As cores
6 Laranja?
Notas iniciais
Antes ***
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Parecia-me apenas mais um dia letivo comum. Tudo aparentava estar em seu curso normal na base do possível. As aulas seguiam em uma lentidão preocupante e como sempre, Grimmjow estava com aquele biquinho de canto. Qualquer professor que o conheça superficialmente apostaria que ele está incrivelmente interessado na aula, porém eu sei o quanto o azulado está entediado.
Tudo corria tão bem, por que ele tinha de estragar?
Quero matá-lo! É um desejo um tanto comum, o qual sinto quase todos os dias em que o vejo, entretanto hoje ele parece muito mais gritante. Sinto uma aura negra me envolvendo e sei que qualquer um que trilhe esse caminho consegue vê-la explicitamente.
Encontro-me de punhos cerrados, o aguardando na esquina de casa, tentando não enfurecer-me ainda mais ao lembrar de todo o ocorrido desta tarde.
O pior dia letivo de todos com certeza foi este e não estou adornando a situação. Foi realmente uma tarde desgastante, a mesma que me exauriu toda e qualquer paciência a qual eu guardasse para lidar com Jeagerjaquez.
Tudo bem Grimmjow tentar preservar sua masculinidade diante da população escolar, mas me humilhar da maneira que fez? Até isso eu poderia perdoar, mas erguer a mão para meu amigo?
ARGH!
Sempre que recordo de todo o ocorrido desta tarde, meu sangue ferver, meus punhos se mostram cerrados e meus dentes trincados. Como ele foi capaz de beijar a Nelliel em minha frente e ainda ter coragem de gritar para quem quisesse ouvir que eu sou uma pedra em seu caminho?
A surra a qual lhe dei foi mais do que merecida. Sei que uma desavença como esta eu poderia simplesmente deixar o tempo levar, joga ao mar do esquecimento, entretanto os problemas não findaram por aí. Ishida tentou apartar toda a confusão e acabou levando um soco no olho; um soco proposital, o mesmo que o fez voar longe, graças ao corpo magro que não pôde manter os pés fincados ao chão. Como ele foi capaz de bater em meu amigo daquela maneira tão atroz? Como se pouco se importasse sobre como eu me sentiria depois dele tê-lo feito? Como eu o julgaria; qual seria a imagem que passaria a ter perante meus olhos após um ato tão desatino, ou talvez realmente premeditado?
Depois de uma mancada como esta por parte do outro, prometi a mim mesmo que dessa vez não me deixarei levar com tanta facilidade pelos beijos e tentativas de reconciliação com sexo. Perdoei muitas coisas da parte dele. Perdoei tanto... Tudo o que eu soubera fazer durante estes anos fora perdoá-lo. Ele sempre parecia merecer uma segunda chance a meu ver, assim como agora.
Posso está irado por tudo que ele fizera a mim; irado por sua traição, a mesma que fora com o intento de deixar-me furioso, irado por suas palavras tão cruéis, as mesmas as quais me deixaram os olhos marejados; irado por ele ter feito meu amigo parar na enfermaria; completamente irado por todas suas mancadas... Contudo, sei que no fim irei perdoá-lo, perdoá-lo como sempre o fizera, como o grande otário que sou, todavia não tão facilmente como todas as vezes que ele aprontou comigo.
Dessa vez, ele precisa desculpar-se. É tudo que precisa. Desculpar-se com quem merece ouvir suas escusas. Grimmjow deve sinceras desculpas a Ishida, deve sinceras desculpas a mim, que tenho sido feito de idiota por todo esse tempo de namoro. Sua desculpa será tudo o que preciso ouvir para perdoá-lo uma vez mais.
Logo o vejo de longe, assistindo seu duvidoso aproximar. Os cabelos azuis estão completamente despenteados e ainda veste o casaco o qual rasguei na base do ombro durante nossa briga.
Vem em passos lentos, e sei que seus ferimentos foram tratados na enfermaria, já que tem pequenos curativos na ponta da sobrancelha e bochecha, onde o acertei com alguns socos cortantes.
