As Treze Relíquias.
8 Capítulo 8 - Ronper.
Notas iniciais
Lindos, deuses! Vocês me enchem cada vez mais de alegria! Primeiro: 105 reviews! SÉRIO MESMO? Tô tão feliz! Muito obrigada a todos que deixam suas opiniões, amo vocês!
Segundo: Primeira recomendação da fic! MEILYN LINDA! Muito obrigada, nem tenho o que dizer sobre isso, fico tão feliz! De verdade, obrigada!
Terceiro: CAPA LINDA PRESENTE DA MILILIKA! Sério, dessa vez foi um combo de acontecimentos LINDOS! Obrigada linda, a capa ficou maravilhosa!
Agora haha, para agradecer, um cap na visão do Ronper! Todo mundo o ama né haha, dedico esse cap pra todos os fãs dele!
Bastante explicação, bastante confusão, surpresa... enfim, leiam!
Um BEIJO!
Boa leitura!
Senti o clima ficar mais pesado quando Hawe se aproximou de Bartô com passos duros.
Existem três coisas das quais eu aprendera a ter medo, em todos meus dias como criminoso desde que saíra das Terras Inundadas e entrei naquele bando: Bartholomew em fúria, Selena em fúria, e principalmente, Hawe em fúria.
Porque Hawe era um homem calmo, controlado, e tranquilo, como todo bom sacristão era. Era o mais velho e consequentemente, o mais maduro entre todos nós, e poucas vezes perdia o foco ou se irritava. Sempre estava preocupado com o grupo, e às vezes, quando eu ia até ele para conversar, nos momentos mais escuros da noite, o pegava orando por todos nós, mesmo que ele dissesse várias vezes que as orações de um sacristão abdicado não eram nada pros deuses. Também, o homem não gostava muito de batalhas, e pouco se envolvia nos nossos ataques e invasões aos castelos, deixando sempre tudo para eu e Batholomew ou Corisseu.
Mas quando algo o tirava do sério, nada se comparava. Talvez Bartô, em seus momentos mais incríveis de batalha, onde ele se mostrava o próprio Peregrino das Trevas. Mesmo assim, eu ainda me lembrava da única vez que vi o sacristão em fúria, e a lembrança ainda me causava arrepios. E um calor agradável no peito, como todas as lembranças que eu tinha de Hawe.
— Eu não acredito que você o beijou de novo! — Gritou, e a voz grave dele, junto com sua expressão irritada, me fez sentir um arrepio, de forma que enrijeci meus músculos, levando minha mão para minha Insígnia, uma mania semelhante a de Selena quando tocava sua tatuagem, ou Bartô quando levava a mão ao punho da espada. Não gostava de vê-lo assim. Gostava do meu sacristão, com suas palavras gentis e seu sorriso. — Como quer que ele entre pro grupo, que ele comece a cooperar, abusando dele?!
Hawe agarrou o colarinho da camisa recém-vestida por Bartholomew, e eu me preparei para intervir se eles partissem para a agressão física. Pude ver Selena arquear as sobrancelhas, enquanto o próprio Bartô transformava sua expressão em pura fúria. Se os dois brigassem pra valer, com certeza seria algo sangrento.
— Eu não vou repetir, sacristão. — O ruivo respondeu, e senti uma fisgada de desespero quando ele agarrou as vestes brancas de Hawe e torceu, aproximando mais os corpos dos dois, deixando seus rostos próximos. Uma onda sombria me atingiu, como se o ar repentinamente tivesse se tornado sólido devido a tensão dos dois.— Não sei como essa merda aconteceu, nem porque, e estou contando isso pra vocês porque quero respostas, e não suas crises de merda.
O sacristão já tinha falado conosco sobre aquilo. Se quiséssemos que Blaine entrasse no grupo, precisávamos parar de trata-lo como um refém, e começar a nos aproximar dele, para diminuir seu ódio contra nós. Por isso, todos mediam melhor suas ações perto do nobre. Eu já simpatizava com ele desde o início, e Dorian simplesmente não ligava. Selena prometera diminuir as provocações, e Corisseu disse que tentaria tratar ele melhor, mesmo que os nobres sempre o irritassem. Com exceção de Selena, porque segundo ele, ela tinha espírito de guerreira, e não de nobre. Na minha opinião ela tinha era espírito de cachorro.
