As Vacas Canibais
4 O Gemidão do Zap, mugidos e uma perseguição, no mínimo, incomum
— Com tanto lugar pra você vomitar, tinha que ser em cima do defunto? Como se ele já não tivesse sofrido o suficiente.
Lola havia passado as duas primeiras aulas zoando Ariel, primeiro por ter "esguichado" seu conteúdo estomacal no corpo, depois por comer cereais coloridos no café. Mas, no intervalo, ela parecia mais chateada, como se houvesse decidido que era mais desrespeitoso do que divertido "regar os restos de alguém com leite e cereal".
— Foi sem querer! — Ariel repetiu pela enésima vez.
— Diga isso ao defunto.
— Ah, qual é Lola, não é como se ele fosse se importar!
— Pois é, Lola. Afinal, todos têm direito a uma última refeição. Uma pena que a dele tenha chegado um pouco tarde — eu disse.
Lola segurou o riso, enquanto Ariel parecia chocado.
— Pesado, cara. Pesado.
— Pesado foi você jorrar leite como uma vaca em cima das evidências de um crime — Lola provocou, enquanto mastigava seu almoço.
A comparação me fez lembrar das marcas no sangue.
— Vocês notaram as marcas no sangue ao redor do corpo?
— Os cascos? — Perguntou Lola.
— Sim. Eu fiquei pensando nisso, e não sei o que poderia fazer uma…
Fui interrompido por uma voz feminina gemendo alto, num padrão que qualquer um que tivesse Whatsapp ou Facebook saberia identificar.
Abaixei a cabeça, me esforçando para não rir enquanto Ariel tentava desesperadamente abaixar o volume do celular. Lola segurava o riso, até que uma voz gritou em algum lugar no pátio:
— CAIU NO GEMIDÃO DO ZAP!!
E a pobre menina riu até ficar vermelha como um tomate.
***
Era o fim do dia, depois de uma maratona exaustiva de aulas sobre áreas geométricas e a Segunda Guerra, mas Lola ainda ria com o incidente do intervalo.
— Você tinha que ter visto a sua cara! Foi hilário!
Ariel tentava parecer indiferente, mas ele claramente estava incomodado.
—Vamos, Lola, deixe o pobre garoto em paz — pedi, enquanto caminhávamos em direção ao ponto.
Ela enxugou uma ou duas lágrimas enquanto respirava fundo, tentando se recompor.
— Ai… obrigada, Ariel. Meu dia hoje foi muito mais divertido com você.
Os olhos dele brilharam com malícia, e eu soube que ele tinha pescado uma oportunidade de se vingar.
— Sempre soube que a minha presença alegrava o seu dia.
— Não foi isso o que eu disse. Você é mais o meu palhaço particular — revidou ela, erguendo uma sobrancelha.
— Ah, então quer dizer que eu sou só seu e de mais ninguém?
Ela ficou vermelha, e eu decidi que seria mais seguro manter alguns passos de distância. Lola, apesar da irreverência, era muito tímida, e Ariel sabia disso.
— Não foi isso que eu disse, palhaço. O que eu quis dizer foi…
— Que eu vivo para fazê-la feliz, não é?
Ela quase engasgou.
— Pare com isso!
— Que foi? Eu só estou repetindo o que você disse!
Ele continuava encarando-a, e pela minha visão periférica eu pude ver suas bochechas ficarem escarlate.
— Ariel, eu juro que…
Então todos nós ouvimos um barulho estranho. Estávamos quase no ponto de ônibus, junto com a maioria dos outros estudantes, quando algo ressoou no ar. Parecia um… mugido, só que mais alto. E, de alguma maneira, mais selvagem.
— Ok, todo mundo ouviu isso, não é?
— Definitivamente — respondi.
— O que acha que foi?
— Eu sinceramente não sei se quero descobrir, Ariel — disse, caminhando em direção ao ponto.
— Nós podíamos ver o que é.
— Ahh não — cortou Lola. — Você comeu macarrão no almoço, e a última coisa que eu preciso é ver ele de novo.
Eu concordava com Lola, muito embora minhas objeções não se limitassem ao estômago irrequieto de Ariel.
Entramos no ônibus, e logo estávamos cada um em sua casa.
No meio da noite, enquanto eu dormia, um barulho me despertou do sono.
— Psiu, Dante. Acorda, cara.
Foi difícil dizer o que me assustou mais: Se foi ver Ariel e Lola parados ao lado da minha cama, me sacudindo, ou o fato de que eles, de algum jeito, haviam entrado pela janela do segundo andar.
Eu comecei a gritar, mas Lola provavelmente viu o pânico nos meus belos olhos e tapou minha boca.
— Por favor, eu sou a garota aqui!
