As Treze Relíquias.
4 Capítulo 4 - Selena.
Notas iniciais
Primeiro, agradeço a todos os lindos reviews e leitores novos, quase chorei HDISOHDIOASHDOAI. Estamos com 40 reviews!
Demorou, mas eu cheguei. Tenho muito o que explicar, mas vou deixar lá pra baixo, então por favor leiam as notas finais! So adianto meu pedido de desculpas!
Este capítulo tem uma BOMBA! hahah, na verdade nem tanto...
Dedico ele pra toda especial Tathyane Santana, que me acompanha desde sempre aqui no nyah haha. Beijos linda!
Grandes beijos.
Boa leitura!
PS: FIQUEM ATENTOS! Essa cap tem várias "dicas" pra resolver pelo menos em parte os mistérios que vem vindo até agora.
Pela primeira vez em dias, eu acordei sem nenhuma dor intensa no corpo. Apenas sentia minha boca bem seca, com um gosto estranho e desconhecido, e uma fadiga física enorme, mas suportável. Cheguei a agradecer aos deuses por estar finalmente melhor, desde que tivera meu primeiro ataque não conseguia me sentir tão bem, todas as vezes que acordava eu estava dolorido e com a cabeça estourando. Talvez, finalmente, minha misteriosa doença estava se afastando.
Mas o momento de gratidão durou apenas até eu abrir meus olhos e recordar de tudo.
As lembranças vieram como uma torrente de uma represa arrebentada, todas elas despertas de algum recanto inóspito da minha mente. O ruivo invadindo meu quarto na noite que retornei ao Cálice, seu companheiro de cabelos negros, a adaga dourada e misteriosa que me atingiu sem deixar ferimentos, a dor das minhas crises, as alucinações com Lux, meu repouso sob a vigília de minha família, o momento que acordei assustado com alguém amarrando meus pulsos e me jogando no ombro, Lortan gritando meu nome com o mesmo ruivo de antes encostando uma espada negra em seu peito, meus gritos de socorro, o beijo do invasor em meu irmão e seu colapso, eu gritando até o homem moreno que me carregava enfiar um tecido úmido em minha boca, me fazendo perder a consciência. As imagens fizeram com que eu despertasse automaticamente, assombrado com aquilo tudo. Sentei-me rapidamente, olhando em volta com os olhos o mais abertos que eu conseguia.
“Oh maldição...” pensei, constatando que estava num aposento desconhecido. Aliás, não um aposento, mas pelas paredes e teto de tecido amarelo e puído, estava certamente numa tenda. Meus pulsos estavam presos por algemas de aço pesadas e largas. Meu coração pulou assustado no peito. Merda, eu tinha sido sequestrado por aqueles dois estranhos!
Senti o desespero me atingir como garras frias em meu peito. Busquei me acalmar, observando a tenda tentando afastar meu medo, procurando por algo familiar, ou tentando perceber se estava dentro de outro sonho. Pela claridade que se infiltrava pelo tecido, já era próximo do meio dia. Não encontrei nada de especial, a tenda era como qualquer outra tenda de viagem: tamanho médio e suja; com algumas peles cinzentas e, surpreendentemente, limpas onde eu havia dormido e agora estava largado que serviam de leito; uma pequena mesa com alguns papéis e outras coisas em cima, uma cadeira simples de madeira, e um amontoado de coisas num canto, que eu deduzi serem vestes sujas. Fora isso, não havia mais nada, o que não me tranquilizou.
Eu conseguia ouvir meu coração retumbando em meus ouvidos. O que estava acontecendo? O que aqueles loucos queriam comigo? Por que aquele ruivo... Bartholomew Lucci me beijara? Se ele era mesmo o Lucci, por que estava vivo? Quem era o homem que eu matei? O que eles fizeram com meu irmão, e como conseguiram invadir e escapar do cálice com tanta facilidade? Onde eu estava agora? E por que eu estava sozinho?
Mais uma centena de pensamentos invadiu minha mente, milhares de dúvidas e mais dúvidas. Porém, todas elas foram esquecidas quando pude ouvir uma voz próxima da tenda. Prendi a respiração numa surpresa assustada, tentando compreender o que ela dizia. Estava bem próxima da entrada da tenda, e falava num tom de conversa. Atentei meus ouvidos.
— Não importa o que vocês digam, foi uma precipitação idiota. — Ouvi uma voz masculina severa ralhar. — Agora toda a cidade está num maldito alvoroço, e nós ainda estamos aqui porque o nobrezinho melado que vocês trouxeram está dormindo.