Nossa briga chamara a atenção de boa parte da escola, os mesmos que não entenderam ao certo o porquê de tanta violência por parte de ambos. Naquela luta, nenhum de nós dois estava lá para brincadeiras. Fora tão aprazível socá-lo e chutá-lo como eu fizera hoje, que não me recordo qual fora a última vez que eu senti tanto prazer em machucá-lo daquela forma tão dispensada.
Fitei o caminhar sorrateiro do outro que se aproxima aos poucos, calculando cada passo dado, me cercando como se estivesse pronto para um segundo round. Seu rosto está um tanto quanto inchado, já que mesmo sendo maior que eu, conseguiu apanhar muito mais, minha ira transcendendo as expectativas para aquela luta. Seus olhos encontram-se serrados, mostrando-me seu mar azul tempestuoso, externando que Grimmjow ainda está puto por tudo.
Sinto certa tenção e sei que o encaro com uma ira mortal. Como ele pôde?
— Acha que vai vencer dessa vez? Dá primeira, você apenas deu sorte. – Debocha, não tardando a abrir um de seus sorrisos, mostrando-me todos os dentes, dando início a uma de suas risadas.
Quase esquecera dá piada. A piada cuja ele sempre está a apreciar, principalmente nos momentos mais impertinentes, Grimmjow está rindo, resignando a algo maior, ou apenas tentando me tirar do sério; coisa que ele sempre consegue fazer sem maiores problemas. Todo seu cinismo, todo seu deboche... Tudo isso me irrita; irrita-me em um nível alarmante; um que talvez ele não faça ideia.
— Peça desculpas. – Ordeno, repudiando o comentário desnecessário o qual ele fizera segundos atrás. Amaldiçoo-me por minha voz ter saído ligeiramente embargada, de modo bastante perceptível.
O outro me encara desacreditado, cheio de desdém ao arquear uma das sobrancelhas, provavelmente sentindo-se superior ao ponto de não ter a necessidade de desculpar-se por seus erros. Não procrastinando o inevitável, ele começa a gargalhar.
Caso Grimmjow soubesse o ódio o qual sinto dessa gargalhada... Ele não faz ideia do reboliço que se faz em meu estomago sempre que o ouço soltar um desses risos histéricos quando estou tentando concertar suas burradas.
— Qual é a graça imbecil?! – Interpelo, não evitando alterar a voz devido à ira. – É muito divertido me humilhar como fez? É muito divertido beijar a Nell em minha frente de propósito? É divertido machucar Ishida que tem um tamanho drasticamente menor do que o seu? Você acha isso engraçado? – Grito por fim, tendo os punhos já serrados, sabendo que meus olhos fervem em ódio.
Como ele pôde fazer tudo isso apenas para me irritar? Será que não há o mínimo de senso possível nessa cabeça?
Grimmjow já não ri mais. A expressão antes tão divertida encontra-se incrivelmente séria e arrogante, os lábios adornados por este biquinho de canto. O silêncio retumba por breves segundos; o outro se mostrando minimamente pensativo antes de bufar, dando uma mórbida risadinha.
Por que ele tem sempre que estar errado? Parece que namoro uma criança de seis anos, completamente impulsiva, a mesma a qual deseja ser superior aos pais. Como posso lhe dar com alguém como ele? O que ele quer exatamente com todas suas atitudes mirabolantes e dispensadas? Será que ele deseja que eu o odeie para sempre?
— O que você queria Ichigo? – Quebra o silêncio, cruzando os braços no instante em que seu cenho mostra-se austero. – Queria que eu segurasse sua mão na frente de toda aquela plateia e anunciasse nosso namoro de quase três anos? – Indaga soltando uma risada, meneando negativamente com a cabeça, não tardando em mostra-se inflexível com relação à situação.
Cerrei ainda mais o punho, sentindo os nós de meus dedos queimarem, não evitando rosnar para o outro, tentado a vencer a distância de nossos corpos apenas para socá-lo de novo.
