A princesa Helena tinha uma página amarelada nas mãos. Aquele era o escrito que ela lera para seus pais algumas eras antes. Seus olhos corriam atentos pelas linhas que escrevera sobre seu mundo quando tinha apenas dez anos, enquanto pensamentos confusos passavam por sua mente. Seus pais incentivavam sua carreira de escritora desde muito pequena, mas censuravam a sua ideia de levar seus escritos ao outro mundo, afinal, foi a partir da junção da magia hanariana com os ideais humanos que o mal havia sido propagado em Hanaros nos tempos dos reis divididos. Não seria uma boa ideia fazer o mesmo com o mundo humano. Mas Helena sublimava aquela censura, ela acreditava que um dia poderia levar apenas as coisas boas ao mundo “contaminador”.

Seus escritos eram baseados no que escutava andando pelas vielas do reino, e eram apreciados por escribas experientes em todos os dois cantos de Hanaros. Porém, havia assuntos sobre os quais ela ouvia, mas nunca ousara escrever, e seus pais também não permitiam. Os reis divididos eram censurados em qualquer canto do mundo, devido a eles Hanaros havia sido unida e ao mesmo tempo separada, era um mistério. Mas mesmo assim ela escrevia algumas linhas, tentava descobrir o enigma por trás das narrativas receosas dos habitantes hanarianos. E por trás do próprio medo de sua mãe, a única pessoa contra a ideia de Helena desvendar os mistérios hanarianos.

Naquele momento ela completara vinte anos – idade do amadurecimento hanariano, quando conservava a mesma fisionomia até sua mudança para a dimensão final – e parecia saber um pouco do motivo que gerava todo aquele medo. Perguntava-se se aquele seu escrito concebido no auge de sua puerilidade, intitulado “História hanariana: Parte I” estava de fato correta. Havia muitos mistérios e intrigas relacionados com seu povo para que ela pudesse desvendar. Seus pais nunca lhe diriam o porquê da atual situação de Hanaros. Mas quando a máscara enfim iria cair?

Ela olhou para a folha em suas mãos mais uma vez antes de enterra-la aos pés de um carvalho, ou algo do tipo, juntamente com todos seus outros escritos. Ela não acreditava mais na veracidade de tudo aquilo. Temia gerar de fato um efeito negativo na Terra. Além disso, a princesa entrava em uma nova fase, interessava-se por outras coisas. Ela havia conhecido alguém e este alguém mudara definitivamente sua concepção sobre algumas questões no mundo em que vivia.

Seis eras haviam se passado – tempo limite para cada governo – e já era chegada a hora dos atuais reis passarem o trono para sua filha unigênita — e herdeira da essência -, a escritora precocemente aposentada, Helena. Porém, não havia como, sua jovem filha andava com a cabeça nas nuvens. O trono não lhe interessava, outra coisa invadia lhe a mente: O amor. Ora, isso fora vantajoso para seus pais, afinal, a princesa não podia governar só. Se o mesmo fosse aceito pela essência, poderia ser o rei de Hanaros. Mas, onde estava o pretendente? Por que ela o escondia tanto? Perguntavam-se os soberanos.

Helena adiava o encontro do amado com os pais, alguma coisa impedia-lhe de mostra-lo aos soberanos, mas, o quê?

Uma manhã os reis de Hanaros foram ter uma séria conversa com Helena, não havia mais como adiar o repasse do trono, já era chegada a hora dos velhos Nixges, tinham que partir para a dimensão final – onde repousava a alma de todos hanarianos após seis eras, já que era daí que vinha toda a força vital necessária para manter os inimigos bem longe.

–Helena! – gritou o rei da sala do trono.

–Sim, meu pai? – perguntou relutante a jovem fada, temente pelo tom severo na voz do Nixge.

–Estamos adiando demais sua coroação, é chegado o momento, onde está o futuro rei de Hanaros? – Perguntou.

–Ele o aguarda lá fora senhor, mas uma coisa me perturba a alma. – explica Helena.

– O que seria?

– Não quero que vocês partam para a dimensão final. Eu os amo. – Disse com lágrimas nos olhos.

–Ora, nós sabemos minha filha, a recíproca é verdadeira – consolou a rainha – e por este motivo devemos ir, até que os Meltas sejam destruídos, e seja encontrada a fonte de poder que abrirá a dimensão final para os bons, o sacrifício será preciso.

Disse a rainha, mas, algo em seu tom não convencia Helena.·.

– E onde estão os reis de h’qeju? A coroação deles também será logo mais.

Perguntou ela ao outro soberano.

– Ramon e Liandra logo mais repassarão seu trono a Pedro e sua escolhida, Luiza – disse o rei – Eles serão os outros reis. Creio que fora uma boa escolha da parte deles.

