As Três Marcas - Yohrilynn
1 Conexão mística

O início da vida adulta costuma ser o sonho de qualquer criança, pois acreditam que nesta fase da vida possuirão a sonhada liberdade e autonomia, e de certa forma elas estão certas. Mas junto desse privilégio de ser dono do próprio nariz, há as responsabilidades, os primeiros empregos, a faculdade, e o pior de todos, pelo menos, para Ahri Chang: os romances.
Parece coisa boba, romances não deveriam ser um problema, ainda mais em um mundo onde as pessoas nascem destinadas, ligadas por uma marca de almas gêmeas. Nunca houve uma pessoa que nasceu sem um par, um alguém com o seu nome escrito feito tatuagem no corpo. Há um complemento para essas tatuagens de almas: a marca que determina a data em que você conhecerá sua alma gêmea. As marcas nunca mudam e nunca desaparecem, e no momento em que sua alma gêmea estiver próxima, no dia em que você finalmente a conhecer, essas marcas brilharão intensamente; essa será a confirmação de seu destino.
Ahri cresceu ouvindo essas histórias, alguns amigos próximos já tinham encontrado seus cônjuges do destino, outros aguardavam com ansiedade pelo dia em que passarão a amar alguém. Já ela? Não faz ideia de como isso funcionará consigo. E por quê? Bem, o normal é nascer com duas marcas, o nome completo de sua alma gêmea e a data prevista para que vocês se encontrem. O problema começou quando um bebê chegou ao mundo com uma data na nuca e dois nomes diferentes, um em cada pulso. Como em todo universo imprescindivelmente regrado, uma exceção serve apenas para confirmar a regra e Ahri passou a vida toda até tendo que esconder os dois nomes gravados em sua pele como se isso fosse lhe matar. E realmente, se alguém além de sua família e sua melhor amiga Syndra descobrisse que ela tinha duas almas gêmeas, seria a morte de sua vida social; passaria a ser taxada de estranha ou até mesmo uma aberração da natureza. Isso mesmo, tudo isso apenas porque dois nomes estavam em seu corpo.
— Ahri, eu acredito que você não deveria sentir tanto medo assim de conhecer essas duas pessoas! — e essa era a décima vez que Syndra Bradaigh tentava convencer a mais nova a sair de casa.
— Eu não saio desse quarto de jeito nenhum, Synd! — Ahri estava convicta que o melhor para si era continuar isolada em seu pequeno apartamento, assim seria impossível acontecer o que o mundo – e Syndra, igualmente – considerava inevitável.
Hoje era o dia em que ela deveria conhecer suas duas almas gêmeas.
— Mas eu já disse que não tem como você evitar isso! Se é hoje, acontecerá hoje, com você dentro desse quarto ou não! — insistiu a platinada do outro lado da linha.
— Diz isso porque ainda falta uns dois anos pra você conhecer a sua! — retrucou a Chang.
— Diferente de você, eu não vejo a hora de conhecer a minha! — a mais velha ri — Será que é homem? Pelo nome, parece ser, não acha?
— Pobre Usan Zedwigh, seja lá quem ele ou ela seja! — brincou a raposa.
— Pobre por que, senhorita Gumiho? Não entendi sua colocação! — reclamou, fazendo a rosada dar risada.
— Enfim, tenho que desligar, Synd! Hoje vou passar o dia inteiro atualizando minhas séries, meus dramas, comendo o que tiver na dispensa e dormindo! Tenha um bom dia! — e antes que a amiga pudesse protestar, Ahri encerrou a chamada, jogando o celular dramaticamente sobre a cômoda ao lado da cama e voltando a se enrolar nos lençóis.
Fala sério, Syndra lhe ligou logo pela manhã, num dia de folga – abençoado seja esse dia, além de conhecer as almas gêmeas, ainda caiu num dia livre –, só para falar dos seus temidos pares perfeitos que o destino colocou na sua reta. Mesmo que não quisesse admitir, o fato de hoje ser o dia predestinado deixava Ahri inquieta, ainda que ela desejasse parar de pensar nisso. Ela nunca acordou tão cedo num dia de folga como hoje, já era um sinal de que seria uma data especial? Não sabia. Ela não conseguia parar de pensar nesse assunto desde que a data se aproximou, e agora não conseguia retornar aos seus sonhos onde não tinha que se preocupar com duas pessoas que ainda não conhecia e não fazia questão de conhecer. Ora, imagina a confusão que seria? Se duas pessoas diferentes viessem na sua direção com marcas iguais as suas brilhando, alegando serem suas parceiras pra vida toda, num ambiente público? Claro, havia aqueles que se arriscavam a ter um envolvimento amoroso com pessoas com nomes diferentes daqueles gravados em seus corpos, mas nunca dava certo porque a lei das almas gêmeas era absoluta para todos e nunca falhou.
