As Vantagens de Usar Transporte Público
1 As vantagens de usar transporte público
Notas iniciais
Você apruma a alça de sua bolsa mais uma vez, corrige a postura e aperta mais os seus dedos ao redor do metal frio e sujo. Seus olhos passeiam pelo vagão a procura de algo para se prender, mas o espaço no local é ínfimo até para o olhar. O amontoado de pessoas aumenta a cada parada, assim como sua rotineira sensação de claustrofobia.
Seus pensamentos vagueiam pela ideia da quantidade de gente ao seu redor esboçando a mesma expressão facial, uma mescla de cansaço com desinteresse. Tantas histórias e vidas diferentes abarrotadas no mesmo espaço. Inúmeras perguntas banais se fixam em sua cabeça e você acaba ponderando sobre o que cada uma daquelas pessoas faz para viver, ou o que gosta de assistir na TV, se possuem alguma crença, alguma conta atrasada pra pagar, se tem filhos ou relativos queridos... Se pergunta até o que elas gostam de almoçar. É como um jogo particular de ''invente uma história para o passageiro ao lado''. Parece estúpido, mas ajuda a passar o tempo.
Você pega a mesma linha de metrô todos os cinco dias úteis da semana, pois a estação fica a alguns metros do local onde você faz estágio e depois é só pegar um ônibus até a faculdade. Ou seja, você perde oitenta minutos por dia dentro de um cubículo. Se fizermos algumas contas são 400 minutos por semana, 1600 minutos por mês... E é dessa maneira que você perde mais de um dia do seu mês dentro de um vagão de metrô.
E em um dia dá pra fazer muita coisa.
Um suspiro cansado escapa de seus lábios, suas costas e seus pés latejam de dor. Esses malditos sapatos sociais, você pensa. A bolsa está carregada de processos esquecidos e que jamais irão adiante, mas a burocracia do escritório exige que você os organize.
Estágio de merda. Faculdade de merda.
As portas do vagão se abrem e algumas pessoas saem, diminuindo um pouco do aperto no local. Agora você já pode olhar ao redor sem esbarrar a cabeça na de outra pessoa. Seus olhos passam por aquelas faces de trabalhadores cansados, apenas almejando voltar para casa e assistir seu jogo ou sua novela. A classe proletária se contenta com quase nada.
E então seus olhos finalmente encontram algo que vale a pena se prender. Por mais pateticamente cliché que a sentença anterior possa parecer, ela está mais do que correta.
Os cabelos são de um castanho escuro, quase negros e se estendem até um pouco no meio de suas costas delicadas. Ela está transferindo todo o peso de seu corpo para a parede do vagão onde está encostada, entretendo-se com algo que se parece um caderno. O vestido floral parece abraçar seu corpo pequeno suavemente, chegando até a altura de seus joelhos.
Seus olhos passeiam languidamente por toda a figura, desde o par de sandálias de salto baixo, passando pelas longas pernas bronzeadas, subindo da cintura fina até o torso esguio. Tudo nela grita uma leveza e despreocupação que te deixa abismada. Você percebe que a moça só está no ambiente figuradamente falando, mas sua postura demonstra o contrário. Sua reação é quase nenhuma em relação a quantidade de pessoas que esbarram em seus ombros na tentativa de ser organizarem no pequeno espaço.
Você sente um certo incomodo por não conseguir enxergar direito o rosto da moça... E então um mantra íntimo começa a ecoar em sua cabeça, almejando que ela levante a face nem que seja levemente. Suas súplicas não são atendidas, pois quando o metrô para novamente mais uma grande quantidade de pessoas entram pelas portas corrediças e a moça se perde naquela multidão. Você estica o pescoço tentando reencontra-la, mas de nada adianta.
E mais um suspiro cansado escapa de seus lábios, assim como um sentimento de frustração começa a crescer dentro de si. A necessidade de colocar um rosto àquela figura não é saciada.
Mais uma parada e então você desce, anda aqueles mesmos metros até o antigo prédio onde mora. O percurso é feito de maneira automática, pois sua única linha de raciocínio gira em torno da franzina moça de vestido florido.
Nada mais ocupa sua mente durante toda a noite. Você fecha os olhos, mas mesmo assim ainda é possível discernir o contorno do corpo dela, é quase como se estivesse gravado a ferro em suas pálpebras.
