As crônicas malignas do reino de Lucifenia
1 A rosa e seus espinhos
Notas iniciais
―Princesa Riliane
Há muitos anos, havia um reino dominado pelo mal.
Quem caminhava pelas ruas de Lucifenia perceberia a aura sombria que recaía sobre os habitantes pálidos com olhos vazios. A crise, a escassez e todo o drama de mães que perdiam seus filhos para a fome e pais que viravam comida de animal ao se aventurarem na floresta para caçar, ou que simplesmente eram perdiam suas cabeças por dizerem algo errado.
E quem estava no topo? Riliane Lucifen d’Autriche, a rainha tirana de apenas catorze anos.
Riliane era cruel, e as tavernas estavam repletas de maldizeres sobre seu nome. Apesar da pouca idade, era gananciosa e egoísta, e ainda assim conseguia manter-se, porque era tirana demais para que alguém ousasse desafiá-la. Uma soberana bela como uma rosa, mas intocável graças a seus numerosos espinhos. E o povo mantinha-se submisso mesmo que suas necessidades fossem ignoradas para que a rainha fizesse uma festa grandiosa em benefício próprio.
Uma festa esplêndida que contava com a presença de nobres, lordes e conselheiros, que adentravam o palácio despejando graças sobre a rainha, todos com seus largos sorrisos.
Sorrisos falsos, Riliane sabia muito bem, mas não se importava. Desde que continuassem de joelhos diante dela, e desde que seu fiel servo estivesse ao seu lado, não havia com o que se preocupar.
— É uma bela festa, Majestade – como sempre, Allen Avadonia estava lá, a companhia constante de Riliane. O jovem, tão similar à rainha, mantinha suas costas eretas e o olhar firme em uma ameaça velada a qualquer convidado que ousasse desrespeitr Riliane. – Perfeita para você – completou.
A rainha sorriu suavemente diante do elogio, mas sem tirar os faiscantes olhos azuis da multidão. Allen era o único que tinha o privilégio de ver aquele sorriso genuíno, e quando o via, quase podia se esquecer de que a rainha era, de fato, má.
Mas a vaidade era maior que os poucos vestígios de suavidade, e o que mais agradava Riliane era o fato de que todas aquelas pessoas estavam bem vestidas e se fartando de comida por ela.
— Vossa Majestade – uma voz lhe chamou a atenção. Príncipe Kyle Marlon, do reino vizinho, se colocou de joelhos diante do trono e baixou a cabeça. – Gostaria de agradecer-lhe pela honra do convite.
A rainha assentiu com a cabeça. Kyle Marlon era, sem sombra de dúvidas, o homem mais belo que a garota já tivera o prazer de conhecer. Seus cabelos azuis eram uma combinação perfeita com aqueles olhos penetrantes... intensos. Sem contar que o jovem, cinco anos mais velho que a rainha Riliane, era uma das únicas pessoas que a tratava com verdadeiro respeito, ao invés da usual bajulação.
— É uma honra tê-lo aqui – a rainha retribuiu.
Kyle retribuiu com um sorriso, e a rainha sentiu um tremor percorrer lhe a espinha. Riliane mal se lembrava de sua infância, mas aquele sorriso nunca a deixava se esquecer de quando o jovem príncipe lhe carregava nas costas e corria com ela pelos jardins do palácio. Eu tenho que me casar com esse homem, a soberana pensou, dispensando o jovem com um aceno de cabeça.
Precisava amadurecer a ideia, mas não era algo tão ruim, era? Seria uma aliança benéfica para ambos os reinos... e ela amava Kyle. Aquele tremor diante do sorriso dele certamente significava isso, certo?
Se virou para Allen, que permanecera impassível o tempo todo. Seu rosto ainda estava firme, e a garota se via nos olhos azuis do garoto. Os dois eram tão semelhantes que era assustador para as pessoas de fora, até mesmo para Riliane. Ela o encontrou nos corredores do palácio, acompanhado pelo seu chefe da guarda, e imediatamente ficou fascinada pelo quão semelhantes os dois eram.