Me desvencilhei dela enquanto tentava manter meus lençóis sobre o corpo e a minha dignidade sob os lençóis.
— Vocês estão malucos?! O que diabos estão fazendo aqui? Como entraram pela minha janela?!
— Sua varanda tem um telhado, foi fácil — disse Ariel, num tom casual, como se falássemos sobre o clima.
— Pois então podem voltar por lá mesmo! Seus maníacos!
Eu queria parecer irado, mas era bem difícil tendo que fazer a voz de um viciado em crack que ficou afônico.
— Para de gritar baixo, vai acordar a sua mãe. E essa sua voz de cracudo rouco tá me dando vontade de rir.
Viu? Eu disse.
— Ainda não me disseram porque invadiram minha casa.
— Vamos ver que coisa fez aquele barulho bizarro hoje mais cedo.
— Veio da fazenda dos Santana — Lola disse.
Encarei os dois, incrédulo.
— Vocês estão loucos.
— Vai vir ou não?
Decidi refletir por um segundo. Eu não conseguiria mais dormir (eles não deixariam, de qualquer jeito) e embora chamar a polícia fosse tentador, isso provavelmente acordaria a mamãe, o que não seria nem um pouco agradável para a minha integridade física.
— Ok, eu vou. Mas saiam do meu quarto!
— Por quê?
— Porque eu estou pelado, seu idiota!
— E daí? — Lola apontou para nós dois. — Vocês têm a mesma coisa debaixo das calças.
— Mas você não!
Ela revirou os olhos.
— Não é como se eu nunca tivesse te visto pelado.
— Tínhamos oito anos! — Respondi, revoltado.
— Não pode ter mudado tanto desde então.
— Você se surpreenderia com o que a puberdade pode fazer — respondi.
Ela ergueu as sobrancelhas, abrindo um sorriso, no mínimo, indecente.
— Mesmo?
— SAIAM DO MEU QUARTO!
Imediatamente tampei a boca, enquanto Lola e Ariel, em pânico, corriam para dentro do meu guarda-roupa. Gemi involuntariamente.
— Que pesadelo, que pesadelo…
Como eu imaginei, não demorou muito para a minha mãe entrar no quarto, usando uma camisola branca com flores vermelhas.
— Meu Deus, que gritaria é essa?
Me ajeitei na cama, tentando não olhar para o guarda-roupa.
— Fui eu… mãe.
El cruzou os braços.
— É claro que foi você. Quem mais poderia ser?
Os clandestinos no meu armário, talvez?
— Eu… tive um… pesadelo.
Ela se aproximou de mim, mas eu me mexi na cama.
— Mãe, eu tô pelado!
Ela cruzou os braços.
— Te carreguei no meu útero por nove meses, e não lembro de ver você saindo vestido.
Eu estava morrendo por dentro. Aquela cena precisava acabar.
— Eu tive um pesadelo. Não foi nada.
— Vendo filmes de terror outra vez? Você sabe como é sensível, meu amor. Lembra de quando viu aquele filme do pé? Teve pesadelos por…
— Ok, ok, eu já entendi. Desculpe, não vai mais acontecer. Posso voltar a dormir agora?
Ela beijou a minha testa e saiu do quarto no seu passo habitual, meio dançado.
— Boa noite, meu raio de sol.
Quando ela apagou a luz e fechou a porta, Lola e Ariel saíram do armário. Eles não disseram uma única palavra, mas eu pude ler nos seus olhos que eles ouviram tudo.
Me afundei nos lençóis. Era o fim da minha reputação.
— Eu sempre soube que você tinha se apavorado com aquele filme. Você chegou na escola com olheiras durante semanas.
— Calem a boca e voltem pro armário.
— Nossa, que repressivo.
Encarei Ariel com um olhar mortal, muito embora fosse difícil notar detalhes somente com a penumbra do luar pela janela.
— Armário. Agora. Já é ruim suficiente eu ter que sair do MEU quarto pela janela no meio da noite. Vocês não vão ver eu me vestindo.
— E quem disse que eu queria? — Lola respondeu, caminhando até o armário, seguida por Ariel. — Seu convencido.
Eles fecharam a porta, e eu descansei a testa em uma das mãos.
— Não pode ser um pesadelo. Eu não sou tão criativo assim.
— Vai logo!
— Calma!
Me enfiei em uma regata qualquer e calças de dormir, e bati na porta para que eles saíssem.
— Como vamos descer sem acordar a sua mãe?
— Do mesmo jeito que os meliantes subiram: pela janela.
— Ah, fala sério!
— Shiu! Fala baixo. A porta da sala range mais que a mansão da família Addams. Não vai dar pra sair.
Entre alguns resmungos e protestos, finalmente começamos a, silenciosamente, descer através do telhado, tomando cuidado para não quebrar nenhuma telha.