— Você quer que eu desenhe?! – Gritei impaciente, batendo o pé ao dar um ameaçador paço à frente. – Você deve desculpas a mim! Deve desculpas ao Ishida! – Ao notar minha alteração, o outro recuou com o pescoço, fazendo uma de suas caretas de desagrado, encarando-me por breves segundos e logo revirou os olhos.
Uma moça a qual passa de mãos dadas a uma criança que presumo ser sua filinha apressa o passo, tentando evitar que a menina flagre uma briga de rua, o que não é lá muito comum nesta cidade e o que eu não duvido que venha a ocorre.
— Desculpas é? – Inquiri entre risos, pendendo a cabeça para o lado, fazendo uma vez mais meu sangue ferver.
— Está pensando que isso será como todas as outras vezes que você aprontou comigo? Estou falando sério! Se você não se desculpar, eu nunca vou te perdoar. – Assevero, tendo o tom incrivelmente baixo. Essa não é como nossas outras brigas. Definitivamente não! Sempre que brigávamos, depois de algumas conversas, ás vezes até conversa nenhuma, eu simplesmente esquecia o porquê de estarmos brigando. Apenas deixava para lá e segurava sua mão. Ele nunca precisou se desculpar por nenhum de seus atos, já que eu, o idiota sempre o perdoava facilmente. O amor realmente chega a cegar, mas quando a ferida é muito funda não se pode fechar os olhos para a ação que a causou.
— Quantos anos você tem? – Zomba entre risos. Esse sorriso... – Se não se desculpar eu não vou te perdoar? – Repete minha frase, logo mostrando os dentes e pendendo a cabeça para trás. – Hilário. – neguei devagar, recusando-me a crer nisto. Crispei os lábios, sentindo uma dor latente em meu maxilar. Será que ele não entende como eu me sinto? Não dá a mínima para o que penso de si?...
Novamente neguei com a cabeça, erguendo o queixo ao olhá-lo nos olhos, fitando cada traço debochado de seu sorriso e sentindo a pontada em meu peito. Por que ele não se importa ao menos um pouco?...
— Quer saber de uma coisa seu convencido idiota? Se eu te deixar, não existe outra pessoa nesse mundo que venha a aturar seus erros, seu ego, suas gafes e suas infantilidades. – Assevero em baixo tom, tendo a voz ligeiramente falha.
Ele me olha atentamente, um olhar frio e levemente arrogante, como se estivesse refletindo sobre o que acabo de lhe lançar em rosto; ele sabe que não pode impugnar minhas palavras... Respiro fundo antes de prossegui.
— Não existe ninguém além de mim que perdoaria tudo que eu já perdoei. Tudo que aturei por gostar muito de você. E eu... Eu estou disposto a te perdoar mais uma vez. Realmente estou. Por que diferente de todos que fingem gostar de você por medo, eu gosto de verdade. E quer saber? Eu poderia perdoar antes mesmo de você pedir desculpas o fato de ter me humilhado, o fato de ter me machucado física e psicologicamente, o fato de ter me traída sem nem pensar em como eu me sentiria depois. Mas sabe algo que não posso deixar passar ileso? O fato de ter machucado meu amigo.
Silenciei; fitado seu rosto, aguardando por sua resposta. Ainda me encara com um tom de arrogância, os braços continuam cruzados e sei que ele está louco para forçar um sorriso.
— Belas palavras. – Disse por fim, logo suspirando e sorrindo. Como sempre tentando fingir que pouco liga para a situação.
Estou incrivelmente frustrado. Desde sempre eu me importei com Grimmjow e com seu bem estar; sempre me importe se ele sentia-se bem. Será que ele não pode cogitar a ideia de que sou algo a mais do que um simples brinquedo de foda? Uma simples babá que está sempre disponível para cuidar de si quando bêbado? Um simples guarda costas para livrá-lo das encrencas nas quais se mete? Será que durante todo esse tempo apenas eu o namorava? Sinceramente, é o que parece.
