As Três Faces do Medo.
27 Capítulo 26: A doninha e o ceifador de anjos
Notas iniciais
Sasuke arregalou os olhos ao ver o olhar insano tão de perto.
— Quem é Izuna?
Madara abriu um pequeno sorriso ao ver a expressão aterrorizada do jovem, as tentativas dele de esconder o medo que sentia eram perceptíveis e isso deixava tudo mais interessante aos olhos do mais velho. Sentou-se no chão de frente para o outro e cruzou as pernas.
— Izuna... – sussurrou parecendo apreciar a sonoridade daquele nome. – Lembro-me de quando o vi pela primeira vez. Ele era tão pequeno, frágil o menor bebê do berçário.
— O que ele era seu?
— Meu irmão mais novo. Nunca vou me esquecer do dia em que ele nasceu: o amei assim que o vi e sua fragilidade fez o medo de perdê-lo crescer em mim. Seu parto foi complicado, uma parte do seu cérebro foi lesada durante o nascimento e, por causa disso, ele jamais pôde enxergar e sua saúde era instável.
“Apesar disso, ele era uma criança que estava sempre sorrindo e nós passávamos muito tempo juntos. Izuna conquistava facilmente a simpatia das pessoas com seu sorriso encantador e personalidade afável, nesse aspecto Naruto se assemelha muito a ele”.
A expressão do homem tornou-se subitamente sombria e ele deixou de fitar Sasuke, para fixar os olhos na parede escura atrás deste. Os olhos negros tornaram-se opacos e ele logo voltou a falar:
— Mas com o tempo percebi que não era apenas o sorriso dele que atraia as pessoas, assim como certos gestos amigáveis pareciam permeados por intenções obscuras. Ele era lindo e isso foi nossa perdição.
“Como você já deve saber: o clã Uchiha é grande, existem os membros mais importantes e influentes, os poucos confiáveis e os esquecidos. Meu pai fazia parte dos pouco confiáveis e devia favores a alguns conselheiros do clã, mas como ele iria pagar essa dívida? Izuna foi a resposta que ele encontrou.”
Sasuke arregalou os olhos ao perceber o rumo que aquela história estava tomando, mas permaneceu em silêncio.
— Quando ele tinha sete anos percebi algo estranho em seu comportamento, ele começou a ficar esquivo e parecia ainda mais doente. Conversei com meu pai e minha mãe sobre isso, mas eles disseram que era besteira — soltou um fraco riso amargo. — Eu acabei descobrindo tudo sozinho, acabei descobrindo que os serviços de Izuna não eram apreciados apenas pelos conselheiros, meu pai também se aproveitava dele.
“Eu, sem pensar, ataquei meu pai. Ele era muito mais forte e, apenas fazer disso tudo ainda mais clichê, estava bêbado. Eu me lembro de seu rosto suado, o hálito fétido as calças caídas até o joelho e da dor que senti quando ele revidou meu ataque. Izuna estava semiconsciente naquele dia, mas ele ainda murmurou meu nome como se pedisse socorro. Pobre Izuna... O socorro não veio”.
“Eu estava muito machucado e não conseguia mais me mexer, mas estava acordado e vi o meu pai terminar o que estava fazendo antes. Escutei cada palavra asquerosa, cada gemido e todos aqueles sons que pessoas puras não deveriam escutar. Mas apesar de escutar tudo, meus olhos se prendiam apenas em Izuna, corpo pálido e machucado, o rosto coberto de lágrimas e os olhos sem vida abertos e virados para mim. Eu realmente pensei que ele poderia me enxergar e então me dei conta. Aquele velho desgraçado estava tocando no que pertencia a mim, Izuna era meu e apenas meu. Aquele porco não deveria tocar no que era meu; ninguém deveria”.
Madara se levantou, os olhos recaíram sobre Sasuke e ele abriu um sorriso torto, que lhe deu um ar ainda mais funesto e aterrador.
— Acho que o velho percebeu o que eu sentia e tirou proveito disso, me forçou a deitar-me com Izuna, me forçou a machucá-lo e os lamentos do meu irmãozinho tiveram um estranho poder sobre mim, eles eram belos e prazerosos. Então meu pai me explicou que Izuna soltava esses sons de propósito, a culpa de estar naquela posição era dele... Eu finalmente compreendi que ele gostava daquilo... Como ele poderia não gostar? Ele me amava.
Sasuke sentiu o peito se oprimir quando Madara voltou a encará-lo. Os olhos dele estavam marejados, mas o estranho meio sorriso ainda adornava a face pálida e marcada pela idade.
