As cores que me levaram á você
2 Quente ou frio
Notas iniciais
Após horas andando de um lado para outro em meu quarto, lendo os livros que tenho sobre minha família, me convenço pela última vez de que nada do que procuro irei encontrar nesses livros, mas a Direção não me permitiria sair no segundo dia de aula, apesar dos privilégios de família. Eu poderia tentar, não posso?
Após alguns minutos pensando e a resposta ainda é não. Mas ignoro e saio do quarto com cuidado, para não esbarrar com aquele garoto de novo. Atrevo-me a respirar fundo, e noto que o cheiro está longe. Ótimo estou seguro por hora.
Saio de meu dormitório e vou direto para direção do colégio, conferindo a cada virada de corredor se o cheiro ainda permanece distante. Estou há brincar de quente ou frio com o meu nariz, isso é ridículo e patético. Quando chego entro sem ser anunciado, não tenho tempo para cerimonias.
“Peter, precisamos conversar.” Digo já dentro de sua sala. E ele me olha com aquele seu jeito indignado, mas cauteloso. Ele estava contente, até me ver. Seu tom azul logo se passou para um verde bem claro, mas ainda havia rastros de azul nas bordas. Ok, ele ainda não está completamente alterado de raiva.
“Derek Hale, quantas vezes já lhe disse. Por favor bata antes de entrar ou pelos menos não seja tão dramático em suas entradas.” Ele respira fundo e se vira para mim, com um olhar de dúvida, mas no fundo sabe que o que vou pedir.
Confesso, sempre tento escapar do modo mais fácil, com o consentimento de responsáveis, que particularmente acho ridículo e desesperador, mas ainda assim eu faço. “Diga Derek”, enfim ele fala “O que você quer dessa vez?” Pergunta já sabendo a resposta.
“Preciso ser liberado de minhas aulas amanhã, tenho um assunto para ser resolvido em casa.” Falo rápido e sem fôlego, segurando o ar como sempre. Tenho que admitir que o treinamento tem falhado. O cheiro que invade o meu quarto parece ter ficado mais forte e intenso, e começo a pensar que já está impregnando as paredes.
“Derek já conversamos sobre isso, essas fugas, essa necessidade de sempre ir para casa. Qual é sua desculpa dessa vez? Não vai me dizer que..."
“Peter, por favor!” Deus como eu odeio implorar. “Não tem a ver com drogas, eu larguei e há muito tempo, você sabe disso.” Minha voz saiu firme, e até quem tem poderes de percepção, não pensaria que é mentira. Mas ele me olha com desconfiança. Ele sabe, porém ignora.
“Vou ligar para seus pais e confirmar se sua presença é mesmo necessária.” É claro, faça isso e me pegue na mentira. Droga. Odeio quando ele insiste em suas condutas, em que tudo tem que ser certinho e colocado no lugar, mas ele só faz isso para me irritar.
“Quer saber, pode deixar. Percebi que isso é mesmo desnecessário. No que eu estava pensando, segundo dia de aula, porque sairia dessa maravilhosa escola?!” As últimas palavras saem amargas e rudes, não pude evitar. Ele sabe minha opinião sobre esse lugar.
“Foi o que pensei. Agora, por favor invente algo para se distrair. Que não envolva quebrar algo ou uso de drogas, atear fogo em algum local do colégio. Melhor, em local algum!” É, digamos que minha fama nesse colégio de aberração às vezes combine comigo. Vários anos de tédio me levaram a atos totalmente descontrolados, não posso me culpar. Tudo aqui é tão chato. “Derek, apenas toque seu violino e respire fundo antes de tomar alguma decisão, que poderá trazer terríveis consequências.” Ok, eu ouvi isso, foi uma piada? Odeio quando ele faz isso.
“Tudo bem, mas não prometo nada, já vou logo avisando. O tédio me leva à loucura, e já estou entediado.” Falo dando as costas ao meu tio, saindo por sua sala e fecho a porta atrás de mim. De volta a brincadeira de quente ou frio.
Quando dobro no meu corredor, me deixo levar por pensamentos de como fugir pra casa, todos eles são certos e com sucesso na fuga. O erro seria quando chegasse em casa. Dar de cara com Laura, minha mãe, meu pai e seus amigos humanos exageradamente coloridos, é o que me preocupa. Ser pego não é uma opção.
Estou andando de cabeça baixa, e cada plano que elaboro descarto novamente, sacudindo a cabeça, como se isso limpasse meu arquivo de notas para planos de fuga. Quando enfim, minha distração me faz esbarrar em algo, me dando conta de que tinha cometido o maior erro de todos os meus planos: Esqueci-me de verificar se ele estava por perto. Porque não esbarrei em algo, e sim em alguém, nele. Droga Derek.