— Peça desculpa a Ishida e a mim. Depois disso, eu te perdoo. – Postulo em um murmurejo; minha voz caindo a cada palavra. Merda! É o momento no qual tenho de me mostrar mais forte. Não posso parecer fraco, não agora...
Ele me encara divertido. O sorriso desdenhoso brincando nos lábios, ampliando-se por alguns relevantes centímetros, os ombros balançando levemente, denunciando uma muda gralhada.
— Pedir desculpas? – Brincou ao soltar uma risada nasal. – Pode até ser verdade que você seja o único ser capaz de me aturar Ichigo, mas nós dois sabemos que você vai me perdoar de qualquer jeito. – Arregalei os olhos ao sentir o peso de suas palavras. Ele realmente deveria estar mal acostumado já que sempre aprontou e sempre se safou, ainda recebendo carinho; tratamento vip quando bêbado e sexo na hora em que bem entendesse. Talvez eu esteja muito mais errado do que ele por ter o tratado assim durante todo esse tempo. Por ter passado a mão em sua cabeça depois de todos os erros, por ter perdoado tão facilmente.
Meus ombros pesam com a culpa e não sinto as pontas dos dedos. Tento respirar fundo, porém ar me falta. Encontro-me estático, ainda processando suas palavras, as quais não foram ponderadas antes de serem ditas.
Ou eu o domo agora, ou não o domarei nunca. Depositei todas minhas forças na ponta da língua, apenas para postular em baixo tom:
— Peça desculpas.
Grimmjow ergue uma das sobrancelhas, não procrastinando o riso; o mesmo riso o qual me faz perder todo e qualquer resquício de esperança. Óbvio que ele riria. O que eu estava esperando?
— Não. – Pronunciou devagar, sibilando, brincando com a palavra que saíra de seus lábios. Minha garganta apertou ao vê-lo estender o sorriso como em um desafio. Essa foi a pessoa a quem eu me dediquei durante todo esse tempo?
— Me dirija á palavra apenas quando for para se desculpar com Ishida e comigo. – Informo, obrigando meus pés a deixarem o local. Ouço sua risada debochada atrás de mim enquanto enveredo-me para casa.
Você apenas precisava pedir desculpas seu idiota. Uma simples palavra. Seu orgulho é mais importante que nosso relacionamento?
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Agora***
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Samantha me encara atônita.
Pedira para que deixasse a Hanna passar o dia na casa de meu pai, para assim termos uma conversa séria. Grimmjow encheu-me o saco para que eu o deixa-se participar também, todavia o conhecendo como o conheço, sei que essa seria a pior opção de todas, já que ele é um desbocado idiota.
Minhas mãos soam frio e não sei ao certo o que fazer com elas. Ainda estou coberto por dúvidas cruéis, realmente cruéis; não sabendo ao certo como manusear a situação.
E se o que estou fazendo for errado? E se a Hanna se assustar com toda essa mudança? E se a Hanna não me aceitar? E se a Samantha me odiar? E se Samantha resolver levar a Hanna para os Estados Unidos e ela nunca mais voltar a me ver? E se minha filha estranhar ter dois pais? E se ela quiser morar com a mãe? E se Samantha não quiser guarda compartilhada? E se ela usar o meu relacionamento com o Grimmjow como um dos motivos para ser melhor a criança crescer com ela? E se... Ah, foda-se toda essa merda! Definitivamente não posso abrir mão de minha filha.
Samantha ainda tem os olhos ligeiramente arregalados, logo suavizando as expressões e soltando um letárgico suspiro ao fitar o chão.
Sei que assim como para mim, a situação é difícil para ela e eu não quero magoá-la, entretanto, não posso estender isso.
Não sei ao certo o que estou fazendo com minha vida e muito menos se o que estou fazendo é correto. Será que eu apenas o perdoei por que está doente? Será que sinto algum tipo de culpa por não tê-lo perdoado antes? Ele me magoou seriamente três anos atrás, e eu simplesmente não pude superar...