— Me amava tanto que sua última palavra foi Madara. Quando ele sussurrou contra meu ouvido eu quase não consegui escutar em meio aos meus ofegos e palavras orgulhosas de meu pai... Ele estava tão alegre que nem percebeu... Talvez o velho tenha morrido sem saber...
“Aquele homem o destruiu e o matou, ele me usou para matá-lo. Se não fosse por ele, Izuna estaria vivo e sem marcas, vivo para viver e me amar como eu o sempre o amei. Então... Então eu não teria que viver buscando por algo que o substituísse, cópias sem valor, sem a pureza e beleza dele... Frágeis ao ponto de romperem ao menor toque.”
Sasuke arregalou os olhos. Madara era o assassino em série que aterrorizou vários lugares há um tempo e seus motivos, aqueles que todos sempre questionavam, não faziam sentido algum.
— O que aconteceu com os seus pais? – indagou baixo, tentando desesperadamente ganhar tempo e bolar um plano para tirar Naruto daquele lugar. E porque Naruto ainda não havia acordado?
— Minha mãe era uma mulher muito religiosa e uma vez me disse que o fogo era o único capaz de purificar os corpos e as almas das pessoas – abriu um sorriso ladino. — Espero que tenha funcionado – tocou suavemente os fios rebeldes do rapaz e se inclinou até estar a centímetros de distância do rosto deste.
Sasuke sentiu o terror crescer ao ponto de lágrimas brotarem aos olhos. Aquele rosto tão próximo, a sensação de impotência e a pressão que a presença de Madara proporcionava. O irmão, os pais, aquelas crianças, Itachi... Ele seria apenas mais um na lista de Madara, apenas mais um cadáver e Naruto ficaria completamente vulnerável e a mercê das insanidades daquela criatura.
Precisava sair daquele lugar...
— Vou te contar um segredo Sasuke – o sussurro o fez arrepiar-se, não era uma sensação agradável e, instintivamente, ele recuou. — Você, assim bem de perto, fica ainda mais parecido com Izuna. Seria tão mais fácil se sua personalidade fosse mais parecida com a de Naruto, assim eu não precisaria moldá-lo – segurou com força nos cabelos do outro e o puxou pra si, fazendo os lábios se encostarem.
Sasuke virou o rosto, seu cabelo foi puxado com mais força, mas ele não cedeu e se debateu tentando se livrar do agarre. Escutou uma risada cristalina e em seguida recebeu uma bofetada que o fez voltar a encarar Madara, cujo rosto estava calmo e os olhos brilhavam com certa empolgação.
— Odeio que me neguem o que quero, mas sempre é muito divertido testar os limites de resistência humana. Até quando você vai resistir Sasuke? – arqueou uma sobrancelha.
Naquele instante a mente de Sasuke esvaziou-se e ele finalmente percebeu que não era apenas Naruto que corria perigo.
— Alguém nos tire desse lugar – foi a única coisa que passou por sua cabeça.
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A voz de Mikoto era suave e constante, mas as palavras pareciam perfurar a mente de todos os presentes. A história narrada parecia ter saído de algum roteiro péssimo de filme de terror, mas para os oficiais presentes aquilo não era, infelizmente, incomum.
— Como você sabe dessa história, Mikoto-san? – Ibiki indagou profissionalmente.
— Apesar deles não serem próximos da família principal do clã, minha mãe costumava levar-me para visitá-los. Izuna e eu tínhamos pouca diferença de idade e nos tornamos amigos, Madara ficava sempre responsável por nos vigiar. Foi essa relação que incentivou minha mãe a adotar Madara quando a tragédia aconteceu.
— Tragédia? – a voz do delegado soou reflexiva. Ele provavelmente buscava na memória algo relacionado a uma tragédia no clã Uchiha.
— A casa em que eles moravam pegou fogo, Madara foi o único sobrevivente e foi adotado por meus pais. Passamos a morar juntos, ficamos muito próximos e ele conversava apenas comigo. Quando eu estava entrando na adolescência e ele, já maior de idade, estava prestes a sair da nossa casa, ele decidiu contar-me o que realmente aconteceu na noite da tragédia.
“Contou-me que o destino quis que ele ficasse vivo, pois sua intenção era que o fogo purificasse sua família e ele. Apenas o fogo poderia ser capaz de salvá-los, era o que sua mãe sempre dizia Ele desejava morrer... Queria que o fogo purificasse a si mesmo e ao corpo de Izuna.”
