As Tragicomédias da Vida Privada
4 A Tatuagem
Madu chora em sua chama. Era como se tivesse sendo devorada por um monstro aos poucos, dolorosamente. O monstro era uma tribal que em seu desenho grafava o nome Berto. Madu chorava e chorava. Berto, era seu ex-namorado, com quem achou que passaria a vida toda, se tornaria uma velha caquética com o nome do amado que em tal altura da vida, já estaria nas nádegas, mas não.
Madu era pisciana, e como todo bom entendedor dos astros sabe: piscianos são intensos, quando se envolvem, vão até o fim, sem medir as consequências, pobre Madu, tão descolada, tinha até mechas coloridas no cabelo.
Chorou durante dez dias: três foi lamentando o fim do namoro, dois lamentando a tatuagem, quatro foi tentando saber onde errou, e o último foi tendo ódio mortal do namorado, que ironicamente era o tatuador responsável por aquela idiotice grafada em agulha e tinta rena.
Mas o pior, parece que os tatuadores tem um certo pudor e ética em desenhar por cima do trabalho de outro, ainda mais quando esse é um mestre para os tais. Madu não conseguia achar quem apagasse aquela marca infame que ia desde seu ombro esquerdo até o fim de sua coluna vertebral, quase que invadindo sua poupança.
Madu agora não mais chorava, quebrava coisas, quebrava vasos, rasgava os poemas que escrevera para Breno, enfim, mesmo tendo vinte e oito anos, agia como uma adolescente frustrada.
Até que então encontrou um tatuador, que assim como dizia sua amiga Bete (essa que tatuara o nome de cada namorado em sua virilha, e o apagara com uma facilidade como se fosse feita a lápis grafite), esse não tinha esses pudores, pois bem, lá foi Madu.
O tatuador era alto, e vivia com seus bi, tri, quadríceps a mostra. Se há uma mulher no mundo que não se venda por um bíceps bem esculpido, fale agora, ou cale-se para sempre...
Madu então reparava no tatuador, enquanto ele lhe dava inúmeras sugestões do que poderia tatuar por cima da tatuagem, mas Madu só tinha olhos para os gomos de sua barriga e sua barba por fazer.
O tal tatuador também percebeu que a moça era extremamente interessante, e então jogou todo seu charme.
Em duas horas Madu saía do consultório. Descabelada e com os olhos brilhando, agora não era mais o nome Breno que estava em suas costas... Era o nome Marcio, o tal tatuador seu novo amor pra toda vida.
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