Bartô simplesmente disse que ia evitar falar com o rapaz, já que ele não era a mais simpática das pessoas. Eu o amava como um irmão, era a pessoa em quem eu mais confiava, e por quem eu daria minha vida, mas ele tinha muitos e mais defeitos, e normalmente não sabia ser muito gentil. Apesar de ser uma boa pessoa, no fundo.
Os dois companheiros continuavam a se encarar, de forma férrea, observados por todos nós. Meu peito se afligia com a cena. Percebi uma expressão assustada no rosto de Dorian, e alguma desconfiança em Corisseu, enquanto Selena mantinha as sobrancelhas arqueadas. Depois que ela e Corisseu voltaram da cidade, com as compras que precisaríamos, Bartô chegou, molhado pelo recente banho, arrastando Blaine que gritava maldições como sempre, e convocou uma reunião, indo jogar o pequeno Becklan de volta na carroça antes de se unir à nós, enquanto ainda enfiava uma camisa marrom e puída que pegara num dos baús da carroça em seu torso. E então nos contara que acabou por beijar o garoto novamente.
— Você é um irresponsável, é isso que você é. — Hawe disse, largando o outro com brusquidão, e se afastando dele com um safanão. O segui com os olhos, e ele começou a se afastar em direção à mata. Uma pontada corroeu meu coração como veneno. Teria de ir atrás dele depois.
O silêncio imperou por um momento, enquanto todos olhavam para a mata de forma nervosa. Eu não tinha forças para quebrar esse tipo de silêncio, nunca fui muito bom com isso, e na realidade, não via muitos problemas em Bartholomew ter beijado Blaine. Ele alegara que tinham sido forças maiores que as suas, mas eu não duvidava que ele apenas tinha sentido interesse no jovem. Porém ele era o tipo de homem sincero demais para mentir assim, então eu simplesmente não sabia o que poderia ser, se tinha algo relacionado ou não com os dois serem Herdeiros, ou se era porque os dois eram especificamente aqueles Herdeiros.
Somente Hawe saberia responder aquilo com mais convicção, mas agora ele tinha corrido pra mata.
— Bem... — Falou Corisseu, com uma careta, aquela careta selvagem que ele exibia, mostrando seus dentes anormalmente afiados e ferozes, que lembrava uma careta lupina. — Se você se descontrolou, é porque tem algo aí. Deve ser porque...
— Se for dizer que é porque ele é de Lux, a deusa da luxúria, eu quero saber porque vocês não foram atingidos. — Bartholomew cortou no mesmo instante. — Vocês já teriam agarrado ele. Não é algo com o que se possa lutar, é maior do que qualquer força de vontade.
Eu fiz uma pequena careta.
— Talvez seja porque você é de Radás. — Disse, sem muita certeza. Mas era a única hipótese plausível. Todos ali conheciam da Esfera dos Treze, e entendiam o que eu dizia.
E Bartholomew me encarou, com um olhar que dizia que era isso que ele temia. Percebi o resto do bando me encarar com uma pequena surpresa no rosto.
— Doces são os deuses... — Selena disse, com a porcaria do sorrisinho irritante dela. — Caramba, quando eu imaginei que isso seria uma aventura, como os livros de fantasia que eu lia na Pirâmide dos Milagres quando criança, eu nunca imaginei que teríamos até um romance no meio. Meus sonhos se realizaram. — Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás de forma exagerada, e Bartô a fuzilou com os olhos em fúria.
— Cala essa boca mulher. — Disse irritado, e Selena se calou, mas ainda segurando o riso. Aquela era uma mulher que não tinha mesmo medo de nada. — Preparem o almoço, e façam o que bem quiserem. Não partiremos para Vila das Tortas hoje. — Bartô declamou, em seu tom de líder. — Ronper, vá falar com o garoto.
Arregalei meus olhos. Eu não me sentia o mais apropriado para isso.
— Falar o que? — Perguntei num tom levemente assustado, sem querer. — Bartholomew, o rapaz já tem sua própria confusão! Deixe-o com seus pensamentos um pouco. — Eu não estava nada a fim de encarar aquele nobre furioso, ainda mais agora que devia estar novamente arisco como nos primeiros dias. E também, eu queria ir atrás do Hawe, não gostava quando ele se afastava de todos.
— Apenas vá e o distraía. Seja simpático, você é bom nisso. — Respondeu duramente, se voltando para mim.
— Posso falar com ele se quiser. — Selena disse, ainda segurando o riso, num tom de visível chacota, e Bartholomew se voltou para ela. — Sabe, explicar a situação.
