As cores que me levaram á você
3 Lírio pode ser irritante
Notas iniciais
A semana se passa lenta e cansativa, misturada com uma grande aflição. Começo a ter várias ideias do porque ele não tem cor. Ele é humano, é místico. Sem uma aura não sei como diferenciar. E o cheiro dele é tão forte e intenso. É como se ele usasse isso para se esconder, será que ele está se escondendo de algo? Se está escondendo algo, ele é místico, ele sabe que tem cor, sabe de nossa existência. Ele sabe bloquear. Eu preciso aprender a fazer isso. Minha família tem muito o que me explicar.
Durante essa semana ele sempre está por perto. E sempre tentando se comunicar comigo, de algum modo. É um "Oi" quando estou saído do meu quarto ao mesmo tempo que ele, quando temos matérias juntas. E máximo que faço é um aceno com a cabeça. Confesso que tenho vontade de conversar com ele, de me comunicar e saber tudo sobre ele. Quero dizer, saber sobre o fato dele poder se bloquear. Mas não faço, não sei como, é estranho para mim ter alguma conversa com alguém que não seja da minha família.
Enfim o final de semana chega, saio antes mesmo de todos acordarem. Isso aqui vira uma loucura quando muitos se preparam para sair.
Em frente ao colégio espero um ônibus. É a pior alternativa, com todos aqueles cheiros acumulados faz meu nariz coçar. Mas não ligarei outra vez para Laura, não preciso da sua ajuda.
O sol ainda nem se levantou. Aprecio muito essa transição de cores, do escuro ao claro, a cada minuto como o sol preenche o céu e faz as curvas das árvores brilharem com o reflexo da claridade no orvalho. Eu adoro tudo isso. Mas prefiro a escuridão, as cores são mais intensas mais vivas para os meus olhos.
O motorista está muito exausto, sua cor azul claro está tão fraca, que penso por um momento que ele esteja dormindo. Então ele faz a curva. Isso confirma que ele está acordado.
Chegado em casa, eu posso respirar aliviado pela primeira vez essa semana. Nada de humanos, só os cheiros dos Hales. Vou direto à para biblioteca da família. Nenhum sinal de alguém está acordado ainda.
Folheio cada livro. Alguns são muito vagos nas explicações, são sempre as mesmas respostas.
“Na falta de cor em um ser vivo, indica que ele está próximo a morte.” Ou “Que está morto.” Ele não estar morto isso eu tenho certeza, ele ainda tem cheiro, mas será que perto da morte? Isso seria possível.
Estou totalmente distraindo, e percebo que passei mais horas aqui do que esperava. Posso sentir o cheiro de alguém acordando, e logo sentiram o meu cheiro também.
Me levanto e vou direto pra cozinha, preciso de café, preciso ficar acordado. E escuto alguém se aproximar. É Laura, seu cheiro de lírio invade a cozinha antes mesmo que ela entre.
“Bom dia irmãozinho.” Sua voz sai sonolenta e pesada. E não posso nem descrever sua aparência, é totalmente desgrenhada. “Você não podia mesmo esperar. Porque não ligou? Poderia ter te buscado no colégio.” Diz ela passando por mim e bagunçando meu cabelo.
Me esquivo de sua mão. “Eu sei me virar sozinho, não se preocupe.” Falo firme. Eles ainda insistem em me tratar como uma criança, isso é incomodo e cansativo. “Onde está a mamãe ou papai? Eu realmente preciso falar com eles.” O sono está tomando conta de meu corpo. Eu preciso dormir, mas não vou, preciso de respostar mais completas, do que uma pré morte para falta de cor.
“Ela está viajando, com o papai.” Laura agora está sentada, com os cotovelos apoiados a mesa, segurando sua enorme caneca de café.
“O que?” Isso é ótimo, quem mais vai me ajudar nisso. “Eu preciso falar com ela, com um dos dois.” Minha curiosidade está fazendo com que minha mente entre em colapso novamente.