— Meça suas palavras Hawe. Sacristãos nãos deviam se alterar tanto. — Uma voz séria respondeu, e eu a identifiquei no mesmo momento. Era aquele ruivo maldito. Dobrei minha atenção, sentindo meu coração acelerar.
— Eu não estou alterado, eu estou sendo sério. — A primeira voz respondeu. — Bartholomew, você consegue agir tão impensadamente às vezes!
O nome Bartholomew me atingiu com força. Céus fossem louvados, aquele homem era mesmo Bartholomew Lucci?
— Cala a boca um pouco Hawe. — A outra voz também me era familiar, o moreno que me atingira com sua adaga dourada. — O importante é que conseguimos. Recuperamos os tesouros que eles pegaram daquele idiota do Maggy, que era nossa intenção inicial, e ainda conseguimos pegar o Blaine sem grande alvoroço. — Deuses, eles estavam falando de mim. Ou seja, o grupo não era formado apenas pelos dois que eu conhecia.
— Quem? — Ouvi Bartholomew questionar após um instante de silêncio, num tom incrédulo.
— Blaine. O refém!— O moreno fez uma pausa, e o silêncio manteve-se. — Ora parem de me olhar assim! Ele tem nome!
Ouvi um pequeno conjunto de risadas estourarem em uníssono, o que me irritou. Malditos fossem todos, eles estavam rindo de mim! E a julgar pela quantidade de risadas, havia mais gente ali do que apenas os três que haviam falado até o momento. O que fazia bastante sentido na verdade. Se aquele ruivo fosse mesmo Bartholomew Lucci, ele devia ter um bando de ladrões, pelo menos era essa a sua fama. E isso queria dizer que eu estava nas mãos de um bando de criminosos.
— Merda, não riam dele. — Uma voz feminina disse conforme os risos diminuíam, contradizendo sua própria fala, pois era possível captar que ela tentava controlar o riso. Por alguma estranha razão, a voz e o riso me pareceram levemente familiares. — Aliás, logo ele deve acordar, e poderemos sair daqui.
— Bem, seria ótimo. — Uma nova voz masculina entrou na discussão. — Teremos de ser rápidos, logo Lorde Becklan enviará patrulhas atrás de nós, se já não estiver fazendo algo assim. Tem certeza de que é ele Bartô?
Aquilo me tranquilizou levemente. Se tudo desse certo, logo todo o Docestado estaria atrás de mim, em busca de me recuperar. Agarrei-me a aquela esperança. Bartholomew Lucci demorou um instante para responder.
— Sim, tenho certeza. Como eu disse pra vocês, eu o beijei e nada aconteceu. — Por algum motivo, ele falou aquilo com uma simplicidade inacreditável, e eu senti meu rosto ruborizar com aquilo. Droga, quem aquele homem atrevido achava que era? E que diabos aquele beijo tinha de tão especial? — O Ronper viu. Ele ficou totalmente normal. Não acho que precisamos de mais provas.
— Só acredito vendo... — O tal Hawe resmungou.
— E quem será ele? — A mulher disse novamente, num tom cheio de expectativa. — Droga, isso me deixa animada como uma puta do rei!
— Bem, não é como se fosse um grande segredo. Todos conhecem as histórias da linhagem dos Becklan. — Comentou novamente a primeira voz que eu ouvira, Hawe. — Isso seria crucial aos nossos planos, vocês sabem bem.
— Todos sabemos, e por isso concordamos em sequestra-lo. — Bartholomew falou, num tom ríspido. — Era necessário, e agora, temos de partir o mais rápido possível. Apesar de todas as suas reclamações, você está certo Hawe. Bela Colheita está em caos, e não sabemos por quanto tempo esse caos vai se manter apenas na cidade. Vamos partir em duas horas, então é bom acordarmos o nobrezinho cu de açúcar e desmontarmos o acampamento.
Houve um murmúrio de concordância, e eu mordi meu lábio, com raiva, medo, e confusão em mente. Que raios de conversa fora aquela? Eles não deviam estar longe, pois fui capaz de ouvir o som que eles faziam ao levantarem e se afastarem para desmontar o tal acampamento do qual eu fazia parte.
— Certo, e quem vai falar com ele? — A voz feminina indagou em tom interessado, enquanto eu ouvia os passos dos outros se afastando.