Meus pensamentos são interrompidos pela voz doce e baixa de Samantha.
— Você descobriu que ainda o amava e decidiu conversar comigo, ou você me traiu? – As palavras me atingiram certeiramente. Como ela?... Respirei pesadamente, esticando os dedos que antes estavam entrelaçados.
— Eu traí você. – Afirmei mantendo a voz firme. Não posso simplesmente olhar em seus olhos e mentir. Ela mostrou-se ligeiramente surpresa, recuando devagar com o pescoço, porém logo soltou um suspiro, subindo o solhos para meu rosto.
— Pelo menos você não mentiu para mim. – Murmurou em tom de alivio, logo abrindo um pequeno sorriso, inclinando-se para tomar minhas mãos com seus dedos, encarando-me seriamente.
Seu olha passara a reverberar, e a cada segundo que a fitava, mais cintilante eles encontravam-se e ela mais me apertava as mãos. Ao retornar de seu sorriso, percebi que seus olhos brilhavam por conta da umidade. Ela... Ela está chorando. Fui surpreendido por um abraço apertado, sentindo suas lágrimas molharem meu ombro. Ouço seu fungado e seus braços me envolvem com mais força. Deslizo às mãos por seus longos cabelos loiros para consolá-la.
— Eu te amo. – Sussurra ainda me apertando.
— Tudo bem querida. – Murmuro; abrindo um sorriso. Ela foi uma pessoa maravilhosa no decorrer deste ano, contudo não é ela quem eu amo. Meu amor estava dando uma volta de moto por algum canto, preservando o orgulho até esquecer parte dele quando veio me procurar. Meu amor estava distante por ser um idiota, entretanto agora ele voltou...
— Não se esqueça de mim. – Sussurrou ainda me apertando.
— Jamais faria algo assim.
Após os logos segundos, ela me soltou, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
Pigarreio, não sabendo ao certo como entrar neste assunto, mas mesmo assim arrisco a tacada.
— A Hanna... – Solto em um murmurejo, deixando a frase pender no ar. Não demorou em que Samantha entendesse o recado; logo ela assentiu ainda limpo as bochechas molhadas.
— Acho que nós dois a amamos incondicionalmente. Seria muito errado tirá-la de você, e eu não pretendo sair do Japão. Mas não acho saudável para uma garotinha de seis anos acompanha um relacionamento como o de vocês, por tanto ela vai morar comigo. – Ao ver minha careta diante de suas palavras, a loira abre um breve sorriso, acariciando-me uma das mãos e logo emendando para me tranquilizar:
— Mas não se preocupe. Você pode vê-la sempre que quiser. Se me der uma semana, alugo um apartamento. – Torci o lábio. Por mais que não seja a opção que me alegraria, Infelizmente parece a melhor.
— Tudo bem. – Murmuro vendo-a levantar-se do sofá e assenti, dirigindo-se a porta.
— Eu apenas quero que saiba – Samantha se vira para mim, olhando-me nos olhos – Quero que saiba que deve ter certeza disso. Porque se não der certo, eu não vou te perdoar... – O sorriso sumira. Está séria, acaba de calçar os sapatos e mesmo que não seja a hora certa eu solto uma risada.
— Nunca estive tão certo. – Assevero, vendo-a sorrir forçadamente, logo assentindo.
— Tudo bem. Você pode pegar a Hanna? Vou dormir na casa de uma amiga, quando estiver tudo certo venho buscá-la.
— Tudo bem, mas você sabe que pode ficar aqui, não sabe?
— Eu sei, mas não se preocupe quanto a isso. Apenas não conte sobre seu novo relacionamento para ela. – Pede fazendo um meneio de cabeça. Assenti e logo ouvira a porta se bater.
Inevitavelmente torci os lábios. Como vou explicar a minha filha que seus pais estão se separando? Será que ela vai receber isso bem? É apenas uma criança e eu não quero assustá-la com nenhuma mudança brusca em sua vida.