Mas aparentemente falhou com Ahri e ela não entende o porquê.
Deve ter atirado pedra na cruz em sua vida passada, ou cometido crimes gravíssimos para nascer com essas três benditas marcas irremovíveis. Deitou-se de barriga para cima na cama e esticou os dois braços para o alto, lendo os nomes que nasceram junto consigo. No pulso direito estava escrito Yone Kazeki. Ela não tinha certeza se era um nome masculino ou feminino, mas não parecia pertencer a uma mulher. No pulso esquerdo estava escrito Evelynn Heartwan. Este último nome parecia definitivamente feminino para si, mas nada poderia ser concluído ainda.
O que ela deveria fazer? Era realmente inevitável conhecer essas duas pessoas hoje? Mesmo que ela ficasse dentro de casa, poderia acontecer da maneira mais imprevisível do mundo, o destino gosta de pregar algumas peças. Só que Ahri não aguentava mais não entender as coisas, parecia que o universo queria brincar com seu psicológico, transformar sua vida num jogo, ver até onde ela aguentará. Como se não bastasse viver mais de vinte anos usando blusas compridas para esconder os nomes nos pulsos ou tendo que escolher uma das marcas para mostrar quando alguém perguntava insistentemente sobre sua alma gêmea. Ahri estava cansada, apenas.
Vendo que não ia conseguir voltar a dormir de jeito nenhum, bufou e se levantou da cama. Se ela não ia dormir, faria alguma coisa de útil, seu apartamento bem que precisava de uma faxina, ela costumava se atarefar demais em seu trabalho e nunca limpava aquele lugar, fora que tinha que cuidar de Yuumi, sua gatinha. Droga, definitivamente seus planos de dormir umas duas horas extras foram pro espaço. Calçou suas pantufas de raposa e foi escovar os dentes, fazendo um planejamento mental de como seria seu dia, precisava ocupar a mente para evitar cair no proibido assunto “marcas do destino”.
E o dia seguiu perfeitamente normal, Ahri limpou até o último canto de seu apartamento, ouviu música alta – nem tanto para não incomodar seus vizinhos –, dançou com a vassoura, com a Yuumi, alimentou a coitadinha depois dela lhe olhar estranho após a dança, comeu um macarrão instantâneo comprado numa lojinha da esquina, bebeu bastante água porque não apenas de miojo vive o homem, assistiu uma temporada inteira de The OA mesmo com a série tendo sido tristemente cancelada – só foi descobrir isso quando foi pesquisar a data de estreia da terceira temporada –, acessou o canal de cultura que ela nunca assistia só pra ver os clipes pop do momento, viu um documentário inteiro sobre brigas de insetos na natureza, apostou sozinha que uma abelha asiática jamais ganharia de um escorpião e acabou perdendo, botou mais água e comida nos potinhos de Yuumi, tirou um tempo para tomar um banho demorado e com direito a sais na banheira, fez uma hidratação de pele e cabelo que ela nunca fazia, enfim, várias outras coisas por cerca das primeiras dezoito horas do dia.
Tudo parecia perfeito demais para ser real, desde quando Ahri tinha uma folga tão produtiva quanto hoje? Fala sério, ela assistiu um documentário de insetos! Foi tão produtivo que chega a ser ridículo! E nenhum sinal dos seus parceiros predestinados batendo na sua porta para lhe conhecer. Será que a data estava escrita errado? Há tantas maneiras de se ler uma data, com o mês na frente, o dia no final, o ano no meio, enfim. Será possível que o universo, além de tudo, fez essa sacanagem de escrever uma data que ela não conseguia ler da maneira certa? Será que não era hoje o dia?
E foi a partir daí que o dia pareceu que tinha sido arruinado. Os pensamentos continuaram invadindo a mente de Ahri, lhe distraindo do capítulo do drama que deveria ser muito mais interessante e atrativo.
— Argh! — se levantou com tudo do sofá, derrubando o controle da televisão no chão e chamando a atenção de sua gata, que estava deitada ao seu lado.
Ainda faltavam algumas horas para o dia acabar, a paranoia ficou ainda pior quando ela assimilou essa informação. Ainda não acabou! Ainda pode acontecer! Balançou a cabeça de um lado pro outro, inspirando o ar com força para tentar manter a calma, não podia surtar de jeito nenhum, nada deveria estragar aquele dia. Ahri correu para o banheiro, se jogasse água no rosto voltaria ao seu estado são. Acontece que ela não conseguiu executar a manobra com perfeição e a torneira da pia quebrou, espirrando água para todos os lados, menos para a sua cara.