Luiza e Pedro eram o segundo par de herdeiros do trono hanariano. Desde o fim do Império dividido Hanaros teve seu povo supostamente unido novamente, mas estranhamente nunca por completo. Os reis da Hanaros do “outro lado” também estavam próximos ao fim de seu reinado. E logo mais o trono seria repassado para seu filho único — Pedro.

–Fora sim – disse extasiada a princesa, Luiza e Pedro eram seus amigos mais próximos.

–Isso não importa agora. Vá busca-lo não temos todo tempo do mundo. – Ordenou o rei.

Helena saiu pelo portão da sala do trono saltitante, tinha a mais plena certeza de que Thomas herdara a essência, agora só a felicidade a aguardava. Pelo menos era o que achava.

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– Olhe Thomas, como ela é linda. – chamou Helena, enquanto acalentava a filha.

Thomas olhou a garotinha com ternura, de fato era um bebê lindo, mas alguma coisa o deixava inquieto demais para que se demorasse no rosto dela.

–O que há? – Perguntou a então rainha.

–Muitas eras são passadas, meus... Parentes estão quietos demais não acha? – disse ele enquanto olhava para toda Hanaros além da janela de seu quarto.

– Talvez tenham entendido que nossas espécies devessem se unir, e que seria melhor assim. – sugeriu simplória, a fada.

Embora não admitisse, há certo tempo Helena andava receosa com as condições do reino. O sono às vezes não lhe fechava os olhos, as tardes de folga tranquilas se tornavam sufocantes como se houvesse uma coisa por vir. Algo não estava certo, mas o quê?

–Será? – disse incrédulo.

– Outra questão me preocupa meu querido, nossa hora é quase chegada e os herdeiros do trono ainda são bebês. Creio que tudo esteja se desenvolvendo tardiamente. – disse a rainha, seus olhos firmados na face daquela pequena criatura que agora estava ao seu colo.

–Não se preocupe – Thomas beijou as duas – quando chegar a hora nós seremos chamados, mas acredito que a mesma ainda tardará um pouco a vir.

–Que os grandes te ouçam.

Ouviu- se uma batida na porta do quarto, Helena deixou a filha na pequena cesta e levantou-se para abrir a porta.

– Você está aguardando alguém meu senhor? – perguntou ao marido.

– Não, você está?

Ela negou com a cabeça.

Quem seria? Ultimamente o medo de alguma invasão perseguia Helena como uma sombra, que se mantinha viva até mesmo sob a escuridão.

Ela soltou um suspiro aliviado ao abrir a porta e ver quem se encontrava lá.

Eram os então reis de Hanaros h’qeju, Luiza e Pedro, que traziam no colo outro bebê de pele corada, e que já brincava com as mãos botando-as na boca.

–Oh, meus amigos!- exclamou ela enquanto abraçava os visitantes calorosamente – que bons ventos os trazem até aqui?

– Eu não diria que são tão bons assim – murmurou Luiza.

– O que disse?

– Hãn... Nada. Veja só – disse tentando divagar – trouxe meu pequeno.

– É lindo – disse Helena enquanto afagava a cabeça do bebê – chega a ultrapassar em beleza aquele que a Aleivim me trouxe para nomear como herdeiro do trono.

– A pequena princesa também não fica atrás. – Luiza olhava por cima do ombro da rainha. – você se refere ao futuro rei de Hanaros h’dexs?

Helena não gostava daqueles nomes, daquelas divisões.

– Sim, não me agrada esta união precoce, isso não é certo. Não há como controlar o coração. Eu sei bem disso. – confessou.

–Então por que fez o acordo? – perguntou Luiza.

Helena levou seus olhos até seu marido. Thomas conversava algo com Pedro não distinguível à distância.

– Ora, esta era a única forma de garantir proteção para minha filha. Sendo assim, não há nada a temer já encontramos o herdeiro a essência. Sou submissa a eles devido a esse poder, e em troca ganharão nada mais justo do que um parente no trono hanariano. – ela olhava para as crianças com certa preocupação – e você sabe, Hanaros tem que estar dividida.

–Mas que descendência com os Aleivim esse garotinho tem? Por qual motivo Miriam gostaria tanto que ele herdasse o trono? Minha rainha, isso não me cheira bem.

–Eu sei cara amiga, eu sei. Mas o que fazer? Não há outra opção. – concluiu Helena. — Não me respondeu que ventos os trazem aqui.

–Bem...

– Diga o que há Luiza, é alguma coisa relacionada a... – falou Thomas, agora ao lado de sua esposa, temendo pronunciar o final da pergunta.

Ela balançou a cabeça, afirmando.

– Mas não pode ser possível. Eu renunciei tudo, inclusive a espécie como...