— Ele queimou a casa?
A pergunta em tom indignado fez a mulher olhar diretamente para Kushina, os olhos escuros fixos nos azuis. Mikoto assentiu lentamente e breve voltou a falar:
— Madara disse que apenas ele sabia que Izuna tinha morrido, então decidiu que nenhum deles merecia mais viver, afinal eram culpados pelo que havia acontecido ao menino. A mãe, por ser omissa, o pai, por motivos claros e ele mesmo, por ter feito o que fez.
“Quando a madrugada já ia alta, ele foi até o quarto dos pais e encontrou apenas a mãe dormindo pesadamente, por causa dos calmantes que tomava. Ele amarrou seus pés e braços, depois derramou álcool sobre ela. De acordo com ele, ela despertou, mas não questionou suas ações, apenas observou silenciosamente enquanto Madara lançava um fósforo aceso sobre seu corpo.”
Alguns dos presentes não conseguiram conter o esgar de terror, mas a Uchiha ignorou e continuam seu relato:
— Depois ele foi até a sala onde encontrou o pai desacordado sobre a poltrona, disse que era normal encontrá-lo assim, devido as enormes doses de álcool ingeridas ao longo do dia. Também o molhou com álcool puro, mas o homem não acordou, em seguida jogou o que restava do liquido em si, sentou-se afastado do pai e lançou um fósforo sobre ele. Quando ele acordou já era tarde demais...
“A casa era feita de madeira, portanto, as chamas se alastraram rapidamente, mas Madara não se abalou e permaneceu sentado de frente para o pai e o viu acordar e se desesperar por estar queimando vivo. Os gritos dele foram a salvação de Madara, pois naquele dia um ex fuzileiro passava por ali e viu a casa em chamas, ao escutar os gritos desesperados ele entrou na casa e viu a cena do homem em chamas, enquanto era observado pelo filho.”
— Eu me lembro dessa história — Jiraiya disse pensativo. — Ficou nos jornais por um tempo, o adolescente foi o único sobrevivente do incêndio e, milagrosamente, não sofreu queimaduras graves e ficou um tempo no hospital por ter inalado muita fumaça. Mas disseram que o incêndio foi causado pela fiação antiga da casa.
— Imagina que desastre enorme seria para o poderoso clã Uchiha, se a verdade sobre o incêndio fosse descoberta? — Nagato fez uma expressão de repulsa. — A mídia descansaria após descobrir que o causador do incêndio foi o único sobrevivente? Ficaria feliz em aceitar que foi apenas uma, provável, rebeldia?
— Claro que não – Mikoto soltou um riso sem humor. — As investigações iriam até as ultimas consequências, os podres dos conselheiros do clã seriam descobertos e isso não poderia acontecer. Assim eu descobri que Madara não foi adotado por bondade, mas sim para ser mantido por perto. Meu pai era o líder do clã e, apesar de não concordar com as atitudes de alguns conselheiros, ele não tomava atitude em relação a elas e constantemente se curvava para as ordens do conselho.
— E mesmo sabendo que Madara havia matado os próprios pais a senhora não fez nada? Não o afastou de nós? – Shisui murmurou indignado.
— O que você está sentindo agora, Shisui? – a mulher perguntou com uma estranha suavidade.
— Como assim?
— Se eu colocasse Madara diante de você agora, o que você faria?
O rapaz pensou na pergunta e compreendeu, ele queria a morte de Madara, por este ter machucado pessoas que ele amava. Seguindo essa linha de raciocínio: se ele estivesse no lugar de Madara na época, se fosse forçado a maltratar alguém que amasse muito… Provavelmente iria desejar ardentemente fazer algo semelhante e, provavelmente, faria.
— Eu não repudiei sua atitude, pelo contrário, senti tanto ódio quanto ele, afinal Izuna era meu amigo. Não questionei quando alguns dos conselheiros foram assassinados de forma brutal e a única vez em que nos desentendemos, foi quando ele brigou comigo por aceitar a vontade de meu pai. Eu era a primogênita, mas não poderia liderar o clã e por isso Fugaku foi escolhido como meu noivo e iria tornar-se o legitimo sucessor.
“Quando me casei, Madara se afastou, mas retornou quando Itachi nasceu, ironicamente Itachi é seu afilhado. No tempo em que ficou próximo de nós, ele auxiliava Fugaku nos negócios, da mesma forma que fazia com meu pai. Sua genialidade somada ao seus feitos na adolescência o tornaram respeitado e temido no clã, mas nossa amizade já não era a mesma, minha atitude de casar sem questionar, fez com que parte do respeito dele por mim ruísse.”
