Felix manteve sua palavra; ele havia voltado. Assim como todos os dias do verão. A cada dia eu estava me apaixonando pelo seu jeito perfeito, pelos seus grandes olhos rubis escuros cheios de determinação e paixão. Nossos encontros, nossos beijos e declarações de amor eram secretos. O nosso pequeno segredo. O mistério do meu sumiços e cantaria repentinas no meio do dia fazia o nosso segredo ficar mais emocionante e divertido.

O verão estava terminado e algumas meninas haviam chegado de volta. Poucas notaram minha drástica mudança, tanto na aparência como de humor. Meus dias eram radiantes. O sorriso não saia dos meus lábios durante grande parte do dia. Eu me sentia completa.

Após o pôr-do-sol pulei da minha janela e direto para floresta. A sombra cinza era pouco visível. Corri para seu encontro e pulei o abraçando, Felix me abraçou de volta.

Seu sorriso devastador me deixou bêbada. Felix a cada dia me conquistou. A dor em meu peito diminuiu. Não que seu amor me fazia esquecer de minha mãe mas deixava a saudade mais suportável.

“O que foi?” Perguntei ao notar as roupas de soldado.

“Nada meu amor” Disse com um pouco de tristeza

“Fale, por favor.” Pedi sem querer forçar.

“Eu vou embora,” meus braços foram deslizando de seu pescoço e devagar recuando, “desculpe Marie mas eu não posso ficar, o dever me chama.” Seu rosto era difícil de ler, seus lábios em linha reta, seus olhos tediosos e seu rosto inteiro duro como pedra.

“Não estás acabado, e por pouco tempo logo estou de volta. Eu te amo Marie, irei partir essa noite, prometa que ficará bem.”

“Nao consigo, tentarei.” Nos despedimos com muita dificuldade, meu coração estava quebrado não queria o deixar ir.

O dia não queria passar, era uma tortura saber que Felix não estaria no nosso lugar depois do pôr-do-sol me esperando com os braços aberto. Imediatamente meu quarto ficou pequeno, sair batendo a porta. As lágrimas dificultavam a minha visão e esbarrei em alguém.

“Marie? O que houve?”

“Nada,” respondi grossa. “Nada de importante.”

“Se nada aconteceu, venha a nosso pequeno luar, uma comemoração antes das aulas começarem.”

Algo em mim disse nao mas a vontade falava sim. Concordei, precisava de distração nem que seja por algumas horas.

Vesti algo prático para pular da janela, com saia era horrível. A cada passo olhava para trás, insegura e com uma pitada de medo.

A fogueira queimava e as meninas já estavam dançando e pulando com uma garrafa na mão, eram as mesmas meninas de antes. Os pelos de minha nuca arrepiaram, alguém vigiava de longe. Devagar meus pés rodearam encarando o vazio da mata, meus instintos aguçaram sentiram algo que não consigo entender. Movimentos delicados e bruscos contra as folhas, moitas e troncos das árvores ao mesmo tempo. As meninas pareciam não notar que tínhamos companhia, virei novamente e os sons pararam. Talvez seja só minha imaginação, talvez. Me juntei as meninas e sentei as observando.

As risadas ecoavam no breu da noite e a fogueira queimava menos com o passar do tempo. Nada fazia mais sentido, meus movimentos não me pertenciam e nem minha mente, por meio segundo. Diferente das outras, o álcool não tinha efeito nenhum em mim mas mesmo assim continuei divertindo e esquecendo que o mundo existe, principalmente Felix.

Fechei os olhos por uns instantes, o ronco dos pequenos animais fez meu sorriso extender e a dança dos ventos e folhas percorriam até meu nariz, o perfume intoxicante de Felix preencheu minha mente, só que havia mais elementos misturados e acrescentados.

De longe aviões corriam e explosões gritavam. As meninas, incluindo eu, gritaram de susto e medo. Na tentativa de sair e apagar o fogo, a nossa companhia apareceu depois de tanto sentar e esperar. Nao era minha imaginação. Os mesmo olhos que me aterrorizam meses atrás voltaram, diferentes intenções dessa vez. Felix foi o último aparecer. Ele parecia surpreso com minha presença no local.

“Marie, saia.” Sua voz rouca e firme deixaram meus músculos rígidos. Meu corpo não obedeceu e meus braços abraçaram Aline. As meninas choraram quietamente com medo dos três soldados na nossa frente, eles não tinham nenhum armamento mas ainda exaltavam o ar de terror.

“Desculpa.”

Tudo aconteceu num piscar de olhos. Eu era a única a estar em pé, a única sem ter o pescoço rasgado e ter o sangue drenado de meu corpo. O rosto de Aline era o mais atormentado, sua boca aberta e seus olhos cinzas tocando o céu de sua órbita. Minha respiração aumentava e meu coracao nao existia. Meus pensamentos se colidiram em minha cabeça. O impossível acabou de acontecer. Três soldados mataram cincos meninas em segundos com apenas seus dentes e força. Corri mas sabia meu destino, o mesmo das outras. Queria chorar e sair desse pesadelo. Um pensamento invadiu, como poderia explicar o que aconteceu? Se eu saísse viva eu teria que criar uma boa história para não parecer uma louca.