— Nem por todos os infernos, você suma da minha frente. — Ele ameaçou, e ela ligeiramente correu em direção sua tenda, que ainda estava armada no campo gramado, com um risinho. — Ronper, vá.
— Mas Bartô... — Tentei insistir, mas ele endureceu o olhar.
— Pode ir atrás do Hawe depois, mas agora, estou ordenando que vá e fale com o nobrezinho, antes que eu perca a minha paciência.
Como eu disse antes, eu aprendera a ter medo do Peregrino das Trevas irritado.
E por isso, sem resignar, me voltei em direção à carroça de Blaine, peguei uma pequena flor amarela que brotava na grama, e caminhei, sem olhar para trás, levemente magoado com Bartô.
=—=
— Eu não quero saber! — Blaine gritou contra mim, lançando a flor longe. — Não quero falar sobre isso!
Soltei um suspiro, enfiando minha mão nos meus cabelos negros. Minha cicatriz formigava, uma cicatriz prateada e feia na palma de minha mão direita, que eu ganhara quando era apenas um garotinho desajeitado das Terras Inundadas. Foi numa das primeiras vezes que eu tentei pescar sozinho, logo após a morte de meus pais, e acabei me ferindo com a ponta envenenada de uma lança. Por Aberet, eu me safei da morte, mas sempre que eu ficava estressado a cicatriz formigava.
— Só quero dizer que ele está arrependido. — Falei, mesmo que aquelas palavras nunca tenham deixado os lábios de Bartholomew. — Realmente, ele não queria fazer aquilo.
— Lucci pode enfiar seu arrependimento no rabo, que não mudará nada. — Blaine desviou os olhos pro canto, emburrado. Eu me aproximei dele com cuidado. Era mesmo um homem — jovem, quase um garoto na verdade— muito bonito, e eu até conseguiria entender se Bartô o tivesse beijado por interesse. Seus cabelos eram prata líquida, como os de Selena, e seus lábios eram perfeitamente desenhados, com uma cor rubra que atraía os olhos de qualquer um. Os olhos eram dourados como puro ouro, e tinham sempre um brilho intenso, misterioso, atraente. Além de ter um corpo bonito, com curvas delicadas e a pele branca que poderia competir com a lua.
O romance entre homens ou entre mulheres não era mal-visto em Jeera, nem bem visto. Era apenas considerado tão normal quanto qualquer romance, e eu achava estranho que em outros países eles considerassem o amor entre o mesmo sexo errado. Apesar de os homens normalmente casarem com as mulheres em busca de herdeiros, alguns tinham uniões com homens, apesar de esses serem vistos com estranheza pelo povo de Jeera. Alguns até criavam fama devido essa atitude, como o caso de Lorde Celsius Vars, ou o antigo Rei Garr, que passou o trono para seu irmão podendo assim viver com o Cavaleiro Donzel, Kevin Salva, cuja beleza hipnotizava qualquer guerreiro no campo de batalha, segundo as histórias.
Toquei no rosto de Blaine com cuidado, e forcei meus lábios num sorriso compreensivo. Bartholomew dissera que perdera o controle perto do mais jovem, e que Blaine correspondera ao ato, como fizera da vez que eles se beijaram na frente de todo o bando. Talvez por isso estivesse tão irritado, porque estava perdendo o controle contra aquele que ele odiava.
— Por favor Blaine, não fique assim. — Falei, e ele se voltou para mim com o olhar ainda irritado. — Ele disse que perdeu o controle.
— Me explique porque vocês beijam todo mundo. — Ele falou, de forma direta, me surpreendendo. Eu não sabia se podia dizer aquilo, mas ele parecia ter deduzido várias coisas, pois continuou. — Eu vi meu irmão ser beijado por Lucci, e cair no chão segundos depois. Quando ele me beijou no Cálice, ele parecia esperar que eu reagisse de forma semelhante, e quando não funcionou, ele começou a enlouquecer. Você me beijou pra provar pra Hawe que nada acontecia, e Bartholomew fez o mesmo em seguida. O que o beijo de vocês faz nas pessoas, e porque não funciona em mim? É por isso que vocês me querem nessa escória de bando?
Soltei um suspiro. Acho que não éramos um grupo muito discreto também. Precisava falar sobre isso com os outros.
— Blaine... — Comecei, e ele me encarou com fogo nos olhos. Afaguei meus dedos em sua face com delicadeza, tentando acalmá-lo. — Nós temos... beijos diferentes. Quando beijamos alguém, algo acontece. Só não funciona em quem tem essa mesma habilidade. — Eu não queria dizer mais nada, mas ele continuou me encarando, e ergueu as mãos algemadas para afastar a minha de seu rosto.