— Você. — A resposta veio pela voz do ruivo, tão veloz que ficou claro ele esperava pela pergunta. — E nem ouse abrir essa boca pra argumentar, você sabe que é a mais adequada pra isso. Aliás, a única adequada.
Franzi minhas sobrancelhas, confuso, e voltei meu olhar para a entrada da tenda, como se aquilo fosse me ajudar a entender alguma coisa. Francamente, às vezes eu era tolo como um potro recém-nascido.
— Bartô! — A mulher exclamou em tom histérico. — Não! Se você acha que eu vou conseguir convencê-lo, está iludido! Merda, você sabe muito bem, ele é um Becklan, teimoso como um espinheiro! — Ela disse, parecendo assustada. Realmente, eu sentia que conhecia aquela voz, o que apenas me deixava mais confuso.
— Pelos deuses, eu não sou tolo o bastante pra achar que ele vai se aliar à nós de primeira. Apenas explique a situação pra ele, sem contar muito. Ainda não sabemos se ele é de confiança. — Bartholomew respondeu com desdém na voz.
— Bartholomew, ele vai me odiar depois disso! — Ela gritou desesperada, e eu franzi mais minhas sobrancelhas. — Como espera que eu explique algo pra ele sem dizer nada?
— Não diga nada crucial. Seja criativa, abra as pernas pra ele, dê um doce, qualquer coisa! Agora vá. — O homem terminou a conversa num tom grosseiro. — Precisamos partir logo, então espero que não demorem, senão eu juro que desmonto essa tenda com vocês dentro.
A conversa cessou naquele momento. Pude ouvir apenas os passos se afastarem da tenda, e em seguida o silêncio que era maculado pelo canto dos pássaros e o farfalhar das árvores, o que indicava que estávamos num bosque ou mata, mas o Docestado era tão infestado por elas que saber sobre isso não me ajudava em nada.
Logo, uma ansiedade tomou meu peito. O que, por todos os deuses em seus castelos celestiais, ia acontecer comigo agora?
Não tive muito tempo para dúvidas, pois pude ouvir os passos se aproximando, botas batendo em pedras soltas de forma leve. Nem preciso citar o quanto eu estava assustado no momento, e também ansioso. Encarei a entrada, tentando fechar minha cara numa expressão séria. Se eu estava amedrontado e sem esperanças, pelo menos tinha o orgulho, uma coisa que nós nobres tínhamos de sobra, e a única que eu poderia usar para me proteger do medo naquele momento.
Quando vi uma sombra surgir através do tecido, prendi a respiração, mantendo minha cara fechada. O tecido amarelo foi afastado, e uma mulher alta adentrou na tenda, se inclinando para atravessar a entrada, e me encarando em seguida de forma nervosa.
Disfarcei a minha surpresa franzindo minhas sobrancelhas loiras da forma mais firme que consegui, até sentir um vinco tão profundo entre elas que poderia rachar minha cabeça ao meio. Por Verne o supremo e todos os outros deuses, ela era extremamente parecida com a minha mãe, logo, também parecida comigo. Era como se eu tivesse voltado no tempo e encontrado com a minha mãe jovem de vinte anos atrás. Percebi também que o fato de eu reconhecer a voz dela era porque até mesmo sua voz era parecida com a da minha mãe, apesar de ela ter um vocabulário que minha mãe nunca usaria nem para salvar a vida de seus cinco filhos. Ela tinha os mesmos cabelos prateados que a minha mãe, os olhos dourados e bonitos, a pele branca como leite, e a única diferença crucial era que ela era um tanto mais alta que minha mãe, e seus cabelos caíam em cachos sobre seus ombros, e não lisos como eram os da minha mãe.
— Bom dia. — Ela disse com um sorriso amarelo, parecendo extremamente sem jeito. Pisquei meus olhos algumas vezes pra ter certeza do que via.
— Pelos infernos, quem é você? — Perguntei, encarando-a, num tom meio abobado devido a surpresa. Ela me encarou nos olhos, erguendo levemente uma sobrancelha prateada, o que apenas aumentou meu espanto com relação ao quanto ela parecia com os Abdula, a família da minha mãe.