Ele se vira para mim, com aquele sorriso bobo, e coça a nuca. “Ei, está distraído amigo?” Não respondo, não posso responder, não posso soltar o ar, estou preso. Isso é realmente incrível, estou paralisado na frente da pessoa que tem tirado minha concentração. Que tem me deixado louco dês do dia anterior.
“Não.” Enfim encontro minha voz, e os movimentos das minhas pernas. Tenho que admitir, não sei se vou me acostumar a olhar pra ele e não ver cor. Acostumei-me com esse mundo arco-íris. Oh Cristo, ótimo agora estou agradecido com as cores dos humanos. O que está acontecendo com os meus pensamentos. Caminho para minha porta.
“Você só sabe dizer essa palavra.” Retruca o garoto que tem me deixado louco. Isso só pode ser brincadeira, porque ele está conversando comigo? Que necessidade tem isso? Tenho certeza que alguém já lhe contou sobre minha fama de esquisito. E tenho certeza que minha encarada no outro dia confirmaram isso.
“Não.” Respondo novamente. Certo, agora o meu vocabulário se limitou a uma única resposta, sério Derek?
“Não se preocupe Stiles, ele é uma aberração. Não perca seu tempo tentando entendê-lo. Nem Freud o explicaria.” Diz uma voz familiar, é quando percebo que grupo de Jackson está parado do lado de Stiles. Como não reparei eles ali?
Esse garoto não está me deixando cego apenas em sua direção, ele tem me feito apagar tudo em volta. Antes que eu possa pensar em entrar, escuto novamente a voz do garoto apagado. “Não o chame assim, já falei.” Ele diz com um tom hostil, e pela primeira vez, desejo ver sua cor para saber se realmente tem falado a verdade. Mas ainda nada, zero cor, zero leitura.
“Não preciso que me defenda.” Falo mais rude e grosseiro do que eu realmente gostaria. E vejo sua cara de espanto, mas com um leve sorriso ainda em seus lábios. Ele nunca para de sorrir. Deus isso realmente é irritante. Bato a porta atrás de mim e tenho certeza de ouvi-lo dizer. 'É claro que não precisa.' Com aquele sorriso ainda estampado em sua face.
Esse é o momento, preciso fugir para o meu lugar. Preciso de minhas drogas, mas não me deixo levar, não iria usar aqui em meu quarto. Não com ele ao quarto do lado, não com seu forte cheiro a poucos metros de mim.
Não que eu seja viciado, mas veja por esse lado, eu vim de uma família que gerações passadas viveram em uma floresta por muito tempo. Natureza está em meu corpo, tudo que uso é natural, são drogas orgânicas e bem extraídas. Retiradas e manipuladas por mim, nada químico, nada manipulado em laboratórios. Eu me sinto mais próximo de minhas origens com elas, e são realmente ótimas para me distrair. Muitos como eu usam, o funcionamento do nosso corpo é diferente do corpo dos humanos. Somos mais resistentes. Não posso ser culpado por seguir minhas tradições.
Começo a tocar meu violino, o som invade meu quarto e toma conta de todo espaço. Quase posso sentir a cores saindo de cada melodia, de cada nota. Isso eu gostaria que fosse possível. Seria incrível enxergar o som que eu tiro de meu violino velho, mas fico satisfeito com o som que atravessa as cordas quando o arco se choca a elas. Isso é magia, música é a mais bela magia.
As horas se passam e eu nem reparo. Percebo somente quando olho pela janela de meu quarto e vejo que é noite. Tenho que agradecer por isso, enfim posso escapar. Pego meu casaco e saiu em disparada, sem me preocupar muito se tem alguém atrás de mim, eu preciso disso e eu vou ter.
Quando volto para meu quarto, estou leve, muito leve. E ainda assim sem sono.
Pego meu celular. Preciso de respostas, e está ficando difícil esperar até o final de semana para conseguir o que quero. Não gosto disso, pedir ajuda às pessoas, mas eu preciso tirar isso da cabeça. Detesto essa sensação de não saber.
“Alô, querido irmãozinho, um pouco tarde não acha?” Diz Laura do outro lado da linha.
“Olha, não tenho tempo para isso. Preciso de liberação da escola, tenho pesquisas para fazer que não podem ser feitas daqui de dentro, então por favor, ligue para o tio Peter.” Falo rápido e firme, para que ela entenda meu ponto. Eu não sei por que estou tão confiante.
“Não vai dar irmãozinho, sinto muito, terá que aguentar até o fim de semana.” Eu sei que ela está se divertindo com isso do outro lado da linha, me torturar é seu melhor trabalho. “A menos que queira compartilhar comigo. Sabe, eu posso te ajudar.” É, ela está se divertindo as minhas custas.
“Prefiro esperar.” E desligo o celular. Meu corpo que estava leve e relaxado minutos atrás, agora é rígido e firme, eu poderia quebrar alguma coisa ou explodir algo. Eu poderia explodir aquele garoto, e meus problemas acabariam. Não, na verdade não, eu ainda continuaria curioso pela falta de sua cor.
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