— Puta que pariu! — berrou inconformada, colocando as mãos no buraco onde deveria estar a torneira que caiu com tudo no chão, fazendo um barulhão pelo atrito.
Agora sim ela estava surtando e a questão nem era mais seus parceiros predestinados, e sim o fato de a pia do banheiro estar enchendo de água mesmo com o ralo aberto e o chão se molhando todo.
— Preciso chamar o zelador, porra! — saiu correndo do banheiro deixando a água esguichando lá – não é como se ela pudesse fazer alguma coisa sozinha – e foi parar nas escadarias do prédio. Se esperasse o elevador ia demorar demais e o banheiro seria completamente alagado, Yuumi miava alto lá em cima e mesmo indo pro andar mais baixo do lugar ela conseguia ouvir sua amiguinha agitada.
Quanto mais descia, mais o coração da garota palpitava, principalmente pela correria para chegar ao pequeno apartamento do andar mais baixo, suas pernas doíam porque ela não estava tão acostumada a correr naquela velocidade, ainda mais descendo tantas escadas para chegar o mais depressa possível. Nessas horas ela amaldiçoava o fato de o zelador morar na puta que pariu do prédio. Quando chegou, bateu desesperada na porta.
Do outro lado, a porta foi aberta não pelo zelador idoso que Ahri conhecia, e sim por uma mulher que parecia um anjo de tão bela, falando alguma coisa sobre pizza com um tom de voz animado. Seja lá do que aquela modelo perdida estava dizendo antes de abrir a porta para Ahri, a Chang não conseguiria prestar atenção em uma palavra sequer.
Meu Deus, como aquela mulher era linda! E por que Ahri sentiu o coração acelerar só de vê-la sorrindo? O susto pareceu recíproco, pois foi a moça colocar os olhos na rosada para o sorriso desaparecer e os olhos arregalarem.
— Você não é minha pizza. — disse ela.
— E você não é o zelador. — Ahri franze o cenho.
— Vovô, não era a pizza, acho que é pro senhor! — a mulher se vira para dentro do apartamento, logo atrás dela estava o homem conhecido como senhor Heimerdinger, o zelador velhinho e baixinho do prédio em que Ahri mora.
— Oh, menina Gumiho! — o velho sorri ao ver a jovem mais simpática daquele edifício — Vejo que conheceu minha neta, Evelynn.
Evelynn? Ela ouviu direito?
— Prazer, Evelynn Heartwan! — a mulher se curva rapidamente, cumprimentando a raposa com exímia educação.
Aquilo não poderia ser sério, só podia ser uma piada de mal gosto.
Estarrecida, Ahri olha imediatamente para a marca no seu pulso esquerdo, e no mesmo instante a inscrição começou a brilhar intensamente, ocorrendo a mesma coisa com o pulso esquerdo da neta do zelador, que olhava a cena espantado.
— Minha nossa! — foi o que o velhinho conseguiu exclamar.
As duas mulheres se encaram, totalmente surpresas. Evelynn puxa a manga da sua blusa que cobria a marca, revelando o nome Ahri Chang brilhando da mesma forma que a marca Evelynn Heartwan no pulso esquerdo da jovem. A mulher de cabelos azuis não consegue segurar um sorriso quando entende o que estava acontecendo, tinha viajado de Piltover para o centro de Ionia, onde seu querido avô morava atualmente, para uma visita por temer aquela data. Eve era como Ahri, tinha medo do que aqueles dois nomes significavam e acabou fugindo de sua cidade para a casa do avô pensando que poderia evitar o encontro, sendo que foi justamente por ter tomado essa decisão que ela estava diante de uma de suas almas gêmeas.
E por mais estranho e inesperado, Evelynn ficou feliz. Se as marcas brilhavam, significava que ela não era tão anormal quanto pensava, que não nasceu com a magia defeituosa, que ela ainda podia viver um amor como todo mundo. Ahri Chang era a prova de que Evelynn não precisava mais fugir.
— Isso é... — Ahri ainda não conseguia acreditar que aquilo aconteceu, mas o brilho que vinha tanto do seu pulso quanto do de Eve era mais do que claro para desmistificar completamente suas teorias contraditórias. Não havia o que questionar, ela era sua alma gêmea e Ahri era a alma gêmea da neta do zelador.
Com toda a confusão e euforia do ocorrido, nenhum dos três notou a chegada de um rapaz vestido com uma camiseta polo branca e um boné vermelho na cabeça, carregando uma caixa quadrada e branca.