A mulher apenas me ignorou, e foi até a mesa que estava no canto da tenda, puxando um pano e jogando de forma despreocupada no chão, voltando a mexer na mesa. Ela usava roupas de viagem bem comuns: uma calça cinzenta que ia até suas canelas, um par de botas velhas de couro preto e uma camisa larga também cinzenta, levemente esverdeada e suja. Ainda assim, era de uma beleza admirável, e perceptível, corpo atraente, quadris bem medidos e seios fartos. Num vestido de corte ela seria mesmo tão bela quanto minha mãe.
Ela puxou da mesa uma badeja de madeira e caminhou até próximo de mim. Não desgrudei meus olhos dela em nenhum instante. A mulher se inclinou, colocando a bandeja no chão, e em seguida caminhou até a cadeira da tenda e se sentou, cruzando as pernas. Encarei a bandeja: uma jarra de barro com um copo rústico de madeira do lado, uma fatia grossa de queijo, pão escuro e uma porção de morangos. Encarei tudo, percebendo que estava faminto, mas me segurei, voltando a encarar a mulher com a minha carranca.
— Coma. Você deve estar com fome depois de todos esses dias de cama. — Ela disse, cruzando os braços sobre o peito, com a cara fechada. Uma lembrança distante pareceu despertar na minha cabeça, mas não consegui me lembrar bem. Ignorei sua ordem e correspondi a expressão fechada com outra.
— Quem é você? E que porra vocês estão fazendo comigo? — Pensei em fazer ameaças usando o nome da minha família, mas achei que seria patético demais. Se eles tinham culhões para invadir o Cálice e me sequestrar, não iam ser minhas ameaças que iam assustá-los. Palavras não são nada afinal. — Onde estamos? — Completei em seguida, e me esforcei para afastar as peles de cima de mim. Percebi que usava apenas roupas leves de dormir, mas nem liguei.
A mulher arregalou os olhos com minhas perguntas, e levou a mão ao peito fazendo um movimento praticamente automático em que ela formava um círculo como o polegar e o indicador da mão direita e posicionava sobre o peito.
Foi aquele gesto que chamou minha atenção para uma tatuagem que ela tinha ali, uma flor de cacto rosa e muito bem desenhada, mas pequena. Meus olhos se arregalaram e deixei meu queixo cair quando reconheci aquele gesto e aquela tatuagem, e lógicamente percebi quem era aquela mulher. Ela pareceu ver a compreensão em meus olhos, e reagiu de forma afobada, subindo a camisa larga para cobrir a tatuagem, mas era tarde demais.
— Você... — Murmurei, atônito, enquanto ela me encarava com os olhos dourados carregados de surpresa.
— Ah não... — Ela falou baixinho, com uma careta, e eu senti meu rosto se contrair numa expressão entre confusão e raiva. Aquilo não podia estar acontecendo, de todas as pessoas no mundo, como uma das minhas sequestradoras poderia ser...
— Tia Selena? — Questionei surpreso, já sabendo a resposta.
Era um costume em Jeera, que as famílias enviassem seus filhos jovens em viagens, para que eles conhecessem o reino, as famílias nobres, e os locais mais famosos do grande reino. Era importante para manter o contato entre as grandes famílias, e também era importante para as relações diplomáticas que os herdeiros das grandes famílias fossem conhecidos no reino, por razões óbvias de alianças e negócios. Ainda mais comum era que nobres aparentados enviassem seus filhos para que passassem temporadas com seus parentes, normalmente tios, avós, ou até mesmo primos, em outros locais do reino, também para que a relação entre as famílias não ficasse desgastada.
Comigo, essas viagens começaram aos 12 anos, com os dois objetivos: conhecer outros estados e visitar meus familiares. Lortan já tinha 15 anos, e viajou comigo por todo o caminho. Conhecemos todas as maiores cidades do Docestado, e também outros estados. Não atravessamos todo o reino, mas foi uma viagem muito divertida, eu me lembro da excitação jovem que eu sentira na época, conhecendo novos lugares, pessoas e costumes. O destino final da viagem era um dos estados mais ao norte do reino: o frio e gigantesco Deserto Branco, governado pelos Abdula, meus parentes diretos por parte da minha mãe. Íamos para conhecer nossos avós, Lorde Ali Abdula e sua atual esposa Lady Marcene Abdula, e passar alguns meses na Cidade Mágica, capital do reino.