Por motivos desconhecidos, abri um sorriso. Por quê? Por que estou sorrindo diante de uma situação como esta? A Hanna vai ficar um pouco mais distante de mim depois que Samantha alugar um apartamento, contudo não estou preocupado quanto a me sentir sozinho. Realmente não estou... Tomei meu aparelho celular na mão e liguei para o velho.
— Pai?
— Ichigo! – Berrou animado do outro lado da linha. Afastei um pouco o aparelho de meu ouvido antes que meu pai venha a me surda. – As meninas estão brincando com a Hanna. Que bom que você a trouxe para ver o vovô! – Gritou empolgado. Ri. Não evitando o revirar de olhos. Não importe quanto às coisas mudem; meu pai sempre será um idiota.
— Sim, eu liguei justamente para perguntar se tudo bem a Hanna dormir aí hoje.
— Claro! Vamos nos divertir muito! E por que você não veio me ver? Seu filho ingrato! Nem sequer liga para o papai, só liga quando quer pedir favores, será que você não... – Desliguei. Em um dia como hoje, tenho coisas mais interessantes para fazer ao invés de ouvir o discurso do velho apelando para o sentimentalismo.
Fito o aparelho celular por breves segundos, não evitando o sorriso ao discar o número do azulado, o qual atende ao primeiro toque.
— Ruivinho?
— Oi. – Respondo com um sorriso bobo cortando-me os lábios.
— Foi tudo bem aí?
— Ótimo. Que dormir aqui hoje? A Samantha vai ficar na casa de uma amiga e a Hanna vai passar a noite na casa de meu pai... – Um silêncio estende-se por ambas as partes, o mesmo que fora quebrado por uma risadinha por parte alheia.
— Chego em dez minutos.
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É incrível como nosso encaixe é perfeito, e incrível como tudo parece novo. Os toques cheios volúpia, os beijos desejosos, os olhares... Estamos juntos mais uma vez. Juntos em um encaixe prefeito. Apertos os lençóis, puxando-os quase involuntariamente, não tardando em subir as mãos para suas costas nuas, dedilhando cada músculo, apreciando a textura deliciosamente macia.
Gemo seu nome rente ao seu ouvido, jogando a cabeça para trás, estando tomado pelo libido; sentindo seus beijos e mordidas descerem por meu pescoço.
Sinto vontade de praguejar ao levar primeiro tapa no traseiro, entretanto decido deixar para lá apenas desta vez, porque hoje é especial...
Os movimentos dentro de mim são precisos e ágeis, levando-me a loucura. Ele olha-me nos olhos enquanto estoca com força, abrindo um pequeno sorriso de satisfação pelas prováveis caras e bocas que faço em cada investida.
Puxo-lhe os cabelos, mexendo o quadril contra seu corpo, buscado por mais contato, fazendo-o sorrir uma vez mais. Conheço todos seus sorrisos e esse é um de meus prediletos. É meigo, talvez um tanto quanto sacana, porém lindo.
Os dedos dedilham minha cintura, enquanto minhas mãos encontram-se espalmadas na curva de sua coluna, o rosto afundado em sua nuca, apreciando o cheiro de seus cabelos azuis... Tudo é extasiante; tudo é em um ritmo perfeito... Se antes eu já pensava, agora estou certo de que fomos feitos um para o outro. Sinto os espasmos e olho em seus olhos, gemendo manhoso, lhe apertando o trazeiro em um ato premeditado.
— Eu gosto muito de você... – Murmuro gemendo arrastado, sujando nossos abdomens ao chegar ao ápice.
— Não precisa repetir o que já sei... – Solta abrindo um sorriso. Continuou a me estocar até que senti seu prazer me invadir em um jato forte, estocando mais duas vezes antes de desabar sobre meu corpo, afagando-me os cabelos da nuca. – você sabe que eu também... Ruivinho...