“Ok Derek.” Quando ela fala assim, já sei o que vem a seguir. Sermão de irmã mais velha, que quer saber todos os motivos de meus assuntos misteriosos. “Eu sei que você tem seu jeito excêntrico de ser, que gosta de investigar tudo, e tem que ter respostas sobre tudo. E que adora a sensação de fazer tudo isso sozinho. E só pede ajuda de nossos pais raramente, por isso sei que é algo importante pra você. Então pode confiar em mim, sou sua irmã, posso te ajudar também.” Ela se cala, e coloca a mão em meu ombro, sua cor agora é de um amarelo tão intenso, que quase invade o meu corpo.
Reviro os olhos e me deixo levar. “Tudo bem.” Falo em suspiro “Tem um garoto na escola que...”
Sou cortado com um grande. “Oh meu Deus, Derek!” Ela fala com um sorriso enorme no rosto, seu amarelo mudando para o azul em uma velocidade que meus olhos quase não acompanham. “Como ele é, me conte tudo não me esconda nada, ele é bonito?” Ah claro, como não percebi que isso era um erro, porque ainda confio nela?
Não falo mais nada, dou a costas e vou para o meu quarto. Tenho certeza que minha cor agora é o verde mais forte que Laura já viu.
Entro em meu quarto com Laura atrás de mim. “Derek desculpa, continue.” Ela tenta esconder o sorriso, mas é inútil, sua cor de felicidade é nítida. “Vou te escutar com atenção e juro não falar mais nada, pode continuar.” Ela se senta em minha cama, e cruza os braços sobre suas pernas, me olhando com curiosidade e atenção.
Solto um suspiro pesado. Levo uns minutos pensando se devo ou não falar algo. E como sempre ignoro a resposta óbvia em meus pensamentos. “Ok, só me escute.” Falo, e olho para ela, ainda desconfiado. “Esse garoto não tem cor, e isso está mexendo com minha cabeça. Ele é um total vazio para mim, não tenho certeza se ele é místico, se é humano. E como ele consegue esconder sua cor, se ele esconde mesmo ou se ele apenas nunca teve.” Fico sem fôlego quando acabo de falar. E Laura está me olhando diferente agora, ainda tem um sorriso lá, seu azul ainda é forte. Ela inclina a cabeça para o lado e se levanta.
“Olha Derek, tem várias razões para ele não ter cor. Ele pode ter canalizado sua energia e escolhido não mostrar, e acontece em raros casos de alguém nascer sem cor.” Ela anda de eu em lado para o outro. “Mas a mais lógica é que ele consegue esconder sua cor.” Laura fala com tanta tranquilidade que isso me irrita mais ainda.
“O que? Podemos fazer isso, esconder nossas cores. E por que ninguém nunca me disse isso? Eu não acredito.” Ela repara o quanto minha raiva se expande, e se aproxima.
“Derek se acalme. Olha não é tão fácil assim apagar sua cor, ainda mais nossa linhagem, nossa magia se mistura à terra, nossos sentimentos são mais sólidos e consistentes. E por que você gostaria de esconder sua cor?” Ela pergunta sabendo a resposta.
“Ficaria mais fácil para mentir.” Digo sem sorriso, sem emoção.
“É por isso não lhe contamos.” Ela sorri e bagunça novamente meu cabelo. “Derek, pergunte a ele o motivo por esconder sua cor.” Ela começa a se retirar do meu quarto, quando para na porta e se vira novamente para mim. “E quanto ao cheiro dele, como é?” Ela pergunta. E eu não sei a resposta.
“Eu não sei.” Paro e penso, não sei o cheiro dele exatamente. Todo mundo tem o seu cheiro próprio, mas o dele eu não sei distinguir, é muito misturado e confuso. “Ele cheira a doce, amargo e ácido, ele não tem um cheiro único.” Isso também me incomoda, o cheiro dele.
