As Treze Relíquias.
3 Capítulo 3 - Adaga de Luz.
Notas iniciais
Todo mundo confuso? Todo mundo querendo me espancar? (SIM!!!)
Hahaha, eu sei que tá tudo bem confuso, mas a partir de agora, as explicações começam a aparecer.
Muito obrigada por todos os reviews! Ia esperar mais pra postar, mas fiquei com dó de vocês hehe.
Espero que gostem das explicações dadas nesse cap, e dos Hirmos, que também aparecem bastante.
Capítulo dedicado à Leen, que adora o Lortan!
E esse cap é narrado por ele hahaha.
Grandes beijos!
Boa leitura!
Hirmo Samião espalhou seus papéis na mesa, procurando nervosamente por algum específico. Os outros Hirmos presentes o encaravam, assim como eu e meu pai. Senti minhas sobrancelhas franzirem automaticamente enquanto via a falta de preparo do homem, mas tentei relaxar, afinal não era culpa dele. Sabia que ele e os outros hirmos vinham fazendo uma pesquisa profunda em busca da razão do adoecimento repentino de meu irmão, desde três dias atrás, quando ele sofrera o primeiro ataque.
— Aqui. — Ele disse, puxando um papel em específico. — Com a ajuda de Hirmo Joseph e os outros, consegui encontrar isto. — Ele estendeu o papel para meu pai, mas eu o ouvi soltar um suspiro exasperado, dispensando o documento com um gesto da mão grande.
— Danem-se os papéis, apenas me digam o que meu filho tem. — Ele rugiu em sua voz de trovão. Lorde Malbec nunca fora homens de papéis, e sim de resultados. Soltei um suspiro cansado, vendo o Hirmo da Medicina puxar sua mão para trás repentinamente, com um olhar assustado nos olhos. Era um homem muito capacitado em sua área, mas fraco dos nervos, e qualquer palavra alterada podia deixa-lo tremendo.
As Reuniões de Hirmos aconteciam semanalmente. Treze formavam um conselho, e os treze se complementavam, abrangendo assim todas as áreas de conhecimento humano. Por isso, as reuniões serviam para tratar de assuntos importantes, onde era necessário a opinião de todos os especialistas da área, para que assim encontrassem soluções adequadas e eficientes, num equilíbrio que beirava a perfeição. Em raros casos era necessário organizar uma reunião dos treze além dessa semanal, e os ataques de Blaine era um desses casos. Ele tivera mais duas crises após a inicial, que o deixara de cama, uma crise por dia. Quando não estava gritando de dor, dormia num sono profundo, apenas acordando para ser alimentado e receber um remédio para suas dores, que lhe fazia adormecer novamente. Após a primeira crise, ficou claro que não era uma simples ressaca que o assolava, mesmo que eu não soubesse o que uma ressaca era.
Porém, Hirmo Samião não tinha ideia do que poderia ser, nem encontrou nada em seus livros. Então, pediu auxílio para Hirmo Joseph, o Hirmo das Letras e Educação que era responsável por nossa biblioteca, e juntos vasculharam todo o acervo do Cálice em busca de algum documento relatando algo relacionado aos sintomas que assolavam meu irmão. Logo, todos os Hirmos estavam fazendo suas pesquisas. Hirma Shelen, especialista em Alquimia, procurava alguma substância que poderia ter feito mal ao jovem, e Hirmo Clare, dos Conhecimentos Populares, buscava casos antigos relacionados. Assim, cada Hirmo pesquisava sua área em busca de respostas.
Enquanto isso, minha família mantinha nossa vigília sobre Blaine. As meninas quase não saiam do quarto, e mamãe também ficava lá com ele, vigiando seu repouso, e conversando com o garoto quando ele despertava. Papai mantinha-se cuidando dos assuntos do estado, mas sempre perguntando sobre meu irmão. Senno fizera bonecos de cera pro irmão, desejando suas melhoras da melhor forma que conseguia. E eu mesmo me mantinha em seu quarto sempre que possível. Saíra de lá apenas para atender àquela reunião, onde os 13 Hirmos discutiriam a possível razão do meu irmão estar de cama.