— Talvez ele tenha associado isso a atitude submissa que a mãe dele tinha — Tsunade pontuou.
— Provavelmente — a Uchiha aquiesceu. — O fato é que ele se afastou de mim e eu jamais pensei que ele fosse o Ceifador de Anjos.
— Ainda não temos certeza de que ele e o Ceifador de Anjos são a mesma pessoa — Ibiki falou.
— Isso é mais do que óbvio Ibiki-san, ele é o Ceifador de Anjos e só não continuou com os sequestros por ter encontrado aquele que poderia substituir Izuna. Na verdade… Aqueles…
— Aqueles? — Kushina questionou em um sussurro.
— Naruto-kun tem uma personalidade muito peculiar, na primeira vez em que o vi, sua vitalidade e seu sorriso fizeram com que eu me lembrasse de Izuna, logo quando nos conhecemos. Mas presenciar seu jeito mais arisco e introspectivo, fez com que os últimos dias de Izuna me viessem a mente, eram reações semelhantes.
Kushina abaixou o olhar e sentiu as lágrimas voltarem a escorrer, seu filhinho estava nas mãos de alguém tão torturado quanto ele mesmo, mas isso estava longe de fazê-la sentir qualquer tipo de empatia por Madara.
— Já Sasuke, como Kushina acabou pontuando, é fisicamente parecido com Izuna. Eles são aquilo que Madara, provavelmente, buscou por vários anos, em cada rosto, de cada criança.
— E como você pode estar tão calma com tudo isso? — Tsunade praticamente grunhiu, os olhos âmbar estavam marejados e o corpo tremia levemente.
— Eu não estou calma, sinto meu coração aos pedaços só por imaginar o que está acontecendo com meu filho, mas não posso me descontrolar. Descontrole fará com que Madara vença, foi isso que o fez ficar livre durante todo esse tempo, as pessoas tremem e se desfalecem a mínima mostra de sua capacidade. Eu não farei isso!
— Você está certa Mikoto-san — Yahiko deu um pequeno sorriso encorajador. — Ibiki, eu acho que ela acabou nos dando uma pista de onde os garotos podem estar — falou adotando uma postura rígida, assemelhando-se muito com os oficiais ali presentes.
— É o que acho também, Yahiko — o mais velho concordou pensativo. — A casa foi reconstruída, Mikoto-san?
— Não que eu saiba, faz muito tempo que não vou até lá – respondeu, mas seus olhos estavam direcionados para Yahiko.
— Passe o endereço para Kotetsu, nós iremos averiguar – disse e virou-se para Yahiko. — Yamato ficara encarregado da proteção aqui no hospital, mesmo confiando nele e em sua equipe, espero contar com sua cobertura.
— Eu, com todo respeito, faria isso mesmo sem sua autorização Ibiki — respondeu calmamente.
— O quê? — Kushina olhou incrédula para o cunhado. — Como você pode dar cobertura para a polícia Yahiko? Você não é apenas um consultor ou algo do tipo?
— Eu sou um ex-agente especial da polícia internacional e atualmente faço consultoria para a polícia, quando necessário. Desculpe não ter contado antes, foi por questão de segurança… Apenas Nagato pôde saber, pois já é considerado meu marido perante a lei, devido ao tempo em que estamos juntos.
— E como Ibiki sabia? — Jiraiya indagou.
— Como disse: eu presto consultoria para a polícia quando necessário e Ibiki já trabalhou comigo em alguns casos.
— Depois vocês discutem isso em família, agora é o momento de agir — Ibiki falou e em seguida pediu que os civis deixassem a sala, pois iria ditar o plano de ação que havia criado a sua equipe.
Ao saírem da sala se encaminharam para sala de espera, onde Konan e Mei estavam, mas Shisui ao reparar nos rostos dos enfermeiros, médicos e seguranças do local começou a sentir-se cercado. Ele precisava tomar um ar…
Certificou-se de que Mikoto estava bem, ela conversava com Kushina aos sussurros, e saiu sem chamar muita atenção. Quando estava a caminho da saída cruzou com um médico de cabelos acinzentados e óculos de aros redondos.
Os dois trocaram um curto olhar e Shisui sentiu um estranho arrepio subir por sua espinha quando o homem lhe lançou um sorriso ladino. Neste instante o moreno percebeu o que o incomodava e apressou os passos em direção à saída.
