As cinzas do nosso amor
1 Prólogo
A primeira coisa que Maitê percebeu foi o cheiro. Não era exatamente fumaça. Ainda não.
Era algo queimado, estranho, escondido sob o cheiro de tinta, madeira antiga e roupa limpa que costumava preencher o dormitório. Um odor fraco, quase imperceptível, mas suficiente para arrancá-la de um sono profundo.
Ela abriu os olhos no escuro.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando entender o que havia acontecido. O quarto estava silencioso. Thaís dormia no berço ao lado da cama, respirando tranquilamente, completamente alheia ao que se passava do outro lado da parede.
Então o alarme disparou.
O som atravessou o dormitório como um grito. Maitê se levantou de imediato. O coração começou a bater mais rápido antes mesmo que ela enxergasse a fumaça entrando por baixo da porta.
Thaís. Todo o resto deixou de importar. Ela atravessou o quarto, pegou a filha no colo e a apertou contra o peito. O calor do pequeno corpo contrastava com o frio que tomou conta de suas mãos.
Quando abriu a porta, uma nuvem de fumaça tomou o corredor. O dormitório inteiro parecia ter acordado ao mesmo tempo. Portas se abriam. Pessoas corriam. Algumas gritavam. Outras tentavam encontrar uma saída.
As luzes piscavam no teto enquanto a fumaça se espalhava cada vez mais rápido. Maitê protegeu o rosto de Thaís com o próprio corpo e avançou. A escada principal estava tomada pelas chamas. O fogo subia por meio das paredes com uma velocidade assustadora, iluminando o corredor com tons de laranja e vermelho.
Foi quando ela a viu. Do outro lado da fumaça, Bruna estava parada, tossindo, com os cabelos desgrenhados e o rosto iluminado pelo fogo. Por um instante, seus olhos se encontraram. Nenhuma das duas precisou dizer nada.
Bruna correu até ela. As duas seguiram juntas em direção à saída de emergência. O calor aumentava a cada segundo. O ar ficava mais difícil de respirar.
Maitê sentia Thaís se mexer em seus braços, assustada pelo barulho, e apertou a filha contra o peito. Então veio o estrondo. Uma parte do teto caiu atrás delas.
Maitê se abaixou instintivamente, protegendo Thaís. Bruna segurou seu braço e a puxou para frente. As três continuaram correndo. Lá fora, as primeiras sirenes começaram a cortar a madrugada.
O dormitório, que durante meses havia sido casa, abrigo, confusão e palco de pequenos momentos felizes, estava sendo consumido pelas chamas.
Maitê se virou para trás quando saíram do prédio, os seus olhos percorrendo as pessoas assustadas que estavam por toda parte. Tossindo e chorando. O dormitório inteiro parecia estar ali, menos quem ela esperava encontrar. Bruna pergunta o que ela procurava e, a olhando, disse:
— Cadê a Rafaela?
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