— Certo. — Hirmo Samião continuou, com uma mordida no lábio, voltando seus olhos pro papel. — Como eu disse, com muita pesquisa encontramos este documento, e em conselho discutimos sua veracidade, e a probabilidade do mal do jovem Senhor Blaine estar relacionado com o que é relatado aqui.
Hirma Shellen soltou um suspiro de exasperação, e todos voltaram seus olhares para ela.
— Essa é uma perda de tempo sem tamanho. Está na cara que ele foi envenenado. — Ela disse, os olhos duros como rochas. — Podíamos estar procurando soluções para seus males enquanto estamos aqui.
Hirmo Samião a encarou com o olhar ofendido. Observei a situação com o semblante fechado.
— Mas... É uma probabilidade. Hirmos Goés e Clare dizem que... — Ele começou, mas a mulher suspirou novamente.
— Boatos e um homem especializado em combate. Nenhum se relaciona aos cuidados de um doente. — Ela disse, ríspida, mas Grã-Hirmo Elias a encarou com o olhar duro. Era um velho incrivelmente sábio, e mestre do conselho, ninguém ousava desrespeitá-lo, muito menos seus Hirmos, que lhe deviam obediência.
— Hirma Shellen, se não puder manter suas opiniões para o momento apropriado, morda a língua. — Ele disse, seu tom severo e repreendedor, fazendo a mulher loira se calar imediatamente, e cruzar os braços sobre o peito. Olhei para ela, também repreensivo, e o Grã-Hirmo acenou com a cabeça para que o Hirmo da medicina continuasse.
— Bem, como eu dizia... — Hirmo Samião deu um pequeno pigarro, analisando nervosamente o papel. Minha irritação com a enrolação aumentava a cada instante. — Este papel relata sobre uma arma antiga e lendária, que talvez alguns conheçam. São peças consideradas muito raras, mas sua existência é basicamente comprovada. — Ele ergueu seus olhos nervosamente para todos. — Ele fala sobre as adagas de luz.
Disfarcei minha surpresa erguendo uma sobrancelha e crispando os lábios. Adagas de luz eram itens presentes em histórias de crianças e todo o tipo de lenda fantasiosa. Nas histórias, eram armas usadas por demônios e espíritos, entre outras criaturas, para fazer com que as pessoas se esquecessem do que viram na última hora. Eram descritas como lâminas de luz, que quando cortavam um humano, sugavam todas suas lembranças relacionadas aos últimos momentos, e colocavam a vítima em sono profundo. Aquilo realmente me pareceu uma perda de tempo, afinal as lâminas não passavam de explicações míticas para aqueles atacados por demônios nunca se lembrarem de nada nas histórias. Mas Hirmo Joseph continuou a fala do companheiro, com sua voz fraca de velho.
— Apesar de parecer cultura popular barata. — Falou, repousando as mãos manchadas sobre a mesa. — O documento descreve a arma e seus efeitos sobre aqueles cortados por ela. — Ele disse, atraindo a atenção de todos. — Encontrei o documento numa das partes mais antigas de nossa biblioteca, data de 200 anos atrás. E os efeitos da adaga são bem condizentes com os sintomas do jovem Senhor.
Cruzei meus braços sobre o peito, e me reclinei na cadeira, esperando incrédulo à conclusão daquela reunião. Na minha cabeça, parecia bastante baboseira, por todos os deuses. Meu pai tinha a expressão fechada, o que queria dizer que também tinha suas dúvidas quanto aos resultados daquela pesquisa, e queria respostas logo.
— Todos nós analisamos o documento, Lorde Becklan. — Anunciou o Grã-Hirmo, tomando a frente da reunião. Era sua função, no fim das contas. — E chegamos à conclusão de que essa pode ser uma razão plausível aos males de nosso jovem senhor. Por favor Hirmo Samião, leia os sintomas descritos no documento.
Atentei meus ouvidos. Ali seria o momento onde tiraria minhas dúvidas sobre a veracidade daquela suposição que me soava absurda. O Hirmo pigarreou e começou a leitura de forma trêmula, seu nervosismo era palpável.