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Kisame chegou ao hospital, mas não estava conseguindo entrar, a segurança formada ao redor do local não permitia que ninguém passasse e ele não tinha a mais comum e insuspeita das aparências.
— Porra! — xingou enquanto passava as mãos nervosamente pelos cabelos azuis, deixando-os ainda mais desgrenhados.
— Kisame?
O azulado olhou para além dos “armários” que estavam parados na porta do local e viu Shisui se aproximar a passos rápidos. O rapaz falou algo aos seguranças e eles, a contra gosto, liberam passagem para ele.
— Shisui voc — se interrompeu quando o rapaz o abraçou com força. — Shisui? — murmurou e, sem jeito, retribuiu o gesto.
— Vamos sair daqui — sugeriu baixo. — Preciso conversar com você. — Se afastou e olhou diretamente nos olhos do outro.
— Tudo bem. Vamos.
Os dois saíram do hospital e seguiram até uma lanchonete próxima, após se acomodarem e Kisame intimar o mais novo a tomar ao menos um café, eles começaram a conversar.
— Onde você esteve? Por que não nos avisou sobre os planos dele? — indagou sem conter o tom de repreensão.
— Eu não sabia dos planos! Ele me deixou no escuro e nem desconfiei de nada — respondeu.
— Então ele sabia sobre o que você fazia.
— Pois é — soltou um riso sem humor. — E eu ainda cheguei a pensar que estava um passo a frente.
— Todos nós pensamos.
— Como Itachi está? — indagou parecendo hesitante.
— Seu quadro é estável, mas ele ainda não acordou — suspirou pesadamente. — Eu daria tudo para estar no lugar dele.
— Pra que? Ele iria sofrer de qualquer forma, assim como você está sofrendo agora — rebateu com simplicidade.
— Não diga besteiras!
— Não é besteira, Shisui. Quando amamos alguém nós sofremos ao vê-la sofrer, a dor parece tornar-se quase física. Tenho certeza que se fosse ele aqui, em seu lugar… Eu escutaria a mesma coisa.
— Mesmo assim… — murmurou e sorveu um gole do café. — Você acha que Itachi e Minato-san estão seguros naquele hospital? Acha que Madara vai tentar algo?
— Eu… — Se interrompeu ao ver um carro parar em frente a grande janela da lanchonete e algo reluzir. — Merda! — esbravejou ao escutar o primeiro estampido.
Kisame esticou o braço e empurrou Shisui para o lado, o rapaz caiu no chão e logo escutou disparos, gritos e vidros quebrando. Seus olhos estavam fixos em Kisame, enquanto esse se protegia atrás da mesa e atirava com uma arma de pequeno porte.
Os sons caóticos misturavam-se ao barulho de sua respiração ofegante, sentia o coração palpitar cada vez mais rápido e era como se o som se propagasse dentro de seu crânio. O intervalo entre o início do tiroteio e o barulho dos pneus derrapando, indicando a fuga dos executores, pareceu durar uma eternidade.
— Você está bem, Shisui?
O moreno abriu os olhos, que nem sabia em qual momento havia fechado, e encarou Kisame. Percebeu o olhar preocupado do homem e assentiu lentamente, mas logo sua atenção voltou-se pra crescente mancha vermelha que se formava na camisa do outro e para as gotas carmim que escorreriam por sua testa e rosto.
— Kisame! — disse desesperado e segurou o outro quando este tombou em sua direção.
— É bom que esteja bem… — sussurrou antes de perder a consciência.
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Kabuto estava na sala de descanso dos funcionários, bebia calmamente um chá e lia um livro qualquer. Era conhecido por suas ações eficientes e jeito recluso, chegando a despertar a antipatia dos colegas de trabalho, mas ele não se importava.
Escutou os disparos, mas não se abalou. Sentiu o celular vibrar e o pegou.
“Faça.” — Era a única palavra escrita na caixa de mensagens.
Levantou-se calmamente, fechou o livro que lia anteriormente e se encaminhou para o quarto de seus mais ilustres pacientes. As pessoas corriam desesperadas de um lado a outro do hospital, nem o percebiam e era esse o objetivo.
Entrou no quarto e colocou a mão no bolso do jaleco, retirou de lá uma ampola onde havia um liquido transparente e, aparentemente, inofensivo. Poderia ser uma medicação qualquer.