— Isso Selena me contou. Da forma dela, mas contou. O que seus beijos fazem? — Ele questionou, e eu suspirei.
— Depende de cada um de nós. — Deixei escapar. Ele já sabia a maior parte da nossa habilidade de Herdeiros mesmo. — Ter o que nós chamamos de Beijo Divino apenas significa que somos pessoas especiais, e sim, é por isso que nós o queremos conosco. — Forcei novamente meus dedos em direção sua face, e ele continuou a me encarar, resignado. — Desculpe, mas é tudo que posso dizer por enquanto. Vou falar com Bartô e obriga-lo a soltar suas algemas, você merece um pouco de conforto.
— Quer dizer que suas armas são beijar? — Ele questionou, em tom de estranheza, e eu suspirei.
— Não apenas isso. Tem outras coisas que nós podemos fazer, mas precisamos de fatores externos para que isso ocorra.— “As Relíquias” pensei, mas deixei o mistério no ar, já que aquilo eu certamente não podia falar.
Puxei minha mão e me levantei, minha palma formigando mais do que nunca. O pequeno nobre continuava sentado no chão, me encarando emburrado, mas não disse nada. Queria contar sobre o que realmente acontecia, o que buscávamos pelo reino, e porque ele era tão importante para nós. Queria dizer nossa teoria por ele ter perdido o controle com Bartô, e quem ele era realmente. Mas eu não podia, não sem desobedecer ao Peregrino.
Sentei-me num baú, e permanecemos longos instantes em silêncio, até Corisseu entrar com um prato de cerâmica fundo, cheio com um ensopado cheiroso, e entregar para Blaine, me chamando em seguida para o almoço. Saltei da carroça, me despedindo de Blaine, e caminhei com Corisseu em direção à fogueira, onde vi todos sentados no chão com seus pratos no colo. Com exceção de Hawe.
— Hawe ainda não voltou? — Perguntei, sentindo meu peito apertar novamente. O rapaz moreno me olhou com o canto dos olhos, sério.
— Não. Devia chama-lo para o almoço. — Falou de forma sugestiva, e antes que terminasse, eu já estava correndo para a mata, na direção em que Hawe seguira.
Eu precisava vê-lo. Eu sempre precisava dele.
A mata não era grande, era apenas uma vegetação ciliar que seguia em volta do leito do riacho. Por isso, não foi difícil caminhar entre as árvores, até encontrar Hawe ajoelhado na beira do rio, sobre as pedras arredondadas. O homem parecia divino, com os olhos fechados e a expressão séria, a face voltada para o céu e as mãos sobre as pernas dobradas. Os raios de sol claros faziam seus cabelos castanhos reluzirem, salpicados de cinzento, assim como sua barba bem aparada, e ele parecia fazer parte de toda aquela bela paisagem natural, ornando com o riacho cristalino e as árvores frondosas. Era um homem bonito, apesar de seus 37 anos. Olhando bem, ele poderia ser um cavalheiro, com aquele físico robusto e musculoso, a face solene e forte. Eu ainda me perguntava quantas donzelas da Terra Céu ele deixara desapontadas quando anunciou que se tornaria um sacristão entregue ao celibato. Não apenas donzelas, claro.
Nunca soube quando me apaixonei por ele, naqueles cinco anos como ladrão. Não sou tolo o bastante para achar que foi na primeira vez que nos vimos, mas desde que eu me lembre eu já buscava seus olhos azuis sempre que me sentia assustado com qualquer coisa, preocupado ou inseguro. O sentimento sempre me deixava confuso no passado, e eu nunca tivera a coragem e falar com o antigo sacristão sobre aquilo. Ele provavelmente não me aceitaria, afinal, não era mais um sacristão, mas agia sempre como um, e amava o que fazia. Eu sabia que Hawe só não se dizia mais um sacristão para não sujar o nome da Marca por ser um criminoso. Um dia talvez, quando terminarmos nossa missão, ele poderia até voltar ao cargo de pastor dos fiéis.
Então eu me mantinha em silêncio, e aceitava que apenas o teria como meu eterno sacristão. Meu lindo, proibido e inalcançável sacristão.