— “Dores no ponto atingido pela adaga, sem nenhuma marca visível” — Começou a lista, pausando para engolir em seco. — “Alucinações intermitentes. Fadiga física. Convulsões. Crises de dor intensa em todo o corpo. Sono intenso.” — Ele fez uma pausa, erguendo os olhos para meu pai, que o encarava com uma sobrancelha erguida. Aquilo era surpreendentemente semelhante ao que Blaine alegava sentir. — “Todos estes sintomas citados podem ocorrer nos três ou quatro dias seguintes ao ataque sofrido. Após isso, o atingido voltará ao estado normal, sem a memória sobre o acontecido. Caso a vítima seja exposta a algo que a recorde das cenas apagadas de sua memória, pode voltar a recordá-las.”
Ergui minhas sobrancelhas em arco, surpreso. De fato, realmente fazia sentido, e me senti idiota por duvidar do conselho, afinal, eles eram Hirmos, estudados e formados na Entidade, e não tolos, pelo menos em sua maioria. Não apareceriam com uma história leviana e questionável.
Meu pai se inclinou sobre a mesa, parecendo interessado, enquanto eu estendia a mão para o documento, comprovando com meus olhos as informações lidas pelo homem vestido em vermelho. ]o papel estava amarelado e manchado pelo tempo.
— Certo. Os sintomas são condizentes? — Ele questionou. Papai não se atava a detalhes, e provavelmente apenas sabia que seu filho estava doente, sem ter conhecimento sobre nenhum de seus sintomas. Hirmo Samião apenas concordou com a cabeça, e meu pai soltou um suspiro. — Entendo. Mas como ele pode ter sido atacado? E como saberemos se o documento é confiável?
— Isso é algo que não saberemos se ele realmente foi atacado por uma adaga de luz, afinal o jovem não se lembrará de nada. — Grã-Hirmo Elias comentou. — A veracidade do documento é questionável, afinal não tem autor nem origem, mas o estado do papel parece concordar com a data assinada ao final do relato.
— E as adagas de luz são tão presentes na cultura popular, que seu misticismo pode ser questionado. — Hirmo Clare complementou. — São muitas histórias, muitas lendas, e vários relatos. Hirmo Joseph pode me ajudar com isso. Em documentos oficiais como “O Grande Século da Prosperidade” e “Jeera dos 13 Estados” existem pequenas citações ao instrumento.
— Além de dezenas de outros livros. — Hirmo Joseph anuiu em concordância.
Eu ainda não me sentia totalmente convencido, mas os argumentos também não estavam terminados. Hirmo Goés, o Hirmo das Artes de Batalha, responsável pelo treino de todos os guerreiros de Bela Colheita, também falou.
— São armas consideradas reais nos estudos de batalha. — Ele rosnou, era um homem selvagem e velho, de peito largo e barba cinzenta. — Dizem que podem ser feitas com magia. Há relatos de guerras que sofreram reviravoltas extremas devidas o possível uso desta arma.
Pouco foi discutido após isto. Os outros Hirmos pouco tinham à dizer sobre aquilo, porém todos pareciam concordar com a teoria, e os fatos inevitavelmente dirigiam à conclusão de que meu irmão fora mesmo atingido por uma adaga de luz, por mais absurda que fosse a ideia. Ao fim, apenas Hirma Shellen não parecia convencida, permanecendo calada durante as conclusões. Meu pai e Grã-Hirmo Elias tomaram então as decisões finais, e eu prestei bastante atenção nessa parte, como era comum para mim, afinal, eu precisava saber como um Governador se comportava se quisesse ser um bom futuramente.
— Pois bem. Caros companheiros de conselho, está decidido que o jovem senhor Blaine permanecerá em repouso até amanhã, quando esperamos que ele melhore, comprovando a hipótese da adaga de luz. — Começou o Grã-Hirmo, dando as ordens aos seus subordinados. — Enquanto isso, Hirmo Joseph e Hirmo Simeão continuarão as pesquisas na biblioteca, em busca de outras possibilidades. Hirmo Clare pode ajuda-los. Hirma Shellen continuará sua pesquisa sobre substâncias que podem ser a causa do mal estar do jovem, caso nossa hipótese prove-se falsa. Hirmo Goés comandará as investigações pelo castelo em busca de sinais de invasão e ataque ao nosso jovem senhor. Os outros Hirmos devem manter suas tarefas comuns, mas sempre que tiverem possibilidade, ajudarem os outros com as pesquisas. — Se levantando, ele se inclinou sobre a mesa oval gigantesca, onde todos se sentavam. Os Hirmos o imitaram. — Dou esta reunião como encerrada. Que por nossa promessa, cumpramos nossos deveres. — Ele disse, como era comum no fim das reuniões de Hirmos.