Um dos soldados apareceu na minha frente, corri para o lado oposto. Parecia uma caçada, o predador brincando com sua vítima antes de matá-la, onde eu ia ele estava lá na minha frente. Gritei o nome de Felix inúmeras vezes e ele nunca apareceu. Felix, o mesmo homem em seu uniforme de militar acompanhado por outros, outros com a mesma feição estampada em seus rostos, de divertimento refletindo nos seus olhos negros. Eu estava sozinha. O suor escorria e misturava com minhas lágrimas, parei para limpar e tropecei em um galho.

Esperei meu fim mas senti uma mão em minha costa. O toque tão gelado, fez cada nervo em meu corpo estala e quebrar os céus acima. A mão recuou e os estalos continuaram, e não vinha dos meus nervos. Levantei aos poucos, a raiva subindo dos meus pés para minha cabeça. Ninguém se encontrava apenas uma chama atras de mim, era um corpo. Meus olhos arregalaram com a imagem.

“Temos que sair daqui.” A voz sutil de Felix me acalmou um pouco.

“Eu, eu…”

“Marie, voce… Eu nao tenho tempo. Eles nos acharam, você vem ou nao?”

“Ir a onde?” Gritei sem rumo.

“Longe daqui.”

O choque dos acontecimentos finalmente me atingiu por inteiro e minha visão foi escurecendo aos poucos. Os braços de Felix pegou meu corpo antes de atingir o chão.

Acordei no escuro mas pude ver os olhos rubis de Felix me encarando. Ventos gélidos atingiam meu rosto bronzeado sem misericórdia. Meus braços e pernas tinham pequenas feridas, e queimam. As memórias vinham aos poucos, o sangue escorrendo em seus rostos delicados, os gritos martelando meus ouvidos e o medo de cada garota. Tudo o que aconteceu me machucava e batia.

“Nao se atreva a correr.”

Meu coração quase saltava do meu peito. Nao queria esta ali, de jeito nenhum. O medo esmagava meus músculos e torcia meu corpo.

“Me deixa ir, por favor.” Implorei pela minha vida. Eu nao sabia o que Felix era ou o que era capaz de fazer. Isso me atormentava mais, e o pior ainda confiava nele.

Ele caminhou até a mim devagar e sua mão contém um tubo de plástico escuro, vermelho escuro. O encarei negando o tubo. Em um momento ele me forçou a tomar o líquido dentro do tubo. Minha garganta queimou. Minhas mãos involuntariamente massageou meu pescoço Apoiei minha mão no chão áspero de terra e esperei a dor passar. Ao cai de joelhos tentei lutar mas não tinha forças. Minha boca e garganta começaram secar rapidamente. Minha respiração aumentou mil vezes a mais. Aos poucos a dor passou e a fome veio. A fome de anos. Eu queria mais, muito mais.

“Quem e voce?”

“Me desculpe Marie, foi ordens.”

Gritei em seu rosto. Ele me transformou em um monstro, igual aos outros. Era tão nítido. Eu o amava, e ele me traiu. Bati em seu peito, a raiva dentro de mim não era só porque ele me traiu, era algo maior, algo que estava enterrado dentro de mim por anos.

“O que você fez comigo?”

Aos poucos parei de bater e sentei confusa. Desgosto comigo mesma e com medo. Medo de alguem vim e ver quem eu me tornei.

“Me deixa sozinha.”

Felix me olhou confuso mas assentiu e me deixou sozinha. Esperei ele sair e seus passos ficar calado e fugir longe de tudo. E de quem eu amei.

A escuridão não me impedia de correr, pelo contrário, a floresta a minha frente era nítida. Cada árvore de várias formas e tamanhos, as pequenas e grandes pedras espalhadas pelo chão, os mucos húmidos entrelaçados nas pedras e galhos largados. Os animais correndo ao chegar perto de minha essência, eles sentiam algo em mim, o perigo. Continuei a correr não me importando com as pequenas feridas em meu corpo. Olhei novamente lembrando e não havia nenhum traço de cicatriz ou que alguma vez eu tivesse me ferido. Minha cabeça ainda tonta tentava assimilar e justificar os acontecimentos. Tudo impossível, a palavra certa para definir. Olhos vermelhos, pele fria e pálida, e o fato de beberem sangue de pobres meninas. Nao, vampiros são ficção, contos para assustar virgens e crianças devagar na noite. Mas tudo se encaixa. O que eu vi nao tem nada de ficção. Minha vida nao tem nada de ficção. Tudo fazia sentido agora, e nesses momentos que eu nunca pensei nisso antes. Vampiros existem.

“Foi estúpido de você correr.”

“Eu sei o que você..”

“Eu também sei.” Ele interrompeu

Minhas pernas cambaleiam. Parei pra encarar-lo e bater de frente com meu fim. Se esse for meu final que seja com dignidade. Felix apenas riu com orgulho.

“Aro e Marcus gostaram de você, Marie.”

Um segundo passou e nos encaramos até eu recuar.

“Quem?”

Félix aproveitou minha hesitação e continuou. “Vem comigo.Vem comigo para Volterra, onde podemos ficar juntos. Por favor.”

Viver junto com Felix… minha decisão marcava minhas feições. Estendi minha mão caçando a sua. Ele também sabia da minha escolha e endureceu. Eu não estava pronta.

“Me deixe ir, por favor.”

“Marie…”

Aproveitei o momento e fuji. Dessa vez ele não veio atrás.

Notas finais
Até domingo que vem. Fiquem em casa, e saudáveis!