Foram três meses incríveis, divertidos e muito agradáveis. Meu avô era um homem doce, assim como sua esposa, e todos meus tios e tias, que eram vários, afinal os Abdula eram famosos pela longevidade — meu avô já passa de 83 anos atualmente — e pela fertilidade. Eram uma família mais séria do que os Becklan, mas não por isso menos agradável. Como criança, eu me tornei automaticamente próximo dos meus vários primos, e também dos meus tios mais jovens. Entre eles, a minha tia caçula, meia-irmã da minha mãe, e a mais divertida de todas as crianças da Pirâmide dos Milagres, onde os Abdula residiam. Tia Selena Abdula, que desaparecera à dois anos.
A expressão de surpresa dela apenas serviu como confirmação do que eu dissera. Eu me lembrei das várias brincadeiras que fizemos nos túneis escuros da Pirâmide dos Milagres, das risadas e de como ela me irritava, vencendo de mim em quase tudo que competíamos. Tornamo-nos muito amigos nos tempos que passei no Deserto Branco, e me lembro de no de nossa partida ter chorado ao me despedir dela. A lembrança era bem nítida na minha mente, ela, mais velha e esperta, apenas me abraçou, rindo baixinho, prometendo que nos veríamos no futuro. Na época eu era apenas um garotinho estúpido e chorão, que achava que nunca mais a veria, mas com o tempo eu percebi que acabaríamos nos reencontrando.
Eu só não esperava que fosse assim nosso grande reencontro.
— Eu... — Ela começou, parecendo sinceramente sem jeito. — Escuta Blaine, eu sei que você deve...
Minha mente entrou num estupor automático, tentando digerir aquela informação. Aquela era minha tia, no mesmo grupo de pessoas que tinham me sequestrado, minha tia que fora dada como morta após ter desaparecido sem deixar rastros à dois anos, causando um tumulto em todo o reino. A mulher que fora minha amiga de infância. A irmã de minha mãe...
— Você... — Eu falei baixo, a encarando, e senti meu rosto se contorcer numa careta de fúria, com lágrimas nos olhos. Me neguei a permitir que elas caíssem. — Você está viva... todos achamos que você tinha sumido, e você está viva, NA MERDA DE UM BANDO DE LADRÕES!
Gritei a última parte, e ela se encolheu na cadeira, mordendo os lábios assustada. Tomei forças para tentar me levantar em minha fúria, mas ela foi mais rápida do que eu. Antes que eu saísse de cima das peles, ela se levantou da cadeira e puxou uma espada que estava pendurada em seu cinto, a qual eu ainda não havia reparado. Mantendo distância de mim, ela retomou sua postura dura, com a expressão séria no rosto, e apontou a espada na minha direção. De alguma forma, ela estava tão poderosa naquela posição, com o aço reluzente em mãos, que eu travei no mesmo instante.
— Escuta aqui Blaine. — Selena falou, sua voz dura como o aço. Encarei seus olhos dourados que queimavam como poços de ouro líquido, e perdi toda a minha determinação. — Você pode comer e escutar o que eu digo com calma, ou eu posso enfiar essa espada no seu rabo até você abrir a boca pra eu enfiar toda a comida dentro de você. Não me importo se quiser me ofender, me encarar numa luta de espadas ou sei lá o que sua cabeça adocicada pensa, mas vai fazer isso depois que tiver comido e não estiver meio-morto.
As palavras me atingiram como um tapa, e ela manteve seus olhos nos meus com uma determinação férrea. Não consegui encontrar minha língua em local algum, então apenas fechei minha cara, e voltei a relaxar minha postura sobre as peles. Encarei a bandeja com olhos vazios, tentando acalmar minha mente, que rodopiava como uma mosca em volta de um lampião.
Selena apenas soltou um suspiro, relaxando a postura, e guardou a espada na bainha, apertando os olhos com as mãos. Eu voltei a encará-la, ainda sem tocar na comida, e ela se sentou novamente na cadeira, se inclinando pra mim, e me olhando, agora com um olhar cansado.
— Olha, por favor, coma. — Ela disse, dessa vez com a voz exalando cansaço. — Blaine, eu sei que você deve estar com a cabeça à milhão, mas você foi atingido por uma adaga de luz e ficou quatro dias de cama. Seu corpo precisa de nutrição antes de qualquer coisa, ou você não vai se aguentar acordado por muito tempo.
Comprimi meus olhos, confuso, momentaneamente esquecido de minha raiva.
— Adaga de luz? — Perguntei curioso, me lembrando das míticas ferramentas presentes em vários contos infantis.
