntando o que estava acontecendo, o porque daquilo, e onde estavam uma explicação. Safira estava do lado de sua mãe, de mãos dadas. Não sabia o que aconteceria se elas se perdessem.
Aquela praça não tinham boas memórias. De fato, para muitos dos moradores pobres de Azaara, aquela praça era amaldiçoada.
Em todo o canto se via uma cruz de madeira, e um nome talhado nela. Eram ao todo duzentos e cinquenta. Safira já desistira de achar o nome de seu pai dentre todos eles sempre que vinha aqui.
A praça possuía uma mansão central, algo para eventos secretos e coisas que a população não podiam saber. A grande porta da mansão foi se abrindo lentamente, e as pessoas próximas a ela se afastando.
Saiu dali uma grande mulher. Loira, de olhos castanhos e cabelos exageradamente grandes. Em sua mão esquerda, segurava um grande bastão, como uma bengala. Uma bengala... Talhada a ouro.
Ela foi se aproximando até atingir o centro da multidão, onde reservaram um grande circulo especialmente para ela.
– Boa tarde cidadãos do reino de Azaara. Acredito que estejam se perguntando o motivo de eu estar aqui.
A multidão já havia se calado um pouco. Mas de vez em quanto pessoas gritavam coisas como ‘’Fala logo, piranha!’’. A mulher não parecia ligar.
– Bem, eu estou aqui, cumprindo meu trabalho. – A voz era calma e serena. – Meu nome é Rhaysa. Sou uma caçadora a serviço do governo. Mas não deixem se enganar. Não sou motivada por um governo especifico. Estou me referindo a mim mesma. O meu governo. Se os boatos forem verdades, tem uma guerra começando. Guerras são frias, são escuras...
Safira se perguntou aonde Rhaysa chegaria com isso.
–... Mas em tudo existe luz. – Continuou. – Eu vou eliminar as trevas antes que comecem. Tenho passado nos nove reinados, um por um. Discretamente, sem ninguém notar minha presença, fui recolhendo pessoas.
– Sequestradora! – Gritou alguém da multidão.
– Não quero que me vejam como uma sequestradora. Sou uma salvadora. Essas pessoas são vitimas de bruxaria! — Algumas pessoas olharam para Safira. — São pessoas, que na guerra passada, causaram a guerra! São pessoas que destruíram os reinos. Se não fossem por ela a incentivar pessoas ao mau caminho, vocês, cidadãos do reino mais pobre de todo o mundo, não estariam assim.
Bruxaria. Safira fez de tudo para não se sentir ameaçada. Não podiam enforca-la como fez com seu pai, mesmo que por motivos diferentes. Safira não cometia bruxaria, mas não tinha como provar. Bem... Rhaysa tinha como provar ao contrario, caso visse o ‘’K’’ em Safira.
– A cada reino há uma bruxa, meus jovens. – Rhaysa penetrou seus olhos castanhos nos verdes de Safira. – E eu estou olhando direto para uma.
Como um vírus, toda a multidão se afastou de Safira.
– Oque?! Não! Eu não... Mãe! – Safira olhou para sua mãe.
– Você não pode condenar minha filha de bruxaria sem provas!
– Provas? – Perguntou Rhaysa, alto suficiente para que todos ouvissem. – Querem provas?! Olhem para o braço da garota! Um ‘’K’’.
Uma mulher da multidão começou a gritar. ‘’Khaasy! Khaasy!’’ E um homem se juntou a ela, e de repente, quase todos acusavam Safira de algo que ela não era.
– Mas ela é só uma criança! – Conseguiu dizer um homem no meio de vários outros.
– Ela é uma bruxa! Não vê a maldição nos olhos verdes dela?!
– Você não pode fazer isso! – Safira estava suando frio, morrendo de medo. – Não!
Tentou correr, mas sua multidão não a deixou. De repente, não encontrava mais sua mãe.
Dois homens maiores a segurar pelos braços.
Khaasy! Gritavam.
Sua visão foi ficando lenta. Rhaysa se aproximava de Safira.
Não... Pensou. Mãe...
E então alguém deu uma pancada na menina, e sua visão escureceu até perder os sentidos.
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