— Gotsha, lave os pecados desse medíocre. — O ex-sacristão falou, tocando as águas cristalinas do riacho com seus dedos, e jogando a água para cima, produzindo respingos que lhe molharam a face, enquanto eu observava admirado aquela cena surreal. Gotsha era a deusa das águas, e seu reino era o mar, onde ela vivia em seu palácio de pérolas. Porém, todas as águas de Jeera lhe pertenciam, e cada rio era um de seus filhos que corriam para o mar em busca dos braços cuidadosos da mãe. Era a também a deusa do perdão, que lavava os pecados daqueles que pedissem. — Lava os pecados dos meus filhos, minha deusa amada, e apascenta seus corações confusos.
Meu coração se deleitava, como sempre quando eu ouvia sua voz. Aproximei-me a passos silenciosos dele, e me abaixei próximo do homem, que continuava com o rosto voltado aos céus, agora de olhos abertos, impassível à minha aproximação.
— Hawe... — O toquei no ombro cuidadosamente, e ele abaixou o rosto, se voltando para mim com aqueles olhos, mais azuis do que quaisquer outros olhos que eu tivesse visto em minha vida, tão azuis que causariam a inveja de Gotsha. Não sabia o que dizer, mas Hawe sempre sabia como agir quando eu estava sem palavras.
— Você veio aqui. — Seu tom de voz era gentil, assim como seu sorriso, mas eu percebia um toque mínimo de repreensão. — Sabe que não gosto que me escutem orar. — Ele pegou minha mão com delicadeza entre as suas, e se sentou na minha frente, saindo da posição desconfortável que usava para orar.
— Não sabia que estava orando, desculpe. — “E eu amo ouvir você orar” completei mentalmente, também me ajeitando de forma a sentar confortavelmente de frente para ele, pelo menos o mais confortável possível sobre aquelas pedras de variados tamanhos. — Queria ver se estava mais calmo.
O homem soltou um suspiro, levando uma mão aos cabelos, sem soltar a minha outra, e abaixando o rosto.
— O que eu posso fazer não é? O que já foi feito não pode ser mudado. — Ele me encarou novamente. — Bartô também não deve ter tido culpa. Eu só queria que o garoto tivesse um pouco mais de juízo naquela cabeça vermelha.
Acabei por dar um sorriso quando ele ergueu os olhos, apertando seus dedos em minha mão.
— Hawe, Bartô não é mais um garoto. — O corrigi. Ele tinha aquela mania de falar assim sobre nós, mesmo não sendo tão mais velho. — E provavelmente ele não fez por mal. Mesmo que Blaine seja mesmo um jovem bonito.
O mais velho soltou um bufo, finalmente soltando minha mão e cobrindo os olhos, de forma cansada. Era outra coisa que eu reparava nele, sempre parecia estar cansado da vida que levávamos. Perguntava-me se um dia o veria animado e totalmente feliz, livre de suas obrigações.
— Deuses, você já reparou nos olhos daquele garoto? — Falou, e inconscientemente, segurou meus pulsos, me puxando para mais perto. Ele tinha essas manias quando estava distraído, agia como se estivesse falando com um boneco. — Quando ele está irritado eles brilham com aquela intensidade que beira a insanidade de uma forma assustadora. — Ele pousou minhas mãos em seus joelhos, as encarando como dois novos brinquedos, e começou a roçar os dedos de leve nas costas delas. Já era acostumado com aquele tipo de contato, mas meu peito ainda fervia como as chamas de Neréia.
— Ele não parece ser louco. — Comentei, tonto pelo contato. — Mesmo que Lux seja deusa da loucura.
— Loucura, amor, sexo, fertilidade, vida, bebidas álcoolicas, festas e prazer. — Ele recitou. Como sacristão, ele aprendera tudo e mais um pouco sobre os deuses. — É no mínimo irônico que a deusa de todas essas coisas seja a esposa celestial de Radás. — Ele então virou minhas mãos com delicadeza, e começou a passar os dedos pela palma, tocando na minha antiga cicatriz feiosa.
— Deus da morte, das trevas, do medo, dos demônios e das dívidas. — Completei, me perguntando se era só aquilo, ou se eu me esquecera de algo. — Acha que é por isso que eles se atraem? Digo, pelo fato de que Blaine é Herdeiro de Lux, e o Bartô de Radás? — Indaguei a minha própria teoria. Hawe saberia responder com mais convicção do que eu.
— Não há outra explicação não é? Bartholomew não mentiria para nós. — Questionou, finalmente erguendo os olhos de minha mão. Sua expressão era séria e levemente preocupada. — Sabia que precisaríamos dos dois se quiséssemos cumprir nossa missão. Mas nunca imaginei que isso aconteceria. Será que o mesmo ocorreria com outros Herdeiros de deuses casados? Como Orfélia e Verne? Isso pode ser muito problemático no futuro, precisamos estar preparados e...