— Treze somos, e treze sempre seremos. — Responderam todos em uníssono. — Sempre unidos, sempre completos, nunca sozinhos, sempre pelo conhecimento.
— Que pela Entidade, os deuses iluminem nossas mentes. — O Grã-Hirmo falou, erguendo sua cabeça, e os outros levaram a mão ao peito.
— Treze somos, e treze seremos. Pela Entidade, pelos Treze Estados, pelo nosso rei, e por todos os treze deuses.
E assim, se encerrou a reunião.
Observei os Hirmos se retirarem com uma mesura para o Grã-Hirmo, e em seguida para meu pai. Levantei-me para sair também, a reunião havia me deixado com a cabeça cheia e confusa.
— Lortan. — Meu pai me chamou quando eu me levantei. Ele me encarava com os olhos violetas sérios. — Por gentileza, peça à sua mãe que compareça aos nossos aposentos. Informarei a ela as nossas conclusões. — Eu anuí com a cabeça, e ele se levantou, colocando uma mão em meus cabelos de forma paternal. Era comum da parte dele agir assim, para os Becklan, família vinha antes de tudo, inclusive antes de festas e bebida. Papai me deu um beijo na testa de forma distraída, e só então eu percebi o quanto ele estava preocupado com aquilo. Provavelmente, nem estava bebendo, o que era inédito.
— Tudo bem, pai. — Eu respondi para ele, tentando esboçar um sorriso. Abaixando a mão, ele me dispensou, voltando para a sala de reuniões, onde permanecia apenas o Grã-Hirmo Elias.
Fui direto pros aposentos onde meu irmão repousava. Já era noite, o que me surpreendeu, afinal, a reunião tivera início no fim da tarde. Parei um criado do castelo para pedir que minha refeição fosse entregue nos aposentos do meu irmão, já que pretendia ficar ao lado de Blaine após saber de tudo aquilo. Com sorte, ele poderia despertar, e conseguiríamos conversar sobre as conclusões que os Hirmos chegaram.
Certo, eu tinha minhas desavenças com meu irmão. Éramos tão diferentes quanto água e vinho, em todos os aspectos possíveis, mas ainda assim, eu o amava. Ele era irresponsável, teimoso, distraído e inconsequente, além de vários outros defeitos, mas ainda assim, era meu irmãozinho. Blaine era meu companheiro mais próximo, meu amigo mais íntimo, a pessoa que estava sempre comigo, desde o início. Não era fácil vê-lo naquele estado.
Entrei no quarto com cuidado, sem querer fazer barulho. Mamãe estava ao lado da cama, com um livro aberto, usando um belo vestido branco. Ergueu os olhos dourados para mim assim que entrei, e me lançou um sorriso singelo. Ela estava exausta pelos dias de vigília, mas permanecia forte e firme ali, sem demonstrar sinais de fraqueza. Eu a respeitava mais que tudo, era a mulher mais forte que eu conhecia.
— Oh querido, como foi a reunião? — Ela perguntou num tom baixo, sussurrando. Blaine repousava ao lado dela, com a expressão angelical no rosto. Deitado assim, ele até parecia mesmo um anjo, de cabelos prateados e feições finas.
— Esclarecedora. — Caminhei até ela. — Papai pediu que fosse ao encontro dele em seus aposentos. Explicará as conclusões à senhora. Vou ficar com o Blaine.
Mamãe anuiu, levantando-se, com a delicadeza de sempre.
— Suas irmãs estão descansando. Mandei que elas fizessem isso, estão muito fatigadas e preocupadas. — Ela disse, se inclinando para passar a mão na testa do meu irmão. Voltou-se para mim com um sorriso. — Ele está bem melhor. É um garoto forte. Todos vocês são. — Ela me deu um beijo no rosto de forma carinhosa, e saiu dos aposentos.