— Sim, aquela com que Ronper te atingiu. — Ela falou, se reclinando na cadeira, e eu arqueei minhas sobrancelhas, surpreso. Aquilo explicava tudo! Por isso eu não tinha me lembrado de nada até agora, as adagas tiravam parte de sua memória até que você entrasse em contato com algo que te recordasse do acontecido. — Agora vamos, coma. — Ela insistiu, e eu desajeitadamente peguei a jarra de barro com meus braços algemados e enchi meu lindo copo de madeira com uma cerveja escura e encorpada que parecia muito boa.
Tomei um gole, sentindo o líquido gelado e o sabor amargo aliviarem minha boca seca. Realmente, era uma cerveja muito boa. Tomei mais um gole cheio, e antes que percebesse, atacava o pão escuro.
— Muito bem, bom sobrinho. — Pude ouvir o tom divertido da mulher sentada, e a encarei, com a boca cheia de pão. Ela tinha um olhar satisfeito, até divertido, e me encarava de braços cruzados. Totalmente diferente da mulher que me apontava uma espada alguns segundos atrás.
— Vai se foder. — Eu falei, cuspindo pedaços de pão. Decidi me concentrar em comer agora, e exigir respostas depois, quando a barriga vazia não me incomodasse.
Minha tia riu, me lançando um sorriso maroto.
— Ora, isso são modos de se falar com sua tia? — Ela provocou, cruzando as pernas novamente. Tomei um gole de cerveja para empurrar o pão para dentro, e decidi me concentrar nela agora.
— Você não é minha tia, desgraçada. — Eu rosnei, baixando o copo. — O que você tá fazendo aqui? — Perguntei, minha irritação voltando.
Selena se aprumou na cadeira, encarando o nada por um instante, parecendo pensativa. Ela mordeu um lábio e levou um dedo aos cabeços, enrolando um cacho prateado.
— Como eu vou te explicar... — Ela respirou profundamente e prendeu o ar por um momento. Franzi minhas sobrancelhas em reprovação. Finalmente, a mulher soltou o ar e me encarou. — Bom, eu fui sequestrada também. Foi à dois anos, quando eu fui dada como desaparecida.
Ergui uma sobrancelha. Logo, meu peito foi tomado de esperança. Se Selena tinha sido sequestrada, provavelmente ela estava ali obrigada! E se era assim, eu tinha uma chance de fugir!
Deixei a ideia aumentar minhas esperanças, e peguei a fatia de queijo duro que estava sobre a andeja, dando uma mordida.
— Quer dizer que você também está aqui obrigada? — Perguntei, de boca cheia. — Vamos fugir então! É só me arranjar uma espada como a sua, tenho certeza de que...
— Não, não, nada disso menino. — Ela disse, gesticulando com a cabeça. — Eu fui sequestrada dois anos atrás. Depois eu entrei pro bando.
Minha surpresa foi tanta que tive de me segurar para não cuspir o queijo na cara dela. Então a rameira realmente tinha entrada pra um bando de ladrões!
Abri minha boca preparada para xingar ela, mas ela ergueu uma mão, e idiota como sou, eu me calei.
— Tenho certeza que vai entender meus motivos no futuro Blaine. Todos esperam que você também entre pro bando afinal. — Ela baixou a mão delicadamente, e repousou as duas sobre o colo. Meus olhos arregalaram até o limite em indignação.
— Mas nem por todos os deuses! — Eu gritei, e ela apenas cruzou os braços, me encarando com um sorriso torto.
— Por Orfélia, como você parece a sua mãe... Bom, eu acho, não me lembro muito bem dela, você sabe. Quando eu estava nascendo ela já estava grávida do seu irmão, mas eu a amo. — Ela disse, com um sorriso. — Mas você também parece bastante comigo.
— O cacete. Eu nunca entraria num bando de criminosos e nunca abandonaria minha família. — Resmunguei, jogando o resto do queijo duro no chão e enchendo novamente o copo de madeira.
Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou, do jeito que ela costumava rir na infância. A encarei com raiva, e ela apenas sorriu.
— Já falei, tive meus motivos Blaine. Um dia você vai acabar entendendo. — Ela sorriu torto pra mim. — Agora, eu preciso que você entenda uma coisa...