Desde então... eram um só.
— Ei, Allen – podia contar com ele. Seu servo e conselheiro mais leal. Não poderiam ter uma discussão próximos de tantas pessoas, mas se ele pudesse considerar o casamento de Riliane e Kyle...
— Sim, Majestade? – ele se virou para a rainha.
— Com licença – Riliane viu sua frase ser cortada pela aproximação do próprio chefe da guarda. Leonhart, um homem na casa de seus quarenta anos, trajava vestes vermelhas, em harmonia com o vestido de uma garota que estava ao seu lado. Sua filha, Riliane supôs. – Peço perdão pela interrupção, Majestade. – a rainha se limitou a assentir. Aquele homem a irritava, e o fato dele tê-la interrompido apenas intensificava o sentimento. – Essa é a filha da qual falei, Germaine.
— Majestade –Germaine fez uma reverência. – É uma honra poder enfim conhecê-la pessoalmente.
— Germaine? – a soberana apoiou o queixo em sua mão enquanto estudava a garota. Era bonita, para uma menina sem sangue nobre. Seu cabelo castanho cortado na altura das orelhas parecia receber cuidados frequentes e a jovem não tinha a magreza cadavérica que nauseava Riliane. – Você tem uma filha bonita, Leonhart.
— Agradeço, Majestade – a tensão na voz do homem despertou a atenção da rainha. Ela percebeu que Allen, ao seu lado, também estava em alerta. – Mas não foi para apresentá-la que vim aqui.
— Se veio discutir política – Allen interveio, seriamente. – Então sugiro que se retire.
Leonhart franziu o cenho, encarando o garoto com desconfiança e certo desdém. Se não fosse pela proximidade de Allen com a rainha, provavelmente poucos os respeitariam, já que era apenas um garoto também de catorze anos. Riliane já tinha perdido a conta de quantas pessoas já tinham ido para a guilhotina por chamar Allen de pirralho.
— É importante – Leonhart disse friamente. Sua filha fitava a rainha com um misto de raiva e antecipação. –, eu compreendo que você seja jovem, Majestade, mas isso não quer dizer que você pode agir com tamanha irresponsabilidade – Riliane semicerrou os olhos diante da acusação. – Uma festa dessa magnitude? Com tamanha abundância de comida? Pessoas estão passando fome! Estão morrendo porque você toma toda a colheita para si, cobra impostos absurdos e isso pra quê? Pra manter esse padrão de vida luxuoso? Por favor, reconsidere seus gastos... vossa Majestade.
Um discurso que não continha nada de novo, Riliane revirou os olhos internamente. Só porque ela era jovem, dezenas de homens adultos achavam que tinham permissão para mandar nela e dar-lhe lições de moral. O que Leonhart estava sugerindo? Que ela deixasse de ter uma festa simplesmente porque alguns plebeus não conseguiam administrar suas plantações e alimentos? Por favor. Se eles não têm pão, podem comer bolo, não é? Ah é, eles não têm isso também. Problema deles.
— Eu vou reconsiderar – a rainha mentiu, podendo ver o alívio nas feições de Leonhart e de sua filha. O homem sorriu, grato, e fez outra reverência, dessa vez desajeitada. Riliane acenou com a cabeça, com um sorriso zombeteiro em seu rosto.
Bem, não era atoa que Leonhart havia acreditado tão facilmente nas palavras da tirana. Olhando-a tão jovem e com um olhar tão inocente, era fácil se esquecer de que toda rosa tem espinhos, e que havia um motivo para chamarem Riliane Lucifen d’Autriche de filha do mal.
A rainha não tirou os olhos das costas do homem e da jovem Germaine enquanto se afastavam, mas seu sorriso tinha morrido em seu rosto. Tolos.
— Ei, Allen.
— Majestade?
Leonhart devia saber muito bem que não devia confrontar a rainha. E que não devia acusá-la tão descuidadamente.
— Você sabe o que fazer.
Porque todos os que iam contra a rainha... misteriosamente desapareciam.
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