As Verdades Do Coração

2 Segundo Conto : Starships


Não faz nem quinze minutos que eu sai de uma festa. Droga, esqueci minha carteira com alguém, mas não tem problema, não tinha nenhum dinheiro dentro dela. Estou caminhando no meio de uma avenida, desviando dos carros, brincando de roleta russa. Será que algum vai conseguir tirar a minha vida? Isso não seria um desastre, mas sim um favor que essa alma bondosa me faria. Pra que viver em um mundo, onde não encontro a felicidade que almejo?

Disseram-me que um pouco de vodka não faz mal a saúde, porém, após dez copos, não consigo diferenciar o dia da noite. Talvez esteja amanhecendo, ou é um caminhão vindo em minha direção. Continuo andando, procurando alguma pista que me diga onde fica a minha casa. Ficar bêbado deveria ser legal, mas tudo que estou sentindo, é uma maldita dor de cabeça. Apesar disso, fico feliz ao saber, que pelo menos me lembro de meu nome. Já fiquei sabendo de casos em que pessoas perdem a memória por beberem além da conta. Pena que elas não se lembravam nem de suas raízes. Duas delas acabaram de casamento marcado, uma com o irmão e outra com o primo de terceiro grau. Coitadas, eles nem eram bonitos.

Vejo que no final da avenida tem um homem encostado no poste. Olho com uma vontade absurda de terminar a noite acompanhado. Talvez eu esteja um pouco entorpecido, mas ele está tentando fazer uma comunicação com algum extraterrestre? Deve ser apenas minha imaginação, mas juro que estou vendo-o gritar:

– Seres de Plutão, falem comigo.

Não, não é minha imaginação. Ele está gritando isso mesmo. Acho que vou até ele pedir um pouco de erva, porque esse cara só pode estar drogado. Quero ficar assim também, quem sabe eu consiga me comunicar com seres invisíveis ou que não habitam esse planeta. Cultivei uma vontade de viajar pela galáxia, descobrindo novos sentimentos, tentando fugir desse lugar onde o coração não é valorizado. Devo essa vontade a um certo garoto de cabelos castanhos avermelhados, que não sabe como agir quando alguém se declara. Continuar amigos? Isso não existe. Ele queimou a minha crença nos sentimentos humanos, e agora vejo a luz no fim do túnel. Espero que eu não esteja dançando sobre os trilhos por onde o trem da vida carrega seus passageiros.

Aproximo-me como quem não quer nada e ele não percebe a minha presença. Os primeiros raios de sol do dia refletem em seus cabelos prateados, enquanto seus olhos amarelos, brilhantes como a lua, que está dizendo adeus, observam as estrelas tristonhas, que morrem de medo de caírem no ostracismo. Sua boca, rosada e volumosa, move-se lentamente, pronunciando palavras cujo sentido eu desconheço. Talvez ele seja um alienígena que veio fazer uma experiência interespecífica, porém ficou descontente com a nossa espécie e está pedindo para ir embora. Quem ficaria feliz em conhecer uma sociedade desatenta e sem coração como a nossa?

Chego perto de seu corpo, puxo suas mãos e o encosto em um poste. Roubo um beijo daqueles lábios e vejo aqueles olhos dourados penetrarem em minha alma. Vejo que aquele cara não é um extraterrestre, mas sim um homem comum, que não está contente com as atitudes das pessoas. Afasto-me um pouco, lhe ofereço um cigarro, mas sua única reação foi abrir um sorriso largo e brilhante, que me fez viajar sem sair do lugar. Ele se senta ao chão e começa a olhar para o seu, sua expressão era calma e delicada, mas ao mesmo tempo eu conseguia perceber um pouco de preocupação em seus olhos. Tentei lhe oferecer um pouco de marijuana, mas nem isso ele aceitou. Tenho certeza que se eu lhe oferecesse uma Ferrari de presente ele aceitaria. Mas voltando a cena principal, ele começou a me dizer coisas sem sentido, mas que me deixaram tocado.

– Tentei me comunicar com Vênus, mas os cromossomos XX de lá não me deram atenção. Só pensavam em compras e nos XY de Marte. Viajei mais um pouco pelos planetas, cultivei várias emoções, mas na hora de colhê-las eu não as encontrei. Talvez algum pirata espacial as tenha roubado de mim. – Ele falava olhando para o céu, como se tudo que dissera fosse verdade.