Tomei seu lugar na cadeira próxima da cama, observando meu irmão em repouso por longos minutos, pensando em toda aquela história de adagas de luz. Quem poderia ter atacado meu irmão? E por que não o matara, mas fizera que ele se esquecesse do ocorrido? A possibilidade mais provável era alguma desavença despertada no baile daquela noite, mas ainda assim era improvável, afinal, todos amavam meu irmão. Era impossível não amá-lo. Ninguém de Bela Colheita tentaria algo contra ele.
— O que você aprontou dessa vez hein? — Perguntei para ele em tom baixo, afastando uma mecha de cabelos loiros e reluzentes de sua face branca. Senti um pequeno sorriso surgir em meus lábios com a visão. Ele era extremamente lindo. Meu irmão mais querido e próximo, meu companheiro, minha outra metade. Ignorei a sensação de tolice que me atormentou por estar falando com um desmaiado. — Sempre arranjando encrenca...
Arrumei-me de frente para ele, ajeitando seus cobertores. Estava calor, mas mesmo assim não era bom deixa-lo exposto ao tempo. Repousei sua mão em sua face, quente e macia.
— Papai está bem preocupado. — Falei, encarando seus olhos fechados. — Mamãe disse que não é necessário se preocupar, afinal você está acordando de tempos em tempos. Mas ela também está preocupada, todos estão. Os Hirmos estão fazendo uma pesquisa incrível em busca de respostas. Acham que você foi atacado por uma adaga de luz, dá pra acreditar? — Soltei um pequeno riso. — Sabe, o Cálice sem você é como uma taça vazia. Todos sentem sua falta. Foram só três dias, mas o castelo já parece quase sem brilho. As meninas estão incrivelmente pra baixo, e até Senno foi no Templo orar por você, com toda aquela devoção de criança dele. Eu também sinto sua falta. Mais do que você poderia imaginar. — Afaguei a face macia com meu polegar grosseiro, e pude sentir ele reagir ao toque com um pequeno movimento do rosto. — Eu te amo. — Falei, sem pensar muito. — Melhore logo.
Dito isso, me inclinei sobre ele com delicadeza, e tomei seus lábios num beijo suave, com intenções totalmente fraternais. Era estranho, fazia anos que eu não tinha um contato tão próximo com ele, desde que tivemos idade o bastante para começar a nos preocuparmos com assuntos políticos e nobres. Desde então, apenas brigávamos e trocávamos desavenças. Eu sentia falta de tudo aquilo.
Uma lembrança de nossos tempos de garoto me encheu a mente. Eu e ele brincando escondidos nos jardins, eu com 13 anos, um projeto de homem, e Blaine com apenas 10, um garoto completo ainda. Lembro que brincávamos de roubar beijos das garotas do castelo, normalmente meninas que ajudavam nas cozinhas e filhas das criadas. Naquele dia, estávamos debaixo de uma das laranjeiras mais velhas do jardim, brincando de jogar as frutas caídas na lagoa mais próxima.
— Ah, cansei! — Ele anunciara, se jogando na grama, seu sorriso sempre fácil em rosto. Lembro-me de jogar mais uma fruta na lagoa, ouvindo o som da água se espalhando, e me sentar ao lado dele, esticando as pernas. Blaine era pequeno perto de mim, como ainda era.
— Foi divertido. — Eu disse, enquanto ele pegava outra laranja, do tamanho de um tomate, e girava em mãos, distraído. Estava ruborizado pelo cansaço de jogar as frutas na lagoa, mas satisfeito consigo mesmo. Desde aqueles tempos, ele sempre tentava ser melhor que eu em tudo.
Permanecemos em silêncio por um momento, Blaine com sua laranja, e eu com meus pensamentos de criança, que já me vão distantes. Recordo-me apenas do cheiro cítrico no ar, e o calor saboroso do verão.
— Rika disse que você a beijou. — Ouvi ele dizer, quebrando o silêncio, e me voltei para ele, que continuava com os olhos grudados na laranja que girava em suas mãos. — Um beijo de verdade. Com a língua. — Falou, incrédulo, com uma careta de nojo. Eu ri da sua inocência, a tolice da juventude fazendo-me sentir muito mais maduro e sábio que meu irmão. Rika era uma garota que ajudava nas cozinhas, talvez uns dois anos mais velha, e por quem eu sentia algum interesse na época.
