As cores da carne

1 Carmin - Introdução


Notas iniciais
Para melhor compreensão desse capítulo você deve saber que lembranças dos personagens estão em itálico e falas em negrito.

Crec, crec... Eu ouvia o rangir dos degraus. Ela estava se aproximando. Eu não sabia quem ou o que era ela, apenas sabia que ela carregava a morte com ela. E ao menos que eu quisesse sofrer em pavor nos seus braços até meu fim eu tinha que ficar ali escondida, imóvel, em silêncio e rezar para que ela não me encontrasse. Preferia morrer de fome naquele armário velho.

Pronto. A mala estava pronta e a mochila também. Eu havia escolhido tão rapidamente as roupas colocando todas que eu via pela frente que fechar o zíper da mala tinha sido difícil. Meu maior interesse e gasto do tempo estava em arrumar a mochila de exploração. Lanterna, confere. Barraca, confere. Colchonete, confere. Garrafa de água, confere. Barras de cereais e frutas, confere. Spray de pimenta e canivete, confere. Eu estava ansiosa e empolgada com a ideia. Vesti rapidamente minhas galochas verde-musgo, vesti uma calça jeans, uma camiseta e uma japona que já tinha separado na noite anterior, pendurei a mochila nos ombros e desci tropeçando escada abaixo arrastando a mala de rodinhas sem me preocupar com o barulho, afinal a casa estava vazia pois meus pais aproveitaram que eu não estaria em casa e viajaram para as Bahamas. Corri porta à fora e circulei a quadra da minha casa, atravessei a rua e dei a volta até a quadra do colégio, ponto de encontro marcado para esperar pelo ônibus. Não tinha ninguém, na rua, no colégio e nem mesmo no bosque que ficava em frente ao colégio. Puxei a manga da japona e olhei a hora no relógio de ponteiros que havia ganho de herança quando vovô faleceu. 5h30. É, eu estava uma hora adiantada. O céu estava nublado e o vento assobiava ao passar pelas árvores do bosque. Comecei a prestar atenção e percebi que estranhamente as árvores continuavam mexendo suas folhas e galhos bruscamente mesmo quando o vento dava suas tréguas. Isso me deu calafrios. Contudo, pensei comigo mesma, a entrada para o bosque tem esse formato em U que deve causar redemoinhos de vento entre as árvores dando a impressão que elas se movem sozinhas, porém é apenas o vento que se prende entre elas e não chega até onde estou.