–-
Dias se passam nessa mesma angustia obsessiva de querer entrar no metrô e encontrar aquela mesma figura, mas dessa vez ser capaz de olhar diretamente em seu rosto. Observa-lo atentamente como fizera com seu corpo, absorver cada ínfimo detalhe. Saciar cada pequena pergunta sobre ela...
Você se assusta com a intensidade de seus pensamentos em relação a uma desconhecida qualquer. Alguém que você bateu os olhos por acaso e não conseguiu mais tira-los, assim como não conseguiu mais se desprender da ideia de reencontra-la.
Sua ânsia de que a aula termine e você possa chegar à estação é nauseante, suas mãos suam, seu batimento cardíaco é desenfreado. Você sente um leve gosto de bíli subir a sua boca. Quando o professor termina a aula, suas mãos pegajosas agarram a alça da bolsa e seus pés se movem que por vontade própria e com uma velocidade assustadora. Seus colegas de classe te reprovam com o olhar, querendo entender o motivo de tanta pressa.
A estação não é tão lotada a essa hora da noite, apenas alguns estudantes e trabalhadores cansados aguardam impacientemente a chegada do metrô. E quando ele chega, seus pés são os primeiros a pisar dentro da cabine. Seus olhos já estão escaneando todo o ambiente a procura daquela figura tão desconhecida e tão familiar ao mesmo tempo. Nenhum sinal da moça... Uma frustração ainda maior cresce dentro de você, algo tão incomodo que te dá vontade de vomitar.
E a moça não apareceu naquela noite e em tantas outras. Com o passar dos dias, seus olhos foram perdendo o ávido costume de procurar em cada pequeno canto da cabine por sua pequena figura. A medida que sua frustração e seu desapontamento foram se acomodando dentro de si, as expectativas de reencontra-la também foram, tornando-se apenas um pequeno desejo íntimo.
XX
Vinte e quatro horas não é o suficiente para dar conta de tudo que você tem de fazer em um dia. O peso da faculdade juntamente com os trabalhos desnecessários do estágio só te torna mais e mais cansada. E, sem nem perceber, você esquece quase que completamente da moça que um dia seus olhos amendoados se vidraram. Ela se torna só um sombra em suas memórias.
O período está quase no fim, assim como suas energias. Sua aparência é um pouco doentia, pele pálida e meio acinzentada, olhos vidrados e adornados por olheiras escuras. Seu corpo está mais dolorido que de costume e todo o seu ser clama por umas boas horas de sono ininterrupto. Apenas deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em todas as obrigações do dia seguinte.
Seus pensamentos estão presos na ideia do que fazer para comer ao chegar em casa, nada muito cansativo, mas o suficiente para acalmar seu estômago. Uma leve dor de cabeça te incomoda, consequência da falta de alimento e descanso.
Todo seu lado do corpo está encostado na barra de metal, procurando inutilmente não ser vencido pelo cansaço absurdo. Você quase não percebe quando uma figura esbarra em seu ombro, pede desculpas em uma voz suave e quase inaudível e se coloca ao seu lado. Seu estado de torpor é finalmente quebrado quando seus olhos encontram a figura e sua mente processa quem ela é.
Seus olhos piscam algumas vezes e você tem quase certeza que foi vencida pela cansaço e pela fome e está tendo algumas alucinações, pois encostada na mesma barra em que você, está a moça de vestido florido. Mas dessa vez ela está usando uma calça jeans e uma camisa listrada branca e preta.
Não há erro, você pensa. É a mesma moça de semanas atrás, a mesma figura e a mesma postura. O mesmo ar de ausência que tanto te assombrou por noites sem fim.
Ela é consideravelmente mais baixa que você, então não é necessário muito para observá-la por completo. Mas ainda assim não há como olhar o rosto da moça, pois sua face está (novamente) inclinada em direção ao chão, mexendo em algo que se parece um iPhone.
Novamente aqueles mesmo sintomas de ansiedade te assolam, o acelerar frenético de seus batimentos cardiácos, acompanhado pela sudorese em suas extremidades, suas respiração se torna um pouco desregular e aquele velho sentimento nauseante te assola.
O suor de sua mão dificulta o aperto no metal e você desequilibra quando um homem corpulento e apressado esbarra em seu peito e, por consequência, te faz esbarrar novamente na moça. Não foi propriamente uma batida, mas o suficiente para fazê-la perder o equilibrio e quase cair. Quase. Apesar de distraída, sua mão pequena segurava firmemente no metal.