– Te digo que não existe lugar mais bonito que Urano. Por fora é todo azul, mas por dentro é rosa, roxo e amarelo. Senti-me em um desfile de escola de samba quando penetrei nas entranhas daquele lugar. Porém, logo uma tristeza profunda invadiu o meu ser. Descobri que aquele planeta era tímido, medroso e sem atitude. Ele era colorido por dentro, mas por fora só era possível ver aquele tom azul. Como se ele estivesse trancado dentro de um armário escuro e não soubesse como sair. – Continuava falando, apontando para o céu, tentando me mostrar que existia realidade fora do planeta.

– Passar a noite no Sol foi uma dádiva. Lá sempre é claro, divertido e amistoso. As pessoas andam sem roupa, os sexos não são usados para diversão, mas sim para diferenciação. Em personalidade, posso dizer que todos são quase iguais. Após algum tempo andando pelas festas intermináveis daquele lugar, eu senti uma indiferença tocar o meu peito. Todos são tão iguais, tão amigos, mas no fundo são tão falsos. Uma coisa eu te digo, não confie em nada que tenha tons de fogo. Eles podem ser alegres por fora, mas não passam de corações queimados pela desilusão. Afinal, quem brinca com fogo, um dia pode se queimar. – Vi uma lágrima escorrer de seu rosto enquanto ele divagava sobre essas abstrações.

Essa conversa estava ficando muito viajada. Eu gostava de fantasiar sobre como seria a vida em outros planetas, mas confesso que eu não chegava ao ponto de sair falando para todo mundo. Esse homem estava soltando palavras ao vento, sem se importar com as conseqüências. Normalmente eu estaria me afastando desse maluco nesse exato momento, mas estou tão bêbado que não sei aonde tenho que ir. Então, não custa nada puxar um pouco de conversa com um doído. Quem sabe eu descubro um jeito de viajar para outro lugar, quem sabe, outra galáxia.

– Você já foi a tantos lugares. Por que continua aqui na Terra? Onde nada é perfeito. – Perguntei sem o mínimo receio.

– Só lhe digo uma coisa ou duas, talvez no máximo três. Eu fui para vários lugares, mas sempre acabo voltando para esse planeta. É aqui que fui criado, aqui que aprendi como viver e foi aqui que eu sofri por amor pela primeira vez. Sem contar nas meninas que já engravidei, nos homens que já me deitei, nas ervas que já fumei e no álcool que eu já mergulhei. Deixar essa pequena moradia do pecado não me faria bem. É legal viajar, mas é melhor ainda voltar para onde seus desejos foram criados. Queria poder voltar para o ventre de minha mãe esperança, porém, não encontro a entrada de sua vulva. Talvez tenha se perdido pelo mundo. Querida esperança, foste embora sem ao menos dizer adeus. Agora só me resto viajar e sempre regressar, pensando se em algum lugar eu vá um dia te encontrar. – Ele olhava para o céu,para o chão, para os carros, para meus lábios, para o meu coração. Falava e falava, sem parecer um drogado, mas sim um saudosista, tentando voltar no tempo.

Ele se levantou e beijou os meus lábios. Roubou a marijuana que estava em meu bolso e saiu cantarolando pela rua. Chegou até a esquina, virou para mim e gritou:

– Nós somos nossas próprias espaçonaves. Não precisamos de ninguém para sair do lugar. Que se dane a tecnologia, vamos para lua aprontar a maior orgia.

Agora estou aqui, parado no muro, vendo aqueles cabelos prateados desaparecerem no horizonte. Não terminei o dia acompanhado, apenas um pouco bêbado e talvez um pouco entorpecido. Mas esse encontro foi especial. Esqueci de todas as chamas que estavam habitando o meu coração. Que morra os garotos castanhos avermelhados, que exploda Urano, apague o Sol e sobreviva a Terra. Não sei nem mais o que estou pensando. Acho que vou dormir aqui na rua mesmo, não quero terminar casado com um primo ou com um irmão. Boa noite, quer dizer, bom dia. Só me acorde, quando a próxima festa começar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.