— Isso é humilhante — Ariel resmungou.
— Não me lembro de você achar tão ruim na subida — Lola comentou.
— A expressão do Dante quando viu a gente fez tudo valer a pena.
— Realmente — ela concordou.
Me resignei a ignorar o comentário e não cometer um homicídio ali mesmo.
Quando chegássemos em terra firme seria melhor.
Não haviam ônibus rodando àquela hora (uma das maravilhas de se morar numa cidade pequena), então fomos pedalando até a fazenda.
Depois que nos afastamos das casas, somente o luar iluminava nosso caminho, o que era um pouco inquietante, então eu tentei não dar muita atenção aos ruídos noturnos que nos perseguiram durante o caminho.
— Estamos chegando.
Ariel tinha razão. Dava para ver as luzes da fazenda acesas à vários metros de distância. Parecia que eles estavam a todo vapor.
Mas fazendo o quê?
Deixamos nossas bicicletas encostadas na grade, próximas à abertura, e nos enfiamos clandestinamente para saber o que diabos estava acontecendo naquela fazenda.
A luz e os sons vinham do celeiro, um grande galpão azul sem janelas e com grandes portas de madeira. Clichê, eu sei. Pelo menos não era vermelho.
Estávamos nos aproximando ainda, quando começamos a ouvir vozes.
— Tem certeza de que quer seguir em frente com isso?
— Mas é claro, doutor! Não acredito que você está com medo do progresso!
— Não é isso, é só que… nunca foi feito.
— Por isso mesmo é genial!
— Você não poderia apenas mudar a ração delas…
— Não! — O outro homem gritou. — Tem que ser natural, Doutor, e não imposto através de produtos químicos nocivos à saúde!
O Doutor abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por um som bizarro que ressoou pelo galpão. Era uma espécie de "mugido feroz", se é que um mugido pode transmitir raiva.
— Porque ela está tão agitada?
— Deve ter farejado algum odor estranho. Talvez invasores.
— Ela pode fazer isso?
— Bem, sim. Você não pode dar a um animal o biotipo de um carnívoro sem as características necessárias para que ele se alimente.
— Bem, então vamos ver do que essa garota é capaz.
— Senhor Santana, não acho que seja uma boa…
— Vamos, não será nada demais. Um… teste de campo, não é assim que vocês chamam?
— Senhor, eu…
Mas o Doutor se interrompeu, e nós ouvimos passos e um barulho que lembrava a de uma tranca sendo aberta.
— Eu não gostei desse som — Ariel sussurrou.
Houve uma grande agitação, e o barulho de cascos furiosos vindo em direção à parede onde estávamos encostados.
— Acho que é uma excelente hora pra irmos…
Lola não conseguiu terminar a frase, porque no mesmo instante a parede explodiu ao nosso lado, e meus olhos tiveram o desprazer de observar a cena mais bizarra da minha vida.
Era para ser uma vaca, mas tinha o dobro do tamanho de um animal normal, dentes afiados e desiguais, dos quais alguns escapavam para fora dos lábios, cascos afiados e olhos que refletiam a luz de um jeito, no mínimo, muito perturbador.
— Que droga é essa?!
— Acho que era pra ser uma vaca — respondi, chocado, observando aquelas narinas gigantescas se dilatando e contraindo.
— Do curral do inferno, né?!
Lola tinha o dom de me fazer sorrir nas mais esdrúxulas situações. Mas não naquele momento.
— Pega, garota!
Não sei o que foi mais bizarro: Ter que sair correndo de UMA VACA (demoníaca, mas uma vaca ainda assim), ou ter que ouvir Ariel gritando:
— Vaca canibaaal!
Catamos nossas bicicletas e pedalamos o mais rápido que pudemos, mas aquela coisa parecia ter um motor de fórmula 1 no corpo. Ela não se cansava, nem diminuía o ritmo.
Minhas pernas sedentárias estavam começando a pedir clemência quando um apito alto e agudo soou no ar, e a besta parou de correr, voltando para a fazenda logo em seguida.
Caímos no chão, exaustos.
— “Vaca canibal”? Sério? — Perguntei.
— O que foi? Ela claramente ia nos devorar.
— E daí?
— Canibal não é quem come carne humana?
Instintivamente comecei a rir.
— Pelo amor de Deus, Ariel — Lola falou.
— O que foi?
— Canibais devoram a própria espécie!
Silêncio.
— Não entendi — ele respondeu, por fim.
— Você não tem salvação. Eu desisto. É muita burrice, pelo amor de Deus.
Lola levantou e foi embora. Ariel foi atrás dela, pedindo que ela explicasse, e eu fui atrás dos dois, rindo até meu estômago doer.
Assustado até a espinha, sim. Mas rindo como se não houvesse amanhã.
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