5h45. Minha barriga começou a roncar como se uma enorme tempestade estivesse chegando. Lembrei que não havia comido nada antes de sair de casa. A cantina só abriria as 7h, eu não queria gastar meu estoque de barras de cereais e frutas e apesar da minha casa ficar à apenas uma quadra eu sabia que tinha acabado com o estoque de comida da geladeira na noite anterior para aproveitar a última noite de conforto e comida sem limites até a volta para casa no fim do mês ao voltar para às aulas. Foi ai que me lembrei que ainda tinha cinco reais do troco do lanche do último dia de aula no bolso da minha calça jeans e da confeitaria que ficava do outro lado do bosque que abria todos os dias, exceto nos feriados quando fechava, às 6h da manhã. Juntei minhas coisas e atravessei a rua em direção ao bosque. Ao chegar no meio do caminho da abertura em U do bosque, rumo ao caminho de pedra entre as árvores que me levaria ao outro lado logo em frente à confeitaria senti o mesmo calafrio de antes. As árvores se mexiam bruscamente mesmo sem vento, não havia nenhum redemoinho de vento entre elas. Me acalmei mentalmente, deve ser a ansiedade pela viagem me atormentando, o ciclo de vento deveria existir apenas na altura da copa das árvores, óbvio. Respirei fundo e segui em frente. O caminho de pedra era estreito, para uma pessoa apenas e formava curvas imensas se bifurcando em vários pontos até chegar à saída. Se não conhecesse os caminhos com certeza teria me perdido lá dentro e provavelmente saído pelo mesmo lugar pelo qual entrei. Dentro do bosque o vento era feroz, ia em todas as direções e fazia meu cabelo em corte chanel voar em todas as direções e o gorro da minha japona subir e descer. Por um momento tive a impressão de que estava sendo seguida. Olhei para trás, não tinha ninguém, apenas moitas e árvores agitadas. Calma! A ideia de participar de um acampamento que simula sobrevivência a situações de filme de terror me animava tanto que eu já estava me desesperando antes mesmo de chegar ao local do acampamento. Isso não era bom, eu preciso de calma para situações assim. Pelo menos minha atenção à todos os movimentos estava à mil por hora. Isso era bom! Cheguei à outra saída do bosque e já avistei a confeitaria do outro lado da avenida. Ali os carros já ocupavam a visão. A confeitaria era um prédio grande rosa pastel de dois andares e se destacava pela placa de tamanho colossal que ocupava um terço da sua fachada dizendo "Confeitaria Amor Doce" em letras vermelhas. Atravessei a rua. A confeitaria havia acabado de abrir as portas e eu já estava em frente ao balcão de doces. 6h01. Comprei um mini croissant de chocolate e morango e um suco de laranja com abacaxi — laranxi — e sai do local. Quatro e cinquenta, eu ainda tinha cinquenta centavos — que provavelmente não me seriam muito úteis no meio de uma floresta. Joguei a moeda para um pedinte sentado no estacionamento do estabelecimento. Olhei para a entrada do bosque do outro lado da avenida e avistei o que parecia uma pessoa muito suspeita me encarando. Na verdade era apenas um palpite que ele ou ela me encarava, pois usava uma capa preta longa que me impossibilitava de enxergar o rosto àquela distância. Mas a figura estava parada virada em minha direção. Imóvel por alguns minutos, eu e ela, observando. Ela deu o primeiro passo para quebrar o gelo, adentro do bosque. Um pouco paranoica e sabendo que o bosque era alvo de objetos de macumba resolvi atravessar no sinaleiro mais a frente e dar a volta por fora do bosque. 6h20. De volta à quadra da escola. Dessa vez já estava cheia de alunos com suas malas, os três professores orientadores e um ônibus com motorista já dentro. Percebi que os professores estavam fazendo a chamada da lista de participantes. Apressei-me e me aproximei do grupo. "Kaya?" "Presente!" Respondi com tanto entusiasmo que alguns alunos se viraram para observar quem seria a estabanada da excursão me fazendo corar. Entre esses lá estavam Charlotte e Brian, rindo da minha cara. Eles vieram me cumprimentar e já ficamos juntos para sentarmos próximos um do outro no ônibus.

