As Vantagens de Ser Um Garoto
4 Meados de Outono
Notas iniciais
Minha pele agradecia os poucos raios de sol que conseguiam atravessar os galhos da árvore acima do banco. Debruçada sobre a mesa de mármore, eu sentia minha consciência ir e vir como as ondas do mar. Eu não podia dormir ali, mas estava tão confortável.
Outono já estava quase no fim, aquele solzinho era raridade, portanto, irrecusável.
Um barulho chamou minha atenção. Relutante, semicerrei um dos olhos para identificar a criatura que atrapalhava aquele momento divino.
Rowley estava sentado no banco oposto ao meu. Sua testa contendo sempre aquela ruga que ninguém conseguia decifrar. Eterna preocupação ou eterno ódio? Seus lábios ressecados e as bolsas negras embaixo de seus olhos azuis denunciavam meses de insônia.
— O que foi? – indaguei sonolenta. – Te enxotaram do grupinho dos deuses de novo? – dei um sorrisinho sarcástico enquanto voltava a fechar os olhos e me ajeitar melhor sobre os braços. – O “Quarteto Fantástico” virou trio?
Não houve resposta.
Desde a primavera que Celina fora estuprada(ela realmente foi) as crianças da escola haviam excluído o grande Nathaniel Rowley. O quartetinho ainda aguentou alguns dias, mas logo o escroto do Wells assumiu a liderança e até eles passaram a menosprezar Rowley. Eu era a única pessoa que não me afastava quando ele se aproximava, até porque eu não tinha muita escolha mesmo. Sabia muito bem pelo que ele estava passando, eu era amiga íntima daquela agonia em seu olhar.
Minutos se passaram e, por ainda não haver resposta, quase esqueci que o moreno estava ali.
Incomodada, reabri os olhos. Rowley sempre tinha uma resposta, nem que fosse um “cala a boca, sua vadia.”. Franzi o cenho ao encontra-lo na mesma posição que eu estava há um segundo atrás. Alguém poderia até acreditar que ele estivesse dormindo.
— Dia ruim? – perguntei com a voz aveludada. A verdade é que eu não tinha mais certeza se ele realmente havia estuprado a garota, mas independente da verdade, eu estava morrendo de pena dele.
— Cala a boca, sua vadia. – resmungou Rowley de volta.
Revirei os olhos e bocejei.
— O resultado dos exames sai hoje, né? – usei um tom casual. – Hoje que descobriremos de quem é o sêmen...
— Dá pra calar a boca? – interrompeu-me ele.
Não respondi. Fiquei um bom tempo observando o vento brincar com o cabelo de Rowley até este levantar a cabeça e me encarar.
— O quê? – perguntou irritado.
Dei de ombros. O pátio já estava praticamente vazio, então eu tive a brilhante ideia.
— Quer um cigarro?
— Tem aí? – o interesse na voz dele me fez sorrir de leve.
— No quarto.
Rowley se espreguiçou e juntos fomos até o quarto.
No caminho, os alunos nos lançavam olhares de canto e cochichavam entre si. Era nessas horas que eu sentia falta de Matt, ele bateria de frente com esses babacas. Rowley apenas fingia que não se importava e lhes lançava um olhar frio. Eu já estava acostumada com isso.
Assim que chegamos no quarto, notei que a porta estava aberta. Eu fui a ultima a sair e não havia deixado ela aberta.
Hesitei por um instante antes de entrar. Rowley me deu um olhar irritado e passou na frente. O xingamento veio logo em seguida.
— Porra.
Assustada, deslizei para dentro do quarto.
Havia uma figura loira sentada na minha escrivaninha e encarando Rowley.
— Suzy... – murmurei.
Suzanna Rowley, a irmã encrenqueira de Nathaniel. Na boa, essa garota era o demônio. Como sua best friend Celina não se lembrava de nada, Suzy estava obcecada em protagonizar um filme do Sherlock Holme. Mas o mais agonizante era que ela tinha certeza que fomos eu e Rowley juntos que estupramos Celina.
Rowley recostou-se na parede, ao lado da porta, e eu fui em direção a Suzy. A desgraçada estava na minha escrivaninha!
Um pouco sem jeito, sentei-me na cama de Rowley.
Suzy cruzou as pernas e pôs o lápis entre os lábios. Com suas longas unhas cor-de-rosa, ela analisou os livros enfileirados sobre a minha escrivaninha.
— Chato, chato, chato e... – ela parou o dedo indicador no meu livro de Biologia. – Esse parece interessante. – sorriu maliciosamente ao puxar o objeto.
— Pelo amor de Deus. – resmungou Rowley ainda encostado na parede ao lado da porta e de braços cruzados.
Suzy revirou os olhos e me lançou um sorrisinho cumplice, enquanto folheava o livro. Foi quando percebi que estava com a boca levemente entreaberta. Comprimi os lábios em um sorriso inseguro. Os dedos longos dela estavam a poucos centímetros da minha carta para Kelly.
— Então... – continuou ela, seu tom sedutor era impressionante. Eu não conseguia nem sentir inveja, ela era incrível demais para isso. – Parece que você realmente é um aluno muito dedicado. – a loira passou levemente o lápis pela capa do livro e lambeu o lábio inferior. – Que tal me dar uma ajuda com Biologia?