Laura agora não consegue mais segurar o sorriso. O que acontece com todo mundo que ama tanto sorrir desse jeito. “Pergunte a ele irmãozinho.” Ela diz e sai do meu quarto.
Aproveito esses dois dias em casa e me entrego a sensação de liberdade. Tenho sorte de poder caminhar pelo meu quintal, respirar profundamente. Deito na grama e minutos depois, caio em um sono profundo. Acordo e já é noite. Meus pulmões enfim então preenchidos com cheiros que me agradam.
Volto para o colégio deprimido. É sempre pior voltar para lá depois de passar alguns dias em casa. Estou mais sensível a outros aromas e cores. Laura está me levando, ela tem me observado a cada minuto, sempre dando risadinhas. O que será que isso significa?
Quando chegamos, ela me olha pela última vez “Converse com ele Der. Você precisa de um amigo, talvez sua curiosidade sobre ele faça vocês se unirem.” Não seja ridícula, não preciso de amigos, não preciso me unir a ninguém. Do que preciso é matar minha curiosidade.
Quando chego no dormitório não sinto ele. Talvez ainda não tenha chegado. Porque estou preocupado afinal. Vou direto para o quarto pegar meus livros. Vasculho todos os cantos e falta um. Maldição! Devo ter deixado em casa. Que seja, já estou atrasado.
Ando o mais rápido que posso, e chego na classe da minha última aula do dia. E o cheiro invade meu corpo, ele está aqui. Olho para o fundo da sala e lá está ele, rodeado de pessoas, sempre rodeado de pessoas. Como alguém pode ser tão popular em tão pouco tempo? Me sento o mais distante possível.
A professora entra e todos se calam. “Abram na página 42.” Ela fala com sua voz rouca. Reparo que ela está doente, ela sempre está doente. E sempre que isso acontece, ela se senta e nos observa ler a aula toda. Melhor assim, esqueci o livro de sua matéria, posso apenas inclinar a cabeça pra frente, deitar sobre meus braços, e fingir que o cheiro desse garoto não está me deixado louco. “Derek Hale." Ela diz e levanto a cabeça em um pulo. “Onde está o seu livro?" Ela pergunta.
“Esqueci.” E escuto a sala toda rir, já sou um alvo fácil, e ser chamado atenção é motivo maior para todos tirarem sarro.
“Então sente-se com alguém, você não vai ficar a aula toda dormindo." A sala cai em gargalhada e zombaria. Quem vai querer sentar comigo?
Penso em abrir a boca, mas escuto uma cadeira sendo arrastada.
“Ei, pode ler comigo.” Antes que eu tente protestar, ele já está ao meu lado. Aqueles grandes olhos castanhos me olhando com um sorriso enorme estampado em seu rosto, ele estava sempre sorrindo. A turma inteira virou-se uns para os outros e os sussurros começaram, as cores eram fortes, totalmente espantoso. Fico observando a sala, antes de olhar para ele novamente.
Por fim olho em sua direção. “Oi, meu nome é Stiles Stilinski." E estende a mão pra mim. Olho para sua mão estendida, e para ele. Não faço nenhum movimento. Abaixo a cabeça e continuo respirando pela boca.
“Derek Hale." É tudo o que falo. Não pego em sua mão e nem volto a olhá-lo. Eu não posso fazer, não sei fazer amizade, não sei o que falar. Permaneço o restante da aula assim, calado e lendo. Um assunto de um livro que já li a semanas atrás. E pelo o que observo ele não se importa se eu converso ou não, ele não para de falar em nenhum momento, sempre fazendo comentários desnecessários sobre o livro e piadas sobre outras coisas. Ok ele é engraçado, mas muito falante.
Assim que a aula termina, não espero nenhum minuto a mais, e saio em disparada, preciso respirar, preciso do meu lugar.
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