— Foi aqui que pediram uma pizza de-
Ele nem terminou de dizer e as duas marcas em seus pulsos começaram a emitir um brilho colorido, chamando a atenção de Ahri e Evelynn, que viram o mesmo brilho surgir em seus pulsos direitos.
Aquele que carregava a pizza que a Heartwan esperava era ninguém mais ninguém menos que Yone Kazeki. O pobre entregador quase derruba a caixa ao ver os próprios braços brilhando, ele era o que menos esperava encontrar suas parceiras de uma vez.
— Minha nossa! — repetiu o senhor Heimerdinger, abismado.
— Isso é incrível! — Evelynn exclama — Então era real! Não era um defeito!
— Isso é inacreditável! — Yone sorri maravilhado.
— Isso só pode ser brincadeira! — Ahri se exalta — Ai meu Deus, minha pia! — no meio daquele caos, a garota se lembra de que ainda tinha uma torneira quebrada e água vazando no seu banheiro — Eu sei que esse era pra ser um encontro importante, mas a minha torneira quebrou e meu banheiro está prestes a inundar!
E foi assim que Ahri Chang conseguiu estragar completamente o momento mais importante da sua vida, mas bem, que culpa ela tinha se conheceu Evelynn Heartwan e Yone Kazeki justo quando quebrou a torneira? No fim a pizza foi entregue, senhor Heimerdinger deu um jeito na torneira de Ahri e depois que tudo foi acertado, ficou combinado entre os três de se encontrarem no dia seguinte para ter uma conversa. Claro que a raposa só concordou porque estava com a cabeça a mil, mas não é como se ela tivesse muita escolha, não poderia simplesmente ignorar o pedido de Eve e Yone.
— Eu disse que não tinha como escapar do seu destino, raposinha! — Syndra debochava do outro lado da linha — Mas enfim, como eles são? Bonitos?
— Ai Synd... Pior que são! Parecem anjos na Terra! — respondeu sincera — Evelynn parece uma modelo, nem acredito que ela é neta do zelador! E Yone é apenas o cara mais lindo que eu já vi, me senti o próprio patinho feio no meio dos dois!
— Que exagero, Gumiho! Você também é linda, aposto que eles também se encantaram pelo seu charme!
— Charme? Que charme, minha filha? Eu ‘tava de camisetão de time de basquete cheia de pelo que eu nem sei se era da minha cauda ou se era da Yuumi, meia rosa e chinelo! Pior forma de encontrar a alma gêmea!
Syndra gargalha horrores do outro lado da linha.
— Tomara que eu tenha mais sorte do que você!
— Vai nessa, queridinha. Capaz do seu encontro ser ainda pior! — rebateu a mais nova — Ainda estou inconformada que, por causa da torneira e das outras pizzas que Yone tinha que entregar, não conversamos direito! Eu ‘tô tendo um treco desde ontem, não consegui dormir!
— Tenha calma, Gumiho! Você vai se encontrar com eles hoje, certo?
— E isso lá é motivo pra manter a calma? Eu ‘tô entrando em pânico! Eu nunca tive um encontro antes, esse vai ser o primeiro!
— Vai dar tudo certo, Ahri! Olha, eu sei que foi tudo muito rápido e você está assustada, mas não acha que será melhor assim? Digo, vocês não precisam marcar um casamento amanhã ou coisa parecida, não precisam ter pressa! Vai lá, se conheçam um pouco, vejam como as coisas podem fluir. Se vocês estão destinados, então vai ser de um jeito ou de outro, mas é escolha de vocês como esse relacionamento vai andar!
Mais uma vez, Syndra Bradaigh tinha razão. Em certos momentos Ahri pensava que Syndra era madura demais pra tenra idade, não conhecia ninguém que fosse tão sábia assim aos vinte e seis anos. Não que Ahri seja tão mais nova, a diferença de idade é mínima, mas a platinada tinha uma perspectiva muito distinta da sua, talvez por isso tenha sido tão fácil fazer amizade com ela.
— Está certa. Eu preciso me arrumar agora, não quero que esse segundo encontro também seja com um camisetão velho.
— Boa sorte!