— Ham... – balbuciei, o queixo caído novamente. Eu não estava entendendo muito bem qual era a dela, mas aquilo estava me deixando preocupada. – Ham... – tentei encontrar o que dizer mas Rowley me interrompeu, se aproximando de Suzy e a erguendo pelo braço.
— Chega dessa palhaçada! Você só está querendo arrumar confusão! Sabe o que acontece se Brody te descobre aqui! – rosnou enquanto a arrastava para a porta.
— Nate! – ela se sacudiu tentando livrar-se do aperto dele. Ao ver Rowley abrir a porta, a loira percebeu que ia ser posta pra fora. Girando o corpo, ela pressionou as costas contra a porta, fechando-a com um estrondo.
Eu assisti a tudo boquiaberta. Ser colega de quarto de Rowley não era exatamente o inferno que eu imaginava. Eu achava que ele acordaria todos os dias incorporando Rocky Balboa, no entanto ele apenas o incorporava quando algo lhe tirava do sério. E Suzy acabara de fazer isso.
O ódio nos olhos de Rowley era nítido. Em minha mente, eu já visualizava a garota levando uma série de socos.
— Está me machucando, Nathaniel! – ela parecia querer chorar, mas se manteve firme e desafiadora.
— É mesmo? – o moreno puxou a parte de trás do cabelo de Suzy e apertou ainda mais o braço dela com a outra mão. – Se eu te ver perto de Crayon novamente, eu...
— O que? – ela o interrompeu, sarcástica. – Vai me estuprar também? Os dois juntos? Que nem fizeram com Celina?
— Sua... – Rowley gritou e eu me vi puxando-o para longe da loira.
— Sai. – pedi a Suzy. Rowley me encarava totalmente descrente. – Sai!
Com os olhos cheios d’água, a loira saiu, batendo a porta com força.
Soltei Rowley e dei um passo atrás. Sua surpresa não durou tanto quanto desejei, ele me acompanhou e agarrou meu pescoço. Segurei em seu pulso, tentando afastá-lo.
— Rowley... – foi a única palavra que consegui emitir enquanto buscava desesperadamente por ar. Ele ia mesmo me estrangular? Ali?
Eu parecia estar prestes a perder a consciência quando ele finalmente me soltou, com um empurrão. Minha cabeça bateu no chão enquanto eu tossia tentando assimilar o máximo de ar que pudesse. Apenas quando tudo parou de rodar que eu percebi que a porta estava sendo esmurrada.
— Calma, porra. – rugiu Rowley ao abri-la. Não consegui ver quem era antes de Rowley desaparecer pela porta.
Uma das vantagens de ser um garoto, é que você podia apanhar o quanto fosse, se não morresse, ninguém estava nem aí.
Ainda jogada no chão e tossindo, deixei minha mente voltar a Kelly. Naquele porão claustrofóbico onde dei meu primeiro beijo, tive minha primeira briga, tomei meu primeiro porre. O mundo parecia se resumir em Kelly, Kyle, Sarah, Donald e eu. E as paredes daquele porão, eram o limite daquele mundo.
Aos poucos fui conseguindo controlar a tosse, entretanto me dei ao luxo de continuar deitada no chão. O teto parecia indeciso se rodava ou não.
Por fim, depois do que me pareceu cerca de uma hora, sentei-me com as costas apoiadas na cama de Rowley.
Aquilo iria me render. Não era bom quando eu o irritava desse jeito.
A porta se abriu bruscamente, e adivinha quem era? Não, não era Rowley, muito pior na verdade. Era Suzy.
Ela fechou a porta e, com as mãos para trás, apoiou-se nela. Ficamos nos encarando por um longo momento e então ela suspirou.
— Me desculpe. – sua voz saiu tão baixa que quase não ouvi. – Me desculpe. – repetiu novamente, sua voz em um leve choro enquanto ela deslizava para o chão. Tudo o que eu conseguia fazer era encará-la. Suzy soluçava enquanto as lágrimas desciam incessantes pelo seu rosto. Por um instante, eu quis chorar com ela também. Meus pulmões estavam em brasas, minha garganta ardia e meu pescoço parecia não querer se esquecer das mãos de Rowley.
— Vai embora. – falei por fim. O que quer que ela estivesse passando não era problema meu. O que quer que a retardada da amiga dela estava passando TAMBÉM NÃO ERA A PORRA DE UM PROBLEMA MEU.
E enquanto ela me olhava surpresa eu percebi uma coisa. Eu não estava nem aí pra quem estuprou Celina, eu não estava nem aí para o que a bela Suzy queria porque ela não tinha nada a que provar. Eu não matei ninguém, eu não estuprei ninguém! E se Rowley realmente estuprou Celina e tentou matá-la era problema dela por ter se envolvido com um ser humano de merda que nem ele.
A única coisa que me importava ali era sobreviver e sair daquela droga de escola.
— Sai! – rosnei novamente, mais alto.
Suzy secou o rosto e ajeitou o cabelo.
— Larry... – ela se levantou e veio em minha direção. – Por que...
— Sai daqui! – gritei, levantando-me. Suzy era quase do meu tamanho, mas eu ainda era maior. E assim eu a subjuguei e fiz exatamente o que Rowley fizera momentos antes: puxei-a pelo braço até a porta. Mas dessa vez ela não resistiu, apoiou-se na parede oposta do corredor e me assistiu fechar a porta.
— Piranha... – resmunguei.
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