— É bom. — Falei para ele, que retorceu o rosto novamente. — Vamos, não seja mulherzinha. Um dia, vai gostar de beijos assim.
— Eu não! — Blaine anunciou, balançando a cabeça, fazendo seus cabelos longos balançarem como uma cortina. — Credo!
Dei uma risada, admirando toda a inocência e beleza dele. Me aproximei dele, sem muita noção do que fazia, e o abracei de lado, envolvendo sua cintura com meu braço.
— Claro que vai. Já te falei que é bom. — O pequeno me encarou como se eu estivesse doido.
— Até parece. — Ele reclamou. — Nunca vou beijar ninguém com a língua.
Ri novamente do seu rosto fechado. Meus sorrisos eram bem mais fáceis naquela época.
Sob a sombra da árvore, segurei seu rosto pequeno em minhas mãos, e me inclinei contra ele, colando nossos lábios num beijo atrapalhado e inexperiente. Quando ele foi exclamar, surpreso, coloquei minha língua na sua boca, e o beijei, sem jeito, tentando me mostrar experiente. Logo, ele parou com a surpresa, e retribuiu de forma atrapalhada, toda a inocência de crianças nos evitando de ver algo errado naquilo.
Quando nos separei, ele ofegava e se agarrava em minhas vestes, assustado. Mais uma vez, eu ri.
— Viu? Te falei que era bom. — Comentei com um sorriso, e ele apenas desviou os olhos, encabulado.
— Lortan idiota... — Falou baixinho, me arrancando mais risadas.
Àquilo fora há anos. Hoje em dia, mal nos encarávamos sem encrencas. Mas de forma alguma nosso amor fraternal enfraquecera. Por mais diferentes que fôssemos, ainda éramos irmãos, que se amavam. Eu sabia que podia contar com ele para qualquer coisa, e ele sabia que podia contar comigo.
— Blaine... — Sussurrei seu nome, dando um suspiro em seguida, e me afastando dele.
Minha refeição foi trazida algumas horas depois, e eu comi um pouco da carne e dos legumes trazidos. Peguei um livro que estava próximo da cama, uma história sobre uma grande guerra que acontecera do outro lado do mar. Me envolvi com a história, tentando sugar qualquer aprendizado que pudesse daquela situação. Estava entretido numa longa passagem sobre a batalha entre os líderes da rebelião e o rei.
Foi quando a porta foi escancarada.
Virei-me para fitar a porta com minha carranca preparada para dar uma bronca ao criado que a abrira de forma tão brusca, afinal, tínhamos um doente ali. Porém, quando me preparei para falar, vi duas figuras desconhecidas na porta.
Disfarcei minha surpresa crispando meus lábios pros desconhecidos. Seriam novos criados? Possivelmente não, as roupas eram muito sofisticadas para criados: um deles, ruivo e alto, usava uma vestimenta peculiar, um gibão preto com pontos prateados, que se assemelhava ao céu noturno. Em sua cintura, carregava uma espada longa. O outro, de cabelos negros trançados com um fio de prata, usava uma camisa de mangas longas também negra, com calças brilhantes escuras, e botas de couro de cano longo. Pela aparência do ruivo, provavelmente, era algum primo distante, talvez um Becklan de Bompomar, que soubera da doença de meu irmão e viera visita-lo com sua escolta.
Esperei por um instante que se apresentassem, minha expressão fechando com a falta de cortesia. Ambos me encaravam com olhares cheios de uma surpresa disfarçada.
— Quem são? — Perguntei por fim, ao ver que não receberia resposta sem questionar. Rapidamente, eles trocaram olhares entre si.
— Droga, isso era inesperado. — O moreno disse, me encarando em seguida.
Eles foram mais rápidos do que eu imaginei. O ruivo rapidamente puxou sua espada, num movimento fluido e silencioso. A lâmina era fina, talvez a grossura de um polegar, e estranhamente, negra como a noite, possivelmente de ferro, o que seria uma escolha de material horrível para uma espada. Me levantei o mais rápido que pude, mas assim que consegui, o outro já havia transposto toda a ditância da porta até mim, e encostava sua lâmina em meu peito.