Ela levanta o rosto para encarar a pessoa que quase a fizera parar no chão e te observa curiosamente. E você a olha de volta, finalmente saciando a antiga necessidade de observar cada milimetro daquele rosto, até então, desconhecido. E o deleite que você sentira foi algo indescritível.
Os olhos lânguidos e castanhos são adornados por longos cílios escuros e o nariz dela é único e encantador. A boca de lábios volumosos e rosados está esboçando um pequeno sorriso.
E por algum motivo desconhecido você se sente terrivelmente intimidada pela pequena pessoa. Incapaz de sustentar o olhar que tanto almejara conhecer. Seus olhos se focam em qualquer coisa que não seja a moça que ainda está te olhando. Ela deixa uma pequena risada escapar e volta sua atenção para o celular.
Seu olhar só volta para a moça quando você tem certeza que ela não mais te encara. E os dois ficam nesse jogo de observar e fingir não saber que está sendo observada durante toda a viagem até a parada dela chegar.
E um arrependimento te assola ao observar a moça passar pelas portas duplas e desaparecer na multidão.
XX
Mais dois dias se passam e vocês não se encontram novamente, mas isso não quer dizer que ela não esteja presente em seus pensamentos constantemente. A antiga curiosidade de olhar seu rosto agora é substituída pela vontade de saber seu nome. Ou o que ela faz ou gostaria de fazer, o que a diverte nos tempos livres e quais são seus gostos, suas paixões.
Pelo seu raciocínio ela sobe uma parada depois da sua e desce uma antes. São quinze minutos de viagem ou menos. E isso é muito pouco, considerando que você só teve a sorte de a encontrar duas vezes.
No terceiro dia após seu encontro, finalmente a sorte sorri para o seu lado. Não por encontrá-la, mas por conseguir um lugar para sentar durante o percurso. O metrô está menos movimentado e isso te intriga. Quase sempre não há nem espaço para respirar, que dirá um acento livre?
Você tira um livro de sua bolsa de mensageiro e começa a folheá-lo displicentemente, apenas para passar o tempo. Seus olhos passam pela mesma linha incontáveis vezes, mas nada do conteúdo é absorvido. Afinal, toda a sua atenção está voltando para saber se encontrarás a moça ou não.
Na parada que ela deveria subir há muito movimento e você não consegue observar se moça está entre os passageiros. Uma considerável quantidade de pessoas entram no vagão e acabam com a tranquilidade de antes. Você retoma sua leitura desconcentrada após alguns momentos de tentar encontrá-la, mas é realmente complicado procurar uma pequena pessoa no meio de toda aquela gente, ainda mais estando sentada.
E então alguém para ao seu lado e se apoia em seu acento, quase caindo por cima de você. Sua atenção é desviada do livro para a pessoa em questão e um sorriso genuíno se espalha em seus lábios. A moça te observa também e sorri de volta. Ela olha para o livro em suas mãos e o sorriso cresce ainda mais.
– Walt Whitman? — ela questiona.
A voz é um pouco aguda e baixa, mas melodiosa de uma maneira curiosa. Sua única resposta é um leve aceno de cabeça.
– Posso?
Você consente e ela tira o livro de suas mãos, o folheando respeitosamente, parando em uma página ou outra para ler um poema. O livro está quase caindo aos pedaços e isso te envergonha um pouco.
– Eu gosto dele. — é a única opinião que saí de seus lábios.
Os olhos castanhos se desprendem do livro e param em você.
– Você gosta de ler?
– Quando tenho tempo...
Ela te olha mais curiosamente ainda.
Você percebe que está sendo rude ao não perguntar se ela gostaria de sentar em seu lugar, assim que a pergunta sai de seus lábios, a moça nega envergonhadamente e diz que ainda está crescendo. Você não entende a piada, mas sorri.
– O que você faz? — a pergunta que você queria fazer saí dos lábios dela.
– Eu estudo Direito e estagio em um escritório perto da faculdade. Nada muito emocionante. O que você faz?
– Dou aulas de canto e faço faculdade de Artes Cênicas. Nada muito emocionante.
Ela continua te encarando com o mesmo sorrisinho nos lábios, mas você não tem capacidade de continuar com a conversa. A moça te deixa desconcertada apenas te olhando. Existem muitas perguntas borbulhando dentro de você, todas elas querendo sair ao mesmo tempo e isto te impede de dar voz a cada uma delas.
– Advogada, juíza ou promotora? — ela pergunta.