– Quanto a você sabemos – interveio Pedro – Mas, e seu pai? Afinal você deveria ser rei, mas não esse tipo de rei. Quem sabe ele queira vingança.

– Sabem muito bem que eles não atacam Hanaros por minha conta, almejam a muitas eras o controle total do mundo e como estão cansados de tal informação, é necessária força vital para alcançarem seu objetivo.

–Sim, sabemos de tudo isso Thomas, mas tememos por nossos filhos — disse Luiza.

A rainha foi até o pequeno cesto onde repousava a princesa. Uma sensação ruim abalou Helena, suas dúvidas estariam certas?

– Então quer dizer que os pequenos correm perigo? – falou.

–Não se sabe ao certo, Deigmons, está proferindo profecias nada animadoras aos quatro ventos, ele prevê que os Meltas chegarão a qualquer momento para tomar definitivamente Hanaros.

–E está nos falando isso nesta tranquilidade?! – vociferou Thomas

– Todos sabem que a fama de Deigmons não é das melhores. – falou Luiza

– Ele já fez alguma previsão errada?

–Na realidade ele nunca fez alguma previsão.

– Mas isso não quer dizer que... – Helena tentara perguntar, porém algo a atrapalhou, na verdade, alguém.

–Que nós não chegaríamos aqui? – No canto da parede estava uma criatura que toda Hanaros nunca desejara ver, mas que os presentes no quarto já se depararam muitas vezes, em especial Thomas. – E vejam só, antes do previsto, e a tempo de uma... Reunião familiar?

– O que faz aqui Carlos? – perguntou o rei.

– O óbvio – o mago melta olhou para o lado, e de uma das portas surgiu outro com uma dúzia de Nixges guardiões do castelo aos seus pés, mortos – pegar alguma, na verdade toda força vital.

–Oh! – Helena tampou a boca reprimindo um grito de horror.

– Majestade como vai?- Carl tentou aproximar-se de Helena, Thomas se colocou em sua frente, fazendo o mago retroceder — Visão dura para uma recente mãe não é? Afinal, onde está ela? É uma espécie nova, talvez dê bastante força vital. É, é mais vantajoso pega-la.

–Você nunca a pegará! – disse Helena correndo para a cestinha onde estava o bebê.

–Vejamos – o mago precipitou-se para correr atrás da rainha, porém Luiza e Pedro conseguiram o deter, enquanto isso dezenas de outros Magos adentravam no quarto.

– Helena, vá, leve as duas crianças até Deigmons suponho que ele saberá o que fazer – disse entregando o filho dos outros reis em seus braços juntamente com sua filha, enquanto apontava para um portal conjurado naquele instante. — as crianças são a última esperança, para todos.

–Mas Thomas, eu não o deixarei.

–Não há escapatória fomos avisados em cima da hora. Temo que... Que não nos vejamos mais. Tome — disse, entregando-lhe sua coroa, que logo se transformou na metade de uma pedra. Uma parte do coração de Ônix. – Não poderei usar mais isso nem você, mas eles sim.

– Não. — disse a rainha entre lágrimas.

–Só quero que saiba que todas essas eras que passei ao seu lado... -a voz de Thomas saiu entrecortada – foram ótimas, eu te amo. E se soubesse que seria assim... E- eu não teria aceitado sua sugestão.

–Por favor, não diga isso. Tudo tem um motivo, sei que tudo se acertará. Você foi aceito, a essência corre em suas veias, você não é como eles. Nada disso foi culpa sua.

–Não sei.

Naquele instante Helena pôde ver pelo canto do olho o triste fim de seus amigos de tantas eras. Luiza acabara de ter toda sua força vital sugada por um mago, e Pedro estava próximo do mesmo fim. Não, aquilo era demais para aguentar, ela não queria ficar ali tempo suficiente para assistir de mãos atadas a morte de seus amigos, marido e toda Hanaros. Ela era agora a única que tinha nas mãos a esperança de todo povo, a única que detinha a própria esperança de um dia retornar a ver seu grande amor. E não iria deixar que a oportunidade escapasse por entre seus dedos. Precisava seguir as instruções de Thomas e encontrar a salvação para todos. Inclusive para eles.

Helena não podia esperar, sentia que Thomas estava perdendo, mas teria que fazer seu sacrifício valer a pena. Se não saísse dali ela morreria em vão, igualmente sua filha e afilhado. Segundo Thomas as crianças de alguma forma poderia ajudar a todos, e ela faria o possível e o impossível para salvá-los e ver a afirmação anterior se confirmar.

Notas finais
Aí está mais uma parte de um dos capítulos. Espero que leiam e gostem. Algumas coisas podem parecer meio complicadas e sem nexo, mas vocês podem me perguntar se tiverem dúvidas sobre algo... Estarei aqui para responde-los!