— Calado. — Ele ordenou, e eu estremeci de ódio e medo. Encarei seus olhos castanhos-esverdeados, que brilhavam de forma intensa.
— O que vocês querem? — Perguntei num rosnado, ignorando a ordem do homem. A ponta afiada do ferro negro forçou ameaçadoramente em meu peito.
— Eu disse calado. — Rosnou novamente, o rosto sombrio. O homem moreno foi até a cama de meu irmão enquanto isso, em suas costas uma bolsa cheia balançando, e uma espada pendurada, que reconheci como a do meu irmão.
— Ele está dormindo. — Disse o homem, erguendo a cabeça para nós. — Vamos logo Bartô, precisamos sair daqui. — Completou com urgência, enquanto afastava as peles de meu irmão num movimento brusco, e o jogava no ombro com rapidez. Arregalei meus olhos em surpresa.
— O que vão fazer com meu irmão?! — Eu gritei, surpreso. A lâmina afundou levemente, cortando o tecido de minhas vestes, mas não me importei. — Solte ele agora! Quem são vocês?!
O desespero tomou conta de mim quando ouvi meu irmãozinho grunhir, acordando. O moreno não deu ouvidos ao seu som, e se voltou para mim, enquanto eu via meu irmão se debater.
— O que está acontecendo? — A voz dele me atingiu. — Me solte! Socorro! — Ele gritou, se debatendo, mas o moreno o manteve preso.
— Soltem ele! — Gritei novamente, e o ruivo me encarou com ódio nos olhos, lançando um olhar rápido pro parceiro moreno.
— Lortan! — Ele havia reconhecido minha voz, e agora gritava em desespero. — Lortan, me ajuda!
Antes que eu pudesse gritar, fazer algo, ou pensar normalmente, o ruivo em minha frente afastou a lâmina, e avançou contra mim, segurando em minha nuca com brusquidão, fechando os dedos em meus cabelos. Demorou um instante para eu perceber que ele colava seus lábios nos meus.
Num espasmo de surpresa, eu o empurrei, e ele se afastou de mim com a expressão fechada. Meu irmão ainda gritava, mas seus sons pareciam mais distantes e eu não os compreendia. Tentei avançar contra algum deles, mas não consegui me mover, toda minha vontade parecia sumir lentamente.
— Não venha atrás de nós. — Ouvi o homem ruivo dizer, enquanto o moreno se virava para a porta. Pude ver meu irmão me encarar com olhos assustados e douradas, mas a imagem não me atingiu muito.
Logo, minha mente foi tomada por uma escuridão terrível, e um temor sem tamanho tomou conta das minhas emoções. Meus lábios pareciam derreter após o beijo, e a imagem do meu quarto se tornou escura e sem brilho definido. Encarei o ruivo novamente, e no lugar de sua face bruta, vi uma caveira em decomposição, a pele branca e caída, com buracos que mostravam o osso em vários lugares, e vermes que se debatiam em orifícios amarelados. A única coisa que permanecia eram aqueles ouros castanhos e terríveis.
— Isso vai passar. — Ele me disse, e deu me as costas, enquanto um desesperou tomou conta de mim. Tentei gritar, mas as palavras não saíram de minha boca, eu estava sem ar, e sem forças.
“Blaine. Blaine está sendo levado.” Tentei pensar, e quando procurei por meu irmão na cena, vi outra caveira, com os cabelos prateados ralos, e um dos olhos dourados caindo de sua órbita.
Foi a última coisa que eu vi quando eles saíram, fechando a porta.
E então, do chão, uma centena de corpos em decomposição se ergueram, silenciosos como a morte, e me enchendo de um medo irracional. Eles se aproximaram de mim, me encarando com olhos vazios e mortos, me cercando de escuridão e morte por todos os lados.
Assim minha mente quebrou, no medo mais selvagem que eu já sentira em minha existência.
Notas finais
Deixem suas opiniões, receitas de bolo, novidades, homenagens a Margaret Thatcher, tudo!
Grandes beijos,e até (possivelmente) semana que vem!
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