Veneno? Não era isso, claro que não. Dose excessiva de algum medicamento? Não, também não poderia ser algo assim. Madara queria que o serviço fosse feito, mas Kabuto não poderia ficar manchado.
E quem desconfiaria de um vírus? Dois pacientes que adquiriram uma infecção hospitalar ao ficarem internados, no mesmo quarto. Essas coisas eram comuns e não eram percebidas tão cedo.
— Se tiverem sorte até poderão morrer dormindo — sussurrou calmamente, enquanto começava a colocar o liquido em duas seringas. — Torção para nosso amigo aqui ser rápido — falou em um tom levemente debochado.
A calma de Kabuto não durou tanto, pois logo sentiu duas mãos pressionarem seus pulsos e um corpo maior se aproximar do seu.
— Falar sozinho em uma situação dessas não é saudável, garoto — o tom austero soou em uma voz conhecida para o médico.
— Jiraiya-san, o que o senhor faz aqui? — a voz saiu em seu tom tipicamente neutro.
— Eu vi você ir contra o fluxo e achei estranho. Sabe? Algumas coisas podem fazer um homem desconfiar de tudo e de todos. E olha que interessante: eu estava certo.
Kabuto fez menção de se afastar, mas o aperto do homem parecia de aço. Tudo o que conseguiu foi ter seus braços presos rentes ao próprio peito e o corpo cercado pelos braços do mais velho. Jiraiya era um idoso que não deveria ser subestimado e Kabuto, secretamente, lamentou sua própria falta de sorte.
Aqueles dois ainda ficariam vivos por um tempo…
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Kagami dirigia olhando com para o caminho, mas não conseguia desviar totalmente a atenção do amigo, que lia atentamente um papel. Ali estavam anotados os endereços de todas as propriedades Uchiha, algumas das quais eles nem imaginavam a existência.
— Vamos passar em todas as propriedades?
— Vamos dividir, na verdade — o líder do clã tirou o celular do bolso e tirou uma foto da metade da lista. — Nós vamos ver as primeiras e Obito as últimas.
— Aonde vamos primeiro?
— Ao hospital, preciso saber como Itachi está.
Kagami assentiu, já sabia que Fugaku iria querer ir até lá e por isso havia tomado aquele caminho. Quando estavam para chegar ao local, um carro passou em alta velocidade por eles, quase causando um acidente.
— Parece que não somos os únicos a ter pressa — o líder falou e voltou a atenção aos papéis.
— Fugaku…
O tom urgente fez com que o outro olhasse para frente e visse vários carros de polícia e ambulâncias cercando o que parecia ser uma lanchonete. Sentiu o veículo onde estava parar e logo Kagami saiu às pressas.
— Kagami! — chamou ao ver o amigo correr em direção à aglomeração e só então reconheceu uma das pessoas que era amparada por uma policial. A mulher tentava fazer o rapaz se acalmar e parar de chorar.
— Shisui! — a voz de Kagami chamou a atenção do homem.
— Pai… — murmurou e o abraçou, quando este se aproximou.
— O que aconteceu?
— Eles… — sussurrou não conseguindo segurar as lágrimas. — Kisame foi assassinado.
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Madara fechou a pesada porta de madeira assim que passou por ela, odiava a parte dos resmungos de dor. Eram irritantes caminhos que levavam a um destino de submissão silenciosa.
Sasuke era muito resistente, provavelmente a idade ajudava nisso, e praticamente não demonstrava sentir qualquer dor, mas os quase inaudíveis gemidos ainda estavam lá. Garoto complicado. Se tivesse aceitado tudo de bom grado, ele não seria obrigado a agir tão cedo.
Sentiu o telefone vibrar e atendeu a ligação.
— Está feito chefe, o traidor caiu.
— Ótimo — disse simplesmente e encerrou a ligação.
Seguiu para outro ambiente do local, uma suíte grande e aconchegante. Despiu-se e foi para o banheiro, precisava de um banho e de descanso. Quem sabe nesse meio tempo Naruto não despertava?
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Sasuke estava deitado no chão frio, as costas doíam, os lábios ardiam e seus braços estavam dormentes. Apesar de todas as sensações incômodas, seus olhos estavam fixos em Naruto, mas este não mostrava sinal algum de que iria acordar tão cedo.
Sasuke já não sabia dizer se ele respirava ou não e era isso que o fazia sentir-se realmente perdido. Será que Madara o havia matado e deixado ali para Sasuke ver e sofrer por isso?
— Acorde Naruto... — a voz saiu rouca.
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