Não me segurei com aquele contato visual tão desejoso, que acendia em mim chamas que mais ninguém acendia. Eu colei nossos lábios, calando-o no mesmo instante. Não era a primeira vez que eu fazia aquilo, como Herdeiros, que tinham como arma beijar, Hawe já me beijara anteriormente para provar que nossas habilidades não faziam efeito um contra o outro. E também, eu o beijara por diversas vezes como aquela, mas apenas aquele selar de lábios, onde eu sentia seus lábios macios, sua barba, e seu cheiro de perfume, que ele passava todas as manhãs. Eram beijos que eu alegava serem carinhosos, como os de um filho e um pai, o que era comum de acontecer.
Mas eu nunca o vira como meu pai. Sempre como uma coisa maior, mais desejável, mais carnal do que um pai.
Quando me afastei, ele me encarava atônito, como se eu tivesse jogado um balde de água em sua face.
— Hawe, você se preocupa demais. — Proclamei com falsa confiança, tentando evitar perguntas, e sentindo meu coração disparado pela minha iniciativa. Eu era um jovem cabeça de vento e estúpido mesmo. — Tome um banho e venha almoçar. Estarei esperando por você no acampamento, Bartô quer planejar nosso ataque à Vila das Tortas amanhã.
Ele me encarou enquanto eu levantava. Aquilo só servia para me machucar, já que eu nunca teria nada além daquele toque vindo dele. Mas antes que eu me afastasse, ele segurou a manga de minha camisa, e eu me voltei para ele, com o coração retumbante.
— Banhe-se comigo. — Ele falou sério, seu tom de voz grave. — Gotsha lavará nossos pecados.
E num movimento que eu nunca esperaria vindo dele, ele se aproximou e colou seus lábios nos meus de forma rápida, se afastando e começando a soltar os cordões de suas vestes. Senti todo meu corpo ferver com aquele contato, e meu coração pular de alegria no peito com tão simples gesto.
E quando Hawe soltou a parte superior de suas vestes no chão, pude ver o que eu vira tão poucas vezes em minha vida.
O par de asas, brancas como as nuvens, que saíam de suas costas, e se abriam, com uma envergadura maior que a de qualquer pássaro que vivesse próximo o bastante do solo. Ele as esticou totalmente, e eu me vi tomado por aquela cena, o peitoral forte, as asas enormes recobertas de penas, e o rosto dele, que as observava com sorriso como se verificando como elas estavam.
Porque Hawe era um dos tão famosos Homens-Pássaro, o povo arisco e isolado que vivia no estado mágico, a Terra Céu, uma porção de terra que era considerada por muitos a maior maravilha do mundo. Mais misteriosa ainda do que o estado dos dragões, as Terras de Inverno; a Terra Céu era uma porão de terra que flutuava acima do reino. Pode parecer um mito e algo impossível, mas acontecia, e era um fenômeno que fazia até mesmo o mais estudioso dos Grã-Hirmos arrancar os cabelos. E Hawe era a prova daquela existência mágica, ali, com suas asas abertas em minha frente.
Mas pouquíssimos Homens-Pássaro desciam da Terra Céu, e isso apenas despertava a criatividade das pessoas de Jeera, que criavam mitos e ilusões sobre aquele povo tão diferente e mágico. A falta de contato entre os dois meios, o terrestre e o aéreo, fazia com que algumas pessoas inclusive duvidassem da existência daquele estado e daquele povo, já que poucos homens viam aquelas criaturas mágicas em suas vidas.
Eu me sentia agraciado por amar uma.
— Venha, meu pequeno cavaleiro. — Ele comentou com um sorriso, e eu percebi que ele devia estar satisfeito por poder esticar as asas, depois de tanto tempo encolhendo-as coladas nas costas, para que passassem despercebidas embaixo das vestes brancas. — Dispa-se e venha.
E eu fui para o riacho com ele, sentindo toda aquela magia de Herdeiros, Homens-Pássaro, e dos próprios deuses ali naquele pequeno pedaço de terra, num turbilhão em que eu também participava.
Notas finais
E sobre o Hawe, eu sei que ficou confuso, mas será bem explicado no futuro! Pros habitantes de Jeera, é algo comum, um homem alado HDISOAHDSIOAHDAIO.
Muito obrigada a todos lindos!
Beijos!
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