– Nenhuma das alternativas, na verdade. Direito não é minha área. — você responde de maneira envergonhada.
A expressão risonha dela se transforma em uma de profunda confusão.
– Então porque você cursa?
Sua vergonha cresce consideravelmente e seu rosto e orelhas começam a esquentar. Você não tem uma maneira educada de dizer que a opção não foi sua e sim de seus pais, o velho discurso ''Faça Letras e não te dou uma caneta!'' ecoa em sua cabeça. A moça parece perceber e balança a cabeça em uma concordância muda. Porque papai e mamãe mandam.
Você nunca se sentiu tão patética.
– O que você gostaria de fazer? — seu tom de voz é mais compreensível e mais suave agora.
– Letras.
– Então você é realmente uma moça das palavras! Mas porque Letras? Algum motivo em particular?
O genuíno interesse de uma desconhecida por sua vida é algo quase absurdo de se acreditar. Ela simplesmente parece contente em saber o que você gosta, realmente interessada em cada resposta sua.
– Eu gosto de escrever, apesar de não ser muito boa.
– E quem disse isso?
– Isso o que?
– Que você não é boa.
Ninguém.
E mais uma vez a resposta morre em sua boca. Ninguém disse se você é uma boa ou uma péssima escritora, pois nunca leram nada seu. Pois você nunca deixou alguém ler seus contos ou seus pequenos fragmentos poéticos.
– Eu gostaria de ler alguma coisa de sua autoria... Tens algo que eu possa ler agora? — a moça pergunta esperançosamente.
Você se lembra de um pequeno trechinho de conto escrito no guardanapo do restaurante universitário, algo bobo e avulso que simplesmente grudou em sua cabeça. Algo que você escreveu pensando nela. Na moça de vestido florido.
Suas mãos trêmulas procuram pelo papel em seu bolso, você o retira e entrega a ela, esperando ansiosamente saber o que a moça pensa.
Os olhos castanhos e languidos passam pelo papel e leem rapidamente aquele conjunto de letras.
– É muito bonito... Quem é a moça?
Você.
– Alguém que estava passando no momento e chamou minha atenção. — sua mentira é descarada, mas internamente você quer que a moça saiba, reconheça que as palavras foram postas no papel por causa dela.
– És um boa escritora. Acho que deverias fazer o que te agrada e não o que agrada outras pessoas. Se você publicasse alguma coisa eu definitivamente iria ler.
E o sorriso que ela te oferece é mais um daqueles tímidos, mas verdadeiro. De uma maneira estranha você acredita em cada palavra da moça, cada uma delas. Ela é capaz de transmitir uma eletricidade e uma confiança que te faz esquecer todo e qualquer problema que você antes tivera.
– Agradeço o elogio e a apreciação.
Sua resposta é sincera, apesar de ter sido murmurada em direção as suas mãos. Você escuta uma leve risada que a moça solta e torna a levantar o rosto. Seus olhos não se encontram, pois você evita, mas permanecem posicionados na altura do queixo dela.
– Você é uma pessoa estranhamente engraçada. — a moça afirma divertidamente.
– Eu acho que isso foi uma forma de elogio, então obrigada.
O silêncio tomou conta do resto do trajeto até a parada em que ela deveria descer. Mas você percebe que não foi um silêncio típico de fim de conversas desconfortáveis e sim aquele tipo de silêncio agradável entre duas pessoas que não se sentem obrigadas a dar continuidade a um diálogo, mas ainda querem permanecer na companhia uma da outra.
– Posso ficar com isso? Prometo não roubar sua pequena obra literária... — ela questiona apontando para o pequeno papel ainda em sua mãos.
Mas é claro que sim, pois foi feito para você.
– Fique a vontade. — você responde aparentemente estável.
Internamente não há uma parte de seu corpo que esteja em perfeito estado de harmonia e estabilidade, tudo vibra de uma maneira incontrolável e morna. Você só pensa em acalmar suas palpitações ou a qualquer momento poderia ter um ataque cardíaco.
Antes de sair pelas portas do vagão, a moça ainda se vira e te acena levemente, sumindo mais uma vez entre todas aquelas pessoas.
E então uma súbita realização te acomete. O nome dela. Você esquecera completamente de perguntar o nome da moça.
Mas isso pouco importa, pois na próxima vez que vocês se esbarram no metrô ela está usando o mesmo vestido florido da primeira vez.
E seu nome é Rachel.
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