6h30. Entramos todos no ônibus após os comandos dos professores. Eu, Charlie e Bri sentamos nos assentos ao final do ônibus. Brian sentou-se ao meu lado e Charlie sentou-se na minha frente. A excursão não contava com muitos participantes, o ônibus para 45 pessoas contava com apenas 27 assentos ocupados, contando com os professores orientadores. Mesmo com muito espaço de sobra alguém de fora do nosso grupo de amizades sentou-se ao lado de Char fazendo-a ficar com cara de emburrada causando um ataque de riso em mim e em Brian. Colin Thompson era um garoto magrelo e baixinho, um loirinho que vivia sozinho no colégio. Ninguém tinha nada contra ele, mas era de conhecimento geral que ele era um medroso, fazendo alguns garotos impertinentes o incomodar com pegadinhas a ponto de fazer ele mijar nas calças — literalmente! — Por isso eu me perguntava o que ele fazia rumo a um acampamento de terror... Pergunta respondida logo em seguida como se ele tivesse ouvido meu pensamento. "Eu não queria estar aqui. Meus pais me obrigaram a vir porque falaram que eu tenho que parar de ter medo de bobagens e que só enfrentando eu irei perder o medo." Ele estava encolhido em sua cadeira, estremecendo e falou isso sem olhar para nenhum de nós três. "Não me deixem sozinho nessa, por favor, eu sei que vocês são legais e que eu sou um estorvo, mas por favor." "Ahn... Tudo bem eu acho... Né?" Charlie falou olhando para mim e Bri com cara de pena do garoto. "Claro. Claro!" Respondeu Brian. "É mesmo?" disse Colin me olhando por entre as cadeiras para mim, os olhos lacrimejavam. "Sim, estamos todos juntos nessa." Ele suspirou de alívio. Brian deu um chute na cadeira do Colin fazendo-o pular e virar imediatamente para frente. Charlie voltou à cara de emburrada. Ela gostava do Brian, mas Brian gostava de mim e pelo que eu sabia Colin estava sempre me observando, ao longe, também. Essa era uma situação que me incomodava. Nós três éramos amigos de infância e esse "triângulo" amoroso de quatro pessoas me incomodava muito, principalmente porque eu não gostava de nenhum dos dois garotos. Do Brian eu gostava como amigo, com o Colin era apenas respeito de colega. Além de tudo me sentia triste pela Char, ela era minha melhor amiga e eu sabia que o Brian não gostar dela — ele tinha deixado isso bem claro quando ele não aceitou ir ao baile de formatura do ensino fundamental ano passado com ela e depois me convidou — como de mim a chateava muito. Pelo menos ela sabia que podia confiar em mim, eu tinha deixado isso bem claro.

Os professores entraram no ônibus desviando a atenção de nós quatro daquela situação constrangedora. Apesar de já os conhecermos os professores se apresentaram. "Delin Woose, professora de educação física." "Charles Dant, professor de história." "Patric Lin, professor de literatura, apaixonado por literatura clássica de terror, haha." Como outra fã de literatura clássica de terror já comecei a divagar pensando no que viria pela frente, afinal o professor de história e literatura estavam a meses preparando o roteiro dessa excursão, as expectativas eram altas, pelo menos para mim. O professor Patric continuou a falar. "Bom, como foi avisado à seus pais, essa excursão será feita no parque particular de Al Vince. O parque foi fechado para uso apenas dos alunos da escola municipal de Grand Valley para a excursão de terror de férias. Vocês deverão formar times de quatro pessoas e sobreviver sozinhos pelo mês nas florestas do parque, cada grupo descerá em pontos diferentes do caminho. Nós, professores, ficaremos na casa de hospedagem principal, vocês terão um mapa que entregaremos para cada grupo ao descer do ônibus caso precisem de alguma assistência, para nos encontrarem na casa, onde poderemos lhes abrigar. Caso algum acidente aconteça, cada grupo ganhará um bipe localizador, é só pressionar que uma equipe médica que também estará no estabelecimento principal irá de encontro à vocês. Todo o perímetro do parque é cercado por muros e protegido por seguranças em toda sua extensão exterior. Pistas foram deixadas pelo caminho e cabe aos grupos sobreviverem aos testes psicológicos. Foi avisado para que vocês trouxessem alimento e água suficiente, mas caso precisem, perto do lago, que vocês também terão a localização pelo mapa, têm muitas árvores frutíferas e a água é potável. Espero que aproveitem a experiência que preparamos para vocês! Agora vamos partir!"

Todos relaxaram em seus lugares depois de todas as orientações dadas. Encostei-me no banco e ouvi o motor do ônibus ligar. Virei a cabeça para a janela com a intenção de acompanhar a paisagem durante o trajeto. O ônibus estava na saída do colégio quando vi na entrada em U do bosque, a figura misteriosa novamente parada, como se me encarasse novamente. Imóvel, congelei. O ônibus continuou seu trajeto seguindo o ritmo do meu coração acelerado. Adormeci com a imagem daquela figura na cabeça...

Ouvi a porta do quarto se abrir. Ela estava ali.

Notas finais
Obrigada por dedicar seu tempo à essa história.