— Olha, se você vai falar toda aquela merda que vocês estavam conversando lá fora, eu já ouvi tudo. — Respondi, impaciente. — Aquele é mesmo Bartholomew Lucci? Então quem eu matei? — Selena abriu os lábios pra me responder, mas decidi despejar todas minhas dúvidas sobre ela de uma vez. — E que tipo de bando são vocês? O que vocês querem comigo? Por que invadiram o Cálice? E como conseguiram uma adaga de luz? O que o ruivo cara de cu fez com meu irmão? E... — Tentei pensar em outras perguntas que me atormentavam antes, mas não consegui. Apenas uma me atormentava, e eu não conseguia soltá-la com facilidade. — E... — Ela ergueu uma sobrancelha me encarando, e senti meu rosto corar. — E por que ele me beijou? — Exclamei por fim, tomando um longo gole de cerveja.
Selena me encarou séria por um momento, com as sobrancelhas arqueadas de forma surpresa. Seu rosto começou a se contorcer e ela pareceu estremecer, até que eu percebi que ela segurava o riso.
— Sua puta! — Gritei com raiva, e joguei meu copo de madeira na direção dela, sentindo meu rosto corar mais, e ela apenas se desviou do copo com facilidade, estourando numa gargalhada estridente, e segurando a barriga com as duas mãos. Trinquei meus dentes com raiva, enquanto ela se mantinha rindo alto.
— Olha, olha... — Ela falou com esforço, entre os risos. — Se... Eu for te explicar tudo isso... — Ela deu mais um risinho, e limpou uma lágrima dos olhos. — Vamos ficar aqui até amanhã! Temos só mais algum tempo, vamos de desarmar essa tenda e partir daqui a pouco, então só vou adiantar o básico.
Ela riu mais uma vez e eu bufei irritado, até que ela me encarou com um sorris mais contido.
— Certo, vamos ver se me lembro de tudo. Ele é sim o Bartholomew Lucci, o homem que você matou era um ladrão conhecido como Maggy, que nós envenenamos com Reumatis e obrigamos a agir como se fosse o Lucci para afastar vocês da gente. Só não sabíamos que o desgraçado tinha aquelas joias, que vocês levaram embora, e por isso Bartô e Ronper invadiram seu castelo, para pegar elas de volta. O resto das perguntas eu já esqueci, mas sobre o beijo... — Ela deu um sorrisinho mais torto que o normal, que me fez trincar novamente os dentes. — Bem, ele te achou encantador.
Arregalei meus olhos, e Selena gargalhou novamente. Percebi que era uma piada, e rosnei pra ela.
— Vá pro inferno! — Gritei, e ela riu mais ainda, se levantando.
— Olha, desculpe, eu não posso explicar. — Ela colocou as mãos na cintura com um sorriso. — Só posso dizer que não foi apenas porque você é encantador, mas sim porque o beijo do Bartô... — Ela fez uma pausa dramática, erguendo uma sobrancelha e se aproximando lentamente de mim. Na minha frente, ela se agachou, ficando da minha altura. — É mágico. — Ela riu novamente, se levantando, e eu fiz uma careta pra ela. A desgraçada estava fazendo piadas comigo novamente.
— Pois não fez efeito em mim. — Falei num rosnado, enquanto ela se dirigia para a saída da tenda. Ela parou e se voltou para mim, com um sorriso enorme nos lábios.
— Então o seu beijo também é mágico docinho. — Minha tia piscou pra mim. — Vou mandar alguém vir te vestir, não sou uma tia tão velha a ponto de fazer isso. Nos vemos mais tarde. — Anunciou, e antes que eu pudesse gritar por mais explicações, ela saiu, me deixando sozinho novamente naquela tenda amarela.
Soltei um suspiro, encarando o nada, e sentindo minha cabeça estranha.
Magia. Magia era o rabo daquela puta!
Notas finais
Bom, sem querer entrar em muitos detalhes, é o seguinte, tive uns probleminhas de saúde, e tive de ficar uns dias no hospital, linda e maravilhosa. Bem, de primeiro, eu pensei "Pôxa, uma semana no hospital de bobeira, sem precisar ir pro serviço nem pra facul, vou escrever pra caramba!".
Nunca estive tão errada! Não aguentei nem dormir direito, quem diria pegar o notebook e digitar algo. Daí, tive muito tempo pra planejar o cap, mas pra postar hahaha...
Enfim, é isso, tô em casa já, minha recuperação está supimpa, já estou brilhando novamente e distribuindo beleza pelo mundo. Talvez o cap demore novamente (ou seja, fds que vem) porque, bem, eu ainda estou me recuperando. Mas espero que consiga postar antes!
Grandes beijos da Hena lindos!
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