As Várias Faces da Morte

4 Capítulo 4 - Morte, dos Perpétuos.


Ao chegar a casa me deparo com a cena mais aterradora. Centenas de almas dançando ao som de músicas alegres. Isso só pode ser obra de uma pessoa.

- DELIRIUM!

- Oh! Olá irmã, quer um orrs doovres?

- O quê?

- “Orrs Doovres”, ó erre erre esse espaço de ó ó vê erre é esse.

- É Hors D’oeuvres. Você não pronuncia como se escreve... E qual a razão dos Hors D’oeuvres, Delírio?

- Bem, eu queria que eles se ocupassem, enquanto você estava fora. Não queria eles andando por aí, se perdendo... E foi tão difícil pegar alguns deles... Certo, Desespero?

Delírio dança equilibrando a bandeja de petiscos no topo de sua cabeça. Estou paralisada. Até mesmo Desespero?

- Sim, foi difícil. Não é o tipo de tarefa para a qual eu existo.

Desespero abre caminho por entre as almas e se aproxima.

- Eu concordei que seria melhor manter os mortos num só lugar...

Delírio pisca seus olhos bicolores com um grande sorriso no rosto. Sorriso tão belo quanto Deleite costumava dar... Impossível não sorrir também... Já estava sorrindo.

- E... Fiquei pensando... Com meus miolos... Que provavelmente ninguém estava se divertindo no “í êne efe erre êne ó”.

Cruzo os braços, esperando por Delírio terminar sua linha de raciocínio. Isso pode demorar um pouco...

- Então eles precisavam se divertir. E todo mundo gosta de uma boa festa...

- Nem todos.

Delírio que até então dançava olha para Desespero.

- A infante Isabella não gosta... Nem Copérnico... Nem...

Mas eu já não escutava a discussão entre as duas. Uma festa... Uma grande festa! É isso! Essa é a solução! Enquanto a festa acontece podemos garantir que as almas estarão seguras em um mesmo lugar e ainda poderemos cumprir com nossos papéis! Chamo a atenção das duas e dou um grande sorriso enquanto abraço Delírio.

- Esta realmente foi uma grande idéia, Del! Assim podemos cuidar de nossos reinos sem ter que nos preocupar muito com elas!

E falando em afazeres...

- Preciso me retirar... Tenho uma pequena questão a resolver. Vocês ficarão bem sozinhas?

Ambas sorriem para mim.

- Não se preocupe irmã, cuidarei bem de Delirium.

- Olha só o que eu sei fazer mana! Balões e animais!

Delírio abre um zíper em sua cabeça e de lá saem muitos balões e muitos animais.

- Delírio! São balões de animais! Não balões e animais! Céus... Eu tenho que ir agora... Del cuide de tudo, sim?

Desapareço de casa, mas não sem antes ver a cena de Mussolini dançando can-can. Dou um sorriso, com certeza essa é uma cena que eu não me esquecerei por um bom tempo.

- Ho, ho, ho! Chegou na hora certa!

Olho ao meu redor, a quadra do Shibusen cheia de alunos que me observam com olhares que variam de curiosidade à desconfiança.

- Nossa! Quanta gente!

Posso sentir o sorriso de Shinigami-sama, assim como sinto um olhar de ódio vindo em nossa direção. Sorrio para Kid que desvia o olhar.

- Ho, ho, ho! Muito bem jovens artesãos, hoje vocês receberão uma missão diferente! Esta é Morte-chan e ela dará mais informações a vocês.

Ao dizer meu nome muitos dos presentes começaram a prestar mais atenção. Eu sei que isso sempre acontece e que eu deveria estar acostumada, mas...

- Bom dia! Como Shinigami-sama havia dito, meu nome é Morte e estou com um pequeno problema que gostaria de poder contar com a ajuda de vocês para resolvê-lo.

Agora a atenção da turma era total. Ou quase. Black Star ainda tentava de certo modo chamar a atenção para si. Dou um pequeno sorriso para ele.

- Serei direta. As almas que habitavam o Inferno foram libertadas, juntamente com os seus demônios captores, no mundo dos vivos. Preciso recapturá-las e mantê-las em um único lugar até que o Inferno seja novamente aberto e elas possam regressar para lá.

Gritos de empolgação podem ser ouvidos dos alunos, todos bastante animados para começar a caçada.

- Assim conseguiremos evoluir nossas armas!

- Quando começamos?!

- O que ainda estamos esperando..?

Sorrio com a empolgação deles, a balbúrdia é tamanha que vários minutos se passaram (e muitas ameças feitas por Stein e Sid) e até Shinigami-sama teve que intervir.

- Ho, ho, ho! Terei que usar o meu Shinigami-CHOP?

O silêncio foi absoluto e imediato. Quase palpável.

- Infelizmente não posso permitir que capturem essas almas para evoluir suas armas.

Um não bem alto percorre a multidão de adolescentes à minha frente. Eles estão decepcionados.

- Como alguns talvez saibam, eu e Shinigami-sama fizemos um acordo há muitos anos atrás. Neste acordo definimos que as almas de pessoas más que morrem naturalmente pertencem a mim e as almas de pessoas más que estão na lista de Shinigami-sama, pertencem a ele, conseqüentemente, a vocês. As almas que agora perambulam pelo mundo dos vivos pertencem ao Inferno, ou seja, a mim. Vocês não poderão capturá-las.

É perceptível que alguns alunos não estão satisfeitos com isso. Observo atentamente cada um deles, cada uma dessas pessoas que eu conheço por nome, que sei o que pensam, como agem, o que querem. Mal percebo as palavras que Stein dirige a mim.

- Morte-chan, talvez essa não seja uma idéia tão boa assim. Os alunos podem acabar quebrando o pacto de vocês sem querer.

- Você está certo Stein. Não quero obrigar ninguém a fazer algo que não queira.

- Ho, ho, ho! Então façamos assim: os alunos que não se importarem com as condições de Morte-chan permaneçam aqui, os que não gostaram da idéia podem voltar às salas de aulas. Professores, podem se retirar.

As pessoas começam a se retirar, faço uma reverência a elas.

- Muito obrigada pela atenção de vocês.