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Um ano mais tarde ***
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Havia pesquisado na internet por flores azuis. Não sei ao certo o porquê, entretanto o pensamento de que isso o agradaria continua a latejar em minha cabeça como uma dor, sibilando as mesmas palavras vezes consecutivas.
Talvez ele achasse brega, talvez achasse romântico. Não sei ao certo, já que nunca experimentei dar flores para ele. Um homem recebendo flores não soa tão divertido.
Tento disseminar a dor na medida em que aperto o arranjo entre os dedos, fazendo algumas pétalas do Miosótis desprenderem-se do caule, dançando ates de chegar ao chão.
Flores?... Hm. Provavelmente aquele idiota preferiria uma jaqueta jeans ou alguma tinta para retocar a raiz do cabelo. Talvez seja um pensamento errôneo, contudo não soaria de muito bom senso entregar tintas ou jaquetas em uma situação como essa, por isso optei pelas mais belas flores azuis, Verónica; uma flor muito portentosa por sinal, as flores que assim como aquela tintura esdrúxula de seu cabelo, combinariam perfeitamente com a cor de seus olhos. Um belo boque azul de Verónicas; ou de Não-me-esqueças...
Sorri.
Não um sorriso qualquer. Não o sorriso que o chama de patético apenas pelo fato de repuxar-se para o lado em um tom sarcástico. Foi meigo. Meigo como o sorriso que eu costumo lhe lançar quando fazemos amor, como o sorriso que lhe lanço quando nossos corpos se tornam uma junção, quando ele afaga meus cabelos após uma sessão de sexo quente, aquele sexo que fazemos como se fosse o último, porque ele poderia como não poderia ser.
Novamente sorri. O mesmo sorriso de antes, simples, todavia com um significado um tanto complexo, o significado que apenas ele entenderia de primeira.
Pousei as flores de verónica ao lado se sua lápide, esperando que todos os significados presentes neste arranjo tão simples falem por mim, demonstrem o que não posso sibilar agora.
Ao encarar a clara tonalidade cerúlea, concluo que estas pétalas realmente combinariam com a cor de seus olhos. Uma tonalidade realmente bela, completamente viva, celeste...
O último ano o qual passamos fora encantado; obviamente que com algumas brigas mirabolantes, socos e xingamentos por parte de ambos, porém divertido e colorido. Colorido com os desenhos da Hanna, colorido com os hidrocos que ela usara para pintar-lhe o rosto enquanto dormia.
Lembro que Grimmjow ficara uma fera ao olhar-se no espelho e constar que seu rosto encontrava-se adornado de flores coloridas e malfeitas, deixando-o com um cômico ar infantil.
Lembro-me de sua expressão irada e engraçada ao reprochar-me por tê-la deixado fazê-lo. Lembro-me do sorriso travesso da Hanna enquanto ele limpava as bochechas que estavam coloridas por fofos tons de rosa e roxo, e também lembro quando seus risos se tornaram gritos de “socorro!” quando Grimmjow correu atrás dela. Foram dias realmente incríveis...
Hanna chorou. Ela chorou como eu nunca a vira chorar antes. Meu coração falhou uma batida ao vê-la de olhos vermelhos, as lágrimas descendo por suas bochechas em quantidades abundantes; os questionamentos de uma garotinha de seis anos, não entendendo ao certo o que havia ocorrido.
Mesmo com todas as dores, com o atroz ferimento em meu peito, não me atrevi a derramar uma lágrima sequer.
Como posso chorar quando recordo nosso sexo? Quando recordo nosso Eu gosto muito de você? Nosso amor não é digno de tristeza. Nunca será. Por isso volto a dar aquele sorriso, escondendo dele as dores que sinto por sua partida, não o deixando ver o quanto o fato de ter ido embora me abalou.
Retendo as lágrimas, deslizo os dedos pela lápide, sendo surpreendido pela transeunte brisa a qual corta os ares, como se me deixasse um recado.
Sorri uma vez mais, parando os dedos sobre a inscrição de sue nome antes de fazer minha última azucrinação:
— Apenas um idiota como você para se esquecer de respirar.
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