O nervosismo que tinha consumido corpo e mente de Ahri desde a noite passada foi diluindo aos poucos conforme ela se aprontava para seu encontro com Evelynn e Yone, as palavras de Syndra foram um ótimo incentivo e, também, o fato de Ahri sentir certa ansiedade em estar cara a cara com aquelas duas pessoas novamente, num momento muito mais calmo e cotidiano do que a situação anterior. Sempre foi uma pessoa simpática, nunca teve dificuldades em conhecer pessoas, pode ser que seu medo esteja indo embora agora que já viu os rostos das pessoas que estão marcadas em seus pulsos. Parando para pensar, aquele medo já não fazia mais sentido, tanto Yone quanto Evelynn pareceram alegres pelos três finalmente terem se visto pela primeira vez, então poderia acreditar que, por mais cômica e inusitada que a situação tenha sido e mesmo não tão bem-vestida ou preparada para a ocasião, ela causou uma boa impressão.
Devidamente pronta e vendo que faltava pouco para se atrasar, Ahri apertou o passo pelas ruas de Ionia para ir até a cafeteria em que marcaram de se encontrar, cada vez que se aproximava do local sentia o coração bater mais rápido. Quando entrou no estabelecimento, procurou um dos dois pelas redondezas, não demorando muito para notar Yone acenando com uma mão e Evelynn lhe direcionando um sorriso. Foi até eles com uma expressão claramente nervosa, mas que logo foi disfarçada quando se sentou em uma das cadeiras vagas, de frente para o rapaz e ao lado da mulher.
— Bem, estamos todos aqui agora, vamos fazer os pedidos? — perguntou a azulada e os outros dois concordaram, chamando o garçom.
Enquanto os pedidos não chegavam, a conversa entre os três foi fluindo naturalmente, Ahri aos poucos foi contendo sua euforia e conseguiu falar sobre si mesma sem se atrapalhar, sendo muito bem ouvida pelos outros dois. Yone contou sobre suas aventuras como entregador de pizza, dias em que aconteceram as coisas mais inacreditáveis e engraçadas, causando boas risadas nas duas garotas. Evelynn explicou porque estava em Ionia e não em Piltover – onde residia atualmente –, em que área trabalhava, do que ela gostava e não gostava e por aí vai. Era a primeira vez que ficava com duas pessoas tão diferentes de si, mas Ahri amou estar na companhia deles, foi tudo tão natural que chegava a lhe espantar. Sendo assim, não havia mais o que temer.
— Não acredito que não gosta de miojo, Eve! — Ahri forma um bico inconformado — Miojo é a minha paixão e o meu sustento diário!
— Eu até comeria, mas na primeira vez eu passei mal e fiquei com um leve trauma! — riu a mais velha.
— Isso é terrivelmente triste! — lamentou a rosada.
— Sorte eu comer de tudo, não tenho esse tipo de problema. — riu Yone.
Ahri desviou o olhar por um momento para o super latte com caramelo que pediu, sendo observada atentamente pela mulher ao seu lado. Yone reparou no olhar abobalhado de Evelynn e acabou por imitá-la, encarando a mais nova entre eles tomando seu latte como se ele fosse a coisa mais deliciosa do planeta – evidentemente depois de miojo, já que Ahri diz ser apaixonada.
— Acham que isso vai dar certo? — perguntou o homem.
— Estamos indo bem, concordam? — replica Eve — Já nos conhecemos, trocamos números de telefone, redes sociais em geral, conversamos. Eu acredito que uma tentativa é válida, por mais... Diferente que nossa relação venha a ser.
Claro que Evelynn estava se referindo ao fato de eles serem em três e não duas pessoas, como acontece com noventa por cento do planeta. Se o destino tratou de uni-los, mereciam o benefício da primeira tentativa, correto? Era assim que pensavam.
— Tirando o fato do meu banheiro quase alagar, acho que estamos indo bem! — respondeu Ahri e os três riram.
A questão não era mais se aquilo poderia dar errado ou se não era algo natural. Não. Ainda era muito cedo para afirmar que havia um amor genuíno de filme romântico entre eles, mas o fato é que eles se davam bem, havia harmonia mesmo com as diferenças, tanto de personalidade, idade, enfim. As marcas ganharam um significado mais profundo, deixaram de ser apenas nomes e datas. Pela primeira vez, Ahri amou ter nascido com três marcas ao invés de duas como a grande maioria, e ela não irá se arrepender de tentar ser feliz da maneira como o destino planejou para si. Porque ela desejava tentar tanto quanto Evelynn e Yone, e isso já era o bastante para garantir que uma marca de alma gêmea nunca é um erro e que o universo não conspirava contra ela. Todos mereciam amar e Ahri faria o possível para amar igualmente as duas pessoas pelas quais nasceu para vivenciar um verdadeiro romance, como todo mundo nasce.
Naquele dia, no fatídico encontro, os laços do destino finalmente se ataram em uma conexão mística, denominada amor verdadeiro.
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